Capítulo 37. Compreender a Nossa Verdadeira Natureza
Para alcançar o objectivo da criação, é necessário sentirmos uma "fome", sem a qual não podemos saborear toda a profundidade dos prazeres enviados pelo Criador, nem podemos proporcionar satisfação ao Mais Elevado. Por isso, é fundamental corrigir o egoísmo. Tal correcção permitir-nos-ia experienciar o prazer em benefício do Criador.
Nos momentos de medo, devemos compreender a razão pela qual o Criador nos envia esses sentimentos. Não existe força ou poder que governe o mundo para além do Criador; não há inimigos nem forças obscuras. É o próprio Criador quem forma em nós essa sensação, para que pensemos sobre o motivo de a termos sentido tão subitamente.
Então, como resultado da nossa busca, seremos capazes, mediante um esforço de fé, de afirmar que é o próprio Criador quem no-lo envia. Se, após todos os nossos esforços, o medo não diminuir, devemos interpretá-lo como um exemplo do nível em que devemos experienciar o temor perante a grandeza e o poder do Criador. Na mesma medida em que os nossos corpos estremecem perante uma origem imaginária de medo neste mundo, assim devemos estremecer perante o temor do Criador.
Como podemos determinar com precisão em que estado espiritual nos encontramos? Quando nos sentimos confiantes e felizes, geralmente resulta de termos fé nas nossas próprias forças, não sentindo necessidade do Criador. Esse estado implica que, na realidade, estamos completamente sepultados nas profundezas do nosso próprio egoísmo e afastados do Criador.
Por outro lado, quando nos sentimos completamente perdidos e sem ajuda, experienciamos então uma necessidade aguda do apoio do Criador. Nesse momento, entramos num estado muito melhor em relação ao nosso próprio bem-estar.
Se, após termos feito esforço, realizamos um acto que parece "bom" e, consequentemente, sentimos satisfação connosco próprios, caímos imediatamente reféns do nosso próprio egoísmo. Não nos damos conta de que foi o Criador quem nos deu a possibilidade de realizar um acto de bondade; assim, ao sentirmo-nos bem connosco próprios, apenas aumentamos o nosso egoísmo.
Se, dia após dia, fazemos esforço nos nossos estudos e tentamos regressar em pensamento ao objectivo da criação, e ainda assim sentimos que não compreendemos nada, nem nos corrigimos em nível algum, e se no nosso coração censuramos o Criador pelo estado em que nos encontramos, então afastamo-nos ainda mais da verdade.
Assim que tentamos passar ao altruísmo, o nosso corpo e a nossa razão levantam-se imediatamente contra tais pensamentos, e de todas as formas tentam afastar-nos desse caminho. Surgem centenas de pensamentos, desculpas e tarefas urgentes, pois o altruísmo — isto é, tudo o que não está ligado a algum benefício para o corpo — nos é odioso. O nosso intelecto não consegue suportar tais aspirações nem por um momento, e elas são imediatamente suprimidas.
Por isso, os pensamentos sobre anular o egoísmo parecem muito difíceis e fora do alcance humano. Se, porém, não forem percebidos como tal, isso indica que, em algum lugar profundo neles, se oculta algum benefício para o corpo, o qual nos permite pensar e agir de certa maneira, enganando-nos ao fazer-nos acreditar que os nossos pensamentos e actos são altruístas.
Assim, o melhor teste para determinar se um dado pensamento ou ação provém de uma preocupação pelo eu ou do altruísmo é: o coração e a razão permitem que esse pensamento se sustente de algum modo, ou que faça um leve movimento baseado nele? Se encontrarmos concordância, trata-se de auto-engano, não de verdadeiro altruísmo.
No momento em que nos concentramos em pensamentos não dizem respeito às necessidades corpóreas, surgem imediatamente perguntas como: "Para que preciso disto?" e "Quem beneficia com isso?". Nessas situações, embora sintamos que as barreiras vêm do corpo (o nosso desejo de receber prazer), o mais importante que devemos descobrir é que, em última análise, não é o corpo que coloca essas perguntas e nos proíbe de nos envolvermos em algo para além dos limites dos seus interesses.
Esta é a ação do próprio Criador. É Ele quem forma em nós esses pensamentos e desejos, e não nos permite desprender-nos dos desejos do corpo; e Não Há Nada Além d’Ele.
Tal como Ele nos atrai para Si, assim Ele próprio coloca obstáculos no caminho até Ele, para que aprendamos a compreender a nossa própria natureza e sejamos capazes de reagir a cada pensamento e desejo durante as nossas tentativas de nos libertarmos deles.
Sem dúvida, tais estados só podem ocorrer entre aqueles que se esforçam por alcançar qualidades divinas e por "irromper" no mundo espiritual — a esses o Criador envia vários obstáculos, sentidos como pensamentos e desejos do corpo que os afastam da espiritualidade.
Tudo isto é feito para que descubramos o nosso verdadeiro estado espiritual e a nossa relação com o Criador. Para vermos quanto justificamos os actos do Criador apesar das objeções da razão, quanto odiamos o Criador, que nos tira todos os prazeres das nossas vidas — outrora cheias de maravilha e Luz — e depois nos lança no abismo do desespero, porque o corpo já não consegue encontrar nem uma grama de prazer nas condições altruístas.
Parece-nos que é o corpo que se opõe, e não o próprio Criador que actua sobre os nossos sentimentos e razão, dando-nos pensamentos e emoções recebidos positiva ou negativamente. É o próprio Criador quem forma respostas específicas do coração e do intelecto, para nos ensinar e nos dar a conhecer a nós próprios.
Uma mãe que ensina o seu bebé mostra-lhe algo, deixa-o prová-lo e imediatamente lho explica. Do mesmo modo, o Criador mostra-nos e explica-nos a nossa verdadeira atitude perante a espiritualidade e a nossa incapacidade de agir de forma independente.
O aspecto mais difícil da ascensão espiritual é o facto de existirem em nós duas opiniões, duas forças, dois objectivos, dois desejos, que constantemente colidem. Mesmo em relação ao objectivo da criação: por um lado, devemos alcançar a unidade nas nossas qualidades com o Criador; por outro, deveríamos gerar um único desejo de nos separarmos de tudo em benefício do Criador.
Mas o Criador é absolutamente altruísta e não necessita de nada, desejando apenas que experienciemos prazer absoluto. Esse é o Seu objectivo na criação. Contudo, estes objectivos parecem contraditórios: primeiro, devemos renunciar a tudo pelo Criador, ao mesmo tempo que somos gratificados e alcançamos o prazer supremo.
A resposta a esta aparente contradição é que um deles não é um objectivo, mas um meio para alcançar o objectivo. Primeiro, devemos alcançar a condição em que todos os pensamentos, desejos e acções se situem fora dos limites do egoísmo, quando forem finalmente altruístas, unicamente "em benefício do Criador". Mas, como no universo nada existe para além do homem e do Criador, tudo o que cai fora dos limites dos nossos cinco sentidos (corpo) é automaticamente do Criador.
Uma vez alcançada a correcção da criação — ou seja, a congruência das nossas qualidades pessoais com as qualidades do Criador —, começamos então a compreender o objectivo da criação: receber do Criador o prazer ilimitado, não limitado pelos limites do egoísmo.
Antes da correcção, possuímos apenas o desejo de gratificação egoísta. À medida que progredimos na correcção de nós próprios, começamos a preferir o desejo de dar tudo ao desejo de receber prazer para nosso próprio benefício.
Contudo, nesta etapa, ainda somos incapazes de receber prazer do Criador.
Apenas ao completar o processo de auto-correcção podemos começar a receber prazer ilimitado, não em prol do nosso próprio egoísmo, mas em prol do objectivo da criação.
A gratificação que recebemos não em benefício do nosso próprio egoísmo não gera sentimentos de vergonha, porque ao receber, ao apreender e ao perceber o Criador, ficamos felizes pelo prazer que Ele recebe. Assim, quanto mais recebemos do Criador e nos alegramos com Ele, mais felizes ficamos por o Criador experienciar prazer como resultado.
Podemos estabelecer uma analogia entre luz e escuridão no nosso mundo, referindo-nos às percepções da Luz espiritual e da escuridão (dia e noite). Trata-se do sentimento de presença ou ausência do Criador, da presença ou ausência da supervisão do Criador; ou seja, da "presença ou ausência do Criador" dentro de nós próprios.
Ou seja, se pedíssemos algo ao Criador e o recebêssemos imediatamente, isso seria designado como luz, ou dia. Mas se somos atormentados por dúvidas sobre a existência do Criador e sobre a Sua governação do universo, essa situação chama-se "escuridão", ou "noite".
Para o expressar melhor, a ocultação do Criador é conhecida como "escuridão", pois desperta na pessoa dúvidas e pensamentos incorrectos, que são sentidos por ela como a escuridão da noite.
O nosso verdadeiro objectivo não deve ser perceber o Criador e apreender as Suas acções, pois isso, em si, é um desejo puramente egoísta. O ser humano não conseguiria suportar o enorme prazer resultante das percepções atingidas e regressaria ao estado egoísta.
O objectivo real deve ser o desejo de receber do Criador a força para prosseguir contra os anseios do corpo e do intelecto, ou seja, alcançar uma fé maior que o intelecto humano e os desejos corpóreos. Tendo apreendido e percebido o Criador e o Seu domínio absoluto benevolente, bem como o Seu poder em toda a criação, deveríamos escolher não ver o Criador em toda a Sua glória, porque isso minaria a nossa fé.
Pelo contrário, deveríamos prosseguir em virtude da nossa fé e contra os desejos do corpo e do intelecto humano. Tudo o que podemos desejar é a força para cacreditar n’Ele e no Seu domínio do universo. A posse de tal crença é conhecida como "luz", ou "dia", pois podemos começar a receber prazer sem medo, livres dos desejos do corpo, e não escravizados pelos nossos corpos e pela nossa razão.
Quando alcançamos esta nova natureza — ou seja, quando somos capazes de realizar actos independentemente dos desejos corpóreos —, o Criador concede-nos prazeres da Sua Luz. Se a escuridão desce sobre nós e não sentimos qualquer alegria no trabalho de alcançar o espiritual, nem a capacidade de sentir uma relação especial com o Criador, nem temor e amor por Ele, então temos apenas uma alternativa: o choro da alma.
Devemos orar ao Criador para que tenha piedade de nós e remova a nuvem negra que escurece todos os nossos sentimentos e pensamentos, ocultando o Criador dos nossos corações e olhos. Isto porque o choro da alma é a oração mais poderosa.
Quando nada pode ajudar, quando estamos convictos de que todos os nossos esforços, conhecimentos, experiências, actos físicos e empreendimentos são insuficientes para nos fazer entrar no Reino Espiritual Superior; quando com todo o nosso ser sentimos que esgotámos todas as possibilidades e todos os poderes, só então percebemos que apenas o Criador pode ajudar; só então alcançamos o clamor ao Criador e a orar-Lhe pela redenção pessoal.
Mas antes desse momento, nenhuma dificuldade externa nos induzirá a clamar ao Criador de forma genuína e do fundo do coração. Apenas quando sentimos que todas as opções à nossa frente já estão fechadas é que se abrem as "portas das lágrimas", para que possamos entrar no Mundo Superior, a morada do Criador.
Por isso, após termos testado todas as possibilidades de alcançara ascensão espiritual por nós próprios, um estado de escuridão absoluta descerá sobre nós. Não há senão uma saída — apenas o Criador pode ajudar-nos. Contudo, ainda na quebra do "eu" egoísta, quando ainda não alcançamos a percepção de que existe uma Força que nos guia e dirige, quando ainda não fomos curados por esta verdade nem apreendemos o estado, os nossos corpos ainda não nos permitirão clamar ao Criador.
E por isso somos obrigados a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, e não esperar por um milagre do Alto. Não porque o Criador não deseje ter piedade de nós e aguarde um "ponto de ruptura".
Quando experienciamos todas as nossas opções, ganhamos experiência, compreensão e percepção da nossa própria natureza. Os sentimentos por que passámos são necessários, porque é neles que recebemos, e é com eles que sentimos, a revelação da luz do Criador e do Intelecto Superior.