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Capítulo 33. Receber para Doar

Uma forma correta (eficaz) de nos dirigirmos ao Criador compõe-se de duas etapas. Primeiro, é preciso compreender que o Criador é absolutamente bondoso para com todos os seres, sem exceção, e que todas as Suas ações são benevolentes, independentemente de quão desagradáveis possam parecer.
Por isso, o Criador envia-nos apenas aquilo que é melhor para nós e preenche-nos com tudo o que nos é mais necessário.
Assim, nada temos a pedir ao Criador. Devemos contentar-nos com o que recebemos do Criador, independentemente do estado em que nos encontremos. Devemos também agradecer ao Criador e glorificá-Lo: nada pode ser acrescentado ao nosso estado pessoal, pois devemos estar satisfeitos com a nossa sorte.
Devemos sempre, em primeiro lugar, agradecer ao Criador por tudo o que recebemos no passado. Só depois podemos pedir para o futuro. Mas se sentirmos falta de algo na vida, afastamo-nos do Criador na mesma medida em que percebemos essa carência. Isto acontece porque o Criador é absolutamente perfeito, ao passo que nós podemos ver-nos como infelizes.
Assim, quando começamos a sentir que aquilo que temos é o melhor que poderíamos ter — pois é exatamente o estado que o Criador nos enviou —, aproximamo-nos do Criador e podemos pedir algo para o futuro.
O estado de "estar satisfeito com a própria sorte" pode surgir em nós simplesmente pela compreensão de que as circunstâncias da nossa vida não são consequência das nossas próprias ações, mas são enviadas pelo Criador. Este estado pode também surgir porque compreendemos que estamos a ler um livro que fala do Criador, da imortalidade, do objetivo supremo na vida, do propósito benevolente da criação.
Também está relacionado com o método de pedir ao Criador que altere as nossas vidas, bem como da compreensão de que milhões de outras pessoas neste mundo não recebem a oportunidade de experienciar tudo isto. Assim, aqueles que desejam perceber o Criador, mas ainda não foram recompensados com esse objetivo, devem contentar-se com a sua condição porque ela vem do Criador.
Uma vez que estas pessoas ainda têm desejos não satisfeitos (apesar de estarem contentes com o que o Criador decidiu dar-lhes e, por isso, estarem próximas Dele), tornam-se dignas de receber a Luz do Criador, a qual lhes trará pleno conhecimento, compreensão e prazer.
Para nos separarmos espiritualmente do egoísmo, devemos chegar à compreensão da nossa própria insignificância, da inferioridade dos nossos interesses, aspirações e prazeres; devemos também ter consciência de até que ponto estamos dispostos a fazer tudo apenas pelo nosso sucesso pessoal e, em todos os nossos pensamentos, como procuramos apenas o ganho pessoal.
O que é importante quando sentimos a nossa inferioridade é reconhecer a verdade: que o benefício pessoal é mais importante para nós do que o Criador e que, se não vemos qualquer benefício pessoal nas nossas ações, não conseguimos realizá-las, nem em pensamento nem em ato.
O Criador recebe prazer ao dar-nos prazer. Se nos deleitarmos com o facto de isso dar ao Criador a possibilidade de nos deleitar, então tanto nós como o Criador coincidimos em qualidades e em desejos, pois cada um está feliz com o processo de dar: o Criador dá prazer e nós criamos as condições para o receber. Cada um pensa no outro, mas não em si próprio, e isto é o que define as suas ações.
Mas, como os seres humanos nascem egoístas, somos incapazes de pensar nos outros, mas apenas em nós próprios. Só conseguimos dar na situação em que vemos um benefício imediato superior ao benefício que estamos a dar (como no processo de comércio ou regateio). Quanto a esta qualidade, o ser humano está completamente distante do Criador e não O percebe.
Esta separação última do ser humano em relação ao Criador — a origem de todos os prazeres — é causada pelo nosso egoísmo e é a origem de todo o nosso sofrimento. A compreensão disto é conhecida como “o reconhecimento do mal”, porque, para que sejamos repelidos do egoísmo por ódio a ele, devemos senti-lo e reconhecê-lo plenamente como todo o nosso mal, o inimigo mais mortal, que se interpõe no caminho da nossa capacidade de alcançar a perfeição, o prazer e a imortalidade.
Assim, em todas as nossas ações — seja o estudo da Cabala ou a observância dos mandamentos —, devemos ter como objetivo a saída do egoísmo e o avanço em direção ao Criador pela equivalência de qualidades. Só então poderemos receber dos atos altruístas o mesmo prazer que recebíamos do nosso egoísmo.
Se, com ajuda do Alto, começarmos a receber prazer de atos altruístas e nisso encontrarmos felicidade e a nossa maior recompensa, este estado é conhecido como "doar com a intenção de doar" sem qualquer recompensa esperada. A nossa gratificação vem apenas da capacidade de fazer algo pelo Criador.
Uma vez alcançado esse nível espiritual e desejando dar algo ao Criador, torna-se evidente para nós que o Criador deseja apenas uma coisa: dar-nos prazer. Então, estamos prontos para receber prazer porque tal é a Vontade do Criador. Ações desta natureza são conhecidas como "receber a intenção de doar".
Nos estados espirituais, o intelecto (razão, sabedoria) corresponde à Luz de Sabedoria (Ohr Hochma). O coração, os desejos e os sentimentos correspondem à Luz de Misericórdia (Ohr Hassadim). Só quando os nossos corações estão prontos para ouvir é que a razão os pode afetar. A Ohr Hochma só pode iluminar no lugar onde a Ohr Hassadim já está presente. Se a Ohr Hassadim não estiver presente, então a Ohr Hochma não ilumina. Tal estado é conhecido como “escuridão” ou “noite”.
Mas no nosso mundo, ou seja, num indivíduo que ainda permanece escravizado pelo egoísmo, a razão nunca pode dominar o coração, pois o coração é a origem de todos os desejos. Só ele é o único senhor do indivíduo, ao passo que a razão não tem poder para contrariar os desejos do coração.
Por exemplo, a pessoa que deseja roubar pede conselho à razão para determinar como o executar. Assim, a razão torna-se o executor dos desejos do coração. Por outro lado, se a pessoa decide praticar uma boa ação, mais uma vez a razão ajuda, tal como todas as outras partes do corpo. Por conseguinte, não há outra solução senão purificar o coração dos desejos egoístas.
O Criador mostra intencionalmente à pessoa que o Seu desejo é que essa pessoa receba prazer, para lhe oferecer a possibilidade de se libertar da vergonha de receber. Forma-se uma forte impressão de que, ao receber prazeres "pelo Benefício do Criador", deleitamos verdadeiramente o Criador; ou seja, a pessoa deleita o Criador, em vez de receber prazer Dele.
Há três tipos de trabalho realizado por uma pessoa na Cabala e nos mandamentos. Em cada tipo existem aspirações boas e más:
1. Estuda pelo Seu próprio Benefício, como para se tornar famoso, de modo que outros que não o Criador lhe prestem honras e dinheiro pelos seus esforços. Por esta razão, envolve-se publicamente no estudo da Cabala a fim de receber uma recompensa.
2. Estuda pelo Benefício do Criador para obter recompensa do Criador neste mundo e no mundo vindouro. Neste caso, para que as pessoas não vejam o seu trabalho, todos os estudos são feitos em privado, evitando receber recompensa pelos esforços. A única recompensa procurada é do Criador. Tal estudante teria receio que recompensas de outrem se tornassem uma distração da intenção de ser recompensado apenas pelo Criador.
Estas intenções de quem realiza trabalho espiritual são conhecidas como "pelo benefício do Criador", porque trabalha para o Criador e cumpre os mandamentos do Criador, com a intenção de receber a recompensa apenas Dele. Isto é semelhante ao primeiro caso, em que a pessoa trabalhava para as pessoas, cumpria as expectativas delas realizando o trabalho e depois exigia uma recompensa pelas tarefas executadas.
Em ambos os casos, o denominador comum é a expectativa e o desejo de uma recompensa pelo trabalho realizado. No primeiro caso, trabalhava para as pessoas e esperava recompensa pelo trabalho feito. No segundo, trabalhava para o Criador e esperava recompensa Dele.
3. Após as duas primeiras etapas, a pessoa percebe o nível de escravatura ao ego. O corpo (desejo de receber) começa então a inquirir: "Que tipo de trabalho é este? Onde está a recompensa por ele?" Mas não recebe resposta a esta pergunta.
Na primeira etapa, o egoísmo não coloca quaisquer questões porque vê a recompensa pelo trabalho feito nas reações dos outros. Na segunda etapa, o indivíduo pode responder ao egoísmo afirmando que deseja uma recompensa maior do que a que pode receber de outras pessoas, ou seja, deseja prazeres espirituais eternos tanto neste como no outro mundo.
Mas na terceira etapa, quando o Criador quer beneficiar a pessoa, esta começa a perceber o nível da sua escravatura ao egoísmo e não consegue responder ao corpo. E o facto de o Criador querer apenas dar leva-a a desejar fazer o mesmo, e isto será a recompensa pelas suas ações.
Uma "recompensa" refere-se ao benefício que as pessoas desejam receber pelo seu trabalho. Em geral, chamamos-lhe “prazer”, ao passo que por “trabalho” entendemos qualquer esforço intelectual, físico ou moral do corpo. A recompensa pode também vir sob a forma de dinheiro, honras, fama, etc.
Quando sentimos que nos falta qualquer força para resistir ao corpo, que não há energia para realizar nem sequer as tarefas mais leves, porque o corpo não consegue fazer qualquer esforço sem ver alguma recompensa em troca, então não há outra alternativa senão voltar-nos para o Criador à procura ajuda. Devemos orar por algum poder sobrenatural que nos permita trabalhar contra a nossa natureza e razão.
Assim, o problema mais importante é acreditar no facto de que o Criador é capaz de ajudar apesar das leis naturais em contrário, e que Ele aguarda tais pedidos. Contudo, esta decisão só pode ser alcançada após se estar completamente desiludido com as próprias capacidades.
O Criador deseja que cada pessoa escolha o que é correto e se afaste do que é errado.
Caso contrário, o Criador teria criado o ser humano com as Suas próprias qualidades ou, uma vez criado o egoísmo, Ele próprio o teria transformado em altruísmo sem o processo de amargo exílio do estado de Perfeição Superior.