Capítulo 36. O Trabalho em Três Linhas
Na linha esquerda, que provoca sofrimento em resultado da ausência do desejado, desperta-se a necessidade da ajuda do Criador, a qual chega sob a forma de luz da alma. Na linha direita, num estado em que a pessoa nada deseja para si própria, existe apenas a Luz da Misericórdia (Ohr Hassadim), a alegria proveniente da semelhança nas qualidades espirituais.
Mas este estado não é perfeito, pois falta-lhe o conhecimento e a compreensão do sentido interior. Na linha esquerda não há perfeição, porque a Luz da Sabedoria só pode iluminar se existir congruência de qualidades entre a Luz recebida e o vaso da Luz.
A congruência resulta na Ohr Hassadim, que se encontra na linha da direita. Os ganhos espirituais só podem ser obtidos mediante o desejo. Mas a linha da direita não tem desejo por coisa alguma. Todos os desejos concentram-se na linha da esquerda. Contudo, o desejado não pode ser recebido nos desejos egoístas.
Assim, é necessário unir estas duas qualidades, de modo a que a Luz do conhecimento e do prazer da linha esquerda possa entrar na Luz das qualidades altruístas da linha direita, e a Luz da linha do meio ilumine a criatura. Sem a Luz da linha da direita, a Luz da esquerda não se revela e é percebida apenas como trevas.
Mesmo quando ainda estamos escravizados pelo nosso próprio egoísmo, o trabalho nas linhas direita e esquerda ainda ocorre. No entanto, ainda não controlamos os nossos desejos. Pelo contrário, os desejos ditam os nossos pensamentos e acções, e impedem-nos de ser preenchidos com a Luz da equivalência com o Criador (Ohr Hassadim) e a Luz da compreensão última (Ohr Hochma).
Somos apenas capazes de pronunciar os nomes dos mundos, das sefirot e dos kelim. Num tal estado, é especialmente eficaz estudar a estrutura dos mundos espirituais e os seus efeitos, ou seja, a Cabala, para nos ajudar a desenvolver o desejo de nos aproximarmos do Criador. Neste processo, começamos a desejar assemelhar-nos aos objectos que são estudados e, consequentemente, atraímos sobre nós graça dos mundos superiores, embora não percamos este processo, devido à falta de sentidos espirituais.
Mas as forças espirituais só nos afectam se estudarmos com o propósito de nos aproximarmos (em qualidades) do espiritual. Só neste caso atraímos sobre nós o efeito purificador da Luz circundante. Pode observar-se em numerosos casos que, sem a orientação adequada, podemos conhecer o que está contido nos livros de Cabala e até participar em discussões “significativas” sobre o tema.
Contudo, podemos nunca captar verdadeiramente a essência emocional do que aprendemos. Mas aqueles que alcançam níveis espirituais pelo seu próprio trabalho, mesmo o mais insignificante, já existem na Klipa [casca] do nosso mundo e dedicam-se à tarefa para a qual desceram a este mundo.
Por outro lado, o conhecimento e a memória dos “inteligentes” muitas vezes aumentam o seu egoísmo e dúvidas, afastando-os ainda mais do seu objectivo.
Isto porque a Luz derivada do estudo da Cabala pode ser um remédio que salva a vida (sam hachaim), ou um veneno mortal (sam hamavet).
Os principiantes não conseguem discernir entre aqueles que alcançaram verdadeiramente a espiritualidade (cabalistas) e aqueles que estudam a Cabala enquanto mera ciência social. Para os principiantes, o trabalho nas três linhas concentra-se na análise dos seus próprios estados, em vez de na obtenção da Luz Superior, foco daqueles que já alcançaram espiritualmente.
Na linha da direita, também conhecida como o estado de “doar”, hesed, ou fé acima da razão, alegramo-nos com a sorte que nos foi dada, com o nosso destino e com o que o Criador nos concedeu, pois consideramo-lo a nossa maior dádiva. Isto independentemente do facto de cumprirmos os mandamentos do Criador sem compreender o seu sentido interior, mas sim com base na nossa educação ou na aceitação de certas obrigações e auto-educação.
Mas este estado ainda não é considerado como linha da direita, porque a linha da esquerda está ausente. Só quando surge o estado oposto podemos falar de uma ou outra das linhas. Assim, só depois de estarmos inclinados a uma avaliação crítica de nós próprios, só depois de avaliarmos as nossas próprias conquistas, só depois de determinarmos os verdadeiros objetivos das nossas vidas, só quando criticamente avaliamos os resultados dos nossos esforços, só então obteremos a linha da esquerda.
O que aqui é importante é o objectivo da criação. Determinamos que, em essência, o nosso objectivo é receber prazer do Criador. Ao mesmo tempo, sentimos que nunca experienciamos isso nem uma vez.
No decurso dos nossos estudos, aprendemos que isto só pode ocorrer quando existe equivalência de qualidades entre nós e o Criador. Assim, somos obrigados a examinar os nossos próprios desejos e aspirações, a julgá-los com a maior objectividade possível, a controlar e analisar tudo, com o objetivo de determinar se verdadeiramente nos movemos no sentido de renunciar ao egoísmo e adquirir amor pelos outros.
Se, enquanto estudantes, vemos que permanecemos no estado de desejos egoístas e não progredimos para uma condição melhor, muitas vezes sentimos desespero e apatia. Além disso, por vezes descobrimos que não só permanecemos entre os nossos desejos egoístas, como verificamos que estes aumentaram desde que adquirimos desejos de prazer que outrora considerávamos baixos, mesquinhos, efémeros e indignos.
É claro que neste estado se torna difícil continuar a cumprir os mandamentos e a estudar com a alegria anterior; antes, caímos no desespero e na desilusão, e lamentamos o tempo perdido, bem como os esforços feitos e as privações sofridas. Assim, rebelamo-nos contra o objectivo da criação.
Este estado é conhecido como “a linha da esquerda”, porque necessita de correcção. Percebemos agora o nosso próprio vazio e devemos voltar à linha da direita, aos sentimentos de plenitude, satisfação e felicidade completa com a nossa sorte. Anteriormente, não se considerava que estávamos na linha da direita porque ainda estávamos numa só linha, simplesmente porque não existia a segunda linha e, portanto, não havia auto-crítica.
Mas se, após uma percepção genuína da imperfeição pessoal na segunda linha, voltarmos à primeira linha, isto é, ao sentimento de perfeição (contra o nosso estado e sentimentos reais), então somos considerados como actuando ao longo das duas linhas, não simplesmente a primeira e a segunda, mas ao longo de duas linhas opostas – a direita e a esquerda.
Todo o caminho de renúncia ao egoísmo e de afastamento dos limites estreitos dos interesses pessoais é construído com base na linha da direita. Diz-se que devemos afastar-nos dos interesses “próprios”, que são os desejos efémeros, mesquinhos e constantemente mutáveis dos nossos corpos. Estes foram-nos dados do Alto não para os aceitarmos como objectivo de vida, mas para os renunciarmos em prol de alcançar percepções eternas, supremas e absolutas de prazer espiritual, e nos unirmos ao Supremo último que existe no universo, ou seja, ao Criador.
Mas afastar-nos dos pensamentos e desejos pessoais é impossível, pois nada percebemos senão a nós próprios. Uma coisa na nossa condição podemos acreditar: a existência do Criador, o Seu domínio completo, o objectivo da Sua criação, a necessidade de alcançar esse objectivo apesar das queixas dos nossos corpos.
A fé naquilo que não é percebido – a fé em algo acima da nossa compreensão – é conhecida como “fé acima da razão”.
Precisamente após a linha da esquerda chega o momento de passarmos a tal percepção da realidade como acima explicada.
Alegramo-nos por termos merecido cumprir a Vontade do Criador, apesar de, em resultado dos nossos desejos egoístas, não termos obtido prazer ou deleite algum disso. Contudo, apesar destes sentimentos, acreditamos que recebemos uma dádiva especial do Criador.
Assim, mesmo que nos encontremos num tal estado, somos capazes de cumprir a Vontade do Criador precisamente desta maneira; e não como a maioria das pessoas, que o fazem ou para receber prazer, ou em resultado da sua educação e formação, sem sequer terem consciência dos seus actos mecânicos.
Percebemos também que estamos a agir contra os nossos corpos, ou seja, que interiormente estamos do lado do Criador e não do lado do corpo. Acreditamos que tudo emana do Alto, do Criador, através de uma ligação especial connosco. Por isso valorizamos tal dádiva do Criador e dele extraímos inspiração, como se tivéssemos sido recompensados com a mais elevada percepção espiritual.
Só neste caso a primeira linha é conhecida como linha da direita, como perfeição, pois a alegria chega-nos não do nosso próprio estado, mas da relação do Criador connosco que nos permitiu agir fora dos limites dos desejos egoístas egoístas. Num tal estado, embora possamos ainda estar escravizados pelo egoísmo, podemos receber iluminação espiritual do Alto.
Embora a Iluminação Superior ainda não tenha entrado em nós, porque a Luz não pode penetrar desejos egoístas, esta Luz rodeia-nos contudo (ohr makif) e une-nos ao espiritual. Ajuda-nos também a compreender que mesmo a mais mínima ligação com o Criador já é uma grande recompensa e prazer. Quanto à percepção da Luz, devemos dizer a nós próprios que não está ao nosso alcance avaliar o verdadeiro valor da Luz.
A linha da direita é também chamada “a verdade”, porque podemos compreender claramente que ainda não alcançamos o nível espiritual e não nos enganamos a nós próprios. Pelo contrário, dizemos que aquilo que recebemos vem do Criador, mesmo as nossas condições mais amargas. Assim, a fé acima da razão é muito valiosa, porque existe contacto com o Criador.
Vemos, pois, que a linha da direita se constrói sobre a percepção clara da ausência de percepção espiritual e sobre o sentimento amargo da nossa própria insignificância. Isto é seguido pela nossa saída dos cálculos egoístas em direcção a acções baseadas no princípio: “não o que eu ganho com isso, mas o que o Criador deseja.”
Se compreendermos que somos objecto de uma atenção especial do Criador, e que possuímos uma relação especial com a Cabala e com os mandamentos, enquanto a maioria dos outros se ocupa com cálculos mesquinhos relacionados com as preocupações mundanas da vida, então as nossas considerações são razoáveis.
Contudo, estas considerações são produtos do intelecto. Não estão acima da razão. Devemos, porém, dizer a nós próprios que, embora estejamos felizes no estado presente, devemos proceder pela fé acima da razão, para que o nosso deleite se construa sobre a nossa fé.
A linha da esquerda, por outro lado, constrói-se sobre a verificação da natureza genuína do nosso amor pelos outros seres humanos; sobre determinar se somos capazes de ações altruístas e de actos desinteressados. Constrói-se também sobre a verificação de se verdadeiramente não desejamos receber qualquer recompensa pelos nossos esforços.
Se, após tais cálculos, verificarmos que somos incapazes de renunciar aos nossos interesses mesmo num pequeno nível, então não nos resta outra escolha senão implorar ao Criador a redenção. Por essa razão, a linha da esquerda leva-nos ao Criador.
A linha da direita dá-nos a possibilidade de agradecer ao Criador pelo sentimento da Sua perfeição. Mas não nos dá a percepção do Seu verdadeiro estado – o estado caracterizado pela ignorância absoluta e pela completa ausência de ligação ao espiritual. Assim, não nos leva à oração, e sem oração é impossível compreender a luz da Cabala.
Na linha da esquerda, porém, tentamos superar o nosso verdadeiro estado pela nossa própria força de vontade, e assim alcançamos a perceção de que não possuímos do Alto, pois vemos que só forças sobrenaturais nos podem ajudar. Só através da linha da esquerda podemos alcançar o objectivo desejado.
Mas é importante compreender que as duas linhas devem estar equilibradas, de modo que cada uma seja utilizada em igual medida. Só então surgirá uma linha do meio, combinando a linha direita e a esquerda numa única linha.
Se uma linha for maior do que a outra, impedirá a adesão das duas, pois essa linha vai perceber-se como mais benéfica numa dada situação. Assim, as duas linhas devem ser absolutamente iguais.
O benefício desta difícil tarefa de aumentar as duas linhas em igual medida reside nisto: sobre a sua fundação, a pessoa recebe a linha do meio, a Luz Superior, que se revela e é percebida precisamente sobre as experiências das duas linhas.
A direita dá perfeição porque acreditamos na perfeição do Criador. Uma vez que o Criador governa o mundo, só Ele e ninguém mais, então, se o egoísmo não for levado em conta, a pessoa está em perfeição.
A linha da esquerda dá uma avaliação crítica do nosso estado e o sentimento da nossa imperfeição. É de importância crítica preocuparmo-nos para que a linha esquerda, em circunstância alguma, permaneça maior do que a direita. (Em termos práticos, o indivíduo deve passar 23,5 horas por dia na linha direita, e permitir-se apenas meia hora para activar as deliberações egoístas).
A linha da direita deve ser tão pronunciada que não haja necessidade de quaisquer outros atributos para alcançar o sentimento de felicidade absoluta. Este processo simboliza a saída controlada das deliberações egoístas pessoais. Assim, significa perfeição, pois não requer mais nada para sentir alegria.
Isto acontece porque todas as considerações dizem respeito a tudo o que está fora do corpo – tudo o que está junto com o Criador, e não às necessidades interiores do corpo. A passagem para a linha da esquerda envolve uma transição da linha direita para a esquerda, e vice-versa. Devemos usá-la conscientemente num certo momento fixo e com certas condições pré-estabelecidas, e não apenas de acordo com o nosso humor.
Descobrimos então que não só não progredimos na nossa percepção e compreensão do espiritual, como as nossas vidas diárias normais se tornaram piores do que eram anteriormente. Em vez de avançarmos, retiramo-nos ainda mais para o nosso egoísmo.
Num tal estado, devemos imediatamente passar à oração para corrigir a nossa situação. Sobre isto, está escrito na Torá que a saída do Egipto (egoísmo) ocorreu quando estavam no último, ou seja, no quadragésimo nono estado de desejos impuros. Só quando compreendermos completamente toda a profundidade e o mal do nosso egoísmo e clamarmos por ajuda, é que o Criador nos eleva e nos dá a linha do meio, concedendo-nos do Alto uma alma, luz do Criador. Esta começa a iluminar-nos e dá-nos as forças para passarmos ao altruísmo e para nascermos no mundo espiritual.