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Capítulo 34. Sofrimento Enviado como Bondade Absoluta

O livre-arbítrio consiste na decisão pessoal e independente dos seres humanos de escolher que o Criador reine sobre nós em vez de Faraó. O poder de Faraó consiste em demonstrar-nos as recompensas que podemos receber. Percebemos claramente as recompensas que podem ser obtidas das nossas ações egoístas; compreendemo-las com a razão e vemos-nas com os olhos. O resultado é conhecido desde o início; e é aprovado pela sociedade, pela família, pelos pais e pelos filhos.
Por isso, o corpo pergunta a Faraó: “Quem é o Senhor para que eu Lhe obedeça?” (Êxodo 5, 2), significando: “Que ganho eu com um trabalho destes?”
Estamos, assim, corretos quando vemos que é impossível avançar contra a nossa própria natureza. Mas o avanço em si não é o objetivo último, mas apenas o ato de ter fé na capacidade do Criador de nos mudar.
A Luz do Criador, a Sua revelação a um ser humano, é conhecida como “vida”.
A primeira instância da perceção permanente do Criador é conhecida como “o nascimento espiritual” da pessoa. Mas, tal como no nosso mundo a pessoa possui um desejo natural de viver, também no mundo espiritual se é obrigado a desenvolver em si a mesma aspiração.
Isto é necessário se verdadeiramente se deseja nascer espiritualmente, de acordo com o princípio “o sofrimento pelo prazer determina o prazer que se recebe”. Por isso, devemos estudar Cabala por causa da Cabala; ou seja, para revelar a Luz e o Criador. Se não se alcança este objetivo, sente-se um sofrimento e uma amargura tremendas. Esta condição é conhecida como “uma vida de sofrimento”. No entanto, deve-se continuar a fazer esforço. O facto de não se ter alcançado a revelação do Criador deve incitar essa pessoa a aumentar os esforços até que o Criador Se revele.
Vê-se claramente que é o sofrimento humano que gradualmente dá origem ao desejo real de alcançar a revelação do Criador. Tal sofrimento é conhecido como “o sofrimento de amor”. Este sofrimento é digno da inveja de qualquer um! Quando o vaso estiver suficientemente preenchido com este sofrimento, o Criador revelar-Se-á aos cabalistas, àqueles que adquiriram este desejo.
Muito frequentemente, para concluir um negócio, há necessidade de um intermediário, que possa transmitir ao comprador a mensagem de que certo objeto vale ainda mais do que o preço que lhe é atribuído. Ou seja, o vendedor não está de modo algum a inflacionar o preço.
Todo o método de “receber admoestação” (mussar) baseia-se neste princípio, que tenta convencer o indivíduo a deixar de lado considerações materiais por causa do espiritual. Todos os livros de ‘mussar’ ensinam que todos os prazeres do nosso mundo são efémeros e não têm valor. Por isso, o indivíduo não está realmente a renunciar a algo significativo ao afastar-se dos prazeres espirituais.
O método do Rabbi Baal Shem-Tov é algo diferente. Coloca-se maior ênfase no objeto que está a ser adquirido. Mostra-se ao indivíduo o valor infinito e a grandeza da aquisição espiritual. Admite-se que há certo valor nos prazeres deste mundo, mas é preferível que se recuse a eles, pois os prazeres espirituais são incomparavelmente maiores.
Se um indivíduo pudesse permanecer no egoísmo e, ao mesmo tempo, receber prazeres espirituais juntamente com os materiais, então os desejos desse indivíduo aumentariam constantemente. Como resultado, o indivíduo afastar-se-ia ainda mais do Criador devido a uma disparidade crescente nas qualidades e na sua magnitude. Porque o indivíduo não perceberia o Criador, não haveria sentimentos de vergonha pelo ato de receber prazer.
Só se pode receber prazer do Criador pela virtude de se tornar semelhante a Ele nas qualidades, o que imediatamente será contrariado pelo corpo. Esta resistência será experienciada sob a forma de perguntas que surgirão, tais como:
“Que ganhei eu com este trabalho, mesmo tendo gasto tanto esforço nele?”
“Porque hei de estudar tanto à noite?”
“É verdadeiramente possível alcançar a perceção do espiritual e do Criador ao nível que os cabalistas descrevem?”
“É uma tarefa que pode ser realizada por uma pessoa comum?”
Tudo o que o nosso egoísmo sugere é correto: um ser humano não é capaz de alcançar nem o mais baixo dos níveis espirituais sem ajuda. No entanto, pode ser feito com a ajuda do Criador. O aspeto mais difícil, porém, é ter fé na ajuda do Criador até que ela seja recebida. A ajuda do Criador para contrariar o egoísmo vem como uma revelação da Sua grandeza e poder.
Se a grandeza do Criador fosse revelada a todos no nosso mundo, cada pessoa nada faria senão esforçar-se por agradar ao Criador, mesmo sem qualquer recompensa, porque a oportunidade de O servir seria considerada uma recompensa em si próprio, e ninguém pediria recompensa. Recusariam mesmo qualquer recompensa adicional.
Mas, como a grandeza do Criador está oculta aos nossos olhos e sentidos, não somos capazes de realizar nada pelo Seu Benefício. O corpo (a nossa razão) considera-se mais importante do que o Criador, pois só se sente a si próprio. Assim, argumenta logicamente que, se o corpo é mais importante do que o Criador, então devemos trabalhar para o corpo e para receber recompensas.
Mas não se deve trabalhar se não houver benefício percebido do trabalho realizado. No entanto, no nosso mundo verificamos que só as crianças durante os seus jogos, ou pessoas emocionalmente instáveis, estão prontas a esforçar-se sem a antecipação de recompensa. Em ambos os casos, isto acontece porque as pessoas em ambas as categorias são forçadas a esta linha de ação pela sua natureza: as crianças, pelo seu desenvolvimento; as pessoas emocionalmente instáveis, pela correção das suas almas.
O prazer é o resultado do desejo que o precedeu: apetite, sofrimento, paixão e fome. Uma pessoa que possui tudo é terrivelmente infeliz porque não há mais nada que valha a pena procurar para gratificação. Por isso, pode cair em depressão. Se medíssemos as posses de uma pessoa pela perceção de felicidade, então os pobres seriam os mais ricos, pois até as coisas mais insignificantes lhes agradam.
O Criador não Se revela imediatamente e de uma só vez; isto acontece para que a pessoa desenvolva um desejo completo e correto pela Sua revelação. É precisamente por esta razão que o Criador Se oculta, para que a pessoa desenvolva um sentimento de necessidade urgente do Criador. Quando alguém decide avançar em direção ao Criador, em vez de sentir plenitude com esta escolha e satisfação no processo de realização espiritual, mergulha em circunstâncias cheias de sofrimento.
Isto ocorre especificamente para nos incitar a cultivar a fé na bondade do Criador acima dos nossos próprios sentimentos e pensamentos. Independentemente do sofrimento que subitamente desce sobre nós, devemos superar os nossos pensamentos sobre este sofrimento através de esforço interno e forçar-nos a pensar no objetivo da criação. Devemos também considerar o nosso papel no esquema das coisas, mesmo que nem o intelecto nem o coração estejam inclinados a pensar nestas questões.
Não devemos mentir a nós próprios e dizer que isto não é sofrimento. Mas, ao mesmo tempo, devemos acreditar, apesar dos sentimentos em contrário. Isto requer tentar não perceber o Criador nem a Sua revelação, nem procurar um conhecimento claro dos Seus pensamentos, ações e planos ao enviar-nos o sofrimento. Isto poderia assemelhar-se a um suborno, uma recompensa pela dor suportada.
Mas todas as ações e pensamentos devem ser dirigidos não para o eu nem para dentro do eu; não devem concentrar-se nos sentimentos de sofrimento, nem nos pensamentos de como escapar dele. Em vez disso, devemos transferir a nossa perceção para fora dos nossos corpos, como se passássemos do interior para o exterior. Devemos tentar perceber o Criador e o Seu desígnio, não através dos nossos próprios corações, mas do exterior, distanciando o eu do processo, colocando-nos no lugar do Criador, aceitando este sofrimento como a condição necessária para aumentar a nossa fé no Domínio Supremo, de modo a que façamos tudo apenas por causa do Criador.
Ao realizar o acima descrito, podemos merecer a revelação do Criador, a perceção da luz divina e do Seu verdadeiro domínio. Isto porque o Criador revela-Se apenas a desejos altruístas; apenas em pensamentos que não sejam sobre o eu e os problemas pessoais; apenas em preocupações “do exterior”, pois só então há congruência de qualidades entre o Criador e nós próprios.
Mas se, nos nossos corações, Lhe pedirmos que nos poupe ao sofrimento, então estamos no estado de um mendigo, de um egoísta.
Por esta razão, devemos descobrir sentimentos positivos em relação ao Criador. Só então poderemos receber uma revelação pessoal do Criador.
É necessário recordar que a ocultação do Criador e o nosso sofrimento são consequências das nossas Klipot [cascas] egoístas, porque o Criador irradia apenas prazer e clareza.
Ele faz isto sob a condição de que criemos desejos altruístas e rejeitemos completamente o egoísmo como um afastamento da nossa natureza e do sentimento do “eu”, do “eu próprio”. Todos os nossos pecados provêm da recusa em avançar pela fé acima da razão. Consequentemente, sofremos constantemente porque o chão nos é retirado de debaixo dos pés.
É natural que, tendo investido muito esforço nos nossos estudos e no trabalho sobre nós próprios, aguardemos uma boa recompensa. Em vez disso, recebemos apenas sentimentos dolorosos de desespero e situações críticas. É mais difícil resistir aos prazeres das nossas ações altruístas do que aos das ações egoístas, porque a magnitude do prazer em si é incomparavelmente maior.
É muito difícil, mesmo por um instante, ver intelectualmente que, na verdade, isto é a ajuda do Criador. O corpo, contra todo o raciocínio, clama pela necessidade de se livrar de tal estado. Apenas a ajuda do Criador nos pode salvar dos problemas súbitos que surgem, mas não pedindo uma solução.
A resposta está em orar por uma oportunidade, independentemente das exigências do corpo, de adquirir fé acima da razão, de alcançar o sentimento de acordo com as ações do Criador, pois é só Ele Quem tem o domínio sobre tudo, e é Ele Quem cria todas as circunstâncias por forma a assegurar o nosso bem-estar espiritual último.
Todos os tormentos terrenos, sofrimentos espirituais, vergonha e repreensões precisam de ser suportados por um cabalista no caminho para a unificação espiritual com o Criador. A história da Cabala está cheia de exemplos: Rashbi, Rambam, Ramchal, o Ari, etc.
Mas assim que formos capazes de ter fé acima da razão contra as nossas próprias perceções; assim que o sofrimento for interpretado como bondade absoluta e vontade do Criador de aproximar uma pessoa Dele; assim que aceitarmos o nosso estado e deixarmos de querer alterá-lo para podermos ser preenchidos com sentimentos agradáveis ao egoísmo; assim que todas estas condições se verificarem, o Criador revelar-Se-á a nós em toda a Sua grandeza.