Capítulo 35. A Inclinação ao Mal
Segundo a Cabala, os nossos corpos são apenas um revestimento temporário para uma alma eterna que desce do Alto, e o ciclo de vida e morte pode comparar-se à mudança de roupa por uma pessoa neste mundo. A alma troca um corpo por outro com a mesma facilidade com que uma pessoa troca um conjunto de roupa por outro.
A definição do cumprimento altruísta da Vontade do Criador, assim como a definição de ser altruísta tanto no pensamento como na acção, encarna o processo de auto-avaliação e auto-exame, independentemente de acontecimentos, sentimentos ou incidentes desagradáveis que o Criador envia propositadamente à pessoa.
O processo de auto-avaliação deve levar a pessoa a ver verdadeiramente quão inferior é o seu estado, mas mantê-la simultaneamente comprometida com o cumprimento da Vontade do Criador e com a aspiração de cumprir as leis directas e justas do mundo espiritual, em oposição ao seu próprio "bem-estar" pessoal.
O desejo de ser semelhante ao Criador nas suas qualidades pode provir do sofrimento e das provações que se experienciam, mas pode também emanar da percepção da grandeza do Criador. Então, a escolha do indivíduo passa por pedir ao Criador avanço através da Cabala.
Todas as ações que empreendemos devem ser motivadas pela intenção de perceber a grandeza do Criador, de modo que a percepção e a realização deste aspecto nos ajudem a tornar-nos mais puros e mais espirituais.
Para avançar espiritualmente, devemos, em cada nível, preocupar-nos com o desenvolvimento em nós da percepção da grandeza do Criador. Devemos compreender que, para alcançar a perfeição espiritual ou mesmo para permanecer no nível espiritual em que existimos, precisamos cultivar uma compreensão mais profunda da grandeza do Criador.
O valor da dádiva é determinado pela importância daquele que o oferece. Isto é verdade em grande medida. Por exemplo, um objecto que pertence a alguém considerado famoso e importante pela sociedade vale muitas vezes milhões.
O valor da Cabala é também determinado pela proeminência d’Aquele que que nos oferece a cabala. Se alguém não acredita no Criador, então a Cabala não vale para essa pessoa mais do que qualquer outro documento histórico ou literário. Mas se alguém acredita no poder da Cabala e na sua utilidade porque acredita no Poder Superior, então o valor da Cabala é incomensuravelmente superior.
Quanto mais acreditarmos no Criador, maior valor a Cabala terá para nós.
Consequentemente, cada vez que nos submetemos voluntariamente ao domínio do Criador de acordo com a magnitude da nossa fé n’Ele, também apreendemos o significado da Cabala e o seu sentido interior. Desta forma, pode dizer-se que cada vez consecutiva que alcançamos um nível espiritual superior, recebemos uma nova Cabala (Luz), como se fosse de um novo Criador.
O processo acima refere-se apenas àqueles que recebem uma nova revelação da Luz do Criador à medida que ascendem na escada espiritual. Por essa razão, está escrito que “O justo vive pela sua fé” – a magnitude da fé de alguém determina a quantidade de Luz percebida.
Está escrito nos livros da Cabala: “Todos os dias Ele doa uma nova Luz.” Para um cabalista, cada “dia” (o tempo em que a Luz do Criador irradia) é uma nova Luz.
Podemos ser educados para cumprir os mandamentos, mas é impossível educar-nos na necessidade de atribuir às nossas ações intenções altruístas específicas, pois isto não pode tornar-se parte da nossa natureza egoísta que pudesse ser executada automaticamente, tal como as nossas necessidades físicas.
Se formos permeados pelo sentimento de que a nossa guerra contra o egoísmo é uma guerra contra as forças da escuridão, contra as qualidades opostas às do Criador, então, deste modo, afastamos essas forças de nós e não nos associamos a elas; evitamo-las nos nossos pensamentos, como se nos afastássemos dos desejos dos nossos próprios corpos.
Continuando a sentir esses desejos, começamos a desprezá-los, como se despreza um inimigo. Desta maneira, podemos triunfar sobre o egoísmo e, ao mesmo tempo, encontrar consolo no seu sofrimento. Uma ação deste tipo é conhecida como “a guerra de vingança pelo Criador” (nikmat hashem). Gradualmente, podemos habituar-nos a perceber os objectivos, pensamentos e intenções correctos, independentemente dos desejos e exigências egoístas do corpo.
Se, ao estudar, não vemos qualquer benefício pessoal e começamos a sofrer com essa falta de benefício percebido, isto é conhecido como “a inclinação ao mal” (yetzer ra). O nível de mal é determinado pelo nosso nível de percepção do mal, pela extensão do nosso sofrimento pela falta de atracção pela espiritualidade, a menos que encontremos nela um benefício pessoal.
Quanto mais sofremos com a situação que não muda, maior é o nível da nossa percepção do mal. Se compreendermos pela razão que ainda não estamos a conseguir avançar espiritualmente, mas isso não nos causa dor, significa que ainda não temos uma inclinação ao mal (yetzer ra), pois ainda não sofremos com o mal.
Se não sentimos o mal, devemos dedicar-nos ao estudo da Cabala. Mas se percebemos o mal em nós, precisamos livrar-nos dele através da fé acima da razão.
As definições dadas acima requerem explicações. Está escrito nos livros da Cabala: “Criei a inclinação ao mal (força, desejo) e criei também a Torá como tavlin (“especiaria”) para ela (para a sua correcção).” Tavlin significa especiarias, aditivos, suplementos que tornam a comida saborosa e aceitável para consumo.
Vemos que a criação primária é o mal, o egoísmo. A Cabala é apenas um aditamento a ele, ou seja, o meio que nos permite saborear e utilizar o mal. Isto é muito peculiar, porque também se afirma que os mandamentos são dados apenas com o propósito de purificar a alma com o seu auxílio. Isto implica que, uma vez purificada a pessoa, já não haverá necessidade de mandamentos (atos espirituais para correcção).
O verdadeiro objectivo da criação é que o Criador dê prazer às Suas criaturas. Para isso, as criaturas são dotadas do desejo de receber prazer. Para que as criaturas não experienciem sentimentos de vergonha ao receber prazer, o que estragaria o próprio prazer, é-lhes dada a oportunidade de corrigir os sentimentos de vergonha.
Isto pode ser alcançado se as criaturas desejarem não receber nada para si próprias, mas desejarem apenas agradar ao Criador. Só então não sentirão vergonha ao receber prazer, pois recebê-lo-ão pelo Criador, e não para o seu próprio benefício.
Mas o que se pode dar ao Criador que Lhe dê prazer? Para isso, o Criador deu-nos a Cabala e as leis espirituais, para que as possamos cumprir “pelo Seu benefício. Então Ele pode enviar-nos prazeres que possamos receber, sem que sejam diminuídos por sentimentos de vergonha e insinuações de caridade.
Se nos comportarmos segundo as leis espirituais, ou seja, pelo Criador, somos semelhantes ao Criador nas nossas ações, que têm como objetivo dar-nos prazer. À medida que os nossos desejos, actos e qualidades ganham maior semelhança com os do Criador, nós e o Criador aproximamo-nos um do outro. O Criador deseja que Lhe demos, tal como Ele nos dá, para que os nossos prazeres não sejam ofuscados pela vergonha, nem vistos como caridade.
O desejo espiritual — um desejo que possui todas as condições necessárias para receber a Luz — determina a magnitude e o tipo de prazer recebido, porque a Luz do Criador inclui tudo em si, cada um dos nossos desejos de ser gratificado por algo. Ela isola de toda a Luz aquilo que desejamos.
O Criador prescreve precisamente 613 mandamentos para a transformação do mal (em nós) em bem (para nós), porque criou o nosso desejo de gratificação precisamente de 613 partes, e cada mandamento corrige uma certa parte ou qualidade. Por essa razão se diz: “Criei a inclinação ao mal, e a Torá para a sua correcção.”
Mas qual é o propósito de cumprir a Torá (as leis espirituais) após a correcção do mal? As leis espirituais são-nos dadas:
1. Quando ainda estamos sob o jugo da nossa própria natureza e somos incapazes de agir pelo Criador, porque permanecemos distantes do Criador, devido à disparidade de qualidades. As 613 leis espirituais permitem-nos ter a força para nos afastarmos do egoísmo.
2. No fim da correcção, quando estamos num estado de unidade com o Criador devido à equivalência de qualidades e desejos, tornamo-nos então dignos da luz da Torá: as 613 leis espirituais tornam-se parte do nosso corpo espiritual; tornam-se o vaso da nossa alma, e em cada um dos 613 desejos recebemos a luz do prazer.
Como vemos, nesta etapa, as leis espirituais transformam-se de meios de correcção em “lugar” de recepção de prazer (o vaso, kli).