Capítulo 32. A Luta pela Perceção da Unidade do Criador
Na Cabala, as massas são conhecidas como os “Proprietários” (ba’al bait), porque aspiram a construir a sua própria casa (um vaso egoísta, kli) e a enchê-la de prazer. Os desejos de quem ascende espiritualmente provêm da Luz do Criador e centram-se na tarefa de construir no seu coração, uma casa para o Criador, para que esta seja preenchida com a luz do Criador.
Discernimos todas as noções e todos os acontecimentos de acordo com as nossas próprias perceções. Atribuímos nomes aos acontecimentos que ocorrem conforme as reações dos nossos órgãos sensoriais. Assim, quando falamos de um objeto ou ação particular, estamos a exprimir como o percebemos pessoalmente.
Cada um de nós determina o nível de mal num objeto particular de acordo com o quanto esse objeto obstrui a nossa receção de prazer. Em certos casos, não toleramos qualquer proximidade a determinado objeto. Assim, o nosso nível de compreensão da importância da Cabala e das suas leis determinará o mal que discerniremos naquilo que se interpõe no caminho do cumprimento das leis espirituais.
Portanto, se desejamos alcançar o nível de ódio a todo o mal, devemos trabalhar no sentido de enaltecer a Cabala e o Criador no nosso intelecto. Dessa forma, cultivaremos em nós o amor ao Criador e, na mesma medida, desenvolveremos ódio ao egoísmo.
Na leitura de Pesach [Páscoa Judaica], há a história dos quatro filhos, cada um dos quais faz uma pergunta em relação ao trabalho espiritual. Embora as quatro qualidades estejam presentes em cada um de nós, e embora a Cabala fale habitualmente de uma única imagem composta da pessoa em relação ao Criador, as quatro qualidades podem ser examinadas como quatro tipos distintos de personalidades.
A Cabala é dada para nos ajudar a concentrarmo-nos na luta contra o egoísmo. Se não temos perguntas sobre a nossa própria natureza, significa que ainda não alcançamos o reconhecimento do nosso próprio mal; e, por conseguinte, não temos necessidade da Cabala. Neste caso, se acreditamos na recompensa e no castigo, podemos ser estimulados pela ideia de que há uma recompensa pela observância das leis espirituais.
Mas se já agimos para sermos recompensados, e ainda assim não sentimos o nosso próprio egoísmo, não nos podemos corrigir porque não temos consciência dos nossos defeitos. Então, precisamos de aprender a cumprir os mandamentos de forma desinteressada. Como resultado, o nosso egoísmo surgirá e perguntará:
“Qual é o propósito deste trabalho?”
“O que ganharei com ele?”
“E se for contrário aos meus desejos?”
Nesse momento, precisaremos da ajuda da Cabala para começar o trabalho contra o nosso egoísmo, pois começamos a sentir o mal em nós próprios.
Existe uma força espiritual particular – um anjo – que é responsável por gerar sofrimento na pessoa, a fim de tornar claro que não se pode ficar satisfeito ao gratificar o egoísmo. Este sofrimento impele a pessoa a desviar-se dos limites do egoísmo e, assim, evitar permanecer eternamente escrava dele.
Diz-se que, antes de entregar a Torá a Israel, o Criador a ofereceu a todas as outras nações do mundo, e todas recusaram. Cada um de nós é como um mundo em miniatura composto por uma multidão de desejos, que são chamados “nações”.
Devemos saber que nenhum dos nossos desejos é adequado para a ascensão espiritual, exceto o desejo de avançar em direção ao Criador; este desejo é conhecido como “Israel” (das palavras hebraicas yashar, ‘em direção’, e El, Deus, significando “direto para Deus”). Apenas escolhendo este desejo acima de todos os outros é que o indivíduo pode receber a sabedoria oculta da Cabala.
A ocultação do nível espiritual é uma das condições imperativas para uma ascensão espiritual bem-sucedida.
Este tipo de ocultação implica a realização de ações de modo a que não sejam notadas pelos outros.
Mais importante, porém, é a ocultação dos pensamentos e aspirações da pessoa. Se surgir uma situação em que um cabalista tenha de exprimir um ponto de vista, este deve ser vago e expresso em termos muito gerais, de forma que as verdadeiras intenções do cabalista não fiquem claras.
Por exemplo, suponhamos que uma pessoa faz uma grande doação em apoio às lições de Cabala, mas coloca a condição de que seja publicada no jornal um reconhecimento público do doador. Mencionar-se-ia também a grande quantia dada, a fim de que o doador receba fama e, assim, prazer.
Contudo, embora pareça claro que a honra é o principal desejo do doador, também é possível que o doador deseje disfarçar o facto de que o artigo no jornal ajudará a difundir a Cabala. Assim, a ocultação ocorre geralmente nas intenções, e não nas ações.
Se o Criador tiver de enviar a um cabalista um sentimento de declínio espiritual, primeiro retirará a fé desse cabalista nos outros grandes cabalistas. Caso contrário, o cabalista poderia receber encorajamento deles e, assim, nunca vir a experienciar o declínio espiritual.
As multidões que cumprem os mandamentos preocupam-se apenas com as suas próprias ações, mas não com as intenções. Para elas é claro que cumprem para receber recompensa, seja neste mundo ou no vindouro. Têm sempre uma justificação para as suas ações e percebem-se a si próprias como justas.
Por outro lado, o cabalista que trabalha na correção do egoísmo inato tenta controlar cada intenção de cumprir os mandamentos. Embora o desejo possa ser cumprir a Vontade do Criador de forma desinteressada, o corpo opor-se-á a isso, juntamente com pensamentos constantemente obstrutivos. Consequentemente, o cabalista sentir-se-á como um pecador.
Tudo isto é feito com um propósito. O Criador quer levar o cabalista a empenhar-se numa correção constante tanto dos pensamentos como das intenções. Assim, o cabalista não permanecerá escravizado pelo egoísmo; não continuará a trabalhar pelo benefício do eu, como os outros, e compreenderá que não há outro modo de cumprir a vontade do Criador senão pelo Seu Benefício.
É deste processo que o cabalista retira um sentimento muito intenso de ser pior do que as massas. Para as massas, a incapacidade de apreender o seu verdadeiro estado espiritual é a causa subjacente da observância física dos mandamentos.
Mas o cabalista está obrigado a transformar intenções egoístas em altruístas – ou a não conseguir cumprir de todo os mandamentos.
Por esta razão, o cabalista vê-se a si próprio como ainda pior do que as massas.
O indivíduo está constantemente num estado de guerra pela satisfação dos seus desejos. Mas há uma guerra de natureza oposta, na qual o indivíduo luta contra si próprio a fim de entregar a totalidade do coração ao Criador, e de preencher o coração com o seu inimigo natural – com o altruísmo.
O objetivo desta batalha é assegurar que o Criador preencha todo o ser da pessoa, não apenas porque esta é a Vontade Divina, mas também porque é desejado pela própria pessoa; assim, o Criador deve governar e guiar-nos porque lho pedimos.
Nesta batalha, devemos, em primeiro lugar, deixar de equiparar o eu ao corpo, e compreender que o corpo, o intelecto, os pensamentos e as emoções – tudo isto são atributos externos enviados pelo Criador para nos levar a voltar-nos para o Criador em busca de ajuda; para pedir ao Criador que supere estes atributos; para suplicar ao Criador que fortaleça a ideia da Sua Unidade; para reforçar o conhecimento de que é Ele Quem nos envia todos os pensamentos; para orar que o Criador envie fé e o sentimento da Sua presença e do Seu domínio.
Desta forma, todos os pensamentos contrários serão silenciados. Deixaremos de acreditar que tudo depende do indivíduo, ou que neste mundo existe uma vontade e uma força distintas do Criador.
Por exemplo, independentemente de sabermos que o Criador criou tudo e tem domínio sobre tudo (a linha direita), podemos ainda pensar que determinada pessoa nos fez algo mau, ou que poderá fazer algo mau (a linha esquerda).
Por um lado, estamos convencidos de que todas as ações emanam de uma única origem – o Criador (a linha direita). Por outro lado, não conseguimos suprimir o pensamento de que alguém mais nos afeta, ou de que o resultado de um acontecimento depende de algo diferente do Criador (a linha esquerda).
Tais colisões internas entre perceções opostas ocorrem por diversas razões, dependendo das nossas ligações sociais, até ao momento em que o Criador nos ajuda a alcançar a linha do meio. A batalha trava-se pela perceção da Unidade do Criador, enquanto os pensamentos obstrutivos são enviados precisamente para combater estes pensamentos. Lutamos pela vitória com a ajuda do Criador, e pela obtenção de uma maior perceção do Seu domínio, ou seja, pela obtenção de uma maior fé.
A nossa guerra natural centra-se na gratificação do egoísmo e na conquista de maiores ganhos, tal como todas as guerras neste mundo. Contudo, a meta-guerra – a guerra contra a nossa própria natureza – concentra-se na entrega do domínio sobre nós próprios ao “inimigo” – o Criador. A meta-guerra procura entregar todo o território do nosso intelecto e do nosso coração ao controlo do Criador, para que o Criador possa preencher esse território com Ele próprio, conquistar todo o mundo – tanto o pequeno mundo do indivíduo como o grande mundo no seu todo – e dotar todas as criaturas das Suas qualidades, mas de acordo com a vontade delas.
O estado em que os desejos e as qualidades do Criador ocupam todos os pensamentos e desejos da pessoa é conhecido como “estado altruísta”. Este inclui: o estado de “doar”, o estado de entrega da alma física ao Criador, e o estado de regresso espiritual (teshuva). Todos estes estados estão sob a influência da Luz de Hassadim, que emana do Criador e nos dá força para resistir aos pensamentos obstrutivos do corpo.
O estado acima descrito não tem necessariamente de ser constante. Podemos superar certas obstruções nos nossos pensamentos, mas depois uma nova onda de pensamentos pode fazer-nos recuar. Podemos, mais uma vez, cair sob a sua influência e desenvolver dúvidas quanto à Unidade do Criador; mais uma vez, teremos de lutar contra esses pensamentos; mais uma vez, sentiremos a necessidade de nos voltarmos para o Criador em busca de ajuda e de receber Luz, a fim de superar esses pensamentos e de os entregar ao domínio do Criador.
O estado em que recebemos prazer pelo Benefício do Criador, ou seja, não apenas nos rendemos ao nosso “inimigo”, o Criador, mas também passamos para o Seu lado, é conhecido como “receber pelo Benefício do Criador”. A ordem natural da nossa escolha de ações e pensamentos é tal que, consciente ou inconscientemente, escolhemos sempre o caminho que nos concede maiores prazeres. A pessoa desprezará prazeres menores em favor dos maiores.
Não há livre-arbítrio nem escolha livre neste processo. O direito de escolher e a liberdade de decidir surgem apenas quando decidimos tomar decisões com base no critério da verdade, e não do prazer. Isto ocorre somente quando decidimos prosseguir pelo caminho da verdade, apesar do sofrimento que isso traz.
Contudo, a inclinação natural do corpo é evitar o sofrimento e buscar prazer por qualquer meio.
Esta tendência impedirá a pessoa de tomar decisões baseadas no princípio da verdade. Quem aspira a cumprir a Vontade do Criador deve colocar todos os desejos pessoais abaixo dos desejos do Criador.
Em vez disso, deve preocupar-se constantemente em perceber a grandeza do Criador para obter força suficiente para cumprir a Vontade do Criador, e não a sua própria vontade.
O nível em que acreditamos na grandeza e na força do Criador determinará a nossa capacidade de cumprir os desejos do Criador. Assim, devemos concentrar todos os nossos esforços em apreender a grandeza do Criador. Como o Criador deseja que sintamos prazer, criou em nós o desejo de sermos deleitados. Não há em nós outra qualidade para além deste desejo. É ele que dita todos os nossos pensamentos e ações e programa a nossa existência.
O egoísmo é conhecido como um anjo mau, uma força má, porque nos regula do Alto enviando-nos prazer, e sem darmos conta tornamo-nos seus escravos. O estado de submissão complacente a esta força é conhecido como “escravidão”, ou “exílio” (galut) do mundo espiritual.
Se o egoísmo, este anjo mau, não tivesse nada a dar, não conseguiria obter domínio sobre o ser humano. Ao mesmo tempo, se pudéssemos renunciar aos prazeres oferecidos pelo egoísmo, não seríamos escravizados por eles. Assim, não conseguimos sair do estado de escravidão; mas se tentarmos fazê-lo, o que é considerado a nossa escolha livre, então o Criador ajudará do Alto removendo os prazeres com que o egoísmo nos seduz.
Como resultado, podemos sair do domínio do egoísmo e tornar-nos livres. Mais ainda, ao passarmos sob a influência de forças espirituais puras, experienciamos prazer em ações altruístas e tornamo-nos, em vez disso, servos do altruísmo.
Conclusão: Nós, enquanto indivíduos, somos escravos do prazer. Se o nosso prazer advém de receber, então somos escravos do egoísmo (do faraó, do anjo mau, etc.). Se o nosso prazer advém da doação, então somos servos do Criador (do altruísmo).
Mas não podemos existir sem receber alguma forma de prazer. Esta é a essência do ser humano; foi assim que o Criador concebeu o ser humano, e este aspeto não pode ser alterado. Tudo o que devemos fazer é pedir ao Criador que nos conceda um desejo por altruísmo. Esta é a essência do nosso livre-arbítrio e da nossa oração.