A Criação do Mundo
Pergunta: Como é que a Cabala interpreta a contradição entre a criação do mundo há 5.770 anos e o momento do “Big Bang”?
O Big Bang ocorreu há cerca de 14 mil milhões de anos. A sua causa foi uma centelha da luz superior que alcançou o seu nível mais baixo — o egoísmo. Essa centelha continha dentro de si toda a matéria e energia do nosso mundo, e a partir dela foi criado o universo inteiro.
O planeta Terra foi formado há cerca de 4,6 mil milhões de anos como resultado da condensação do sistema solar. Com o tempo, a crosta terrestre arrefeceu, a atmosfera formou-se e a vida começou. Nada disso foi acidental. Tudo o que acontece é uma manifestação da informação que já existia na centelha inicial de luz.
Depois da natureza inanimada, surgiram as plantas, seguidas pelos animais e, por fim, o homem. A interpretação da evolução baseada na sua aparência superficial — de que as espécies evoluem a partir de outras espécies, que por sua vez evoluem para mais espécies — está incorreta.
A razão para o aparecimento de cada detalhe na natureza é a informação que estava inicialmente enraizada na centelha de luz. A Cabala explica a evolução como um processo de progressão de fragmentos de dados (genes), chamados Reshimot (registos).
O homem desenvolveu-se a partir do macaco há centenas de milhares de anos, como o ARI (Isaac Luria) escreve na "A Árvore da Vida". No entanto, apenas há 5.770 anos (à data da escrita deste livro) foi despertado pela primeira vez um ponto no coração de um ser humano. O seu nome era Adão, do versículo Adame la’Elion (“Serei semelhante ao Altíssimo”, Isaías, 14:14). O seu nome refletia o desejo de se assemelhar ao Criador.
O dia em que Adão revelou o mundo espiritual é chamado de “o dia da Criação.” Foi quando a humanidade tocou pela primeira vez o mundo espiritual, razão pela qual é o ponto a partir do qual começa a contagem hebraica dos anos. De acordo com o plano da Criação, em 6.000 anos, todos devemos alcançar o nível do Criador. Isto será chamado de “o fim da correção” (do ego humano).
Aldeia Pequena, Ego Global
Ao longo da história da humanidade, houve apenas um período em que a sabedoria da Cabala esteve disponível para todos. Foi na antiga Babilónia, uma cidade que funcionava como uma pequena aldeia, onde cada indivíduo podia influenciar a vida de todos os outros. A sociedade na Babilónia existia como um sistema único, daí a necessidade da sabedoria da Cabala, que ensina como implementar a lei “Ama o teu próximo como a ti mesmo.”
Abraão, o Patriarca, natural da Babilónia, apelou à implementação desta lei, mas apenas alguns o ouviram. Apenas aqueles em quem o ponto no coração se tinha revelado o seguiram e colocaram a sabedoria da Cabala em prática. Refletindo o seu desejo mais profundo, chamaram-se a si próprios “Israel,” das palavras Yashar El (direto a Deus), ou seja, diretamente para a qualidade do Criador.
Todos os outros na Babilónia preferiram não se unir, mas permanecer afastados uns dos outros. Dispersaram-se pela face da Terra e, geração após geração, seguiram os impulsos que o ego despertava neles de forma natural.
O grupo de Abraão cresceu e desenvolveu-se até ao tamanho de uma nação: a nação de Israel. Mas há 2.000 anos, surgiu repentinamente um enorme ego dentro de nós, e caímos do nível de amor ao próximo para o ódio infundado. Perdemos a sensação de vida como um sistema unificado, O sentimento envolvente de amor desvaneceu-se e o Criador foi ocultado de nós. Apenas alguns, com qualidades únicas, foram atraídos para a revelação do Criador, dedicaram-se à sabedoria e desenvolveram-na de geração em geração, esperando pelo momento em que todos precisariam dela.
Recentemente, o círculo começou a fechar-se e as duas rotas que se separaram na Babilónia estão a convergir. Mais uma vez, o mundo está a tornar-se uma pequena aldeia, e mais uma vez somos egoístas. Mas agora não há para onde fugir. Tornámo-nos tão interdependentes que somos obrigados a implementar a lei “Ama o teu próximo como a ti mesmo.”
A sabedoria da Cabala ensina como alcançar o amor ao próximo para sobreviver. Hoje, está novamente a ser revelada a todos para nos ensinar como prosperar no novo mundo.
A Verdadeira Cabala
A sabedoria da Cabala esteve oculta durante milhares de anos, proporcionando terreno fértil para o surgimento de diversas teorias sobre a sua essência. Todas estavam incorretas. Hoje, o estudo da Cabala autêntica está aberto a todos, sem restrições ou pré-requisitos. No entanto, é importante saber que a sabedoria da Cabala trata apenas da correção do homem.
"Esta sabedoria não é nem mais nem menos do que uma sequência de raízes que descem por meio de causa e efeito, seguindo leis fixas e determinadas, que se entrelaçam num objetivo único e exaltado descrito como 'a revelação da Sua Divindade às Suas criaturas neste mundo.'" ...toda a humanidade está obrigada a alcançar eventualmente esta imensa evolução.’”
(Baal HaSulam, “A Essência da Sabedoria da Cabala”)
Uma Escada para o Infinito
A sabedoria da Cabala ensina-nos que vivemos numa realidade com múltiplas camadas.
A realidade divide-se em dois níveis básicos—o nosso mundo e o mundo superior, oculto.
O mundo superior consiste em 125 graus diferentes de existência, posicionados uns sobre os outros, como uma escada com 125 degraus.
Atualmente, existimos abaixo do degrau mais baixo da escada. O ponto no coração desperta-nos para subir ao seu primeiro degrau.
Quando descobrimos que existe um degrau superior, o desejo de alcançá-lo e subir a escada desperta em nós até atingirmos o seu topo.
Esta forma de desenvolvimento vai levar-nos ao infinito.
A Sabedoria do Oculto
Investigamos o nosso mundo através da ciência e descobrimos o que está oculto.
O conhecimento que a ciência acumula ajuda-nos neste mundo. Mesmo que não saibamos nada pela nossa própria experiência de vida, confiamos nos cientistas, médicos e outros especialistas. Embora a ciência ainda não tenha descoberto tudo sobre o nosso mundo, com o tempo, cada vez mais do que está oculto, é revelado.
Contudo, existe outra parte da realidade: um mundo oculto, um mundo superior que a ciência não consegue descobrir. Para ser capaz de sentir esta parte da realidade, é necessário corrigir a própria natureza, o ego, e obter a qualidade de amor e doação. Só então se começa a perceber o mundo oculto e a estudá-lo cientificamente.
Os diferentes sistemas de crenças e religiões são teorias sobre o mundo oculto (Deus) e sobre as coisas que este mundo nos obriga a fazer. Estas teorias são diversas, frequentemente contraditórias, e existem precisamente porque essa parte da realidade está oculta. Contudo, nenhuma delas fornece recomendações práticas para revelar o mundo oculto (revelar Deus).
Os cabalistas são pessoas que obtiveram a qualidade de amor e doação, através da qual alcançaram o mundo oculto. Eles descrevem a estrutura do mundo superior e oferecem a oportunidade de o revelar a todos os que se interessem. Não somos obrigados a mudar os nossos modos de vida, pois não existe ligação entre ações corpóreas e a obtenção da qualidade de amor e doação. Na Cabala não se trata de acreditar na Divindade, mas de a revelar.
A Pergunta que causa indignação
O livro fundamental com o qual estudamos a sabedoria da Cabala é O Estudo das Dez Sefirot. Neste livro, Baal HaSulam interpreta as palavras do ARI (Isaac Luria), que são vitais para o desenvolvimento das almas da nossa geração.
Baal HaSulam abre o prefácio do livro apresentando diferentes dúvidas que as pessoas têm em relação ao estudo da Cabala. Ele não se refere diretamente a essas dúvidas, mas dirige-se a outra questão, sobre o sentido da vida:
“De facto, se dedicarmos os nossos corações a responder apenas a uma pergunta muito famosa, estou certo de que todas estas questões e dúvidas vão desaparecer do horizonte, e vamos olhar para o seu lugar sem as encontrar. Esta pergunta que causa indignação é uma pergunta que o mundo inteiro faz, nomeadamente: ‘Qual é o sentido da minha vida?’
“Ou seja, estes anos contados das nossas vidas, que nos custam tanto, e as inúmeras dores e tormentos que sofremos para os completar ao máximo, quem é que os aproveita? Ou mais precisamente, a quem trazemos contentamento?
“É verdade que os historiadores já se cansaram de pensar nisso, e particularmente na nossa geração. Ninguém deseja sequer considerar essa questão.
“Contudo, a pergunta permanece tão amarga e veemente como sempre. Por vezes, encontra-nos sem ser convidada, atormenta as nossas mentes e rebaixa-nos até ao chão, antes de encontrarmos o famoso estratagema de fluir sem pensar pelas correntes da vida, como sempre.”
(Baal HaSulam, “Introdução ao Estudo das Dez Sefirot,” Item 2)
A sabedoria da Cabala é para todos aqueles que já não conseguem ignorar a pergunta sobre o sentido da vida.