Capítulo 5.3 – Erradicação do Preconceito
Nada é criado em vão neste mundo. Tudo é criado para se alcançar o objetivo da Criação. A verdadeira imagem do mundo é de completude e plenitude, sem nada que seja supérfluo, nem sequer um único pensamento ou operação.
Cada um faz precisamente aquilo que deve fazer e, ao mesmo tempo, as pessoas realizam o objetivo da Criação. A grande maioria fá-lo de forma inconsciente, mas alguns fazem-no de forma consciente, após terem feito uma escolha livre entre as suas atividades egoístas e altruístas, tendo decidido a favor destas últimas. A tarefa que temos pela frente é chegar a um acordo com o desígnio da Criação e cumpri-lo de forma consciente e voluntária. Todos chegaremos a isso ao longo das nossas reencarnações.
Se pudéssemos ter consciência das nossas vidas anteriores e das possíveis combinações das almas e das suas divisões, poderíamos calcular por nós próprios a combinação correta das partes da alma coletiva – qual deveria ser a proporção e com que partes deveriam ser combinadas para as corrigir. Veríamos e compreenderíamos a razão de tudo o que acontece.
Os cabalistas veem a imagem coletiva, quer na totalidade, quer parcialmente. Por exemplo, o Ari explica acerca da reencarnação no seu livro "Shaar Hagilgulim" (O Portão das Reencarnações). Ele não só via toda a estrutura do ciclo de correção das almas, como também lhe foi dada permissão para a descrever. O único sinal pelo qual é possível determinar se alguém tem permissão para estudar Cabala é o desejo genuíno de espiritualidade.
O estudo da Cabala não se destina a ser utilizado para qualquer tipo de magia ou feitiçaria; também não tem como objetivo transformar alguém num grande rabino ou sábio. O seu propósito é promover o desenvolvimento espiritual da pessoa e alcançar os Mundos Superiores através de um trabalho árduo. As consequências dos seus esforços serão medidas pela sua capacidade de dedicar todas as suas ambições à doação ao Criador.
Quando se fala no cumprimento físico das Mitzvot, é importante mencionar que este só pode ser realizado neste mundo, porque é aqui que executamos atos físicos sem intenção espiritual, sem qualquer intenção. As Mitzvot com uma intenção espiritual significam um "Zivug" com a Luz Superior – a receção espiritual de Luzes nos vasos altruístas. Estas operam nesse sentido e, por isso, o nome cabalista – aquele que pode receber (em hebraico, "Kabbalah" significa "receção") a Luz Superior.
Por conseguinte, é o dever de cada indivíduo perceber que o verdadeiro cumprimento das Mitzvot é o cumprimento espiritual. Esse é o nosso verdadeiro objetivo. Aqueles que se contentam com a observância mecânica das Mitzvot corrigem-se apenas no nível em que existem, ou seja, no nível do nosso mundo. Por essa razão, tal pessoa é chamada "inanimado sagrado" – "inanimado" porque não tem desejo de desenvolvimento espiritual, e "sagrado" porque ainda cumpre as Mitzvot, mesmo que com intenções egoístas, dentro das limitações deste mundo.
Porque estas pessoas ainda seguem a Vontade do Criador, os cabalistas nunca se opõem ao cumprimento das Mitzvot corpóreas, mas apenas enfatizam que o mero cumprimento físico não é suficiente para alcançar o objetivo da Criação.
Além disso, devem ser realizados certos atos espirituais para auxiliar a nossa capacidade de receber a Luz Superior. Estes são chamados "os mandamentos do Criador". Mas aqui surge um problema: uma pessoa só é capaz de realizar aquelas operações que possam trazer-lhe ganho pessoal. Se a recompensa pelos esforços realizados for incerta, o ego não permitirá que seja feito nem o menor esforço.
A objeção generalizada à sabedoria da Cabala deve-se ao facto de esta afirmar que as pessoas podem cumprir as Mitzvot de forma incompleta. Por isso, os opositores alegam que os cabalistas se opõem ao cumprimento das Mitzvot, quando, na verdade, os cabalistas afirmam que elas devem, de facto, ser cumpridas, mas não apenas no nível físico, e sim com a intenção adequada.
Os cabalistas dizem apenas uma coisa: "Comecem a estudar a sabedoria da Cabala!" Através do estudo da alma da Torá, começarão a compreender o que é essencial para nós e porque fomos criados.