Capítulo 4.3 – Do Caderno de Apontamentos de um Cabalista
O meu rabino costumava escrever tudo o que aprendera do seu pai. Quando cheguei para estudar com ele, comecei a colocar as perguntas que me atormentavam há muito tempo, mas ele evitava sempre responder-me. Então, um dia, deixou-me um certo caderno para que eu encontrasse nele o que era importante e interessante para mim. Acrescentou que esses escritos me sustentariam pelo resto da vida, mesmo depois de ele partir, e que eu compreenderia o que devia compreender quando os lesse.
O ano era 1981; ele deu-me um caderno que eu copiei, depois li e utilizei durante os dez anos seguintes. Em 1991, um dia antes de falecer, entregou-me o manuscrito original. Disse-me: "Lê-o, é para ti." Pediu-me que viesse mais cedo na manhã seguinte para o ajudar a colocar os Tefilin (uma porção do Pentateuco escrita em pergaminho e colocada em caixas especiais que os judeus ortodoxos põem na cabeça e nos braços todas as manhãs, excepto ao sábado e nos dias de festa). Ele sabia antecipadamente o que ia acontecer, mas eu não, e quando cheguei já era tarde. Ele encontrava-se semi-inconsciente e faleceu diante dos meus olhos.
Os ensaios e os escritos que ele me entregou são de valor inestimável. Cada vez que se lêem, parece que se aprende algo novo. A minha percepção das palavras aprofunda-se a cada leitura, e a compreensão do meu estado interior depende delas.
Estes ensaios foram escritos a partir da mais elevada realização espiritual possível. Qualquer leitor pode encontrar o seu próprio estado interior, aprender o que deve fazer em cada momento e descobrir o que o autor queria revelar precisamente nesse instante.
Recomendo a leitura destes ensaios, ou mesmo de algumas linhas deles, todos os dias antes de dormir. O Rabash costumava abrir o caderno por apenas alguns segundos todas as noites; isso bastava para a expansão da Luz na alma.
Um dos artigos mais profundos e importantes do rabino intitula-se "Não Há Nada Além Dele". Este artigo deve estar sobre a secretária de todas as pessoas que desejem a adesão ao Criador. Contém todo o ensinamento de Baal HaSulam, a sua abordagem à Criação e tudo o que é necessário sentir e ter sempre presente. Este artigo é o primeiro do livro "Shamati" (Eu Ouvi), que publiquei após o seu falecimento.
"Está escrito que “Não Há Nada Além Dele”, ou seja, não existe no mundo outro poder capaz de fazer qualquer coisa contra Ele. E o que o homem vê, ou seja, que há coisas no mundo que negam a Orientação Superior, é porque Ele assim o quer.
E isto considera-se uma correcção, chamada “a esquerda rejeita e a direita atrai”, significando que aquilo que a esquerda rejeita é considerado correcção. Isto quer dizer que existem coisas no mundo que, desde o princípio, visam desviar a pessoa do caminho correcto e desviar a santidade.
E o benefício destas rejeições é que, através delas, a pessoa recebe a necessidade e o desejo completo de que Deus a ajude, pois vê que, caso contrário, está perdida. Não só não progride no seu trabalho, como vê que retrocede, e falta-lhe a força para cumprir a Torá e as Mitzvot, mesmo que seja Lo Lishma (Não pelo Seu Benefício, pelo Benefício da Torá). Que só conseguirá cumprir a Torá e as os Mitzvot mediante uma verdadeira superação de todos os obstáculos, acima da razão.
Mas nem sempre tem força para superar acima da razão, caso contrário é forçado a desviar-se, Deus nos livre, do caminho do Criador, e até mesmo do Lo Lishma (não pelo Seu Beneficio). E aquele que sente sempre que o partido é maior do que o inteiro, ou seja, que há muito mais descidas do que ascensões, e não vê fim para estas dificuldades, e permanecerá para sempre fora da santidade, pois vê que lhe é difícil cumprir até mesmo um mínimo, a não ser superando acima da razão, mas nem sempre consegue superar. E qual será o fim de tudo isto?"
Explicação: Vemos desde o início deste artigo que o Criador é o único Governante da Criação. Ele criou o homem com certas propriedades, deu-lhe todas as forças necessárias e colocou-o nas circunstâncias óptimas para progredir em direcção ao objectivo da Criação. Mas o Criador não nos ajuda — pelo contrário. Confunde-nos com todo o tipo de enredos: despedimento do trabalho, doença, problemas domésticos e toda a variedade de fracassos.
Para além disso, fá-lo em ocultação, sem que saibamos que é Ele quem está por detrás de tudo. Um indivíduo tem de passar por um período bastante longo a ser tratado desta forma pelo Criador. Não tem outra escolha senão atravessar estas provas para ganhar a experiência que o conduzirá à completude, à eternidade e à adesão ao Criador.
Esse tempo chega ao fim quando "ele chega à decisão de que ninguém o pode ajudar senão o próprio Criador. Isto leva-o a fazer um pedido sincero do fundo do coração ao Criador para que Lhe abra os olhos e o coração, para que O aproxime da adesão eterna com Ele".
O desejo do Criador é que, quando nós elevamos através dos mundos espirituais, adquiramos todas as propriedades desses mundos, nos tornemos como o Criador em cada mundo e O substituamos. No entanto, isto é impossível de realizar sem a ajuda do Criador. Não conseguimos fazer nada por nós próprios. Todas as dores e dificuldades que experienciamos acontecem porque as nossas propriedades-desejos são opostas às do Criador, ou seja, são opostas à Luz.
Essa oposição de forma torna-nos uma realidade que na verdade não existe. É apenas uma consequência do reflexo do nosso nível de ascensão à Luz Superior. Só vemos as nossas próprias propriedades. Quando a Luz vem do alto, não a sentimos; primeiro temos de nos livrar do nosso egoísmo, o obstáculo que nos bloqueia da Luz.
Quando se apela ao Criador por ajuda, descobre-se subitamente "que todas as rejeições que experienciaram vinham do Criador.
Isto significa que as rejeições que experienciara não eram da sua responsabilidade, por não ter capacidade para superar, mas porque estas rejeições são para aqueles que verdadeiramente querem aproximar-se de Deus. E para que tal pessoa não se contente com pouco, ou seja, para que não permaneça como uma criança pequena sem conhecimento, recebe ajuda do Alto para que não possa dizer: “Graças a Deus, cumpro a Torá e cumpro boas acções — que mais posso pedir?”"
E só se essa pessoa tiver um desejo verdadeiro receberá ajuda do Alto. "E é-lhe constantemente mostrado como está em falta no seu estado actual; ou seja, são-lhe enviados pensamentos e pontos de vista que trabalham contra os seus esforços. Isto para que ele veja que não está unido ao Senhor. E por mais que supere, vê sempre como se encontra numa posição mais afastada da santidade do que os outros, que sentem estar unidos ao Senhor.
Mas ele, por outro lado, tem sempre as suas queixas e exigências, e não consegue justificar o comportamento do Criador e a forma como Ele se comporta para com ele. E dói-lhe não estar unido ao Senhor, até chegar a sentir que não tem qualquer parte na santidade.
E embora por vezes seja despertado do Alto, o que momentaneamente o anima, logo cai num abismo. No entanto, isto é o que o leva a perceber que só Deus pode ajudá-lo e verdadeiramente aproximá-lo.
Um homem deve sempre tentar aderir ao Criador, ou seja, que todos os seus pensamentos sejam sobre Ele. Isto significa que, mesmo que se encontre no pior estado do qual não possa haver maior descida, não deve abandonar o Seu domínio, ou seja, não deve pensar que existe outra autoridade que o impede de entrar na santidade e que tem o poder de beneficiar ou prejudicar.
Ou seja, não deve pensar que existe uma questão do poder da Sitra Achra (Outro Lado) que não permite ao homem fazer boas acções e seguir os caminhos de Deus, mas deve pensar que tudo é feito pelo Criador."
O Criador envia-nos tribulações para nos trazer de volta ao propósito da Criação. Normalmente, quando estamos felizes, nem sequer nos importamos se o Criador existe; mas é precisamente nas situações "boas" que devemos aderir ao Criador. É por isso que Ele nos envia atribulações: para que nos lembremos d’Ele. Se nos sentimos mal, somos compelidos a pensar no Criador tanto quando nos sentimos bem como quando nos sentimos mal.
A Cabala fala dos sentimentos mais subtis do homem. Nunca esperamos o golpe; ele chega sempre de forma inesperada, quando estamos desconectados do Criador. A Providência actua individualmente sobre cada um de nós, mesmo quando não nos lembramos d’Ele. Ele envia-nos mensagens especiais para nos recordar d’Ele. Por isso nos é dito que devemos dirigir sempre os nossos pensamentos ao Criador. Isso é tudo o que é necessário.
"…aquele que diz que existe outro poder no mundo, nomeadamente as Klipot [cascas,peles], encontra-se no estado de “servir outros deuses”. Não é necessariamente o pensamento de heresia que constitui o pecado, mas se ele pensa que existe outra autoridade e Força além do Criador, com isso comete pecado.
Para além disso, aquele que diz que o homem tem a sua própria autoridade — ou seja, que diz que ontem ele próprio não queria seguir os caminhos de Deus —, também isso é considerado cometer o pecado de heresia. Significa que ele não acredita que só o Criador orienta o mundo."
Não existe em nós um único pensamento que não provenha do Criador. Assim foi predeterminado no desígnio da Criação e nada podemos fazer para o alterar.
Então quem sou eu? O "eu" é o que sente o que vem do Alto. No início, ficamos confundidos pelos pensamentos que nos chegam do Alto. Trata-se do resultado da infusão da espiritualidade na nossa corporeidade.
Depois de algum tempo, as coisas começam a encaixar-se e a produzir efeito. Começa-se a compreender que não pode haver, na verdade, outro caminho. Uma ascensão é o consentimento do homem com a acção do Criador. Nesse estado, sente-se pleno e eterno, separado do corpo e ligado apenas à espiritualidade.
"Mas quando cometeu um pecado, deve certamente arrependê-lo e lamentá-lo por o ter cometido; porém, também aqui devemos colocar a dor e a tristeza na ordem correcta: onde coloca ele a causa do pecado? É esse o ponto de que deve ter pena.
E o homem deve então lamentar-se e dizer: “Cometi esse pecado porque o Criador me lançou da santidade para um lugar de imundície, para a latrina, onde está a sujidade”. Ou seja, Deus deu-lhe desejo e apetite para se divertir e respirar o ar num lugar de fedor. (E poder-se-ia dizer, como está escrito nos livros, que por vezes o homem reencarna no corpo de um porco, recebendo desejo e apetite para se sustentar de coisas que já tinha determinado serem lixo, mas agora volta a querer viver nelas).
E também quando o homem sente que está num estado de ascensão e saboreia algum bom sabor no trabalho, não deve dizer: “Agora estou num estado em que compreendo que vale a pena adorar Deus”. Ao invés, deve saber que agora o Senhor se interessou por ele, e por isso O atrai para Si, sendo essa a razão por que saboreia um bom sabor no trabalho. E deve ter o cuidado de nunca sair do domínio da santidade, nem dizer que existe outra força a operar, para além do Criador.
(Mas isto significa que o facto de encontrar favor aos olhos do Senhor, ou o contrário, não depende do próprio homem, mas tudo depende do Criador. E o homem, com o seu intelecto exterior, não consegue compreender porque é que agora o Senhor gosta dele e depois não.)
E igualmente quando se arrepende de o Criador não o aproximar, deve também ter o cuidado de não se lamentar por si próprio por ter sido afastado do Criador, pois ao fazê-lo torna-se um vaso para o seu próprio benefício, e quem recebe separa-se do Criador. Pelo contrário, deve lamentar o exílio da Divindade, por ter causado tristeza à Divindade.
Deve tomar como exemplo como quando algum pequeno órgão da pessoa está dorido. A dor sente-se ainda principalmente no coração e no intelecto, que são a generalidade do homem. E certamente a sensação de um único órgão não pode assemelhar-se à sensação da estatura plena da pessoa, onde se sente a maior parte da dor.
Do mesmo modo é a dor que a pessoa sente quando está separada do Senhor, pois o homem não é senão um órgão da Divindade, porque a Divindade é a alma geral de Israel. Portanto, a sensação de um único órgão não se assemelha à sensação da dor geral. A Divindade lamenta que haja partes dela que estão separadas d’Ela, as quais Ela não pode sustentar.
(E isto pode ser o significado das palavras: “Quando um homem se arrepende, a Divindade diz: ‘É mais leve do que a minha cabeça’”). E se o homem não relacionar a tristeza de estar distante de Deus consigo próprio, salva-se de cair na armadilha do desejo de receber para seu próprio benefício, que é a separação da santidade.
O mesmo se aplica quando alguém se sente um pouco mais próximo da santidade: quando se alegra por ter merecido favor aos olhos do Senhor, deve dizer que o essencial da sua alegria é que agora há alegria na Divindade, por ter podido aproximar d’Ela o seu órgão privado, e não o ter afastado.
E o homem alegra-se por ter sido dotado da capacidade de agradar à Divindade. E isto segue o mesmo princípio, porque a alegria que um indivíduo sente não é senão uma parte da alegria que o todo sente. E através destes cálculos perde a sua individualidade e evita ser apanhado pela Sintra Achar [Outro Lado], que é o desejo de receber para seu próprio benefício.
Embora o desejo de receber seja necessário, pois "isso é a totalidade do homem", tudo o que existe numa pessoa para além do desejo de receber é atribuído ao Criador. No entanto, o desejo de receber prazer deve ser corrigido para uma forma de doação.
Ou seja, o prazer e a alegria usados pelo desejo de receber devem ter como intenção trazer contentamento ao Alto, porque há prazer em baixo. Pois esse foi o propósito da Criação: beneficiar as Suas criaturas. E isto chama-se a alegria da Divindade no Alto.
Por esta razão, o homem deve procurar conselho sobre como pode causar contentamento a ao Alto. E certamente, se ele recebe prazer, o contentamento será sentido no Alto. Portanto, deve ansiar estar sempre no palácio do Rei e ter a capacidade de brincar com os tesouros do Rei. E isso certamente causará contentamento ao Alto. Por conseguinte, todo o seu anseio deve ser em benefício do Criador.
O Criador é benevolente connosco, mas sentimos a Sua Bondade como crueldade quando ela passa através do nosso egoísmo. Manifesta-se em doença, stress e outras dificuldades. Não conseguimos agradecer ao Criador quando nos sentimos mal. Se soubéssemos quão mal o Criador Se sente, por a Sua Benevolência se ter tornado no seu oposto, ou quão feliz Ele fica quando nós estamos felizes, então actuaríamos de forma completamente diferente.
Ou seja: todos os nossos pensamentos, todas as nossas acções e tudo o que acontece deve ser sempre dirigido ao Criador. Essa é a única forma de sair do ego e alcançar a espiritualidade.