Capítulo 4.1 – Sobre o Estudo
Quem tem permissão para estudar?
Qualquer pessoa, independentemente do sexo, tem permissão para estudar a sabedoria da Cabala. Por essa razão, os cabalistas sempre procuraram difundir esta sabedoria tanto em Israel como no mundo inteiro, para levar esta possibilidade ao conhecimento de todos. Isto é especialmente válido para aqueles cujas almas estão maduras para o estudo da sabedoria da Cabala. Através do estudo, podem corrigir-se a si próprios e alcançar o objectivo da Criação. Os outros, que ainda não sentem a necessidade de estudar Cabala, devem ter conhecimento deste sistema, para o caso de desejarem estudá-lo mais tarde. Isso permite-lhes acelerar o seu progresso para a fase de correcção.
Se lermos 'O Estudo das Dez Sefirot', uma das obras mais importantes da Cabala, escrita por Baal HaSulam no século passado, veremos que, desde a própria primeira página, o rabino Yehuda Ashlag (Baal HaSulam) explica que cada indivíduo pode e deve estudar Cabala. É absolutamente necessário para aqueles que têm no coração uma única pergunta ardente: "Qual é o sentido da minha vida?"
Embora a sabedoria da Cabala seja uma ciência vasta e complexa, o rabino Ashlag abre o seu livro com uma pergunta simples e humana, que todos podemos reconhecer. Aqueles que se sentem insatisfeitos com as respostas podem encontrar a resposta na sabedoria da Cabala, e apenas aí. Não há outro caminho! A pessoa que não pergunta "Qual é o sentido da minha vida?" não tirará qualquer partido da sabedoria da Cabala.
Proibições do passado
No passado, era proibido aos homens com menos de quarenta anos que não fossem casados, bem como às mulheres, estudar Cabala. Mas foi o Ari quem determinou que, a partir da sua geração em diante, a Cabala é permitida a todos os homens, mulheres e crianças, desde que estejam impregnados de desejo pela espiritualidade, o que testemunha a maturidade das suas almas.
O nosso desejo e paixão pela espiritualidade, e a nossa procura pelo sentido da vida, são os únicos testemunhos da nossa prontidão para estudar a sabedoria da Cabala. Para além disso, o rabino Kook respondeu à pergunta "Quem pode estudar Cabala?" com palavras simples: "Qualquer pessoa que o deseje."
Conhecimento prévio
Não é necessário qualquer conhecimento prévio para estudar Cabala. Trata-se de uma ciência que lida com o contacto espiritual do homem com o Criador. Se a pessoa sente necessidade de estudar o Mundo Superior, o conhecimento adquirido neste mundo pouco ajudará. Os estudantes desejam compreender as leis do Mundo Superior, e não as leis deste mundo. Por isso, a essas pessoas não se devem colocar exigências ou condições prévias de determinados cursos antes de poderem iniciar os seus estudos.
A única exigência é ler os livros correctos e ter um desejo genuíno pela espiritualidade. Ou seja, a Luz só é alcançada pelo desejo de corrigir o desejo. O intelecto humano actua como auxílio para realizar os nossos desejos egoístas. Se tentarmos compreender a Torá apenas através do intelecto, poderemos perceber a sua ciência, mas não a Luz.
Por conseguinte, as pessoas que estudam apenas as leis práticas da Torá e as cumprem mecanicamente, sem corrigir os seus corações, são chamadas gentios. Elas têm o conhecimento, mas não têm a Luz. A Torá é a luz do Criador que entra nos vasos corrigidos, enquanto o conhecimento é o domínio do que está escrito, onde e como. Pode-se ser proficiente em toda a Torá, saber todo o Talmude de cor, mas ainda assim não ter qualquer realização espiritual real.
Este fenómeno existe também no estudo da Cabala: pode-se ser proficiente em todos os textos da Cabala e dominar o texto como um professor universitário, mas isso não significa que todos os desejos tenham sido corrigidos, nem que se tenha substituído o egoísmo pelo altruísmo.
Esse é o verdadeiro objectivo da nossa Criação e o objectivo da entrega da Torá. Se estudarmos e aplicarmos o que estudamos, corrigimos a nossa natureza. Só então se considera que estamos a estudar Torá. Mas se estudarmos apenas para adquirir conhecimento, é apenas isso que estamos a fazer.
Por isso, um verdadeiro Professor não exige proficiência aos seus estudantes. Pelo contrário, deseja ver as suas dúvidas, a sua fraqueza, a sua sensação de falta de compreensão e a sua dependência do Criador. Estes sinais testemunham o início do processo de equalização com as Forças Superiores.
Se os estudantes principiantes se orgulharem do seu conhecimento e demonstrarem confiança e autoestima, é porque quanto mais aprendem, mais proficientes se tornam, tal como em qualquer outro conhecimento. No entanto, a sabedoria da Cabala, ao contrário de qualquer outro estudo e contra o senso comum, não deve aumentar o nosso conhecimento, mas sim a sensação da sua falta.
Durante o estudo
Baal HaSulam, Introdução ao Estudo das Dez Sefirot, item 155:
"Por isso devemos perguntar: então, porque é que os cabalistas obrigaram cada pessoa a estudar na sabedoria da Cabala? Na verdade, há aqui algo importante, digno de ser divulgado: existe um remédio magnífico e de valor inestimável para aqueles que estudam a sabedoria da Cabala. Embora não compreendam o que estão a estudar, através do anseio e do grande desejo de compreender o que estão a estudar, despertam sobre si próprios as Luzes que rodeiam as suas almas.
Isto significa que cada homem de Israel tem garantida a realização última de todas essas maravilhosas realizações que Deus resolveu, conceder a cada criatura no Pensamento da Criação. Mas aquele que não as tiver alcançado nesta vida, alcança-las-á na próxima e assim sucessivamente, até completar aquilo que Ele pensou inicialmente.
E enquanto o homem não tiver alcançado a perfeição, estas Luzes, que estão destinadas a vir até ele, são consideradas Luzes Circundantes. Isto significa que elas estão prontas para ele, aguardando que ele alcance os vasos de recepção. Então estas Luzes revestir-se-ão dentro dos vasos aptos.
Assim, mesmo quando os vasos estão ausentes, quando estudamos esta sabedoria, mencionando os nomes das Luzes e dos vasos relacionados com as nossas almas, somos imediatamente iluminados até certo ponto. No entanto, elas iluminam-nos sem se revestirem na interioridade das nossas almas, uma vez que não temos os vasos necessários para as receber. Na verdade, a iluminação que recebemos repetidamente ao estudar atrai sobre nós graça do Alto, conferindo-nos uma abundância de santidade e pureza, fazendo-nos avançar grandemente para a nossa perfeição."
Um guia espiritual
É difícil distinguir um verdadeiro Professor na espiritualidade de alguém que finge sê-lo. Nos dias de hoje, toda a gente quer diversão barata e fácil, respostas rápidas e soluções rápidas. As pessoas podem facilmente ser enganadas por oradores eloquentes e ignorar as características da orientação espiritual, que, por natureza, não são teatrais.
Se assim é, como podemos identificar um Professor na nesta geração? Um Professor espiritual pode ser proficiente em muitos campos – ciência, leis e costumes religiosos, educação, etc.
No entanto, não basta conhecer o que está escrito nos livros de Cabala para se tornar um guia espiritual. Tal pessoa pode apenas compreender a sabedoria, e os nossos sábios advertem-nos: "Sabedoria nos gentios, Acreditem; Torá (Luz) nos gentios, não Acreditem."
A palavra "gentio" não se refere a um não-judeu, mas a um egoísta ainda por corrigir. Tal pessoa pode exibir um conhecimento impressionante em Cabala e vangloriar-se disso perante os seus estudantes, exibindo conhecimento com citações exactas dos textos, etc.
Esta exibição de conhecimento pode, a princípio, levar os principiantes a considerar este rabino como uma pessoa espiritual. Isto porque os estudantes principiantes não conseguem ver o que é a espiritualidade, e sem ela não há maneira de examinar a sua ausência ou presença em alguém. Um principiante passa por mudanças tão fundamentais no início da jornada que é difícil compreender o que se passa dentro de si, quanto mais avaliar correctamente outra pessoa.
Um estudante principiante é analfabeto mesmo em relação à Torá escrita, e pode tomar qualquer pessoa por um grande Professor. No entanto, existe uma diferença fundamental entre um cabalista e uma pessoa proficiente na Torá: na Cabala, um rabino é mais do que apenas um rabino, é um guia espiritual. O significado da palavra hebraica "Rabi" é "Grande". O Professor e o aluno percorrem o caminho espiritual simultaneamente.
O objectivo do Professor não é que os seus alunos o temam e o respeitem; pelo contrário, deseja que eles estudem de tal forma que desenvolvam temor, respeito e amor pelo Criador; quer colocá-los cara a cara com o Seu poder. Quer ensiná-los a dirigir-se directamente ao Criador. Aqueles que passam pelo desenvolvimento espiritual sentirão, em determinado momento, a sensação de ignobilidade, fraqueza, egoísmo e vileza dos seus próprios desejos.
Depois de experienciarmos estes sentimentos, já não podemos orgulhar-nos de nós próprios, pois começamos a ver que tudo o que recebemos vem do Criador. Por isso, um Professor de Cabala é uma pessoa modesta que vive uma vida quotidiana como qualquer um de nós, e não um sábio desligado deste mundo.
É por isso que nem o Professor cabalista nem os seus alunos são arrogantes; não impõem as suas ideias aos outros, nem pregam. O objectivo do rabino é voltar o aluno para o Criador em cada assunto, e não para si próprio. Em todos os outros métodos, mesmo quando fingem ser cabalistas, os alunos começam a sentir reverência pelo Professor, e não pelo Criador.
A sabedoria da Cabala é a ciência mais prática de todas. Tudo é objecto de experimentação por parte do aluno. Por isso, um guia espiritual cabalista não é apenas um rabino, mas um guia, um treinador que trabalha ao lado do seu aluno. Mesmo quando o aluno não o sente, o rabino ajuda-o sempre e orienta-o.
Onde se Encontra um Professor?
Encontrar um guia espiritual é uma tarefa bastante difícil. Já referi que o facto de ter encontrado o meu rabino foi um grande milagre. O nosso mundo caminha para a correcção, queiramos ou não. O desígnio geral do Criador cumpre-se mesmo contra a nossa vontade. Ele desenvolveu-nos até ao ponto em que podemos escutar o que Ele deseja dizer-nos.
Para que isso acontecesse, foi necessário desenvolvermos o nosso intelecto e a nossa tecnologia ao ponto de acreditarmos na possibilidade de uma velocidade infinita, de energia e pensamentos percorrerem grandes distâncias e de uma substância se transformar noutra. Tivemos de ser conduzidos até ao ponto em que pudéssemos acreditar na possibilidade de distorções do espaço e do tempo, e noutras situações outrora inimagináveis.
A humanidade alcançou isto e encontra-se agora à beira de compreender o seu desejo egoísta. Pensamos que este desenvolvimento tem vantagens, mas aproximamo-nos exactamente do oposto: da compreensão de que a evolução deve ser interna, espiritual, e não externa.
O Criador faz-nos desenvolver a tecnologia enquanto sustenta a nossa evolução interna, tanto a nível individual como no conjunto da humanidade. Para tal, o Criador utiliza mensageiros — cabalistas secretos que vivem entre nós.
Enquanto ignoramos a sua existência, eles estão à nossa volta, ao nosso lado, trabalhando e vivendo tal como nós. Absorvem os nossos desejos, pensamentos, prazeres e dores, misturam os nossos egos egoístas com os seus desejos altruístas e, dessa forma, transmitem a correcção, de modo a trazer cada um de nós a escutar e a aceitar as ideias espirituais.
Os desejos espirituais altruístas destes cabalistas secretos e os seus vasos são imensamente maiores do que os nossos desejos egoístas, porque o desejo deles é dar tudo ao Criador, enquanto o nosso é apenas deleitar-nos com o que encontramos diante dos nossos olhos neste mundo. Assim, um cabalista secreto consegue facilmente absorver os desejos de milhões de pessoas, corrigi-los a um nível geral e elevá-los a um estado em que cada um possa iniciar a sua própria correcção individual.
Para além disso — e isto é difícil de compreender —, o nosso mundo existe por causa destas pessoas. Estes indivíduos precisam de infantários para os seus filhos, de livros, de roupas, etc. Essas necessidades justificam a existência desses objectos no nosso mundo.
Na verdade, esta é a justificação para a existência de tudo. É por isso que todas estas coisas existem e são corrigidas posteriormente. Estas palavras podem parecer falsas, exageradas ou desligadas da realidade, mas o tempo provará que é exactamente assim que o mundo é gerido.
É impossível encontrar estes cabalistas, porque a sua tarefa é permanecerem escondidos e trabalharem em segredo com toda a humanidade. Então, como se encontra um Professor? Cada um deve procurar por si mesmo. Onde cada um termina é onde pertence.
O mais importante nesta procura é não mentir a si próprio, dizendo que se encontra no lugar certo neste momento. Não faça compromissos consigo mesmo e não siga o exemplo dos outros. A única forma de uma pessoa encontrar o lugar certo para si é escutar-se a si propria e não aos outros. É preciso examinar a própria alma para ver se é aí que se sente à vontade, se é aí que a alma encontra o seu alimento.
Existem pessoas entre nós que olham para os outros e tentam segui-los; elas silenciam a voz das exigências da sua alma quanto à evolução espiritual. Fecham os olhos e contentam-se com a sabedoria académica em vez do desenvolvimento espiritual.
Naturalmente, assim que alguém se mistura com o colectivo, sente confiança, mas isso é auto-engano, porque esse sentimento só deveria surgir de um contacto directo e pessoal com o Criador!
Por isso, aqueles que seguem o caminho do crescimento individual sentem-se menos seguros e mais dependentes. Estas sensações são enviadas pelo Criador precisamente para que precisem d’Ele! Então o próprio egoísmo procurará a ligação com o Criador, tentando encontrar confiança e paz; e a ligação com o Criador é, de facto, o propósito da criação.
Um Discípulo Sábio
Um discípulo sábio é aquele que deseja aprender directamente do Criador. Mas o que podemos aprender do Criador? A única propriedade do Criador é o Seu desejo de deleitar as Suas criaturas. Na medida em que alguém deseja adquirir exactamente esta propriedade — ou seja, deleitar o Criador —, merece o título de “discípulo sábio”, ou seja, discípulo do Sábio (o Criador).
Os estudantes devem trabalhar intensamente no trabalho espiritual para que as suas orações, destinadas a igualar os seus atributos aos do Criador, sejam escutadas. Aqueles cujos corações estão vazios e que aparentemente querem alcançar a espiritualidade, mas apenas exibem o seu trabalho perante os outros, não receberão nada! Não se pode enganar o Criador nem o próprio coração.
Quando desejamos apenas o Criador e fazemos todos os esforços possíveis para alcançar este objectivo, então os nossos desejos serão concedidos pelo Criador.
Aqueles que seguem o caminho espiritual estão proibidos de falar sobre o nível que alcançaram, porque onde começa o sentimento, as palavras terminam. Devem, antes de mais, saber o que precisam para a sua correcção, porque ainda não compreendemos a natureza do vaso digno de receber a Luz Superior, nem sequer a natureza da própria Luz.
Aqueles que frequentam as lições começam gradualmente a sentir que não compreendem nada. Isso já é a aquisição de uma verdade básica. O Criador dá-lhes esse sentimento porque deseja aproximá-los d’Ele. Quando o Criador não deseja aproximar alguém d’Ele, dá-lhe satisfação na vida, na família e no trabalho. Na verdade, só é possível evoluir através de uma sensação permanente de insatisfação.
Existe outra forma de evoluir, ou melhor dizendo, "de ser educado": desenvolvendo em si próprio o sentido de completude.
Dessa forma, o educador evita qualquer subida ou descida no discípulo. Esta é a base da educação tradicional. Quando se tem o sentido de completude, surge a tentação de interromper o progresso, pois o ego fica satisfeito.
É a intensidade da insatisfação que cria o desejo de romper a rotina indolente. Isto é importante na espiritualidade, pois a insatisfação é a força que nos impele para o crescimento espiritual. Apenas o esforço e o trabalho suficientes, tanto em qualidade como em quantidade — únicos para cada pessoa —, podem conduzir-nos ao objectivo desejado. Por isso, qualquer forma de ensino da Cabala e de divulgação da sabedoria beneficiará aqueles que a praticam, porque os praticantes actuam como tubos através dos quais o conhecimento do Criador se derrama sobre o nosso mundo.
O conhecimento cabalístico não é válido antes de passar pelo coração, pelas emoções. Podemos estudar qualquer ciência do mundo sem alterar os nossos atributos; não existe uma única ciência que exija aos cientistas que mudem as suas opiniões e se corrijam a si próprios. Isto acontece porque todas as ciências giram em torno da acumulação de conhecimento sobre a parte exterior do nosso mundo, embora até a ciência comece a descobrir a dependência entre os resultados de uma experiência e os atributos do cientista que o realizou. No futuro, os cientistas descobrirão que qualquer conhecimento real só pode ser alcançado se o investigador igualar as suas próprias propriedades às do objecto de estudo.
Portanto, se desejamos compreender a estrutura do mundo no nível em que estes acontecimentos são formados, onde as nossas almas habitam antes de descerem a este mundo e para onde regressam no final, se queremos ver a estrutura da realidade tal como ela é, sem depender do tempo que controla as nossas vidas (o sonho de muitos físicos), então devemos nós próprios tornar-nos semelhantes a essa Realidade Superior.
A Cabala ensina-nos como podemos aprender a sentir as camadas superiores da realidade. Uma Luz de Sabedoria só pode ser sentida por um vaso que tenha sido preparado para ela, através do progresso num estado chamado "fé acima da razão". O aspecto interessante e belo de todo este processo é que um vaso espiritual só se origina quando se realizam efectivamente acções orientadas para a doação. Mas aqueles que estudam e permanecem ao nível da sua própria razão, com o conhecimento adquirido no nível animal, descobrirão que o seu conhecimento apenas alimenta o egoísmo e não apoia a criação de um vaso com Masach [Tela].
Devemos vigiar os desejos que surgem dentro de nós. Todos os nossos desejos nos são enviados do Alto, incluindo o desejo pela Luz, ou pela honra, pelo dinheiro, pelo conhecimento e assim por diante. Cada um de nós deve examinar atentamente os desejos que surgem em si a cada momento e escolher aquele que deve realizar, não segundo os princípios da Cabala nem segundo os "sentimentos instintivos".
Parece-nos extremamente difícil renunciar aos prazeres deste mundo quando nos são oferecidos em tanta abundância que basta estender a mão para os agarrar. Não parece possível que possamos renunciar a eles em favor de algum prazer espiritual futuro que não compreendemos.
No entanto, assim que as nossas propriedades se aproximarem um pouco mais das do Criador, veremos a ilusão dos nossos prazeres mundanos, a sua futilidade e falta de sentido comparados com a mais pequena gota que recebemos através da nossa adesão ao Criador. Nessa altura, preferiremos naturalmente o deleite espiritual egoísta ao deleite egoísta corpóreo.
São-nos dadas muitas oportunidades para iniciar o nosso progresso na direcção correcta. É importante identificá-las e não desperdiçar nenhuma que nos seja dada pelo Criador. Devemos aspirar unicamente a Ele e tentar ver a Sua orientação em tudo o que nos acontece, em cada pensamento que nos vem à cabeça.
Os maiores cabalistas escreveram sobre como se deve avançar para o mundo espiritual. O Criador dá-nos muito mais do que precisamos para avançar; devemos ser-Lhe gratos, e aos cabalistas, por nos terem dado tudo isto.
Os Professors que nos transmitiram o desejo do Criador e o propósito da Sua Orientação encontravam-se num nível espiritual tão elevado que está além da nossa imaginação, tanto mais antes de alcançarmos sequer os primeiros e mais baixos níveis espirituais.
O conceito de "receber para nosso próprio benefício" nem sequer existe nos níveis que os nossos líderes espirituais alcançaram. Eles encontram prazer no contacto com Ele, que regressa a Ele! Os grandes cabalistas encontraram palavras especiais para descrever para nós as operações do Criador; revestiram a Sua luz e as Suas acções com palavras e expressões. Os cabalistas escreveram num nível que pudéssemos compreender no início das nossas jornadas, para que, depois, através do nosso trabalho árduo e do estudo do texto, pudéssemos sentir directamente e de forma completa a Sua Luz.
O Ambiente de Aprendizagem
De acordo com o desígnio da criação, devemos chegar a um estado em que possamos viver segundo as leis espirituais. Os problemas que todos experienciamos, os desastres e catástrofes globais, surgem todos para trazer cada um de nós, individualmente, e a humanidade como um todo, a cumprir os mandamentos espirituais enquanto ainda vivemos neste mundo.
Baal HaSulam escreve sobre a Cabala que ela é um método para "a revelação da Sua Divindade às Suas criaturas neste mundo" (A Revelação da Divindade). Ele não escreve sobre o que acontece depois da morte, mas especificamente sobre o que deve acontecer connosco enquanto estamos aqui, neste mundo. A Cabala trata apenas das coisas de que precisamos neste mundo, das coisas que devemos alcançar se não quisermos que as nossas vidas sejam desperdiçadas e tenhamos de reencarnar para terminar o que não terminámos antes. Por isso, a sabedoria da Cabala é a ciência mais prática e necessária que existe.
É inevitável: a própria vida obriga-nos a actuar desta forma, e no final de todo o sofrimento ainda temos de completar a nossa correcção individual. Não é que algo vá realmente mudar no final da correcção; será o mesmo universo, com as mesmas estrelas, as mesmas aves e as mesmas árvores. Mas a nossa consciência mudará! A nossa percepção do mundo à nossa volta mudará porque seremos diferentes por dentro. Nada mais precisa de mudar, apenas continuar de forma natural, guiado pelo Criador. A única diferença será que o homem se tornará um Homem real, em vez do animal que é hoje.
Isto pode ser alcançado estudando num grupo especial, com os livros correctos e guiado por um verdadeiro guia espiritual. Está escrito que quanto mais os discípulos de um Professor compreenderem aquilo que o seu Professor deve fazer, mais próximos estarão, tanto os discípulos como o Professor, de alcançar a perfeição. É isto que Baal HaSulam escreve; ele descreve como devemos estar no nosso estado corrigido.
Primeiro, aprendemos sobre a concatenação dos mundos, dos Partzufim e das Sefirot, de Cima para baixo. Na segunda fase, deve-se começar a subir os níveis espirituais que foram preparados de antemão de baixo para cima, com o objectivo de alcançar a correcção enquanto se vive no nosso mundo. Ao todo, existem 125 níveis que nos separam do Criador e que devemos ascender nos mundos espirituais. Esses níveis são as fases de realização espiritual do Criador.
No meu estado actual, paramos de acordo com a compreensão da nossa natureza egoísta. Consideramos isto ou aquilo como bom ou mau; aprendemos do nosso ambiente e atuamos em conformidade.
Quanto mais nos conectamos ao nosso ambiente circundante, mais livre nos sentimos neste mundo, e vemos que o mundo à nossa volta muda conforme desejamos vê-lo.
Cada geração é caracterizada pelas suas almas únicas. Vemos quão diferente é cada geração ao vermos quão diferentes são os nossos pais em relação a nós. Isso acontece porque as almas acumulam cada vez mais experiência em cada ciclo de vida, e as suas exigências aumentam em comparação com a geração anterior. Por isso, cada geração deseja novas descobertas, que induzem um progresso ainda maior em cada geração.
Quando começamos a questionar o nosso mundo espiritual, começamos a querer mover o nosso ambiente e o mundo inteiro para a equivalência com o Criador. A última fase desta mudança será a de que o mundo alcançará a equivalência absoluta com o Criador. Essa geração é chamada "a última geração", não porque não haverá nada depois, mas porque esta geração é a mais perfeita, aquela que não necessita de mais correcção.
A Cabala não fala sobre a evolução que virá depois disso; esta parte pertence aos segredos da Torá. A Torá (Cabala) fala apenas sobre como subir os 125 níveis da realização espiritual do Criador.
Por um lado, o nosso ambiente é o lugar onde cumprimos as leis espirituais e transformamos o nosso ambiente. Por outro lado, podemos sempre mudar-nos a nós próprios juntamente com as mudanças do ambiente. As alterações no nosso ambiente afectam-nos na proporção do número de pessoas que o compõem. Por exemplo, um grupo de estudantes é simultaneamente um lugar de correcção e uma fonte de força para cada um dos seus membros. Mesmo que alguém não esteja forte e não consiga contribuir para o grupo num determinado momento, esse membro receberá ainda assim força do grupo para a sua própria correcção.
É por isso que cada pessoa deve construir o ambiente pessoal correcto. Desta forma, pode receber forças para a correcção espiritual e pode ascender após cada descida. Num grupo que ainda não consegue fornecer forças suficientes para a correcção, haverá muitas pessoas desanimadas que não têm força para progredir. Num ambiente capaz, embora estas situações apareçam, não duram.
Cada nível é constituído da seguinte forma: "à direita" está o poder altruísta do Criador; "à esquerda" está a força egoísta do desejo que foi criada por Ele. No meio está a criatura. Agora, a criatura deve usar a quantidade certa de forças do lado direito e do lado esquerdo e usá-las para subir ao nível seguinte.
Os termos "direita" e "esquerda" são simbólicos, tal como todos os outros símbolos cabalísticos, mas utilizamo-los para ajudar a definir as características dos Mundos Superiores.
Este processo de direita, esquerda e meio continua até ao 125.º nível. Estes níveis estão divididos em cinco mundos, com vinte e cinco níveis interiores em cada um. O primeiro mundo espiritual a partir de baixo, aquele que está acima de nós, chama-se mundo de Assiya. Acima dele encontram-se os mundos de Yetzira, Beria, Atzilut e, por fim, Adam Kadmon. O nosso mundo está abaixo do nível mais baixo do mundo de Assiya e encontra-se separado dele pela barreira.
As forças tanto da "direita" como da "esquerda" ajudam-nos a superar as dificuldades na passagem de um nível para o seguinte. Quando começamos a trabalhar contra o nosso egoísmo, sentimos o poder e o desejo de ascender. Esta é a primeira fase, o lado direito, o das forças do Criador.
A segunda fase é simplesmente quando nos viramos para a "esquerda" e acrescentamos mais egoísmo com o qual trabalhar. Agora, estamos num estado completamente oposto ao da "direita": estamos desanimados, deprimidos e fracos. No entanto, estar no lado "direito" depende do Criador, e não de nós.
É necessário estar no lado "esquerdo" para sentir o egoísmo, mas o tempo que permanecemos aí depende unicamente de nós. Podemos encurtá-lo ao mínimo.
A duração do tempo em que nos sentiremos mal depende de quanto tempo permanecermos na "linha esquerda". Se compreendermos que o nosso actual estado "mau" surge apenas para corrigir o nosso futuro, consideraremos a situação como boa, e experienciaremos qualquer dor como uma necessidade e, portanto, como algo bom.
É assim que a nossa percepção do bem e do mal mudará: o grupo e o ambiente podem ajudar a corrigir estes sentimentos, porque podemos retirar forças espirituais deles até entrarmos também nós no mundo espiritual. Todas as criaturas são, na realidade, partes do corpo de Adam HaRishon, e apenas os nossos desejos não corrigidos, ou corpos, nos separam d’Ele.
Quando o egoísmo é removido, podemos receber conhecimento de outras almas. Podemos senti-las porque todos estão dispostos a fazer o que for necessário uns pelos outros. Um grupo deve ser construído com um único objectivo em consideração: tornar-se uma unidade completa com um espírito uniforme. Deve ser mantido rigorosamente um nível igual entre todos os membros do grupo. Todos devem estar dispostos a ajudar-se mutuamente e a misturar-se uns com os outros em todos os momentos.
Na verdade, recebemos uma "carga" espiritual do nosso grupo na medida em que estamos dispostos a anular o nosso próprio ego perante cada membro e perante o grupo como um todo. Um inferior pode receber de um superior, mas para que isso aconteça, cada membro deve considerar os outros como superiores a si próprio.
O foco do grupo deve ser sempre "a grandeza do Criador". Esse objectivo deve ditar todos os movimentos. Quando isso acontece, todos poderão receber a carga espiritual do grupo e as descidas passarão de forma suave.
Cada nível de almas constrói para si o ambiente correcto para o seu nível. Tudo depende do nível, ou seja, do nível interior das almas.
Um bom grupo é um grupo flexível, que permite que o princípio da mudança domine, mesmo que isso signifique mudanças constantes que indicam o seu progresso. A vida, o trabalho, a família, a vida física no corpo corpóreo, tudo deve mudar de acordo com a espiritualidade dos membros do grupo. É isso que o Criador quer de nós.
Os nossos corpos permanecerão neste mundo, enquanto a nossa alma estará no mundo espiritual. Quanto mais frequentemente a alma realizar o espiritual, melhor o corpo físico se acostumará às leis espirituais. No final do nosso desenvolvimento espiritual, as relações familiares e entre membros do grupo devem ser construídas segundo as leis do mundo de Atzilut.
Adam HaRishon foi deliberadamente criado com o seu corpo-desejo constituído por nove Sefirot, e a Malchut dividida numa parte que pode absorver e adoptar as propriedades das nove Sefirot superiores — que incluem as propriedades do Criador — e numa parte que não pode adoptar essas propriedades, chamada "coração de pedra".
Adam HaRishon pecou ao esperar receber a Luz na Malchut a partir das nove Sefirot superiores, a fim de a oferecer ao Criador. Porém, como a Malchut não conseguiu adquirir essa propriedade, esse objectivo altruísta, ele recebeu a Luz para benefício próprio. Como resultado, a sua alma desintegrou-se em 600.000 almas separadas que não conseguem sentir a alma completa que outrora formavam, nem umas às outras.
Cada parte dessa alma é um desejo de receber prazer. Chama-se "ego" e precisa de ser corrigido. É corrigido ao ser elevada pelos 125 níveis, ou seja, cada correcção é uma correcção de 1/125 em cada uma das 600.000 almas-desejos. Cada vez que uma parte passa do lado direito para o lado esquerdo e regressa ao meio, tirado lado direito o poder do Criador, ou seja, o desejo de doar, e adquire do lado esquerdo o desejo de receber. A linha do meio é a soma: um desejo de receber para doar.
A pessoa recebe sempre, do Alto, força suficiente para vencer o egoísmo do lado esquerdo, corrigindo a parte egoísta correspondente de trabalhar para receber para benefício próprio para trabalhar para doar. Recebe-se apenas aquilo que se consegue tirar. Se um indivíduo não recebe força do Alto, não lhe será enviada uma situação má.
Se um membro do grupo deseja tornar-se mais espiritual, deve conseguir retirar sempre do grupo tanto força espiritual como egoísmo. Por essa razão, estas duas propriedades devem andar sempre de mãos dadas no grupo.
Uma pessoa que chega à Cabala é normalmente muito egoísta e muito independente. Essa pessoa precisa de tempo para começar a querer o Criador e para compreender a importância do objectivo da Criação. Só então o ego pode começar a diminuir perante o grupo, de modo a poder tanto dar-lhe como receber dele.
No início, pode haver relutância em contribuir para o grupo, mas a causa colectiva deve obrigar cada membro a fazê-lo. Se todos compreenderem que não existe nada mais importante do que o objectivo da Criação, será mais fácil para todos se tornarem úteis ao grupo.
Se alguém ainda se preocupa mais com os prazeres mundanos e não consegue libertar-se deles, isso significa que ainda não chegou o momento de pertencer ao grupo. A alma dessa pessoa ainda não está pronta para assumir as leis espirituais. Quando se terminam todos os prazeres deste mundo, então é-se impelido para a espiritualidade. Não é necessário viver todas as experiências possíveis neste mundo antes de se decidir que não se precisa delas. Este conhecimento é alcançado ao receber-se do Alto a prova da inferioridade da caça aos prazeres animais.
O que nos atrai na espiritualidade é o prazer relativamente maior que nela encontramos, em comparação com o mundo corpóreo. Essa é a razão pela qual a desejamos, e é genuína. Todo o nosso mundo existe e alimenta-se apenas de uma centelha minúscula de Luz espiritual que irrompeu através da barreira e penetrou no nosso mundo. Agora, imaginemos um mundo espiritual completamente preenchido de Luz, bilhões e bilhões de vezes maior do que a centelha deste mundo. Imaginemos que prazeres existem aí!
Mas como chegamos lá? Sabemos que, para o fazer, precisamos de alterar toda a nossa natureza egoísta, de um desejo de receber para um desejo de doar. Porém, o que não compreendemos é este desejo de doar. Pessoalmente, não tenho palavras para a explicar. O nosso intelecto simplesmente não possui as “curvas” necessárias para nos ajudar a perceber algo assim, porque o nosso intelecto opera num sistema egoísta.
Para além disso, dizem-nos que basta mudar a intenção do desejo, e não o desejo em si, para obtermos o prazer. Isto significa que estamos a falar de um conceito completamente psicológico, e ainda assim receberemos prazer na mesma. Então, qual é a diferença e para quem é que eu recebo?
Isto levanta a questão: "Onde está essa válvula que precisamos de accionar para o receber?" A "válvula" encontra-se na fronteira entre o egoísmo do nosso mundo e o altruísmo do mundo espiritual. Chama-se "a barreira".
Quando atravessamos a barreira, terminámos as nossas preparações. As nossas emoções estão agora maduras para o mundo espiritual. Para chegarmos a tal estado, precisamos de um grupo e de perseverança nos estudos.
Precisamos que o nosso grupo nos ajude a desenvolver a intensidade de desejo necessária para a espiritualidade. Depois, ocorre uma ruptura interior e começamos a receber do Alto a força e o conhecimento espirituais.
Livros
Em cada geração, o Criador envia a este mundo almas especiais cujo objectivo é rectificá-lo e transmitir o Seu Conhecimento à humanidade. Diz-se que "o Criador viu que não havia sábios suficientes, pelo que os plantou em cada geração". É por isso que existem líderes e guias espirituais em cada geração que adaptam a sabedoria da Cabala às propriedades específicas do seu tempo.
Existem centenas de livros que foram escritos ao longo dos anos sobre a sabedoria da Cabala. Estes começaram com o primeiro livro sobre a sabedoria da Cabala, Raziel HaMalaach (O Anjo Raziel), escrito por Adam HaRishon, e o segundo livro, Sefer Yetzira (Livro da Criação), escrito por Abraão, o Patriarca. No entanto, o livro mais popular na sabedoria da Cabala é o Livro do Zohar. Foi escrito no século III d.C. por Rabbi Shimon Bar-Yochai.
O cabalista contemporâneo Rabbi Yehuda Ashlag (1884-1954) escreveu um comentário sobre o Zohar e sobre todos os escritos do Ari numa linguagem actual, para que pudéssemos compreendê-lo. Hoje, as almas que descem ao nosso mundo são tais que apenas o Zohar e os livros do Ari, com os comentários de Baal HaSulam (Rabbi Yehuda Ashlag) e os seus próprios livros, nos podem ajudar a entrar no mundo espiritual.
O comentário de Rabbi Ashlag chama-se comentário Sulam (Escada) porque, quando se estuda pelo Livro do Zohar, ascende-se espiritualmente de baixo para cima como se fosse numa escada. O comentário que Rabbi Ashlag escreveu sobre a Árvore da Vida do Ari chama-se O Estudo das Dez Sefirot. Para além disso, Rabbi Ashlag escreveu um grande número de livros complementares, incluindo Matan Torah (A Entrega da Torá), O Livro das Introduções, Beit Shaar Hakavanot (Portão das Intenções) e outros.
Recomendo estudar Cabala apenas segundo os livros deste grande cabalista, porque estão escritos numa linguagem simples e clara, e oferecem visão sobre todo o conhecimento oculto do Zohar e das fontes que o precederam. Recomendo também a leitura dos livros de Rabbi Baruch Ashlag e dos livros que eu publiquei. Não recomendo a leitura de outras fontes, por receio de que o texto seja mal compreendido.
Contudo, uma vez que o estudante adquire os fundamentos da sabedoria da Cabala através do estudo dos livros de Rabbi Ashlag, pode ler qualquer literatura disponível sobre Cabala, porque saberá distinguir se o livro é espiritual ou não. O conteúdo do livro tornar-se-á claro e as fontes verdadeiras distinguir-se-ão facilmente das falsas.
A ordem correcta de leitura dos livros de Baal HaSulam é a seguinte: Matan Torah, Prefácio ao Zohar, Reflexão Interior da primeira parte de O Estudo das Dez Sefirot, Prefácio à Sabedoria da Cabala, Introdução ao Estudo das Dez Sefirot.
Linguagem dos Textos Cabalísticos
Os cabalistas escreviam normalmente em hebraico ou em aramaico, pelo que é muito difícil estudar Cabala sem conhecer o hebraico. A língua hebraica tem um significado especial. Cada palavra, cada combinação de letras ou cada forma de escrita oculta um conhecimento espiritual que não pode ser traduzido para outra língua. Só se conseguem compreender as palavras e as frases em hebraico de acordo com o nível de desenvolvimento espiritual de cada um. Isso deve-se ao facto de a compreensão estar relacionada com a equivalência de propriedades com o significado oculto das palavras.
É impossível transmitir essa informação através de uma simples tradução para outra língua, mas é certamente possível começar o estudo da sabedoria da Cabala numa língua estrangeira. Só mais tarde será necessário o hebraico, consoante o progresso espiritual de cada um. Dito isto, os estudantes conseguirão sentir o progresso espiritual que estão a realizar e compreendê-lo mesmo sem a língua. Pois, como se diz, "a sua alma o ensinará".
A maioria dos textos principais da Cabala foi escrita em hebraico. Um estudo profundo destes textos exige um conhecimento mínimo de hebraico. No entanto, a Cabala pode ser escrita em qualquer língua. O Zohar, por exemplo, foi escrito em aramaico, que era a língua falada na antiga Pérsia há dois mil anos. A Cabala fala de emoções e experiências por que passamos, e estas podem ser explicadas em qualquer língua, ou mesmo sem ela, como através da música ou de outros meios.
Todos aprendem línguas: os músicos precisam de conhecer um pouco de italiano, os médicos necessitam de algum latim básico e o pessoal de informática tem de saber inglês. Cada ciência tem a sua própria língua. A língua da Cabala é o hebraico, embora pudesse ser explicada também noutras línguas.
Quando Estudar?
A Cabala estuda-se à noite, quando os outros normalmente dormem e não há obstruções dos seus pensamentos egoístas. Os esforços para despertar o corpo físico e subjugá-lo para o objectivo espiritual são recompensados do Alto, e os estudantes adquirem propriedades altruístas.
Os cabalistas comportam-se de acordo com os seus objectivos: ou se isolam e permanecem escondidos, ou se expõem a todos com grande publicidade, com o objectivo de atrair estudantes e criar a próxima geração de cabalistas. Neste último caso, constituem um grupo de estudantes. O estudo em grupo é muito mais benéfico do que o estudo individual.
Está escrito na Introdução ao Estudo das Dez Sefirot, item 155, que existe uma Luz Circundante que brilha à volta de toda a pessoa que estuda Cabala, a qual purifica e prepara a sua alma para receber a Luz Interior. A intensidade dessa Luz depende da intensidade do desejo de alcançar o texto que está a ser lido.
Poderá ter notado que, quando estamos num grupo, começamos a interessar-nos pelas coisas que interessam às pessoas à nossa volta, tal como o nosso apetite aumenta quando vemos outra pessoa a comer. Uma pessoa que vê os amigos a estudar Cabala sente inveja deles. Isso promove o desenvolvimento de desejos espirituais e aumenta o poder da sua Luz Circundante.
Para além disso, se várias pessoas estudam juntas, isso não significa que estejam simplesmente sentadas na mesma sala a ler o mesmo livro. Elas partilham os mesmos desejos e as mesmas intenções, e uma aspiração para se libertarem do seu egoísmo e para se relacionarem com os amigos como se relacionam consigo próprias. Nesse caso, os seus desejos de desenvolvimento espiritual unem-se e atraem uma quantidade imensa de Luz Circundante, que afecta cada um deles. É por isso que é tão mais fácil obter bons resultados em grupo do que sozinho.
O Método de Estudo
O método de estudo deve basear-se no trabalho de grupo e, ao mesmo tempo, enfatizar o trabalho individual. Baal HaSulam e Rabash escreveram muito sobre como devemos estar atentos aos pensamentos e desejos dos nossos amigos. Se um amigo faz uma pergunta durante a aula, cada um dos participantes deve tentar compreender esse pensamento. Chama-se Hitkalelut (integração, adesão) de uns com os outros. Desta forma, todo o grupo vive dentro de cada um dos seus membros.
Para chegarmos a isso, devemos diminuir o nosso próprio valor aos nossos olhos em comparação com o dos nossos amigos, de modo a podermos recolher os pensamentos, desejos e propriedades interiores e espirituais dos outros. Assim, cada um ganhará e enriquecer-se-á. Não é aconselhável falar de assuntos espirituais fora da aula. Se o fizerem, podem explicar os processos espirituais na linguagem da Cabala: Partzufim, Sefirot, mundos, que Luzes vão para onde, etc. Tudo isto é uma ciência e todo o conhecimento.
Esse conhecimento pode ser explicado porque não impõe nada a ninguém. Pode transmitir-se a compreensão da Cabala a outros, mas não os sentimentos e desejos interiores. No início, deseja-se coisas como saúde e riqueza através do estudo, promoção no trabalho e assim por diante. Pensa-se: "Talvez a Cabala me ajude a prever o futuro para poder ganhar o euromilhões."
Em suma, queremos melhorar a nossa vida. Procuramos o benefício próprio em tudo o que fazemos neste mundo; essa é a nossa natureza. Mesmo quando alguém se suicida, fá-lo porque não quer sentir dor, ou seja, procura melhorar a sua situação.
As considerações vão mudando, mas o mais importante é compreender por que fazemos o que fazemos.
O Percurso do Desenvolvimento
Quando nos encontramos num determinado nível, determinamos como nos estamos a relacionar com aquilo que preenche os nossos vasos (o que queremos), ou seja, quais os desejos que são puros (altruístas) e quais não o são (egoístas). É este exame que determina os nossos níveis espirituais. Ao fazê-lo, melhoramos as nossas propriedades interiores.
Não subimos nem descemos por nenhuma escada de níveis espirituais; tudo o que muda é a proporção entre a parte corrigida e a parte não corrigida. É isso que determina os nossos degraus e níveis de desenvolvimento espiritual. No sentido físico, todos permanecem iguais, mas interiormente tudo muda. É no interior que subimos deste mundo para o mundo de Assiya, Yetzira e assim sucessivamente até ao mundo de Ein Sof.
Existem cinco mundos sagrados (puros), ou seja, cinco níveis na evolução do vaso, do Masach [Tela]: Shoresh, Aleph, Bet, Gimel e Dalet. Está escrito na Introdução ao Estudo das Dez Sefirot que, se se estudar pelo método correcto e se fizer todos os esforços com a intenção certa, o mundo espiritual pode ser alcançado em três a cinco anos.
Isto significa que podemos corrigir-nos e iniciar a nossa ascensão espiritual efectiva de acordo com as nossas capacidades reais. Não significa que tenhamos de parar todas as outras actividades. Pelo contrário, devemos trabalhar, estudar, criar famílias e passar pelos problemas e dificuldades que a vida coloca. É assim que evoluímos.
Devemos esforçar-nos apenas na medida das nossas possibilidades. Não nos é exigido que façamos algo que ultrapasse as nossas capacidades. Suponhamos que precisamos de 6 a 7 horas de sono por dia. Trabalhamos cerca de 8 horas, desperdiçamos cerca de duas horas no trajecto de e para o trabalho, comemos, tomamos banho e dedicamos tempo à família.
Não é isto que a Cabala exige de nós. A Cabala requer o tempo que sobra depois de todas as ocupações necessárias terem sido realizadas. Se investirmos todo o nosso tempo livre na Cabala, isso será certamente suficiente.
O mais importante no estudo é dedicar duas ou três horas pela manhã, antes de irmos trabalhar, a estes esforços. Esse tempo é retirado apenas de nós próprios. Estas 2-3 horas são suficientes. É importante estudar com a intenção correcta; perguntem a vocês próprios por que o fazem. A intenção é a coisa mais importante!
Como mencionámos anteriormente, a espiritualidade pode ser alcançada em três a cinco anos. No entanto, esse processo pode também demorar seis anos ou mais. De qualquer modo, alcançar a espiritualidade é obrigatório, porque se não o fizermos nesta vida, fá-lo-emos nas vidas que hão-de vir.
Devemos pensar para que estamos a viver – cada esforço que fazemos neste trabalho, cada pensamento, é acrescentado à contabilidade geral dos nossos esforços espirituais. Quando a quantidade de esforço for suficiente, recebemos um "impulso" do Alto e entramos no mundo espiritual.
Exigir Recompensa
Porque precisamos estudar, trabalhar, viver, e para onde nos levará tudo isto, em última análise?
Devemos considerar o Criador em cada acto nosso e querer sempre apenas Ele e unir-nos a Ele. Temos de pensar constantemente e examinar o que Ele quer de nós. Esse objectivo deve estar sempre diante de nós, em cada momento. Se o objectivo estiver sempre claro, isso transformará alguém num cabalista e poderemos começar a sentir o conhecimento dos mundos espirituais.
Aprender mais ou menos o texto tem pouca importância. Utilizamos o conhecimento para nos ligarmos à matéria; quanto mais estudamos, maior se torna a nossa exigência ao Criador e mais intensa se torna a pergunta: "Porque é que ainda não recebi nada? Onde está o resultado dos meus esforços? Dediquei tantas horas de trabalho, perdi muito dinheiro porque não trabalho quando estudo, não dou tempo suficiente à minha família, poderia ter-me divertido noutros lugares..." Todos esses argumentos só aumentam a nossa exigência egoísta ao Criador: "Porque é que ainda não recebi nada?"
Por essa razão, devemos exigir recompensa por cada minuto, por cada segundo que dedicamos à Cabala. Não devemos dizer: "Estou aqui porque sou altruísta." Podemos ser altruístas noutro lugar, mas na Cabala devemos ser completamente avarentos. Devemos questionar cada minuto dado à Cabala: "Porquê? Para quê?"
Só então nos concentraremos directamente no objectivo. Se não exigirmos recompensa por cada minuto, isso significa que não precisamos do minuto seguinte, que não fazemos qualquer exigência aos nossos estudos. Se for esse o caso, ficaremos de mãos vazias.
O exame constante das razões dos nossos actos, minuto a minuto, é o nosso maior bem. O nosso intelecto e o nosso corpo revoltam-se veementemente contra isso. Estamos dispostos a fazer qualquer coisa: desenhar imagens, estudar meticulosamente as Sefirot, os mundos, escrever artigos sobre Cabala — qualquer coisa para escapar ao exame do objectivo, à pergunta principal sobre a nossa ligação com o Criador.
Todo o egoísmo encontra-se exactamente no ponto entre o homem e o Criador. Terá de extinguir o Seu egoísmo exactamente na medida em que quiser unir-se a Ele. O Criador só pode ser sentido onde o egoísmo é extinguido. Isso resume todo o nosso trabalho, e é precisamente disso que nos é proibido falar uns aos outros. É-nos proibido falar da intenção, das razões, do que exactamente exigimos do estudo. No entanto, podemos falar quanto quisermos sobre o estudo — os Partzufim, as Sefirot.
Não tem importância se o nosso amigo conhece ou não a matéria. Não tenha medo de que lhe digam algo incorrecto, isso não tem significado. O importante é que estudou um pouco e, principalmente, que o fez com um amigo. Por isso, se alguém lhe perguntar alguma coisa, dê a resposta. Não tenha medo de estar errado, porque não é importante.
Contudo, não menospreze o seu conhecimento. Este conhecimento é muito importante porque o resultado do estudo será a unificação das experiências e o sentimento interior do texto que se estuda. Começará a compreender o que é um Masach [Tela], um desejo, uma Luz, um prazer; começará a ver como a Luz entra e como sai e impele, e começará a sentir essas ações dentro de si. É por isso que temos de estudar, porque no final o estudo, o trabalho interior e os sentimentos unir-se-ão para criar uma experiência grande e única.
Mas no início, quando o estudo está desligado dos seus sentimentos, não tem importância se alguém sabe mais ou menos do que Você, ou se está correcto ou não. Porém, quando o estudo se torna algo que sentimos, então é proibido transmiti-lo aos outros! Podemos transmitir conhecimento, mas nunca sentimentos e emoções.
Em geral, só devem ser discutidos temas gerais. Os problemas que se relacionam com o objectivo de cada um são problemas pessoais, não temas para discussão. Os meus alunos só vêm ter comigo quando estão completamente desorientados. Mas se dirigirem as suas perguntas a outros, prejudicam-se a si próprios e prejudicam os seus amigos.
O homem nasce um pequeno egoísta. Depois do parto, está ali uma criaturinha feita de puro egoísmo, deitada na cama a chorar. Nesta fase, o homem não difere de qualquer animal jovem. Desenvolve-se através dos cinco sentidos, vive, alcança coisas neste mundo, talvez se torne cientista, é feliz e não precisa de mais nada.
No entanto, existem algumas diferenças entre o homem e os animais: o homem quer enriquecer, ganhar poder e controlo, honra e conhecimento. Para alcançar estas coisas não é preciso o Criador, mas se alguém for permeado por uma pequena raiz do futuro vaso espiritual vinda do Alto, começa a procurar algo com que preencher esse vaso.
O Criador, aparentemente, implanta a ideia de uma pequena fonte de Luz, ou uma pequena necessidade de Luz — na verdade é a mesma coisa. O sangue não pode preencher a necessidade de Luz, nem a riqueza, nem o poder, nem a honra. Essa necessidade e o seu preenchimento não pertencem a este mundo, mas ao mundo espiritual. Em cada nível existe um desejo especial e o seu preenchimento. Se alguém estiver permeado de desejos corpóreos, esses desejos podem ser satisfeitos neste mundo. Não importa se o preenchimento é grande ou pequeno; o importante é que o preenchimento exista neste mundo.
Se alguém estiver permeado de desejos que não são deste mundo, então começa a procurar. Pode procurar em qualquer lado com esse desejo e mesmo assim não o consegue satisfazer. Não existe satisfação mundana para essa necessidade. Ela é dada do Alto e, portanto, é daí que deve vir a sua saciação.
Às vezes consegue-se desligar esse desejo e entrar num coma — é assim que a maioria das pessoas vive. Mas algo continua a incomodar: o que se pode fazer?
Se não se conseguir conter esse desejo dentro de si, a procura começa e aquele que procura acabará por encontrar a Cabala. A partir do momento em que se começa a estudar Cabala, os problemas começam. É preciso trabalho para preencher um desejo com prazer. Digamos que para ganhar determinada quantia de dinheiro é preciso trabalhar arduamente durante certo número de anos.
Mas para alcançar fama é preciso acrescentar mais 20-30 anos. Tudo depende do nível que se procura. Qualquer conquista exige esforço. Os esforços que fazemos no nosso mundo, juntamente com os prazeres e desejos que nos aguardam no futuro, parecem estar na mesma linha — quanto mais fazemos, mais perto ficamos do que queremos obter.
Outro mês, outro ano, mais dez anos — não importa. Estamos a dirigir-nos para isso, vemos claramente a imagem e até podemos dizer quando alcançaremos o nosso objectivo.
Na Cabala também existe um desejo, mas de quê? Isso é algo que não sabemos. O prazer está num nível superior ao nosso. É como dar a determinado animal um desejo de conhecimento. Na verdade, isto está ainda mais próximo do que o desejo que nos é dado.
Quando estamos permeados de desejo espiritual, não nos damos conta do tipo de esforços que teremos de fazer para o realizar. Não vemos o resultado final desse desejo e nem sequer vemos para que precisamos dele. Podemos sentir o desejo da nossa alma, mas se nos perguntarem o que queremos, não conseguimos dizer exactamente. Só sabemos que nos sentimos mal porque não conseguimos satisfazer-nos.
Piora ainda mais quando tentamos realizar esse desejo e recebemos imediatamente o resultado oposto ao que esperávamos. Não vemos qualquer ligação entre os esforços que fazemos e o objectivo que queremos alcançar.
Normalmente, quanto mais nos aproximamos do objectivo, mais claramente o vemos. No entanto, na Cabala não é assim. Aquilo que antes era claro torna-se subitamente confuso, um bom carácter transforma-se de repente em mau humor e nada mais parece certo.
Pensamos que seguimos o caminho correcto e esperamos receber coisas maiores em troca dos prazeres deste mundo que abdicamos. Afinal, se os nossos desejos são tão grandes, também o deveria ser o nosso prazer. Concordamos em trabalhar mais do que trabalhamos para este mundo, mas, no fim, ainda temos de ver o que iremos realmente receber.
A Cabala, porém, funciona exactamente de forma oposta. Recebemos constantemente respostas negativas e caímos em depressão. Embora no início possamos estar optimistas, pensando que as coisas vão correr bem, não correm. Em vez de encontrarmos o nosso destino na Cabala, ou desaparecemos por completo ou os estudos tornam-se insípidos, confusos e estranhos para nós.
Esta turbulência é necessária para passarmos do nível dos desejos deste mundo para o nível dos desejos do mundo espiritual. O homem deve desprender-se completamente de qualquer interesse próprio no resultado do seu trabalho; isto é o verdadeiro altruísmo. É por isso que é preciso atravessar uma fase de completa discrepância entre o esforço e os resultados.
O egoísmo corpóreo do homem foi agora impregnado de egoísmo espiritual — uma centelha de Luz dentro do seu egoísmo. O egoísmo obedece a regras diferentes no mundo espiritual. Para que esse egoísmo espiritual seja preenchido, temos de rejeitar o nosso nível actual de egoísmo e ascender, por assim dizer, ao nível desse desejo espiritual.
Quando nos é dado um desejo espiritual, não existe qualquer outro sentimento para além da ausência de prazer; é o vaso na sua forma mais pura. Por essa razão, todas as operações, todos os esforços só são possíveis com a ajuda do corpo. É o corpo que nos acorda cedo de manhã, que nos leva para a cama tarde à noite e que nos incentiva a ler e a ocupar o intelecto.
Trabalhamos com corpos que pertencem a este nível, e é neste nível que o corpo quer ser recompensado. Imediatamente começa a apresentar uma reivindicação justa e natural: "Que ganhei eu com todo este trabalho?" Talvez tenhamos avançado no nível espiritual, mas isso não é resposta para o corpo corporal; ele não o consegue sentir. Por enquanto, nem sequer consegue sentir nada do desejo espiritual que lhe foi dado do Alto.
Resumindo: trabalha-se, progride-se, aprende-se, mas não se sente nenhum resultado concreto nem no intelecto nem na alma. Isso leva naturalmente o corpo a um estado de depressão, perplexidade e falta de justificação ou raciocínio que permita aquele que procura continuar.
Sensações e Emoções
Quando se chega a este ponto, surge a dor e o tormento. A dor é dada deliberadamente; se a superarmos, virá uma maior proximidade da verdade. Superar significa que, mesmo sob a dor corpórea mais insuportável, devemos tentar encontrar o contacto com o Criador, a Origem de tudo, Aquele que nos pode preencher a todos. Estas situações dolorosas são cruciais. Podem tornar-se pontos de viragem no caminho. Depois de todos estes imensos esforços, recebemos uma recompensa verdadeira!
Existe apenas uma recompensa: a sensação da verdade. Se alguém quiser apenas isso, e não se importar com as dores físicas, nem com o facto de ainda não terem surgido recompensas espirituais, concentrando-se antes em alcançar uma sensação de verdade maior do que antes, essa pessoa poderá progredir e, por fim, tornar-se um cabalista.
O caminho será duro, podem ter a certeza disso. O trabalho, a família, algo correrá sempre mal, surgirá o sentimento de que tudo está mal e de que o futuro não promete nada. Esse sentimento é dado do Alto deliberadamente, para que tentemos superar estas situações através do grupo e dos livros. Há alturas em que não é preciso ler livros, mas simplesmente estar com os nossos pensamentos.
Nesses momentos, o mais importante é manter-se no caminho. O que o intelecto não consegue curar, o tempo curará. É preciso ser muito rigoroso: "Não vejo nada, não ouço nada, sinto-me mal, mas nada disso importa. Estudo como uma máquina automática, mas estudo."
Este esforço dará os maiores frutos espirituais. Há situações em que somos reanimados, em que a Luz começa a brilhar um pouco e compreendemos que encontrámos uma resposta verdadeira, ainda que de longe. Depois, à medida que aumentamos os esforços, chegam as recompensas. No entanto, segue-se a depressão, pois nada no mundo nos agrada, enquanto também não possuímos nada do mundo espiritual. Este vaivém continua de um lado para o outro.
Devemos compreender que a recompensa que recebemos pelos nossos esforços neste mundo é a sensação da verdade; não é o prazer a que estamos habituados a receber. É assim que o Criador nos habitua a amar a verdade mais do que tudo, a avançar até desejarmos rejeitar todo o egoísmo corpóreo em favor da verdade.
Então poderemos ascender ao nível de onde nos foi dado o desejo espiritual. A partir desse momento, começaremos a receber desse nível de conhecimento espiritual, prazer e satisfação. Tornar-nos-emos cabalistas e nascemos no mundo espiritual. Portanto, se escolhermos sentir a verdade em vez da recompensa corpóreo, tornamo-nos cabalistas.
Não podemos controlar os nossos pensamentos; eles são enviados deliberadamente do Alto. Só podemos tentar reagir a eles correctamente. Mas o que significa realmente reagir correctamente? Recentemente veio ter comigo um estudante a dizer que já não sabia nada, que já não via nada, que se sentia mal, hesitante, que nada lhe corria bem. Queria que eu o acalmasse, lhe fizesse um carinho na cabeça e lhe dissesse que tinha uma Luz brilhante no seu futuro.
Mas eu não lhe posso dizer nada sobre o seu futuro. Qualquer resposta nestas situações é como roubar aquilo que lhe está a ser dado do alto. Não tenho o direito de apagar o desejo que nele existe; na verdade, estou proibido de aliviar sequer um pouco o seu desapontamento. E, no entanto, tudo isto é bom; é necessário e desejável. A única recomendação que lhe pude dar foi que continuasse a fazer mecanicamente aquilo que fazia quando estava numa situação boa.
Recebemos todo o tipo de pensamentos quando estamos em casa, no trabalho ou com a família. Por vezes esses pensamentos atrapalham o trabalho. Quando isso acontece, é preciso desligar-se dos pensamentos sobre o propósito da Criação.
Quando fiz a mesma pergunta ao meu rabino, ele respondeu-me: "Vês, é por isso que eu fui operário da construção, depois sapateiro, e tentei sempre ser um trabalhador simples. Levantava-me à uma da manhã e começava a estudar Cabala antes do trabalho. Quando era funcionário público, a verdade é que por vezes adormecia no emprego e estragava algum relatório em que estava a trabalhar, mas o que havia de fazer? Ofereceram-me cargos de direcção, mas eu sabia que num gabinete mais elevado me tirariam a cabeça e a alma. Por isso, continuei a escolher empregos que me deixassem sozinho comigo mesmo, embora pudesse ter ganho mais dinheiro. Fui pobre toda a minha vida. Tentava sempre encontrar um trabalho que, por um lado, me mantivesse a cabeça limpa e, por outro, me garantisse o futuro — um emprego que me desse o salário mínimo."
Vivemos num mundo em que, por vezes, é muito difícil escolher o tipo de trabalho que desejamos fazer. Além disso, o homem é uma criatura criativa que procura encontrar centelhas de criatividade no que faz.
Por vezes, é-nos retirada a compreensão de que estamos ocupados com coisas desnecessárias, e depois devolvida, e perguntamo-nos de repente: "Em que estava eu a pensar?" Mas estas situações são dadas de propósito, para que vejamos a nossa situação real, a nossa natureza verdadeira e o nosso nível actual. Devemos ver de onde nos temos de desprender e para onde devemos ir. Devemos reconhecer a falta da nossa própria força e a nossa necessidade de uma ligação com o Criador, a fim de nos salvarmos.
Provavelmente esquecerão tudo o que estou a dizer agora dentro de pouco tempo, porque só pode ser absorvido através da experiência pessoal. Quero apenas sublinhar um ponto: se estudarem pelos livros correctos, estarão sempre um passo à frente, aconteça o que acontecer. É-nos proibido saber tudo com antecedência, mas devemos recordar isto: disseram-me para ler estes livros, e é só isso!
Os nossos desejos vêm do Alto. Se houver algum efeito espiritual nestes desejos, então começamos a sentir a Força Superior do Criador a controlar-nos. Começamos a sentir toda a realidade e Aquele que a controla.
As sensações não têm linguagem. Limitamo-nos a chamá-las por nomes como azedo, amargo, agradável ou desagradável. Não conseguimos definir claramente cada uma destas sensações. Da mesma forma, não conseguimos comparar os sentimentos de diferentes indivíduos. Esse é o problema da psicologia e da psiquiatria. Não somos capazes de medir com exactidão o que sentimos, duplicá-lo, repeti-lo e compará-lo entre pessoas diferentes.
Como já dissemos, apenas o trabalho rotineiro e persistente, sem nos importarmos com os nossos sentimentos interiores, produzirá resultados espirituais. Baal HaSulam escreve uma história sobre isso no item 133 da Introdução ao Estudo das Dez Sefirot:
Havia um rei que queria escolher os seus súbditos mais leais e amorosos, para se rodear deles. Enviou mensageiros por todo o seu reino a anunciar que quem quisesse trabalhar dentro do palácio do rei, fazendo um trabalho especial, deveria dirigir-se ao palácio.
Explicação: é como uma pessoa que recebe um certo desejo de se aproximar do Criador, embora sem compreender a essência desse desejo. Assim começa a procurar. Pode dizer-se que toda a gente no mundo já se perguntou pelo menos uma vez qual era o propósito da sua vida. A resposta a essa pergunta é a obtenção do mundo espiritual, ou seja, a obtenção do Criador.
Voltando à nossa história: para descobrir quem realmente o amava, o rei colocou guardas nas estradas que levavam ao palácio, para confundir e desencaminhar deliberadamente as pessoas que ali se dirigiam. A sua função era assustá-las e explicar-lhes que não valia a pena trabalhar para o rei. Quando as pessoas ouviam falar da possibilidade de trabalhar para o rei, começavam imediatamente a dirigir-se para o palácio. (Isto é semelhante às pessoas que querem alcançar prazeres aparentemente maiores, em vez do pouco ou nenhum prazer que têm hoje).
Se não há nada que possa satisfazer o vosso novo desejo, isso significa que precisam de um prazer maior. Quando isso acontece, estarão dispostos a fazer todo o tipo de esforços que não faríam para satisfazer outros desejos, como deixar um bom emprego, ou renunciar a progressos futuros ou a riqueza, para alcançar a espiritualidade.
Os guardas rejeitavam as pessoas que se dirigiam ao palácio do rei, mas muitas ainda conseguiam aproximar-se do palácio e não davam ouvidos às histórias assustadoras dos guardas de que não valia a pena trabalhar para o rei. O nosso ego convence-nos de que não vale a pena servir o Criador. O Criador faz isto de propósito, porque é assim que o novo vaso é construído, precisamente através destes problemas interiores e observações. Isto é muito importante, e por isso estas coisas não devem ser discutidas abertamente com os outros. Mesmo o rabino está proibido de explicar qualquer coisa aos estudantes sobre estas situações. O estudante deve vivê-las por si próprio, interiormente, por mais difícil que seja.
Os guardas à porta eram ainda mais cruéis. Não deixavam ninguém aproximar-se da porta. Rejeitavam rudemente quem tentasse aproximar-se. A verdade é que, nas últimas fases antes da entrada na espiritualidade, sente-se rejeições cada vez mais duras, apesar da experiência acumulada. Mas esta experiência não desaparece, não é retirada. Cai-se uma vez, duas vezes, e uma terceira; acumula-se. Com o tempo, habituamo-nos a estas quedas e já não as consideramos insuportáveis, porque se torna clara a necessidade delas. Estas situações até trazem alguma alegria, porque trazem também o sentimento de que há verdade na experiência.
Apenas os mais persistentes de todos continuavam a tentar aproximar-se do rei. Recuavam sob a pressão dos guardas cruéis e depois voltavam a avançar, tentando aproximar-se do rei. Estas tentativas de chegar ao rei, seguidas de recuos sob a influência dos guardas cruéis que lhes diziam que não valia a pena trabalhar no palácio do rei, duraram muitos anos. Por fim, as pessoas enfraqueceram e foram-se embora.
Apenas os mais fortes entre eles, cuja paciência resistiu, que continuaram a tentar (paciência, e não qualquer conhecimento ou filosofia), continuaram a tentar e venceram os guardas cruéis, abriram os portões e foram imediatamente honrados com a visão do próprio Rei, que deu a cada um o seu cargo legítimo. É precisamente isto que Baal HaSulam escreve: "aqueles cuja paciência resistiu venceram", ou seja, aqueles que continuaram a estudar com paciência. Nada mais ajuda, porque esta é a única forma de acumular experiência no corpo físico.
Tudo o que acontece no nosso mundo é feito especialmente para nós; não temos controlo sobre o que acontece. No entanto, devemos pensar sempre que podemos escolher as nossas acções futuras. É aqui que devemos dizer a nós próprios que temos, sim, a liberdade de escolher. Depois de subirmos a um nível superior, vemos que, na verdade, não tínhamos qualquer liberdade de escolha.
Ou seja, enquanto estivermos num estado em que temos de escolher entre alternativas, devemos resolver sozinhos os problemas que enfrentamos, e não dizer que é tarefa do Criador fazer isto, que é problema Dele e não nosso. Esse problema foi-nos dado pelo Criador, é verdade. Temos realmente escolha em alguma coisa ou é tudo feito pelas propriedades que o Criador colocou em nós, ou pela influência social? Nada disso deve interessar-nos agora. Devemos ver o que está à nossa frente e resolver os problemas com os meios de que dispomos.
Devemos sempre tentar resolver os nossos problemas por nós próprios e, só depois, independentemente do resultado, pensar que tudo isto nos veio do Criador e que a resolução estava predestinada. O contraste entre o princípio e o fim cria grande confusão nos nossos sentimentos.
Não conseguimos compreender como nos relacionar com tudo isto, porque estamos condicionados por conceitos como passado, presente e futuro. Enquanto estivermos confinados aos limites deste mundo, e enquanto a nossa consciência funcionar pelo princípio de causa e efeito, não seremos capazes de compreender o que é a eternidade no nosso nível animal, onde nada muda alguma vez. Assim, enquanto estivermos nesse estado, devemos comportar-nos como se não soubéssemos nada, como se fôssemos donos das situações e tivéssemos de fazer tudo por nós próprios.
Se Eu Não Fizer Por Mim, Quem Será Por Mim?
Está escrito: "Se eu não fizer por mim, quem será por mim?" Por outro lado, diz-se: "Eu não faço nada e tudo é feito não por mim, mas pelo Criador." Estas frases parecem contradizer-se, mas quando as examinamos atentamente, vemos que podem e até devem coexistir sob o mesmo tecto.
Baal Shem Tov, um grande cabalista do século XVIII, escreveu que se deve levantar de manhã e ir trabalhar como se não existisse Criador e estivesse sozinho, como se não houvesse Ninguém do Alto para o ajudar. E embora acredite no Criador, deve dizer que o Criador não afecta o seu comportamento. Ou seja, deve dizer: "Eu sou o dono do meu próprio futuro."
Só pode haver um senhor no mundo – é o homem ou o Criador? No lugar onde podemos escolher, também nós somos o senhor; o Criador não está nele. É assim que devemos actuar durante o dia. Mas à noite, quando regressamos a casa com os ganhos na mão, nunca devemos dizer que fomos nós que os ganhámos e que tivemos sorte. O Criador planeou tudo com antecedência e, mesmo que tivesse ficado deitado na cama o dia inteiro, teríamos ainda assim tudo o que ganhámos.
Mas o nosso intelecto não consegue compreender isto nem unir estas duas ideias aparentemente contraditórias. Só depois de alcançarmos propriedades espirituais poderemos unir estes dois conceitos primários, embora contraditórios.
No dia seguinte devemos fazer o mesmo. No dia seguinte, ou seja, no momento seguinte, quando enfrentarmos uma escolha, devemos relacionar-nos com ela da mesma forma: "Tudo depende de mim." Depois de a nossa escolha se realizar sem expectativas e sem fé em Deus, seja qual for o resultado, devemos dizer: "Tudo foi feito pelo Criador."
Deve haver uma separação clara, como se fossem duas pessoas diferentes: uma que acredita e outra que não acredita, antes da decisão e depois dela.