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A Introdução ao Artigo: “Introdução ao Prefácio da Sabedoria da Cabala”

Todas as introduções compostas pelo Rabino Y. Ashlag (O Baal HaSulam) foram escritas para permitir ao leitor aceder ao conteúdo essencial, compreendê-lo e assimilá-lo. Além disso, todas as introduções são composições cabalísticas autónomas, dotadas de um poder espiritual e profundidade próprios.

1) Está escrito no Livro do Zohar (porção semanal Tazria, p. 40): “Todos os mundos, os Superiores e os inferiores, encontram-se dentro do homem. Tudo o que foi criado no mundo foi criado por causa do homem, e tudo vive e se desenvolve por causa do homem.”

É necessário compreender: não bastará ao homem este mundo e tudo o que nele existe, criado para o servir e para o fazer desenvolver, que ainda deseja também os mundos Superiores?

A Torá é um livro kabbalístico. Foi escrito pelo maior cabalista, Moisés. O Livro do Zohar é um comentário kabbalístico à Torá. O Livro do Zohar, tal como a Torá, está dividido em cinco livros e capítulos semanais. Um dos capítulos semanais intitula-se “Tazriya”.

Diz-se: “O Criador criou o homem com um nome completo. E tudo o que é criado é absolutamente perfeito; tudo se encontra nele.” Desta afirmação, percebemos que todos os mundos, os superiores e os inferiores, tudo o que os preenche e anima, exceto o Criador, está dentro do homem.

2) Para explicar o acima exposto, seria necessário expor toda a sabedoria da Cabala. Através do estudo continuado, o significado destas afirmações revelar-se-á numa fase posterior.

O essencial é que a intenção do Criador é doar deleite. No momento em que o Criador pensou em criar as almas e em deleitá-las, elas surgiram instantaneamente diante d’Ele na sua perfeição e sublimidade. Estavam preenchidas com um prazer infinito, que o Criador pensara doar-lhes. Só o Seu pensamento completou toda a Criação e não necessitou de qualquer acção física.

Surge então a seguinte questão: porque criou Ele mundos, restrição após  restrição, até ao nosso relativamente pequeno mundo, e depois colocou as almas — os seres criados — nos corpos insignificantes deste mundo?

Se o Criador é omnipotente, porque não dotou o homem de tudo o que é necessário? Porque não permitiu que cada um de nós agisse segundo a sua própria vontade? Se apenas o desejo fosse suficiente, cada um de nós teria criado um mundo muito melhor do que este. Porque, então, o Criador fez tudo desta forma?

Se agora sofremos, seja qual for a maneira, para colher benefícios no futuro, isso também aponta para uma imperfeição.

3) A resposta encontra-se no livro do Ari, ‘A Árvore da Vida’: “…foi criado por Ele para demonstrar a perfeição das Suas acções”. No entanto, é preciso compreender: como poderá uma acção tão imperfeita emanar do Criador perfeito? Para além disso, os seres criados têm de se corrigir e elevar espiritualmente através de acções neste mundo.

Porque criou Ele um mundo aparentemente tão inferior, com corpos imperfeitos, e colocou neles almas infinitas? Foi feito para que, depois, elas descobrissem o que significa a perfeição? Ou seja, o Criador formou o mundo mais insignificante e o homem mais insignificante, enquanto o homem deve esforçar-se para alcançar a perfeição. Será este o objetivo e a perfeição das ações do Criador?

Na verdade, é necessário distinguir nas almas duas partes: a luz e o vaso. A essência da alma é o seu vaso (Kli), e a abundância com que o Criador pensou deleitar as almas é a luz (Ohr), que preenche o vaso.

Assim que o Criador pensou em doar prazer às almas, teve de as formar sob a forma de um desejo de receber deleite. A dimensão do desejo de receber prazer determina a quantidade de prazer recebido. Devem saber que o desejo de receber prazer é a essência da alma. Foi criado do nada e chama-se “Kli” — o vaso da alma. A abundância e o deleite que preenchem o vaso definem-se como a luz da alma, que emana do Criador.

Esta luz emana do Criador. Apenas o desejo (o Kli), o vaso, foi criado. A luz provém do próprio Criador como prazer e preenche o Kli [Vaso]. Ou seja, o objetivo primordial era doar; o secundário, criar alguém que desejasse receber prazer. No total, há dois componentes na criação:

1) O Kli [Vaso] – o desejo de receber prazer, a alma, Adam HaRishon, a criação.

2) O deleite que emanou do Criador.

4) Criação é algo que não existia antes, ou seja, algo nascido do nada. Contudo, como podemos imaginar algo inexistente no Criador? Ele tem de incluir absolutamente tudo. Diz-se que toda a criação não é mais do que um vaso (um Kli) da alma, um desejo de receber prazer. Assim, é evidente que tal desejo está ausente no Criador. Portanto, o desejo de receber é uma criação totalmente nova, inexistente antes, e define-se como nascido do nada.

Não conseguimos imaginar o que é o “nada”. Tudo o que existe no nosso mundo tem uma preexistência, uma forma anterior; nasce de algo. Por exemplo, a matéria sólida forma-se a partir de gás. O que significa ser formado a partir do nada? Não o podemos compreender. Mais tarde, ao apreender a espiritualidade, tornamo-nos participantes na compreensão deste processo.

5) Convém sabermos que, no mundo espiritual, a proximidade e o afastamento determinam-se pela equivalência (semelhança) ou pela distinção de atributos. Se dois objectos espirituais tiverem a mesma forma, ou seja, os mesmos atributos, unem-se e constituem um todo único. Se não existir qualquer distinção entre os dois objectos, não é possível dividi-los em dois. A divisão só é possível se for encontrada uma diferença entre os seus atributos.

O nível de distinção nos seus atributos determinará a distância entre eles. Se todas as propriedades de dois objectos espirituais forem opostas, então estarão infinitamente afastados um do outro, ou seja, num estado de afastamento absoluto.

No nosso mundo, quando dizemos que um objeto se assemelha a outro, significa que ambos existem, mas são idênticos. No mundo espiritual, isso é impossível. Tudo nele se distingue pela diferença das suas propriedades. Se não há distinção, os dois objetos fundem-se e formam um só. Se há uma semelhança parcial de propriedades, então fundem-se nas suas propriedades comuns, como dois círculos sobrepostos. Um segmento de um círculo sobrepõe-se a um segmento do outro, formando uma área comum.

No mundo espiritual, existem duas propriedades: (i) “receber prazer” e (ii) “doar prazer”. Não há nada além destas duas. Se as confrontarmos, veremos que são completamente opostas e não têm nenhum ponto de contacto entre si. Contudo, se a propriedade “receber” for transformada na propriedade “doar”, ou seja, se a criação e o Criador tiverem desejos comuns, então aproximar-se-ão e unir-se-ão nessas propriedades. Os restantes desejos opostos permanecerão distantes. Inicialmente, a criação foi formada como absolutamente oposta ao Criador.

6) O pensamento humano é incapaz de apreender a perfeição infinita do Criador. Não há maneira de O expressar ou descrever. Contudo, ao sentir a Sua influência, podemos compreender que Ele deseja doar-nos deleite, pois o Seu único objectivo é dar-nos prazer e preencher-nos de bem estar.

Os atributos das almas são absolutamente opostos aos do Criador. Enquanto Ele é um doador sem qualquer vestígio de desejo de receber, as almas foram criadas apenas com o desejo de receber deleite. Por isso, não existe maior antítese de propriedades nem maior afastamento entre eles do que este. Portanto, se as almas tivessem permanecido no seu desejo egoísta de receber prazer, teriam ficado para sempre separadas do Criador.

Nenhuma palavra da nossa linguagem pode descrevê-Lo, pois estamos separados Dele pelas nossas propriedades e não O podemos sentir.

É importante destacar que esta Introdução foi escrita por um homem, o Baal HaSulam, que compreendeu tudo dentro de si próprio. Ele afirma que sentiu o Criador e as Suas ações, viu a Sua bondade absoluta. Ao nosso nível de entendimento, ainda não somos capazes de o sentir.

Porque não basta desejar o deleite para o receber? Porque temos de nos aproximar do Criador, igualar as nossas propriedades às Suas, fundir-nos completamente com Ele? Porque não pôde Ele criar um estado em que a criação, por um lado, recebesse prazer e, por outro, doasse prazer, como faz o Criador? Nesse caso, a Correção Final chegaria imediatamente, a criação fundir-se-ia com o Criador, preenchida pela Sua luz, tornando-se igual a Ele.

Porque temos de realizar todo este processo evolutivo nos nossos sentidos, perceber cada desejo como egoísta e oposto ao Criador, depois corrigi-lo, torná-lo altruísta, semelhante a Ele? Porque temos de sentir como nos aproximamos Dele e nos fundimos com Ele? O que ganhamos com isso?

7) Agora podemos compreender o que está escrito no livro “A Árvore da Vida”. A criação de todos os mundos é consequência da perfeição do Criador em todas as Suas acções. Porém, se Ele não tivesse revelado os Seus poderes nas acções que realiza sobre os seres criados, não seria chamado “perfeito”. No entanto, ainda não é claro como podem sair acções imperfeitas de um Criador perfeito.

Para além disso, as acções do Criador são tão imperfeitas que precisam de ser corrigidas pelo homem. Das afirmações acima, compreende-se que a criação é um desejo de receber prazer. Embora seja bastante imperfeita por ser completamente oposta e infinitamente afastada do Criador, é precisamente esta propriedade de receção especialmente criada que é necessária para que a Criação receba o deleite do Criador.

Surge aqui uma questão: “Para que criou o Criador todas as coisas?”  

Um cabalista, que fala apenas com base no que alcançou, afirma que Ele nos criou para nos doar o Seu deleite.  

Por exemplo, suponhamos que visitamos uma pessoa e vemos diante de nós um palácio magnífico. O anfitrião vem ao nosso encontro, dizendo: “Esperei por ti toda a minha vida. Vem e vê o que preparei para ti.” Em seguida, começa a mostrar todas as iguarias e a oferecê-las. Perguntamos-lhe:  

– Por que fazes tudo isto?  

– Faço-o para te proporcionar prazer.  

– O que ganhas tu com o meu prazer?  

– Não preciso de nada além de ver-te satisfeito.  

– Como pode ser que não precises de nada?  

– Tu tens o desejo de receber prazer, e eu não. Portanto, o meu deleite está em dar-te prazer.  

No nível humano finito, não conseguimos compreender o que significa dar sem receber nada em troca. Esta propriedade é absolutamente oposta à nossa natureza. Por isso, diz-se: “Apenas nas nossas sensações podemos conhecê-Lo.” Para além disso, não conseguimos apreender. Não temos forma de saber se o anfitrião tem alguma ideia ou intenção secreta.  

Se o Criador tem intenções em relação a nós, mas não as revela, não podemos conhecê-las. Cada um de nós, sendo criado como um Kli [Vaso], só pode compreender o que entra nele. É isso que preenche os nossos corações e intelectos. Quando desenvolvermos os nossos Kelim [Vasos] ao máximo, receberemos neles tudo o que emana do Criador. Então, sentiremos que Ele é absolutamente bondoso e não tem outros pensamentos senão doar deleite ao homem.

Existem os chamados 7.º, 8.º, 9.º e 10.º milénios, após o 6.º milénio – os seis mil níveis da realização espiritual da criação em relação ao Criador. Revela os Seus pensamentos, funde-se com Ele tão completamente que não restam perguntas. Não é porque o Kli [Vaso] está preenchido, mas porque o Criador permite que o Kli [Vaso] entre Nele.  

Esta equivalência de forma pode ser alcançada de duas maneiras. Ou melhoramos as nossas propriedades, ou o Criador piora as Suas. A correção das almas ocorre quando o Criador desce ao seu nível, piorando as Suas propriedades e fundindo-se com elas; em seguida, começa a melhorar as Suas propriedades, melhorando simultaneamente as das almas, como se as extraísse da sua impureza.  

Por exemplo, um professor junta-se a um grupo de jovens, fingindo ser tão frívolo quanto eles; começa a assemelhar as suas propriedades às deles e, depois, ao melhorar-se a si próprio, começa a torná-los um pouco melhores. Desta forma, corrige-os, eleva-os do seu baixo nível em direção à luz da verdadeira inteligência.  

Portanto, é necessário um agravamento inicial das propriedades do Criador para se igualar à criação, seguido pela melhoria e subsequente correção das almas criadas.  

Este processo depende do Criador; é realizado por Ele e, por isso, é definido como “o trabalho do Criador” (Avodat Hashem). No entanto, o homem deve estar disposto a passar por este processo se quiser que o Criador o transforme. Assim, ele deve preparar-se, ter força e compreensão para justificar o trabalho do Criador. Tal pessoa é chamada “justo”, pois é capaz de justificar as ações do Criador.  

Os desejos de receber e de doar constituem dois vetores morais e espirituais opostos, intenções. Um é dirigido para dentro, o outro para fora. Contudo, o facto é que, mais tarde, no processo de evolução da criação, esses desejos assumem muitas formas diferentes.  

Cada Sefira e Partzuf representa diferentes tipos de desejos. Estudamos os desejos na sua forma “pura”, mas, na verdade, um cabalista que os alcança, sente-os como muito mais complexos. No entanto, o desejo de receber prazer está sempre no cerne da criação, enquanto o desejo de doar está no cerne da influência do Criador sobre os seres criados.  

Exteriormente, o Criador pode agir como se desejasse receber, como ilustra o exemplo do Baal HaSulam sobre o anfitrião e o convidado. Este exemplo inclui todos os elementos das nossas relações. O anfitrião diz: “Preparei tudo para ti; escolhe apenas o que gostas. Ficarei encantado ao ver-te comer. Não me podes dar esse prazer?” Assim, pode fazer o convidado sentar-se e comer. Após tal persuasão, o convidado sente-se obrigado a comer e a disfrutar da refeição. Caso contrário, como retribuiria ao anfitrião por todos os seus esforços?  

No entanto, o convidado tem um problema diferente; faça o que fizer, o desejo de receber prazer está constantemente a “arder” dentro dele. É assim que ele foi criado, e não há como escapar disso. Ele só pode disfrutar do que recebe. Como pode doar? Recebendo: doar para receber. Como resultado, o seu ato de doar não é mais do que um meio para receber o que deseja.

De acordo com a nossa natureza, podemos receber tanto na ação como na intenção. A nossa ação pode ser doar ou receber, mas o nosso objetivo é o mesmo – receber prazer. O homem busca o deleite inconscientemente; é o nosso desejo natural. Ou seja, a essência da nossa ação depende unicamente das nossas intenções.  

Com a ajuda da intenção, podemos inverter a essência da nossa ação. Podemos receber doando, como no exemplo do anfitrião e do convidado. Em qualquer caso, só podemos receber; somos incapazes de doar algo. Com a ajuda da intenção, só podemos receber, seja “para nosso próprio benefício” ou “para o benefício de outrem”.

Portanto, as relações entre o Criador e o homem podem assumir inúmeras formas. Elas mudam em cada nível do crescimento espiritual do homem. O Criador muda em relação a nós através de um sistema de ocultações, revelando uma das Suas propriedades de cada vez, de acordo com a nossa capacidade de nos igualarmos a Ele.  

Se o Criador nos mostrasse as Suas propriedades genuínas, absolutamente perfeitas, tal como Ele é, não seríamos capazes de nos igualar a Ele. É por isso que Ele se diminui, ganha Aviut [Espessura] e, em vez disso, adapta-Se a nós. Só temos de nos elevar a este pequeno nível, tornar-nos semelhantes ao Criador numa única propriedade.

Assim que o fazemos, o Criador começa a revelar-se nessa propriedade a um nível ligeiramente superior e também noutras propriedades. Através de um sistema de mundos, Ele oculta a Sua perfeição, permitindo-nos assemelhar-nos a Ele e ascender espiritualmente.  

“Olam Hazeh” (“este mundo”) é a sensação interna do homem de estar num estado de egoísmo absoluto. É neste estado que o homem sente que existe um Criador extremamente distante e completamente oculto dele.  

Em virtude das suas propriedades criadas, o homem é totalmente oposto ao Criador e espiritualmente distante Dele. Tal sensação interior é chamada “Olam Hazeh”. Podemos estar sentados no nosso quarto e, simultaneamente, estar em “Olam Hazeh”, ou nos mundos de Assiya, Yetzira, Beria e Atzilut – estados interiores do homem que o ligam aos níveis espirituais.

O Criador encontra-se num estado constante de calma absoluta. O que significa isto? O Anfitrião, tendo descoberto o que mais apreciamos, preparou uma refeição especial e espera por nós. Quando nos aproximamos Dele, Ele persuade-nos a aceitar a Sua oferta. Apesar de todas estas ações, dizemos ainda que o Criador está num estado de calma absoluta, pois a Sua intenção “de doar à criação” é invariável.  

Por calma absoluta, entendemos um desejo constante e imutável. Este existe apenas no Criador, em todas as Suas ações. Essas ações são inúmeras, infinitas e vastas. Uma vez que todas estas variações de ações permanecem inalteradas e têm apenas um objetivo, definimo-las como um estado de calma absoluta.

Aqui não vemos movimento, pois não há mudança. Mas como podemos doar para receber prazer? No nosso mundo, fazemo-lo constantemente. Por exemplo, alguém trouxe-nos uma chávena de chá. Porque o fez? Porque lhe deu prazer fazê-lo, caso contrário não o teria feito. A nossa ação de doar ou receber não importa nada. A ação mecânica não determina coisa alguma.

Tudo é determinado apenas pela intenção. Existem quatro combinações de intenção e ação:  

- Receber para receber benefício próprio;  

- Doar para receber benefício próprio;  

- Doar para doar benefício aos outros;  

- Receber para doar benefício aos outros.

As duas primeiras combinações, “ação-intenção”, existem no nosso mundo. A terceira e a quarta existem no mundo espiritual. Se o homem consegue alcançar tal intenção, significa que está no mundo espiritual. A espiritualidade começa quando se doa para agradar. Isto é algo que não compreendemos: doar para agradar. Onde estou eu aqui? Estamos “desligados” do nosso ego, do nosso desejo de receber. Damos algo e agradamos a alguém sem receber nada em troca… Será isto possível?

Depois, há também “receber para doar benefício aos outros”. Quando o estudamos nos objetos espirituais – Galgalta, AB, SAG – parece bastante simples. Na verdade, somos incapazes de imaginar tal fenómeno na nossa vida.  

O facto é que receber prazer através de doar não é proibido. Contudo, a doação deve ser puramente espiritual, sem qualquer vestígio de “para benefício próprio”. Primeiro, o homem realiza um Tzimtzum (uma restrição), “ascende” a tal nível espiritual e adquire uma qualidade de total desinteresse pelas suas próprias necessidades. Só então pode doar e sentir-se deleitado, receber prazer através de doar, ou seja, o deleite que sente não resulta da sua doação, mas é uma consequência de alguém disfrutar do seu ato.  

Tzimtzum Alef (A Primeira Restrição) não é apenas uma ação realizada no mundo do Infinito. Se o homem consegue restringir-se e não pensar no seu próprio benefício, começa então a ascender, a “contar” os seus níveis espirituais.

Movimento é definido como uma mudança de desejo, ou, mais precisamente, o desejo ao qual ele pode adicionar a sua intenção “para o Criador” e não “para o seu próprio benefício”. Se o seu desejo é constante em tamanho e direção, a pessoa é considerada imóvel. Suponhamos que me deseja bem apenas em 20% da sua intenção. Se o seu desejo é apenas esse, então encontra-se absolutamente imóvel. Se ele muda em relação a mim, então a pessoa está em movimento.  

Enquanto ascende os níveis espirituais, o homem está em constante movimento em relação ao Criador. Parece também ao homem que, em relação a si mesmo, o Criador está constantemente a mover-se na sua direção. Isto porque, ao subir a um nível superior, a revelação do Criador à pessoa aumenta, ou seja, ele vê que o Criador é mais bondoso e deseja doar-lhe. Nas sensações do homem, a aproximação é mútua.  

Contudo, dizemos, “a Luz Superior está absolutamente imóvel”, a Luz Superior, não aquela que o atinge, ou seja, a intenção do Criador, não a sua luz. Não podemos sentir a Luz Superior até que ela entre no Kli. Dentro do Kli, podemos sentir as diferentes variedades de luz e a forma como nos afeta. No entanto, o Criador, a Luz Superior, está absolutamente imóvel, pois o Seu único desejo imutável é conferir-nos deleite.

Como sabemos disto? Há pessoas que ascenderam a um nível tão elevado que conseguiram compreender plenamente o desejo do Criador em relação à criação. Alcançaram o nível do maior Kli e preencheram-no completamente com a luz do Criador. Não podem subir mais alto, mas podem ver que tudo o que vem do Criador para a criação é bondade absoluta.  

“Pelas Tuas ações, Te conhecerei” – não podemos conhecer os pensamentos do Criador; podemos apenas verificar que tudo o que Ele faz é destinado a nós, para o nosso benefício supremo, demonstrando a Sua bondade infinita. Então, podemos dizer que a Sua atitude para connosco é absolutamente bondosa.  

O que significa ser absolutamente bondoso? Não nos referimos a Ele próprio, mas sim às Suas propriedades em relação a nós. O Criador em Si é incompreensível. Se o homem, no seu Kli, seja ele o Baal HaSulam, o Ari ou o Rabino Shimon, alcança a Correção Final (Gmar Tikkun) e recebe do Criador tudo o que pode – torna-se o único receptor! Talvez ele sozinho desfrute da atitude do Criador e outros não. Vemos que, no nosso mundo, o Criador trata um melhor e outro pior. Como podemos afirmar que Ele é absolutamente bondoso para todos?  

O facto é que, enquanto se eleva nos níveis espirituais, o homem absorve todos os vasos de todas as almas, conecta todas as almas criadas à sua. Ele absorve os seus sofrimentos e realiza as suas correções. Chama-se “aquele que sofre com o mundo inteiro é recompensado pelo mundo inteiro”. O homem recebe a luz que desce para todas as almas. Portanto, no seu estado final, cada cabalista é agraciado com sensações como se ele sozinho tivesse sido criado e fosse Adam HaRishon. Assim, ele sabe e sente o que o Criador faz com cada alma.  

Todos existimos num estado perfeito, mas não o sentimos. As nossas sensações são tão pouco refinadas e tão distorcidas que, segundo elas, o nosso estado é imperfeito. Os nossos sentimentos interiores são tão rudimentares que, mesmo assim, percebemos o nosso estado mais ditoso como imperfeito.

Mesmo agora, estamos num estado absolutamente perfeito. Contudo, são-nos enviados pensamentos e sentimentos que nos fazem crer que estamos num estado diferente, mau, como se “quando regressarmos ao Criador, veremos que foi um sonho”.  

Então, perceberemos que as nossas sensações eram totalmente rudimentares, que víamos a realidade de forma bastante diferente do que realmente era na altura. Não a podíamos perceber corretamente, pois os nossos sentidos estavam incorretamente afinados.  

Na verdade, todas as almas estão num estado perfeito. Nenhum estado mau foi alguma vez criado pelo Criador. Ele criou uma alma perfeita que está em plena fusão com Ele. Está completamente preenchida com a luz e deleita-se com a Sua grandeza e poder.  

Porque existem, então, outros estados? Porque, atualmente, não temos como sentir essa perfeição. Porque estão todos os mundos dentro de nós? Porque, a menos que corrijamos essas ocultações e distorções no nosso interior, não seremos capazes de perceber onde realmente estamos.

Na realidade, estamos lá e sentimos isso, mas não no nosso estado atual. Um cabalista neste mundo está constantemente a realizar correções. Ele sofre e preocupa-se enquanto faz essas correções em si próprio. Além disso, existem almas especiais no nosso mundo que assumem as correções gerais de todo o mundo, assim “puxando-o” para o bem universal.  

Mesmo nos nossos estados mais “sem vida”, passamos por mudanças tremendas. Não as podemos sentir. Por vezes, um dia passa como um instante, mas outras vezes arrasta-se por uma eternidade…  

Pergunta: O que significa quando o Partzuf recebe a luz e depois a expulsa?  

No nosso mundo, é impossível devolver o que já foi recebido dentro de nós. No entanto, ao falarmos de espiritualidade, referimo-nos a sensações. Imagine sentir-se maravilhoso, depois miserável, depois maravilhoso novamente, e miserável outra vez. Isto é, de certa forma, semelhante a receber a luz e expulsá-la. Este exemplo demonstra a impossibilidade de comparar ações espirituais com o nosso corpo material. São de um tipo muito diferente.

O desejo do Kli de adquirir um Masach [Tela] e assemelhar as suas propriedades às do Criador após a Primeira Restrição é apenas uma das correções “externas”, as chamadas “decorações”. A propriedade interna, o desejo de receber prazer, permanece inalterada de acordo com a lei espiritual que estabelece: “o desejo permanece imutável”. Ou seja, o tamanho do desejo criado nunca muda.  

O Criador criou o desejo em absoluta conformidade com a luz com a qual deseja preencher a criação. Nem o tamanho deste desejo, nem a sua qualidade, estão sujeitos a alterações. Apenas a intenção da criação durante a receção muda. A receção pode ser “para o benefício do Criador” ou “para o seu próprio benefício”. Há um anfitrião, mas não o podemos ver nem sentir; tudo o que vemos, usamos para o nosso proveito. Este estado é chamado “o nosso mundo”.

Sentir o Criador e ser capaz de afastar o que Ele nos oferece significa que atravessamos o Machsom – uma barreira entre o mundo espiritual e o nosso. Já temos uma intenção de não usar o nosso egoísmo: o desejo permanece e não é de forma alguma diminuído, mas o seu uso foi modificado de “para o nosso benefício” para “para o benefício do Criador”.  

Primeiro, apenas restringimos receber “para nosso benefício”; depois, podemos corrigir a nossa intenção e tornar o nosso Masach [Tela] ecrã tão poderoso que poderemos usar o nosso egoísmo “para o benefício do Criador”, ou seja, começar a receber “para o Seu benefício”.  

O nosso nível espiritual, o nosso lugar nos mundos espirituais, depende de quanto podemos receber para o Seu benefício. Se podemos receber assim um quinto da luz que nos está destinada, estamos no mundo de Assiya; se podemos receber dois quintos, estamos no mundo de Yetzira; se recebemos três quintos, estamos no mundo de Beria; se recebemos quatro quintos, estamos no mundo de Atzilut; e se recebemos cinco quintos, estamos no mundo de Adam Kadmon. Quando conseguimos receber tudo o que emana do Criador, regressamos a Olam Ein Sof (o mundo do Infinito), ou seja, o mundo da Receção Ilimitada.

Esse era o mundo da Receção Ilimitada sem o Masach [Tela], antes do Tzimtzum Alef (TA). Agora, também podemos receber a luz infinitamente, mas com a ajuda do Masach [Tela]. Este estado, que é tão marcadamente diferente da receção antes do TA, é chamado de Correção Final. Não há níveis no mundo do Infinito, embora surjam cada vez mais novas condições para a receção.  

Não estudamos o estado da criação após alcançar o mundo do Infinito, pois tudo o que está relacionado com o estado após a Correção Final é chamado “Sitrey Torah” (segredos da Torá). Tudo o que está relacionado com o estado antes da Correção Final é chamado “Ta’amey Torah” (sabores da Torá). Ta’amey Torah pode e deve ser estudado por todos. Todos são obrigados a compreendê-los. Podem ser apreendidos de duas formas (mais frequentemente em combinação): pelo “caminho do sofrimento” ou pelo “caminho da Torá”; de qualquer modo, o resultado será o mesmo, diferindo apenas no tempo e na sensação. Todas as pessoas terão de compreender Ta’amey Torah, ou seja, dominar a Cabala – a ciência de alcançar a luz da Torá.

Assim, como foi dito acima, o desejo em si permanece inalterado. Apenas o Masach [Tela] muda. De acordo com a magnitude do Masach [Tela], utilizamos apenas a parte do nosso desejo que podemos usar para o Criador. Em qualquer caso, qualquer parte do nosso desejo que utilizemos, recebemos sempre uma certa porção da luz em todos os nossos cinco níveis de alma.  

Suponhamos que há cinco pratos na mesa à nossa frente. Temos de cortar uma camada de cada prato, sendo que a “espessura” da camada dependerá da magnitude do nosso Masach [Tela]. Temos sempre NaRaNHaY – cinco luzes-prazeres (Nefesh, Ruach, Neshama, Haya, Yechida) sentidos em cinco partes do nosso desejo de receber deleite (Keter, Hochma, Bina, Zeir Anpin e Malchut).  

Se recebemos a luz num dos nossos desejos, significa que a recebemos em cinco partes do desejo (cinco Sefirot) no mesmo nível de Aviut. Isso significa que esta receção da luz (Partzuf) surgiu (nasceu) por causa de um Zivug de Haka’a (o Masach [Tela] interagindo com a luz).

É semelhante a pedir um menu fixo. Há vários tipos no valor de 10, 20, 30, 100 ou 1000 euros, mas cada um consiste em cinco pratos, pois temos sempre uma combinação de cinco desejos. Foi assim que o nosso desejo de receber foi originalmente concebido. Da mesma forma, temos cinco sentidos. Cada jantar consiste nos nossos cinco desejos, Keter, Hochma, Bina, ZA e Malchut; dentro deles, recebemos as luzes, Nefesh, Ruach, Neshama, Haya e Yechida.  

O Kli e a luz são nomes genéricos, mas os Partzufim têm nomes específicos. Por exemplo, os Partzufim no mundo de Adam Kadmon são chamados Galgalta, AB, SAG, MA e BON; no mundo de Atzilut – Atik, Arich Anpin, Aba ve Ima, ZON, etc.

Após a “Queda”, a criação, a alma comum, Adam HaRishon, dividiu-se em milhares de almas. No processo da sua correção, as almas ascendem e ocupam certos lugares nos mundos espirituais. Para dar a esses níveis nomes breves e precisos, chamam-se Abraão, Isaac, Jacob, Beit HaMikdash (o Templo), Cohen HaGadol (o Sumo Sacerdote), Shemesh (o Sol), Yareach (a Lua). Em correspondência com esses níveis e estados, foram dados nomes aos dias da semana, Sábados, festividades, etc., dependendo de como os mundos e as almas neles ascendem e descendem.

Agora podemos compreender do que realmente fala a Torá: ela descreve apenas a realidade espiritual – mundos, Partzufim, Sefirot e almas. Para descrever as almas e o que lhes acontece, usa-se a “linguagem dos ramos” tirada do nosso mundo. Assim, não se encontram na Torá nomes cabalísticos como Keter, Hochma, Bina, Atik e Arich Anpin. São aplicados nomes mais precisos e específicos, que designam um nível definido ou uma parte dele em certo estado. Nesse caso, esse nível poderia, por exemplo, ser chamado um lugar de descanso no deserto ou alguma ação, etc.

Independentemente das ascensões ou descidas do mundo, a alma está sempre envolta numa casca exterior. Neste momento, chamamos a nossa casca “este mundo” ou “nosso mundo”. Se o homem trabalhar sobre si próprio e atravessar o Machsom, ao lado deste mundo sentirá outro mundo, ou seja, mais forças externas, uma maior manifestação do Criador; o homem verá distintamente a luz que emana Dele, estabelecerá um contacto tangível com Ele.

O homem alcança este ou aquele nível de acordo com a magnitude do Masach adquirido, pois cada mundo e cada nível representam um filtro: do mundo do Infinito ao nosso mundo, há 125 níveis, ou seja, 125 filtros entre o mundo do Infinito e o nosso mundo.

Eu estava completamente preenchido com a luz no mundo do Infinito. No nosso mundo, estamos totalmente privados da luz, e não podemos nem vê-la nem senti-la, porque todos esses filtros ocultam-na de nós. Supostamente, cada filtro oculta uma 125ª parte da luz. Como há cinco mundos, cada um contendo cinco Partzufim, que por sua vez incluem cinco Sefirot, totalizam 5x5x5=125 níveis. Qual é o significado desses níveis?

Tal como o vidro, cada um deles retém a luz. Por exemplo, tomemos um pedaço de vidro vermelho. Por que é vermelho? Porque retém a cor vermelha. Como podemos evitar que este nível retenha a luz que vem até nós? É muito simples. Devemos corresponder às propriedades desse nível. Ou seja, ele retém a luz para nós porque não nos é permitido recebê-la.

Se a luz nos alcançar sem ser filtrada, recebê-la-emos “para meu próprio benefício”, pois não temos um Masach para ela. Portanto, o nosso Masach deve ser igual às propriedades do filtro desse nível, caso em que nós próprios seríamos capazes de enfraquecer a luz. Assim, se adquirir um Masach tão poderoso quanto este nível específico, correspondemos às suas propriedades e todas as suas restrições desaparecem para nós; elas deixam de existir.

Portanto, gradualmente, nível por nível, abolimos todos esses filtros até que todos desapareçam e reste apenas a luz. Esse estado significa a realização espiritual do mundo do Infinito. É ilimitado e não tem restrições, pois nós neutralizamo-las a todas.

Quando alcançamos um certo nível, começamos a sentir e compreender tudo nele de forma bastante distinta. Nós próprios tornamo-nos propriedade desse nível. Por isso, a Torá diz: “Todos devem ser como Moisés”, ou seja, devem ascender ao nível alcançado por ele, pois nos mundos espirituais “Moisés” é o nome de um certo nível, e quem o alcançar é considerado como Moisés.

Cada vez, o homem aumenta a magnitude do seu Masach de acordo com as propriedades do nível diante dele. Qualquer nível acima de nós é definido como o Criador; não podemos ver nada além dele, pois é a Sua manifestação para nós. Portanto, cada vez, devemos corresponder as nossas propriedades ao Criador diante de nós. Em cada nível, Ele é diferente, revelando-Se cada vez mais para nós.

Até que ponto? Suponhamos que a pessoa poderia roubar 1000 dólares que estivessem diante dela, mas se forem apenas 100 dólares, não o faria. Isso significa que ela já tem um Masach para 100 dólares, pelo que essa quantia pode ser colocada diante dela; ela será capaz de rejeitá-la, trabalhando altruisticamente com ela. Portanto, não é afetada pela proibição “Não roubar” em relação a 100 dólares.

Se ela conseguir fortalecer o seu Masach e não roubar 1000 dólares, então essa quantia não será uma limitação para ela, e poderá ser colocada diante dela. Da mesma forma, ela deve fortalecer o seu Masach antes que a luz infinita, destinada a preenchê-la, “seja colocada” diante dela.

Quando o homem consegue receber toda esta luz pelo benefício do Criador, experienciará um deleite 625 vezes maior que Malchut (criação) no mundo do Infinito. Por que receberá mais prazer? Por que foi necessária a descida de Malchut (alma) do mundo do Infinito ao nosso mundo? Com que propósito ocorreu a separação do Criador e o regresso gradual a Ele?

Foi feito para que, com a ajuda da liberdade de escolha, pela vontade e poder, ele pudesse alcançar um estado elevado como o mundo do Infinito. Estar no mundo do Infinito foi inicialmente determinado pelo Criador, não pelo homem. Se ele alcançar esse estado por si próprio, adquire os seus próprios Kelim [vasos] novos, o seu próprio Masach, as suas próprias sensações, ganha a sua própria eternidade e perfeição.

O facto é que, devido aos esforços independentes do homem, ele prepara-se para sentir o que realmente lhe é concedido no mundo do Infinito. Quando Malchut do mundo do Infinito nasceu pelo pensamento do Criador, recebeu a luz e depois restringiu-se de a receber mais, sentiu apenas uma pequena parte dela, pois o seu Kli [vaso] ainda não estava pronto.

À medida que a criação começa a ascender de um ponto totalmente oposto ao Criador, da escuridão completa, quando a fome e o desejo de desfrutar desta luz se acumulam gradualmente, a criação consequentemente começa a deleitar-se com a mesma luz, mas o deleite é já 625 vezes maior do que antes do início da correção.

A luz não muda; tudo depende da fome, do desejo de receber a luz. Se o homem não está faminto, não conseguirá desfrutar nem das melhores iguarias. Se está faminto, até uma crosta de pão tornar-se-á uma fonte de tremendo prazer. Assim, tudo depende de quão forte é a fome, não da luz. Pode-se receber uma medida escassa da luz, mas o vaso terá um enorme prazer nisso.

Pelo contrário, a luz pode preencher tudo ao redor, mas se o vaso não sente fome, sentirá, de toda esta luz, apenas Ohr Nefesh, uma luz muito pequena. Todo o Universo e o seu controlo são desenhados exatamente para preparar o Kli para receber o deleite perfeito; ou seja, para que ele realmente sinta o que o Criador lhe está a doar. Para isso, deve afastar-se, depois aproximar-se gradualmente e de forma independente.

A “linguagem dos ramos” existe apenas em hebraico, mas poderia ser criada com base em qualquer outra língua. Noutras línguas, a relação entre a raiz espiritual e as suas consequências no nosso mundo não pode ser identificada. Não existe nem mesmo no hebraico moderno. No entanto, se pegarmos no hebraico básico com todas as suas raízes, então há uma conexão clara entre a raiz e a consequência.

Essa conexão existe em todas as línguas, mas noutras línguas, ninguém tentou encontrá-la. Nenhum cabalista aponta a conexão entre o espiritual e o material em hieróglifos chineses ou em letras latinas, etc. Em hebraico, graças aos cabalistas, conhecemos essas correspondências, por exemplo, por que a letra “Alef” é escrita desta forma e não de outra.

O que expressamos realmente através dela? Expressamos sensações humanas. Podemos usar a linguagem da música, das cores, ou qualquer outra linguagem. Tudo o que pode ser usado para expressar sensações, noções, compreensão humanas, pode ser utilizado como linguagem. É possível falar sobre espiritualidade em qualquer língua. O hebraico é único porque tem um código pronto. Contudo, se houver um cabalista que conheça as raízes de qualquer outra língua, ele poderá fazer o mesmo com ela.

As forças por trás das letras hebraicas formam combinações expressas numa certa forma da letra. O hebraico está na raiz de outras línguas. A inscrição das letras noutras línguas vem, na verdade, da mesma raiz que as letras hebraicas. No entanto, elas são modificadas, pelo que a conexão entre as letras noutras línguas e as suas raízes espirituais é diferente.

Quando compreendemos um certo nível ou sensação espiritual, quando sentimos algo no mundo espiritual, sabemos como chamar a essa sensação. Então, o que pode ser feito se ainda não compreendemos o espiritual, quando as sensações não podem ser expressas em palavras, quando não temos uma linguagem apropriada? O que deve ser feito para encontrar essa linguagem?

No mundo espiritual, não há linguagem, mundos, nem letras; há apenas a sensação do vaso em relação à luz. O facto é que cada vaso espiritual tem o seu ramo neste mundo; tudo desce do mundo do Infinito até ao nosso mundo. Depois, todas as sensações do nosso mundo ascendem ao mundo do Infinito. Portanto, se pegarmos em qualquer ponto no mundo do Infinito, é possível traçar uma linha reta que atravessa todos os mundos até ao nosso mundo, até ao seu ramo.

Assim, podemos dizer que a alma de Adam HaRishon, dividida em 600 mil partes, existe em cada um dos mundos espirituais. A disposição dos mundos espirituais é absolutamente idêntica. A diferença está apenas no material de que são construídos. Em qualquer mundo, a alma sente a sua condição, a influência sobre ela e a sua interação com um certo nível espiritual.

Se projetarmos esta alma no nosso mundo, encontraremos em hebraico, as noções correspondentes às condições espirituais. Então, podemos pegar nas palavras do nosso mundo, assumindo que, com a sua ajuda, não falamos dos objetos do nosso mundo, mas, através dessas palavras, falamos dos objetos, forças e ações no mundo espiritual. Essa correspondência completa resulta do uso de uma mesma linguagem. A diferença está apenas no plano deste ou daquele mundo, onde a noção pretendida existe.

A nossa linguagem é uma descrição de objetos, ações, sensações, reações, interações. Tudo o que temos no nosso mundo existe no espiritual – uma imagem semelhante em todos os cinco níveis. Assim, em cada etapa, em qualquer dos 125 níveis, independentemente de onde estejamos, podemos sempre usar a nossa linguagem e descrever o que está a acontecer nesse nível. Contudo, apenas quem já esteve nesse nível pode realmente compreender-nos. Quem ainda não esteve lá vai supor que estamos a falar do nosso mundo, ou do nível em que se encontra no momento em que lê ou ouve a nossa descrição.

A Torá está escrita na linguagem dos ramos ao nível do mundo de Atzilut. Contudo, as pessoas não preparadas entendem o que está escrito na Torá literalmente, pensando que fala do nosso mundo. Tomam-na como um conjunto de histórias. Assim, a linguagem dos ramos descreve ações espirituais que ocorrem simultaneamente em todos os níveis.

O “Prefácio à Sabedoria da Cabala” estuda o nascimento, desenvolvimento e disposição dos mundos. Quando os mundos superiores se expandem até ao nível do nosso mundo, as almas começam a ascender do nosso mundo ao mundo do Infinito.

A alma ascende porque absorve todas as qualidades, conhecimentos e revelações dos níveis anteriores. Portanto, sabe exatamente o que acontece em todos os níveis inferiores. Os cabalistas estão no mundo de Atzilut. Então, como chamam as ações que ocorrem lá pelos nomes do nosso mundo? O facto é que eles não perdem a conexão com o nosso mundo; vivem em ambos os mundos, sentindo simultaneamente o que acontece no mundo de Atzilut e no nosso mundo.

Eles conhecem exatamente a correspondência entre um e outro; portanto, chamam os objetos no mundo de Atzilut de acordo com as propriedades dos que aparecem no nosso mundo como uma projeção vinda dos mundos espirituais. No mundo de Atzilut, não há objetos feitos pelo homem (por exemplo, rádios, computadores, etc.), mas todos os outros objetos e forças estão presentes lá. O cabalista vê que um certo objeto no nosso mundo é a consequência do mesmo objeto no mundo de Atzilut. Portanto, ele dá ao objeto (raiz) no mundo de Atzilut o mesmo nome que o objeto correspondente (ramo) no nosso mundo.

Não há conexão entre a compreensão cabalística e a meditação ou quaisquer outras noções “místicas”. Tudo o que é estudado por especialistas esotéricos, místicos e pseudo-cabalistas pertence à psique humana e não está de forma alguma conectado com a espiritualidade, a realização espiritual do Criador ou a Cabala.

A maioria dessas pessoas não tem a menor ideia do que é um Masach, e sem o Masach, a espiritualidade não pode ser alcançada. Os pseudo-cabalistas que ouviram falar do Masach acreditam que já o possuem, imaginando que já estão no mundo do Infinito. A Cabala é uma ciência secreta; não pode ser “narrada” a ninguém. Apenas quem sente é capaz de compreender.

Portanto, todos os métodos, ensinamentos e religiões pertencem à compreensão das qualidades latentes da psique humana, ao produto da atividade cerebral humana. Essas pessoas podem fazer muito. Podem curar, prever o futuro e relatar o passado – tudo o que se refere ao corpo. O homem tem poderes potenciais para fazer o que quiser com o corpo físico.

Contudo, para entrar no mundo espiritual, é necessário ter um Masach. É por isso que os vários tipos de previsões, truques, milagres, incluindo aqueles que realmente existem, não devem ser confundidos com a Cabala. Podemos prever o futuro como fizeram Wolf Messing e Nostradamus; podemos conhecer o passado ao olhar para uma pessoa, mas nada disso tem relação com a espiritualidade.

Tudo o que se refere ao corpo, ao nosso mundo, pode ser previsto e alterado; não há nada de sobrenatural nisso. Cada um de nós, se assim desejar, pode afastar-se das perturbações da civilização e começar a cultivar tais poderes e habilidades. Perdemos essas capacidades porque foram substituídas pelos produtos da civilização.

Cada pessoa tem essas tendências naturais. Pessoas com essas capacidades que são capazes de olhar para si próprias de forma critica dizem que há um Criador, mas não sabem nada sobre Ele, nem têm relação com Ele. Contudo, prever o futuro de um homem, ver o seu passado ou fazer algo contra a sua vontade não está conectado ao mundo espiritual. Como essas capacidades não estão ligadas à alma, morrem com a pessoa.

A alma é um vaso criado com a ajuda do Masach. Se não há Masach, não há alma. Enquanto não há Masach, há apenas “um ponto no coração”, o embrião da alma. No processo de aquisição do Masach, as primeiras (ainda muito pequenas) dez Sefirot começam a surgir. Quanto maior o Masach, maiores se tornam as dez Sefirot sob ele, mas são sempre 10.

Se o homem não tem Masach, morrerá como nasceu, independentemente das grandes capacidades que teve ou do que fez neste mundo.

Pensa que quando um iogue não respira, isso torna-o espiritual? Para entrar no mundo espiritual, o homem deve dedicar toda a sua força, tempo e desejos a esse fim. Apenas os desejos necessários para a existência neste mundo precisam de atenção. Para que o mundo espiritual se abra, é necessário um desejo verdadeiro. Apenas quem realmente o deseja entrará no mundo espiritual. Se combinarmos os estudos de Cabala com algo mais, além de cuidar da nossa existência, significa que o nosso desejo está dividido.

Agora, o homem pode julgar apenas a partir do nível em que se encontra. Ele não pode saber como será no próximo. Tudo muda completamente num outro nível, todo o mundo interior do homem. Pensamentos, desejos, reações e perspetiva – tudo muda. Tudo é retirado de si, deixando apenas a carne, a nossa casca exterior; o resto é reinstalado de novo.

Por isso, não podemos compreender como este desejo pode ser o único. Não o podemos compreender agora, pois ainda não estamos nesse nível. Quando ascendermos gradualmente a um nível superior, sentiremos que este desejo está realmente formado. Este desejo é o único requisito para entrar nos mundos espirituais; e quando cumprir esta condição, os portões da espiritualidade abrir-se-ão diante de Si.

Devemos salientar que mesmo um grande cabalista não pode prever as capacidades potenciais do homem. Um vidente pode prever corretamente o seu futuro terreno e material, mas não o futuro espiritual do homem. Além disso, ao encontrar um cabalista, um vidente genuíno sente que prever o seu futuro está para além das suas capacidades.

Um cabalista não está interessado em desenvolver capacidades para prever o seu futuro. As forças do nosso mundo são necessárias para isso, e, por regra, estão totalmente por desenvolver, num cabalista.

Um vidente pode nomear todas as doenças e problemas corpóreos de um cabalista. Contudo, nada tem a dizer sobre o seu “eu”. Apenas pode determinar a sua condição física num dado momento.

Um cabalista procura constantemente a conexão com o Criador e não tenta adivinhar como ou o que deve fazer para garantir um futuro melhor. Nunca passaria pela mente de um cabalista conhecer o seu futuro. Tal desejo pertence às forças impuras e não à Cabala. Ao compreender o mundo superior, um cabalista entende os caminhos de correção de todas as almas.

Toda a informação no mundo espiritual consiste em cinco partes (Behinot). Um Zivug de Haka’a no Peh de Rosh [Boca da cabeça], embora envolva apenas um tipo de luz, leva à formação de um Partzuf composto por cinco partes. O que significa uma luz? Uma luz é um estado geral. Consiste em cinco partes que diferem entre si quantitativa e qualitativamente. Contudo, devem estar sempre juntas, como um conjunto completo. É semelhante a uma sensação que resulta de cinco sub-sensações compostas nos nossos cinco sentidos: tato, olfato, visão, audição e paladar.

Dado que cinco luzes vêm até nós, devem haver cinco desejos dentro de nós. A diferença entre eles tem de ser tanto quantitativa como qualitativa. Contudo, em última análise, todos atuam juntos. Não podemos tornar um desejo maior e outro menor. Eles formam uma certa combinação. A luz que entra no vaso passa por quatro níveis. Por sua vez, o vaso consiste em cinco níveis do desejo de receber prazer.

Agora vamos rever o Item 7:

7) E agora compreenda o que está escrito na primeira parte do livro “A Árvore da Vida”: “A criação de todos os mundos é consequência da perfeição do Criador em todas as Suas acções. Porém, se Ele não tivesse revelado os Seus poderes nas acções que realiza sobre os seres criados, não seria chamado “perfeito”.”

Assim, dado que o Criador é perfeito, todas as Suas ações devem ser perfeitas. É por isso que Ele criou os mundos. Pelo contrário, os mundos são uma ocultação do Criador, um afastamento Dele.

À primeira vista, porém, não é claro como poderiam sair acções imperfeitas de um Criador perfeito. Pra além disso, as acções do Criador são tão imperfeitas que precisam de ser corrigidas pelo homem. Das afirmações acima, compreenda que, uma vez que a essência da criação é um desejo de receber prazer, ela é bastante imperfeita por ser absolutamente oposta ao Criador (enquanto Ele é perfeito e doador, a criação apenas recebe, é imperfeita e as suas propriedades são opostas às Suas). Por um lado, está infinitamente afastada e separada d’Ele. Por outro lado, é algo novo, nascido do nada. A criação foi feita para receber e ser preenchida com o deleite do Criador.

Isto significa que o desejo de receber prazer, embora completamente contrário ao Criador e absolutamente imperfeito, é, no entanto, exatamente o que o Criador teve de criar.

Contudo, se as criaturas tivessem ficado afastadas do Criador pelas suas propriedades, Ele não poderia ser chamado o Perfeito, pois acções imperfeitas não podem sair de Alguém Perfeito. Por isso, o Criador restringiu a Sua luz, criou os mundos, restrição após restrição, até ao nosso mundo, e colocou a alma no corpo deste nosso mundo.

Por “nosso mundo”, não nos referimos ao nosso mundo físico, mas ao conjunto de desejos egoístas correspondentes ao estágio mais baixo do desenvolvimento dos mundos.

“Estudar a Torá” significa aprender com o objectivo de correcção, e não ler um livro chamado “a Torá”. “Cumprir os Mandamentos “significa realizar acções espirituais com Masach [Tela], e não executar acções mecânicas. Através do estudo da Torá e da observância dos seus mandamentos, a alma alcança a perfeição que lhe faltava no início da criação. Isso significa a equivalência das suas propriedades com as do Criador. A alma tornar-se-á digna de receber todo o prazer que estava no Pensamento da Criação. Agora entrará em adesão completa com o Criador.

Significa que, para além do deleite, está preparada uma recompensa adicional para a alma, e essa recompensa é chamada “adesão com o Criador”. Assim, não se trata apenas de receber toda a luz, mas de uma adesão com o Criador, de receber a luz que surgiu devido a uma equivalência de propriedades.

A equivalência de propriedades e a adesão com o Criador é muito superior a apenas receber a luz, pois, devido à equivalência de propriedades, a alma eleva-se ao nível do Criador. Não só recebe a luz do Criador, como também ascende ao Seu nível. Assim, eleva-se do nível da criação ao nível do Criador e também compreende aquilo que está acima da sua natureza.

8) Apenas através do estudo da Torá e do cumprimento dos Mandamentos com a intenção de não receber qualquer recompensa, mas unicamente para trazer contentamento ao Criador, gera-se uma força especial ("Segula”) que permite à alma alcançar o estado de unidade absoluta com o Criador. Gradualmente, a alma avança adquirindo cada vez mais novas propriedades iguais às do Criador, conforme está dito no artigo "Prefácio à Sabedoria da Cabala”.

Esta ascensão, esta adesão com o Criador, consiste em cinco níveis: Nefesh, Ruach, Neshama, Haya e Yechida. Estes são recebidos dos cinco mundos: AK, Atzilut, Beria, Yetzira e Assiya.

Quando a alma ascende ao mundo de Assiya, recebe a luz de Nefesh. Quando se eleva ao mundo de Yetzira, recebe a luz de Ruach. No mundo de Beria, recebe a luz de Neshama. No mundo de Atzilut, recebe a luz de Haya; e no mundo de Adam Kadmon, recebe a luz de Yechida.

Cada um destes cinco níveis divide-se, por sua vez, em cinco sub-níveis, também chamados Nefesh, Ruach, Neshama, Haya e Yechida. A alma recebe-os dos cinco Partzufim que formam cada um dos cinco mundos. Cada sub-nível possui o seu próprio NaRaNHaY, que recebe das dez Sefirot que formam cada Partzuf.

Com a ajuda do estudo da Torá e do cumprimento dos Mandamentos com a intenção de trazer contentamento ao Criador, os seres criados adquirem gradualmente vasos-desejos desses níveis superiores, até aderirem completamente com o Criador.

Assim, forma-se gradualmente na alma um maior desejo de doar. De acordo com isto, a alma é preenchida com cada vez mais luz, até alcançar uma completa equivalência de propriedades com o Criador.

Neste estágio, cumpre-se nas almas o Pensamento da Criação: a recepção de todo o deleite que o Criador preparou para elas. Para além disso, como as almas adquiriram o desejo de doar, aderem completamente (Dvekut) com o Criador e experienciam um prazer perfeito, eterno e infinito, muito superior à mera recepção da luz.

Deste modo, a criação alcança:

1. A receção do prazer preparado para ela na forma de NaRaNHaY (Nefesh, Ruach, Neshama, Haya, Yechida).

2. A equivalência de propriedades com o Criador, ou seja, eleva-se ao nível do Criador e alcança uma perfeição igual à Sua.

Ainda não podemos imaginar este nível. Estamos habituados a operar com noções como vida, morte, tempo e prazer. Contudo, quando se refere aos níveis espirituais, não temos nem palavras nem sensações para imaginar ou descrever tais estados.

No processo de aquisição do Masach [Tela], o homem começa a modificar as suas propriedades, recebendo correspondentemente a luz e ascendendo gradualmente. Cinco níveis principais (mundos) são divididos em cinco subníveis (Partzufim), que, por sua vez, consistem nos seus próprios níveis (Sefirot) — e todos eles são caracterizados por uma maior semelhança com o Criador.

Enquanto o homem ainda não está corrigido, cada um destes níveis é uma ocultação do Criador para ele. Quando o homem recebe a correção, o mesmo nível torna-se para ele uma revelação do Criador e uma luz. Ou seja, por um lado, cada estágio é a ocultação do Criador, e por outro, a Sua revelação.

Cada estágio é um certo nível das propriedades do Criador. Suponhamos que o mundo do Infinito corresponde a 100% das propriedades do Criador, sendo o nível mais elevado. Então, o nosso mundo corresponde a 0% das propriedades do Criador. O restante Universo espiritual encontra-se entre eles e está dividido em 125 níveis, que correspondem a 125 medidas das propriedades do Criador.

Como foi dito, temos de nos livrar do egoísmo, pois o egoísmo é um Kli inferior, ou vaso. No momento em que começa a sentir prazer, a sensação elimina o desejo; como resultado, o prazer desvanece-se. Isto significa que, no momento em que o desejo é satisfeito, o prazer desaparece imediatamente. Assim, um Kli egoísta nunca pode ser satisfeito. Portanto, o egoísmo é-nos dado apenas para a sua correção, para que possamos sentir um deleite eterno e perfeito nele.

O homem sente que alcançou um certo nível apenas quando está nesse nível. Então, sabe em que nível se encontra e que nível já ultrapassou. Vê o nível seguinte diante de si, aquele que deve alcançar. Ao estudar seriamente a verdadeira Cabala a partir de livros autênticos, no grupo certo, começa a compreender o próximo nível da sua ascensão.

No início, sente apenas a ocultação desse nível, ou seja, o Criador está-lhe oculto nele. Depois, o homem começa a compreender quais propriedades o Criador possui e como pode adquiri-las. Há muitas etapas ao longo deste caminho, mas a primeira é a mais difícil. Comparada com a primeira etapa, a compreensão das restantes é muito mais fácil.

Isto decorre do facto de que, no primeiro nível, nascem os maiores Kelim-desejos; precisamente aqueles Kelim que aparecem no primeiro nível manifestam-se depois no último. Isto porque há uma relação inversa entre as luzes e os vasos.

Neste momento, estamos numa condição em que não sabemos realmente quais Kelim estamos a usar. Embora já estejamos a usar Kelim muito complexos, eles ainda não se manifestaram nas nossas sensações. A maior Aviut [espessura] de Shoresh, Alef, Bet, Gimel e Dalet está no mundo de Assiya. Contudo, o maior Masach está no mundo de Adam Kadmon — este é o Masach de Dalet; em Atzilut, o Masach de Gimel; em Beria, o Masach de Bet; em Yetzira, o Masach de Alef; e em Assiya, o Masach de Shoresh.

Devemos sempre prestar atenção ao que nos referimos — se é o Masach ou o desejo em que este Masach está «revestido». Portanto, este é o estágio mais difícil do nosso trabalho. Entrar no mundo espiritual é o maior problema em toda a busca espiritual do homem.

Depois, o homem enfrenta outros problemas, e o trabalho torna-se completamente diferente. Ele já sabe claramente o que fazer; tem uma ideia das 10 Sefirot que adquiriu, possui alguma compreensão verdadeira de todo o Universo. O Universo é construído segundo um único princípio, por isso, se o homem adquiriu as suas próprias 10 Sefirot (mesmo as menores), então ele sabe imediatamente do que fala a Torá, ainda que ao nível das suas 10 Sefirot.

Por exemplo, se um homem nascido na selva fosse trazido para o mundo civilizado, não saberia como usar certos dispositivos técnicos. Uma pessoa que cresceu num país desenvolvido pode não conhecer os processos internos desses dispositivos, mas sabe como usá-los, porque vive entre esses objetos. O mesmo princípio aplica-se a uma pessoa que alcançou o nível mínimo no mundo espiritual. Ele tem uma ligeira ideia sobre a espiritualidade, já possui Kelim (ainda que os menores). Os processos mais internos são percebidos nos níveis superiores.

Quando um homem adquire um Masach, realiza um Zivug de Haka’a [acoplamento por impacto] e recebe a Luz Interior dentro de si, o que lhe dá uma ideia sobre a espiritualidade. Não sentimos nada fora de nós, sentimos o mundo dentro, o mundo espiritual. Esta Luz Interior, que preenche o Kli, proporciona a medida que chamamos «o nível» ou a luz, o nível de Nefesh, Ruach, Neshama, Haya e Yechida.

Para avançar, o homem deve constantemente absorver, passar textos cabalísticos pelo seu intelecto e coração, estar preenchido com eles o tempo todo. Não há outro método para além de estudar a Cabala com os livros certos, guiado por um Professor, e trabalhar num grupo. Os esforços coletivos são muito importantes. Mesmo um grupo de principiantes já é uma força espiritual, apesar dos seus membros mal imaginarem para que estudam a Cabala e que objetivos têm. No futuro, esse grupo poderá atrair uma luz espiritual muito forte pelos seus próprios esforços.

O Rei David descreveu todos os estados espirituais que uma alma ou um homem atravessa, do mais baixo ao mais alto. O Rei David (David HaMelech, Malchut) é assim chamado porque ele próprio passou por todos os estados espirituais e descreveu-os. O seu livro Tehilim («Salmos») é o nível mais elevado na Cabala, que inclui todos os estados possíveis da alma.

Se o homem adquire todas as propriedades do Criador, todos os Seus desejos, hábitos e forças, esse estado é chamado adesão com o Criador. Significa que o homem se torna igual a Ele. O que cria o homem? Ao doar ao Criador, ele cria-se a si próprio, cria o Masach, ou melhor, torna-se um parceiro igual do Criador na criação de si próprio.

O Criador criou o egoísmo, o homem; e o homem faz o altruísmo, o Criador, a partir do egoísmo, a partir de si próprio. Naturalmente, ele não o cria do nada (Iesh me Ein), como o Criador criou o nosso desejo de receber prazer, o egoísmo, do nada. Contudo, transformar esse desejo no seu oposto é o objetivo do homem. Este processo é chamado «correção» (Tikkun). Na verdade, é o nascimento de uma qualidade completamente nova. De facto, o Criador criou o egoísmo do homem, e o homem cria o Criador.

O que significa que a criação foi feita do nada? Sabemo-lo pelos Cabalistas. Eles estudam todas as propriedades do Criador e veem que Ele é absolutamente bondoso e completo. Portanto, Ele fez a Criação do nada. Quando o homem ascende, tornando as suas propriedades iguais às do Criador nos níveis elevados chamados «o décimo milénio», onde os segredos da Torá são revelados, ele vê a própria criação e a forma como foi criada pelo Criador.

As únicas fontes que estudamos são o livro do Zohar, os livros do Ari, os livros escritos pelo Baal HaSulam e pelo Rabash. Nada mais pode ser lido de forma independente. Podemos ler os livros da série «Cabala - a Ciência Secreta», mas nada mais. O Pentateuco só pode ser lido quando o homem consegue entender que tem um significado interno, cabalístico, e não é apenas uma narrativa histórica.

Passa muito tempo antes que o homem comece automaticamente a ver as ações espirituais por detrás das palavras da Torá. É melhor ler o Livro dos Salmos; aí, pelo menos, são descritos sentimentos humanos. Embora se refiram a sentimentos espirituais, eles são mais ou menos equivalentes no nosso mundo. Não se será tão enganado como ao ler a Torá.

É necessário estudar como cumprir os mandamentos no nosso mundo. Para esse fim, existe o Shulchan Aruch. Os mandamentos devem ser cumpridos num nível «simples». José Caro escreveu o Shulchan Aruch especialmente para aqueles que desejam estudar Cabala e querem saber como os mandamentos devem ser cumpridos sem ter de estudar os fólios da Guemará, ficando sem tempo para a Cabala. Não se deve ler o Zohar em aramaico, apenas o comentário do Baal HaSulam.

9) Agora não vos será difícil compreender o que está escrito no Livro do Zohar: que todos os mundos — Superiores e inferiores — e tudo o que neles existe foram criados unicamente para o homem. Todos estes níveis foram criados apenas para preencher as almas, para as conduzir à perfeição, ao nível de adesão com o Criador, que está ausente desde o momento do Pensamento da Criação.

No início da criação, foram formados cinco mundos desde o nível do Criador até ao nosso mundo, para colocar a alma no corpo material deste nosso mundo. O corpo material é o desejo de receber sem dar nada em troca. Esta é a forma final do desejo de receber prazer para seu próprio benefício. Por isso, as propriedades do homem neste mundo são absolutamente opostas às do Criador.

Ao estudar a Cabala, o homem começa gradualmente a compreender as propriedades de doar. De acordo com a sua compreensão, vai elevando-se pouco a pouco, aprendendo as propriedades dos níveis descendentes que possuem a qualidade de doação. Depois alcança o nível do desejo apenas de doar, sem receber nada em troca. Como resultado, o homem adere completamente ao Criador, ou seja, alcança o estado para o qual foi criado. Portanto, todos os mundos foram criados por causa do homem.

Assim, todos os mundos são criados para ajudar o homem a ascender do ponto zero, em direção ascendente, oposto ao Criador, e finalmente alcançar o último ponto — a fusão com o Criador, percorrendo todo o caminho desde a completa ocultação do Criador, passando por 125 níveis, cada um representando uma maior revelação do Criador.

Já falámos do facto de que o Criador Se ocultou deliberadamente por detrás de cinco mundos, cada um consistindo em cinco Partzufim, cada Partzuf possuindo cinco Sefirot, num total de 125 níveis de ocultação. Tudo isto foi feito para tornar o homem absolutamente distante do Criador.

O homem não sente o Criador; pensa que é independente, acredita que tem liberdade de escolha e — liberdade para desenvolver e utilizar o seu egoísmo como lhe aprouver. Tais condições são chamadas «o nosso mundo»; na verdade, são as forças do Criador que nos afetam num estado de completa ocultação.

Tudo o que nos rodeia neste mundo é apenas o último nível das várias forças que nos influenciam em nome do Criador. Tudo o que o homem sente, dentro e ao redor de si, tudo o que chamamos «nosso mundo», é o último nível que pode existir no Universo.

Assim que o homem, com a ajuda do seu trabalho interior, consegue eliminar o nível mais próximo da ocultação do Criador em relação a ele, afastando essa cortina, começa imediatamente a sentir o Criador nesta mínima 125ª parte.

Isto não significa que os 125 níveis ocultem o Criador de nós de forma proporcional. Quanto mais baixo o nível, mais ele oculta o Criador. Assim que o homem afasta as cortinas mais baixas que o separam do nível seguinte, a luz do Criador começa imediatamente a brilhar sobre ele, e ele começa a ver o Criador por detrás de tudo o que existe ao seu redor neste mundo.

Os níveis inanimado, vegetativo, animal e humano da natureza — tudo o que está ao redor do homem e dentro dele, todos os seus desejos animais e aspirações por poder, honra, fama, busca pelo conhecimento — para ele, tudo agora se torna uma manifestação do Criador.

Ele sente como o Criador o afeta, o seu «eu», com a ajuda do seu ambiente e propriedades internas. O primeiro nível de revelação, embora o mais difícil, é o mais importante, porque, ao superá-lo, o homem estabelece imediatamente contacto, ainda que mínimo, com o Criador, e nunca o perde. Não há caminho de volta. Assim, o início correto é fundamental.

Por vezes, parece que o homem perdeu tudo o que tinha ganho e caiu do seu nível. Contudo, essa sensação é deliberadamente enviada para permitir que ele ascenda ainda mais alto. Os níveis espirituais são construídos de tal forma que a ocultação do Criador em cada um deles depende da correção do homem. A ocultação é-lhe dada num nível que ele é capaz de superar.

Suponhamos que o homem corrigiu 10% da sua intenção de receber. Isso significa que ele recebe prazer nesses 10% não para si próprio, mas por amor ao Criador. Portanto, a medida de ocultação e revelação do Criador é o mesmo nível, as suas partes posterior e anterior. Ou seja, não há nada fora do homem; todos os níveis são construídos para ele e estão dentro dele.

Todos os mundos espirituais estão dentro da alma do homem, formando uma escada entre ele e o Criador. Ou seja, são 125 níveis das nossas propriedades. Ao nosso redor, há apenas uma coisa: a propriedade completamente altruísta de doar e deleitar-nos. Chamamos esta propriedade o Criador. Contudo, a nossa propriedade interna é absolutamente egoísta.

A correção gradual das propriedades internas do homem é o propósito da sua existência neste mundo. Todos devem corrigir-se a si próprios. A sensação do Criador que o homem ganha durante a sua correção é chamada «ascensão espiritual» de um nível para outro, ou de um mundo para o seguinte. Tudo isto ocorre exclusivamente no interior.

Já dissemos que o mundo circundante é apenas uma reação das nossas propriedades internas à influência do Criador, ou seja, todos os mundos, Partzufim, Sefirot, tudo o que alguma vez falamos está dentro da pessoa; não há nada fora. Pode dizer-se que fora existem apenas as quatro propriedades da Luz Direta.

A luz descendente cria o homem e todas as suas propriedades internas. Todos os mundos espirituais em nós são apenas as medidas de sentir o Criador. Todos os anjos, demónios, forças escuras e luminosas não são mais do que as forças internas do homem, especialmente criadas nele pelo Criador para o ajudar a corrigir e superar constantemente o seu egoísmo natural.

Inicialmente, elas foram sistematicamente restringidas, mundo após mundo, e desceram ao nível deste mundo material para inserir a alma no corpo, para revestir o «eu» do homem em propriedades absolutamente egoístas, infinitamente distantes do Criador, o mais oposto às Suas propriedades.

Elas são chamadas «as qualidades deste mundo». Aqui não se refere a uma quantidade de objetos materiais que nos rodeiam — líquidos, gases, sólidos. Por mundo material, entendemos qualidades absolutamente egoístas, do menos ao mais desenvolvido, independentemente de ser um bebé ou o maior egoísta adulto do mundo.

Quando os Cabalistas dizem «o corpo deste mundo», referem-se ao desejo de receber. Há o corpo do nosso mundo — um desejo egoísta de receber, e há o corpo espiritual — o mesmo desejo de receber, mas já com o Masach, o que significa um desejo egoísta transformado num altruísta.

Como foi dito, para fazer o homem desejar apenas receber, o Criador colocou a alma no corpo do nosso mundo. Este é o chamado estado «animal», como diz o provérbio: «o homem nasce como um burro selvagem». Assim, quando o homem desce a este mundo, recebe desejos egoístas chamados «corpo» e, com as suas propriedades, torna-se absolutamente oposto ao Criador, infinitamente distante d’Ele.

O Criador dá ao homem apenas uma pequena qualidade altruísta chamada «alma». Se o homem começar a dedicar-se à Torá e aos mandamentos com a intenção correta, gradualmente adquire o desejo «de doar» do Criador.

O nível mais elevado é o desejo apenas de doar sem receber nada para si próprio. Ao alcançar este estado, o homem completa o seu caminho até ao Criador e entra em adesão com Ele. A proximidade e a distância dos objetos espirituais ocorrem devido à equivalência ou diferença de propriedades. Portanto, ao alcançar o estado de desejo absoluto de doar, ou seja, o 125º nível, o homem é recompensado com a completa revelação do Criador.

Assim, todos os mundos com tudo o que os preenche são criados apenas para o benefício do homem e para a sua correção. Cumprir a Torá e os mandamentos com a intenção de doar prazer ao Criador sem receber nada em troca significa aderir às leis espirituais que o homem aprende à medida que sobe estes degraus.

A cada vez, quando está num determinado estado espiritual, há sempre uma escolha diante dele: o que fazer, como pensar, sentir, escolher os seus pensamentos, intenções, decisões internas. Embora o Criador ainda não Se tenha revelado a nós, devemos tentar comparar todos os nossos pensamentos, decisões e opiniões com a nossa intenção de adquirir o Seu desejo de doar.

A forma como analisamos e escolhemos cada opinião e decisão é chamada «mandamento» (Mitzvah). Quando o homem cumpre esta lei corretamente, acende a vela, permitindo que um pouco mais de luz entre no seu desejo espiritual.

Nos níveis superiores, ao entrar nos mundos espirituais, o homem corrige o seu desejo absolutamente egoísta e, com a ajuda de um Zivug de Haka’a [acoplamento por impacto], recebe uma porção de luz. A luz que ele recebe é chamada, de várias formas, «a Torá», «o Criador» ou «a luz da alma».

Existe a chamada Essência do Criador (Atzmuto HaBoreh). Não sentimos a Essência do Criador, mas apenas a Sua influência. Somos como uma caixa negra: tudo o que penetra através dos nossos cinco sentidos — visão, audição, tato, olfato e paladar, ou com a ajuda de dispositivos que apenas ampliam o alcance das nossas sensações — cria em nós uma imagem deste mundo, que parece existir fora de nós.

Contudo, este mundo é apenas um produto das nossas sensações internas, algo que nos pressiona do exterior. É como moldar um corpo de argila e dotá-lo de uma espécie de sensibilidade. Quando o pressiono, ele terá uma reação interna. Sente essa pressão nas suas sensações; de alguma forma, ela reflete-se nele. O corpo chama essa influência externa (ou melhor, a sua reação a ela) uma certa propriedade.

Se alguém o picar, o corpo chamará esse estímulo externo (ou a sua reação a ele) outra propriedade. Não tem ideia do que o afeta do exterior, mas sente apenas as suas reações ao que o pressiona. Todas as reações da criação às inúmeras influências externas criam dentro dela a sensação de um mundo «circundante».

Se uma pessoa é privada de um dos seus sentidos desde o nascimento, por exemplo, a visão, deve construir uma imagem do mundo circundante com a ajuda dos quatro restantes. A imagem resultante difere da nossa.

Se conseguirmos ampliar de alguma forma o alcance dos nossos sentidos (não podemos adicionar mais sentidos), a imagem do mundo mudará instantaneamente. De qualquer modo, perceberemos apenas o que «entra» em nós (é assim que chamamos as nossas reações às influências externas), e não o que está fora.

Um estímulo adicional, chamado a luz do Criador, entrará em nós. Ele Próprio entrará em nós, não apenas nos pressionará como um pedaço de argila do exterior. Ele entrará e começará a preencher-nos de acordo com o nível de equivalência das nossas propriedades às Suas. Toda a nossa essência é «um pedaço de argila egoísta»; se este «pedaço» conseguir adquirir as propriedades do Criador, ou seja, aprender a doar, então não haverá diferença entre eles. A fronteira externa entre Ele e o «pedaço» desaparecerá. Fundir-se-ão num só; o Criador preencherá esta «argila» por dentro, e ela estará em completa harmonia, totalmente aderida com o que está fora.

Este estado é o mais perfeito, confortável, eterno e absolutamente bom. O «pedaço de argila» deve alcançar este nível. O homem deve atingi-lo, começando pelo nível mais baixo, chamado «o nosso mundo». A alma, revestida no corpo, obriga-o a trabalhar antes que possa ascender.

A alma, no seu estágio zero, é uma propriedade egoísta, mas no seu estado final, deve ser transformada numa propriedade altruísta. Caso o homem esteja relutante em fazê-lo por sua livre vontade, será auxiliado do alto, e então, impulsionado por sofrimentos severos, será compelido a concordar. Cada um destes «pedaços de egoísmo» (almas) deve superar todos os 125 níveis. Estes «pedaços» estão divididos apenas porque cada um sente o seu próprio pequeno desejo.

No processo de equiparar as suas propriedades às do Criador, começam a sentir a comunhão e a continuidade inseparável da sua massa, a unidade absoluta de todos estes fragmentos egoístas. Compreendem que representam um todo único. Quanto mais o homem é corrigido, mais se vê como uma parte absolutamente inseparável do todo, ou seja, depende de todos e todos dependem dele.

Se a criação é um organismo único, então não importa qual parte dela recebe e qual parte doa. É mais fácil ser corrigido como um pequeno pedaço, e quando todos os pedaços se tiverem corrigido, fundem-se nas suas sensações num todo único — é isso que chamam: a fusão das almas.

Há muita interferência, toda ela enviada especialmente para nós. No final, apenas a persistência vence. O homem não precisa de possuir inclinações especiais, intelecto, qualidades ou propriedades particulares. Deve apenas ser persistente, ou melhor, mostrar a capacidade e coragem de suportar; somente isso conduzirá à vitória.

Cada um de nós é como o Criador o fez; nada pode ser feito quanto a isso. Todas as nossas mudanças internas em pensamentos, desejos e ambições — tudo isso está programado em nós do alto, e tudo deve ser corrigido. É esse mesmo material, esse «pedaço de argila», que devemos trabalhar.

Uma propriedade egoísta corrigida, na qual a luz do Criador entra, é chamada Kli (vaso). Uma pessoa que acaba de começar o seu estudo da Cabala pode ser informada de tudo; tudo entra nela, nada é esquecido, nada desaparece. Quando necessário, ela recordá-lo-á, mas apenas após a sua correção. Quando tiver os vasos internos mínimos e essa informação for necessária para o seu trabalho, ela emergirá, «virá à tona» do seu subconsciente.

O próprio homem terá de organizar essa informação e trabalhar com ela. Nesta fase, não lhe devem ser dadas respostas prontas às suas perguntas; agora ele deve procurar e encontrar as respostas.

Nos níveis elevados do desenvolvimento espiritual, o homem não sofre porque as almas nos níveis inferiores se sentem mal. Ele sofre pela incapacidade de cumprir o desejo do Criador em relação a essas almas, ao seu estado presente; ou seja, pelo facto de nem todas as almas sentirem a unidade com o Criador como ele sente. Além disso, ele tenta naturalmente acelerar este processo pela disseminação da Cabala, espalhando o conhecimento sobre a necessidade de correção, enquanto outros interferem na sua missão.

O homem precisa de todo o mundo para completar o seu trabalho espiritual, porque este não consiste apenas na autocorreção, mas, em cada nível, há um certo trabalho mútuo a ser feito com o resto das almas.

Um Cabalista deve sentir o mundo inteiro, sentir os seus sofrimentos, absorvê-los no seu nível e corrigi-los. Além disso, em cada nível, ocorre a inclusão de todas as almas na sua e da sua própria em todas as outras almas.

10) Agora, depois de terem compreendido isto, podem estudar a Cabala sem receio de materializar o espiritual. Os principiantes na Cabala ficam confusos porque se diz que todas as 10 Sefirot e Partzufim, desde o mundo de Atzilut até às 10 Sefirot do mundo de Assiya, são absolutamente divinos e espirituais, ou seja, na verdade são o próprio Criador.

Por outro lado, diz-se que todos estes mundos foram criados por causa do Tzimtzum (restrição). Então, como se pode afirmar que as Sefirot divinas, que se referem ao Criador, apareceram depois do Tzimtzum? Para além disso, como se deve interpretar noções como quantidade, acima, abaixo, subida, descida, adesão espiritual, separação, etc.? Como se pode dizer tudo isto acerca do divino e do perfeito?

Está escrito: "Eu não mudo; estou em todo o lado, o Único Criador imutável”. Como se pode dizer que existem transformações e restrições no Perfeito, uma vez que qualquer mudança fala de imperfeição?

A questão é simples: o que chamamos de mundos – é o Criador ou a criação? Por que os principiantes se confundem com isto? Porque, em regra, eles materializam-no. Tentam imaginar esses mundos sob a forma de objetos materiais. É uma reação natural para o homem limitado pela sua realidade. No entanto, como lhe pode ser dada a perceção correta; será isso possível?

Há riscos para quem estuda Cabala sem um verdadeiro guia, uma pessoa que os oriente constantemente, que os impeça de se desviarem do caminho certo e de materializarem a espiritualidade. Por essa razão, a Cabala foi mantida afastada das massas durante séculos. Se, no início, o homem se desviar um milímetro do caminho certo, com o tempo, esse desvio em relação ao objetivo aumentará gradualmente.

Consequentemente, quanto mais ele avança e, como lhe parece, se aproxima do objetivo, mais se afasta dele. Assim, os cabalistas estabeleceram certas exigências e restrições para aqueles que desejavam estudar Cabala. É preferível permanecer no nível mecânico de cumprir os mandamentos (a Luz Circundante comum brilha sobre o homem e purifica-o lentamente) do que estudar Cabala sozinho.

Infelizmente, vemos cabalistas autodidatas e onde isso os levou; fabricam os seus próprios conceitos sobre o mundo espiritual, povoam-no com todo o tipo de corpos, forças e suas interações, com anjos alados, demónios, feiticeiras, inferno e paraíso, etc. Fazem isso sem compreender que o mundo espiritual está apenas dentro da alma do homem, enquanto apenas o Criador está fora.

Os cabalistas estavam profundamente preocupados com tudo isto. O mandamento principal é não fazer um ídolo do próprio egoísmo. Quer queiremos quer não, nós adoramo-lo de qualquer forma – é um ídolo criado dentro de nos; desde o nosso nascimento, adoramos apenas os nossos próprios desejos, pensando apenas em como satisfazê-los.

Não fazer um ídolo significa não colocar o nosso próprio ídolo no lugar do Criador. Se desejamos verdadeiramente entrar na espiritualidade, ter algum contacto com ela, não devemos criar uma falsa imagem dela na nossa imaginação, pois isso desvia. Diz-se: “É preferível ficar sentado e não fazer nada a cometer um erro”.

Surge uma questão: pode um homem que estuda Cabala interferir nos assuntos de outras pessoas? Pode ele explicar-lhes algo? Pode e deve, mas com muito cuidado. Um livro pode ser dado para ler; pode-se falar um pouco sobre Cabala, mas nunca discutir o ponto.

Isso pode ser prejudicial para a pessoa. Perderá tudo o que ganhou com os teus próprios esforços e estudos. A Cabala deve ser divulgada de forma discreta, nunca tentemos convencer uma pessoa. Isso não ajudará de forma alguma. O egoísmo do homem é mais forte do que qualquer influência externa. Nunca o faremos mudar de ideias. Só podemos orientá-lo se ele o desejar. O homem só percebe algo quando sente que pode satisfazer o seu desejo.

11) Das afirmações acima, podemos concluir que todos estes mundos, Partzufim e os processos que neles ocorrem (subidas, descidas, restrições, etc.) são todos vasos de recepção interiores do homem, propriedades da sua alma.

Isto é, tudo aquilo de que se lê na Cabala ocorre dentro da alma do homem e tem dois aspectos: o que acontece no pensamento e o que acontece na acção. É semelhante à situação em que um homem constrói uma casa: o fim da sua acção já está integrado no seu plano original.

A imagem de uma casa, a própria noção de "casa” no pensamento do homem, é diferente da casa real, porque a estrutura que existe apenas como plano é feita da matéria das suas ideias. Quando o processo de construção começa, o plano adquire outras qualidades, propriedades diferentes que se vão materializando gradualmente, até se transformarem numa estrutura feita de madeira e pedra, etc.

O pensamento materializa-se cada vez mais até alcançar a sua forma final, expressa na ideia materializada — uma casa. Também no que respeita às almas, é preciso distinguir duas partes: o plano e a acção. O estado das almas no mundo do Infinito, ou seja, quando estavam unidas ao Criador, antes de todas as restrições, unidas ao Pensamento da Criação, chama-se "as almas no Pensamento da Criação”.

No Pensamento da Criação, estas almas estão no Criador sem qualquer distinção entre elas. Este estado chama-se Ein Sof — o mundo do Infinito. Um estado semelhante continua nos mundos de Adam Kadmon e Atzilut. O estado em que as almas recebem e estão separadas do Criador chama-se "as almas no acto da criação”. Esta separação ocorre no nível do mundo de Beria.

O mundo de Beria (a palavra “Beria” deriva da mesma raiz que a palavra “bar”, que significa “fora de”, “exceto”) é o primeiro mundo abaixo do mundo de Atzilut, sob a Parsa. A partir do mundo de Beria, há uma transição das almas para o estado de “ação”.

O mundo de Beria é o primeiro mundo onde as almas, por assim dizer, saem do plano do Criador e tornam-se mais materializadas, existindo “independentemente”. Todos os pensamentos e desejos no nosso mundo e nos mundos espirituais descem até nós do Alto. O que se deve fazer com esses pensamentos e desejos no nosso mundo e nos espirituais é o objeto dos nossos estudos.

Nada que esteja dentro ou fora de nós é criado por nós. Reagimos a qualquer irritação externa de acordo com a nossa natureza animal. Qualquer reação desse tipo pode ser calculada antecipadamente, e as nossas ações podem ser previstas em qualquer situação. Então, onde está a mínima liberdade de escolha ou livre-arbítrio aqui? A liberdade de escolha está apenas no esforço para compreender como o Criador agiria no nosso lugar e reagir de forma semelhante.

De uma forma ou de outra, todo o mundo obedece à vontade do Criador; nem mesmo um átomo pode mover-se contra ela. A diferença reside no facto de que um cabalista tenta conscientemente correlacionar as suas ações com as do Criador. Com todos os seus desejos, ele quer seguir o fluxo que o Criador colocou em movimento para todo o Universo. Assim, ele entra no estado mais confortável de absoluta “relaxamento” (liberdade e paz eterna).

O tempo para, tudo desaparece exceto a sensação de infinito, pois não há perturbações, nenhuma contradição entre nós, todo o Universo e o Criador. Diz-se que cada alma está incluída em Malchut do mundo do Infinito, chamada “o ponto médio”, pois este ponto é o Pensamento, e todos os vasos saem dele, todas as propriedades da alma em ação. Esta ação começa no mundo de Beria e continua nos mundos de Yetzira e Assiya.

Tudo o que se encontra nos mundos do Infinito, Adam Kadmon e Atzilut ainda pertence ao Pensamento do Criador. Sabemo-lo pela emanação das quatro fases da Luz Direta. A luz que sai do Criador é chamada “Behina Shoresh”. Depois, a luz completa a criação do Kli, mas este não tem sensações independentes. Esta fase é chamada “Behina Alef”.

Na fase Shoresh, a luz saiu do Criador; na fase Alef, o Kli saiu do Criador. Ambas estas fases estão ainda completamente sob o poder do Criador, totalmente no Seu Pensamento; ainda não estão separadas d’Ele. O mundo de Adam Kadmon corresponde à fase Shoresh; o mundo de Atzilut corresponde à fase Alef (Galgalta é Shoresh le Ohrot, AB é Shoresh le Kelim).

O Tzimtzum Alef (a Primeira Restrição) foi realizado sobre esse ponto médio, ou seja, sobre a sua propriedade, na medida em que é um Pensamento relativamente às almas futuras. No que respeita ao Criador, não existe restrição neste ponto, apenas no que diz respeito às almas que saem desse ponto médio.

Devem saber que todos estes vasos, Sefirot e mundos até ao mundo de Beria, que descem desse ponto médio em consequência do Zivug de Haka’a, se chamam "Ohr Hozer” (Luz Reflectida). Todos eles são considerados como "o Pensamento da Criação”, sem serem distinguidos como almas independentes. No entanto, estas transformações já estão incluídas no plano, para depois serem realizadas na acção, no processo de descida das almas a partir do mundo de Beria. Antes do mundo de Beria, elas ainda estão inseparavelmente ligadas às propriedades do Criador.

As introduções aos livros cabalísticos são muito complexas; o seu propósito é preparar corretamente o homem que estuda Cabala, canalizando os seus esforços internos na direção certa. Se alguém se desviar deste caminho, não conseguirá compreender um livro cabalístico.

A tarefa do homem é perceber o que lhe acontece e como o Criador trabalha com ele a partir do Alto, para que ele concorde plenamente com as ações do Criador. O justo é aquele que justifica as ações do Criador. Quando o homem se entrega completamente e desfruta, ele deixa a Luz Superior passar por si, que depois regressa à sua Fonte; é a Luz Refletida (Ohr Hozer), que vem do Alto como Luz Direta (Ohr Yashar) e é refletida, preenchendo completamente todo o vaso. A Ohr Yashar reveste-se na Ohr Hozer e o homem torna-se um todo único, com o Criador.

O homem aborda o Universo de duas maneiras fundamentais: (i) chamada “Da’at Ba’alabaitim” – a opinião dos pequenos proprietários, ou seja, a opinião das massas egoístas. (ii) – “Da’at Torah”. A palavra “Torá” deriva da palavra luz (Ohr, Ohra’a – o caminho para o Criador). Estas duas abordagens são absolutamente contrárias uma à outra.

O problema é que, enquanto ainda estamos nos limites do nosso mundo e não adquirimos as propriedades espirituais, não podemos compreender que estas duas abordagens do Universo são opostas. Isso acontece porque, à medida que o homem adquire as propriedades espirituais, o tempo e o espaço fundem-se num único ponto para ele, e todo o movimento cessa.

É então que ele começa a ver tudo como absolutamente estático, nada acontece à sua volta, mas tudo ocorre dentro dele. De acordo com o seu estado espiritual interno, as suas qualidades e propriedades espirituais, o homem começa a ver um mundo totalmente diferente à sua volta.

Cada vez que essas qualidades se transformam nele, ele vê uma imagem completamente diferente. Então, descobre que toda a imagem à sua volta é, na verdade, absolutamente estática, e só muda dentro dele, de acordo com a transformação das suas propriedades, os órgãos de receção de informação “externa” (externa – ilusória, na verdade, apenas o homem está a mudar).

Na realidade, há uma luz espiritual estática, amorfa e homogénea à nossa volta, que é chamada “O Criador”. Da mesma forma, com os nossos cinco sentidos, também temos cinco sentidos espirituais: olhos espirituais (visão), ouvidos (audição), nariz (olfato), boca (paladar) e mãos (tato). Dependendo das suas qualidades, capacidade de condução e sensibilidade, receberemos constantemente diferentes impressões desta luz espiritual homogénea. A impressão mais primitiva é a que recebemos hoje.

A luz espiritual homogénea é percebida nos nossos sentidos; ela forma uma imagem acumulativa do Universo na nossa consciência, que chamamos “o nosso mundo”, “este mundo”. Se os nossos sentidos mudarem um pouco, ou seja, se tornarem menos opostos a esta luz, aproximando-se dela nas suas propriedades e adquirindo propriedades altruístas, começarão a percebê-la de forma mais correta, mais como ela realmente é.

Essas sensações complexas de si próprio através dos seus cinco sentidos dar-lhe-ão uma imagem, que é chamada o mundo de Assiya. O mundo de Assiya não é mais do que a medida da sensação da sua correção ou diferença em relação à luz, ao Criador. Portanto, diz-se que todos os mundos estão dentro do homem.

Se desenvolvermos ainda mais os nossos sentidos, transformando o nosso egoísmo em altruísmo espiritual, receberemos uma imagem ainda mais correta da luz, chamada o mundo de Yetzira, e assim por diante. No nível mais elevado, quando nos corrigirmos completamente, perceberemos uma imagem não distorcida da Luz Superior, ou seja, a luz homogénea preencher-nos-á, entrará pelos nossos cinco sentidos, e então sentiremos o próprio Criador em todas as Suas verdadeiras propriedades, pensamentos e desejos em relação a nós.

O homem deve alcançar este estado de fusão completa com o Criador enquanto ainda está no nosso mundo. A atitude do homem em relação a tudo à sua volta, assim como as suas reações, são ditadas pelo nível em que se encontra, ou seja, tudo é determinado pelas suas propriedades atuais, parcialmente corrigidas e não corrigidas.

Não podemos mudar a nossa atitude sobre o que está a acontecer, nem reagir de forma diferente até que nos mudemos a nós próprios. Então, as nossas propriedades internas, melhoradas e novas, naturalmente garantir-nos-ão uma atitude diferente e melhor.

Quando o homem começa a estudar Cabala, parece-lhe que poderá progredir com a ajuda do seu intelecto racional, analisando, pesquisando e tirando conclusões. Um escreve um resumo, outro grava as lições – é natural, porque o intelecto é a nossa ferramenta de perceção e análise do mundo. No entanto, isso é verdade apenas nos limites do nosso mundo.

Na verdade, a compreensão espiritual ocorre de forma diferente. Quando o homem faz um esforço, embora as suas intenções sejam absolutamente egoístas, ele atrai sobre si uma emanação aumentada da Luz Circundante (Ohr Makif). Esta emanação Circundante já é direcionada a uma certa pessoa, e não às massas.

A pessoa que estuda de acordo com o método cabalístico atrai para si uma emanação pessoal da Luz Circundante. Esta luz começa a impulsionar o homem para a espiritualidade; ela “puxa-o” para cima. Este é um caminho totalmente diferente: não com a ajuda do intelecto; na verdade, priva o homem do seu intelecto terreno: pouco a pouco, são-lhe enviadas circunstâncias com as quais ele deve lutar. A luz força-o a agir; “atira-o” de um lado para o outro, de uma circunstância para outra, para despertar nele novas sensações, para prepará-lo para sentir a espiritualidade.

A emanação da Luz Circundante intensifica-se e começamos a sentir-nos pior. Porquê? Sentimos que há algo no exterior, mais forte e melhor, que não pode entrar em nós. Assim, expericiamos períodos de depressão. Na verdade, isso significa que a verdadeira razão para as nossas depressões é que recebemos do Alto uma emanação mais poderosa.

O homem não pode de forma alguma prever o próximo nível no seu desenvolvimento espiritual com o seu próprio intelecto. A possibilidade de controlar conscientemente os seus estados espirituais (na verdade, ainda não são espirituais) desaparece. De facto, isso é feito para levar o homem a separar-se do seu intelecto terreno, para que ele adquira um intelecto de outro tipo: a fé acima da razão. Chama-se “entrar em Ibur” (entrar no estado de embrião) dentro de um Partzuf espiritual superior.

Isso só pode ser feito quando o homem desliga completamente as suas propriedades intelectuais e analíticas pertencentes a este mundo. Ele entrega-se totalmente à força superior e deseja ser completamente incluído nela. As massas evitam esta abordagem. Na Cabala, quando o homem progride pela fé acima da razão, ele primeiro controla o que está a acontecer consigo e depois desliga conscientemente o seu intelecto.

As massas existem na fé abaixo da razão. O Zohar chama-lhes “Domem de Kedusha”. “Domem” significa “estático”, “inanimado”, “Kedusha” significa “sagrado”, ou seja, “o nível inanimado sagrado”. O que significa isto? Há cinco níveis no Universo:

- inanimado 

- vegetativo

- animal

- humano

- e mais um, o nível mais elevado – Divino.

Estes são os cinco níveis da natureza. No mundo espiritual, de acordo com esta divisão, também existem cinco níveis de desenvolvimento das propriedades internas do homem.

Qual é o significado do nível “espiritualmente inanimado” mais baixo? O homem encontra-se num estado inanimado, “imóvel”, semelhante à “natureza morta” na natureza, talvez até como uma pedra. Isto porque foi criado assim e lhe foi dito como tudo deve ser feito.

O homem realiza tudo num nível “inanimado”, sem uma atitude própria, sem uma intenção espiritual pessoal, apenas executa certas ações espirituais que correspondem às leis espirituais, mas fá-lo “mecanicamente”, sem envolver o seu “eu” pessoal.

No mundo espiritual, ocorre a interação entre a alma humana e o Criador. A interação geral entre o homem e o Criador é dividida em 620 ações diferentes, chamadas mandamentos, 620 leis, ações espirituais que o homem realiza quando atravessa todos os níveis, começando pelo nosso mundo até ao nível de adesão completa com o Criador.

Existem 620 níveis que nos separam do Criador, cada um dos quais é superado pelo cumprimento de uma certa ação espiritual, chamada mandamento (uma lei ou condição).

Esta ação espiritual é cumprida apenas pela intenção do homem, ou melhor, pela mudança da sua intenção de “para seu próprio benefício” para “em benefício do Criador”. O tamanho da intenção altruísta com que o homem realiza a ação é determinado pelo nível espiritual que ele alcançou.

Se realizarmos todas as 620 ações espirituais apenas de forma mecânica, sem corrigir a intenção, como fazem as massas, atraímos uma Luz Circundante que mantém essas massas da mesma forma que preserva a “natureza inanimada” numa certa forma. Esta luz inspira-as a continuar a fazer o que lhes foi ensinado, mas não as faz avançar, não as transforma da “natureza espiritualmente inanimada” para a “vegetativa”.

Para passar da “natureza espiritualmente inanimada” para a “vegetativa”, é necessário um método especial que estudamos aqui. No momento em que o homem ultrapassa este limiar e se torna espiritualmente “vegetativo”, ele já entrou no mundo espiritual. Mais tarde, quando desenvolve pela primeira vez a sua natureza vegetativa, ou seja, se realizar certas ações espirituais, corrigindo constantemente as suas intenções, e assim cumprir, talvez, 100 mandamentos, isso refere-se à camada espiritual vegetativa. Depois, se cumprir 100-150 mandamentos, isso refere-se à camada espiritual animal. Após realizar 200-300 mandamentos, isso refere-se à camada espiritual humana. Os mandamentos restantes pertencem à camada Divina, Keter. Ofereço esta ideia como uma ilustração, não como um exemplo específico.

Todos os níveis espirituais, de zero a 620, baseiam-se no princípio de que o homem se transforma internamente, melhorando constantemente, tornando-se cada vez mais semelhante ao Criador, até que não haja diferença entre eles.

No entanto, no nosso nível mais baixo atual, só podemos cumprir os mandamentos mecanicamente. A ação mecânica nunca nos permitirá passar do nível “espiritualmente inanimado” para o “vegetativo”. Apenas com a ajuda da Cabala se pode passar para esse nível. Este método atrai sobre nós a Luz Circundante especial e tira-nos deste mundo, transformando “uma pedra” numa “planta”.

O homem nasce como qualquer outro animal neste mundo, e não há nada de espiritual nele. A única coisa que se pode dizer sobre o homem, com todas as “complexidades” que ele pode adquirir de vários ensinamentos orientais, é que tudo isso pertence ao nível “intelectual” interno (digamos assim) de um animal chamado “homem do nosso mundo”. Essas várias “sabedorias” falam sobre forças que acompanham o nosso corpo físico.

Auras, chakras, etc., existem, mas são estruturas biológicas e bioenergéticas do corpo humano. Os animais também as possuem; em regra, são até mais sensíveis aos campos bio e psico do que o homem. Qualquer pessoa pode desenvolver essas capacidades.

Tudo isso refere-se ao corpo físico, mas a ciência não prosseguiu com esta pesquisa. Atualmente, começou a desenvolver-se mais, e muitas coisas ainda não estão claras, mas, em princípio, tudo isso é sujeito a testes e pesquisas numa base absolutamente científica, sem envolver correções espirituais do próprio homem. Claro, o homem influencia moralmente esses campos, mas ainda permanece um egoísta, ou melhor, um altruísta egoísta (dá para seu próprio benefício).

Assim, o homem nasce com todas essas disposições intelectuais, que ele pode desenvolver. Há apenas uma peculiaridade a mais: além dos desejos egoístas, o homem pode receber apenas um outro desejo, que não existe no nosso mundo. Este é o desejo de dar, que é um desejo espiritual. Chama-se “Nekuda she baLev” (um ponto no coração).

Mais tarde, examinaremos como ele é inserido no coração humano. Na verdade, ele é inserido no “eu” egoísta do homem, ou seja, todo o nosso organismo é construído com base no nosso “eu” egoísta. De repente, um ponto, um embrião do “eu” espiritual e altruísta, entra no egoísmo. Em princípio, este ponto não tem nada a ver com o homem, porque ele é uma criatura totalmente egoísta.

Biologicamente, o homem é muito semelhante aos animais. Ele difere deles apenas devido a este “ponto negro”. Por que é chamado “negro”? Não é espiritual? É porque ainda não está preenchido com a luz. Com a ajuda da Cabala, quando a Luz Circundante individual começa a brilhar, ela ilumina este “ponto negro”, e assim ele começa a sentir tensão, disparidade entre si próprio e a luz.

Continuando a estudar, o homem começa gradualmente a desenvolver este ponto; ele expande-se, até que dez Sefirot são formadas nele. Assim que as primeiras dez Sefirot estão no “ponto negro”, elas são incluídas na estrutura do Partzuf espiritual superior; isso é então chamado “Ibur” (concepção). Este ponto é um embrião da alma. As primeiras 10 Sefirot adquiridas pelo homem são chamadas de alma, o vaso da alma. A luz que as preenche é chamada “a luz da alma”.

O homem deve desenvolver este ponto a um nível que lhe permita transformar todas as suas propriedades egoístas em altruístas. Um “ponto negro” começa a “crescer” à medida que o homem lheadiciona egoísmo e o transforma em altruísmo. Este ponto é a Sefira Keter. A partir dele, com a ajuda de egoísmo adicional, começam a desenvolver-se 10 Sefirot. Quanto mais egoísmo o homem lhe adiciona, maior é o Kli espiritual, chamado “alma”, que ele recebe.

No entanto, se isso não acontecer, então, como o homem nasceu um animal, assim morrerá. Por outro lado, se ele desenvolveu o seu Kli espiritual mesmo que um pouco, ainda que não tenha alcançado o mundo espiritual, e se foi influenciado pela luz espiritual, isso permanece nele para sempre. Porque esta qualidade recém-formada não se refere ao corpo, não morre com ele, refere-se ao “ponto negro”, que é espiritual, ou seja, eterno. Portanto, este trabalho, este esforço não se perde.

Como se pode criar pelo menos 10 das menores Sefirot a partir deste ponto? Vamos supor que pegamos em um grama do nosso egoísmo e o dotamos de um Masach [Tela]. O egoísmo mais o Masach [Tela] combinado com este ponto dá-nos o Kli espiritual menor. Não é necessário um Masach [Tela] para o “ponto negro”, porque o homem o recebe do Alto.

Agora, voltemos à questão do livre-arbítrio. No livro de Baal HaSulam, “Pri Hacham, Igrot”, está escrito: “Como já disse em nome do Baal Shem Tov, antes de realizar qualquer ação espiritual (refere-se a um mandamento), não há necessidade de pensar na Providência privada do Criador, mas, pelo contrário, o homem deve dizer: ‘Se eu não fizer por mim, quem o fará?’”

No entanto, depois de completar esta ação com a confiança absoluta de que tudo depende apenas dele e de que o Criador não existe, ele deve reunir os seus pensamentos e acreditar que realizou esta ação espiritual não pelos seus próprios esforços, mas apenas graças à presença do Criador, porque tal era a Sua intenção inicial.

Devemos agir da mesma forma nos procedimentos diários e regulares, porque o espiritual e o corpóreo são semelhantes. Assim, antes de o homem sair de casa para ganhar o que precisa de ganhar durante o dia, ele deve desligar completamente o pensamento da Providência privada do Criador, dizendo: “Se eu não o fizer por mim, quem o fará?”, e fazer exatamente o que as outras pessoas que ganham a vida fazem no mundo.

Mas à noite, quando regressa a casa com o que ganhou, não deve de forma alguma pensar que o ganhou pelos seus próprios esforços, mas acreditar que, se não tivesse saído de casa, teria recebido o mesmo. Como estava planeado pelo Criador com antecedência quanto ele tinha de ganhar naquele dia, à noite ele teria de o receber de qualquer forma.

Apesar de, no nosso intelecto, estas duas abordagens para a mesma ação se contradizerem, e nem o nosso intelecto nem o nosso coração as percebam, o homem deve acreditar nisso mesmo assim. Parece contraditório para nós, porque as nossas propriedades são contrárias às do Criador e ainda não entraram no espaço espiritual, onde todos os opostos se unem num todo único e todas as contradições desaparecem, “afogam-se” na Unidade.

Existe a Providência Divina chamada HaVaYaH – o que significa que o Criador controla tudo e o homem não pode de forma alguma participar neste controlo, e que todos os seus pensamentos, desejos, ações, etc., lhe são dados de fora. Depois, há a Providência Divina chamada “Elokim” com Gematria (valor numérico das letras e palavras hebraicas) igual a “Teva” (natureza). Esta é a Providência através da natureza, quando o homem, independentemente do controlo absoluto do Criador, age de acordo com a sua natureza.

Se o homem tentar combinar estes dois tipos de Providência dentro de si (embora não coincidam no nosso intelecto, nem no seu coração, ele vai, de facto, acima do nosso intelecto), esses esforços finalmente levam à sua união, e ele vê que não há contradição. No entanto, até alcançarmos tal unidade, continuaremos a fazer a mesma pergunta: quem fez isto – o Criador ou eu? Além disso, não há como escapar destas perguntas até chegarmos ao nível onde HaVaYaH – Elokim coincidem; então poderemos compreender.

Falamos aqui da atitude do homem em relação à ação. Antes de agir, o homem decide conscientemente estar sob o controlo de Elokim; isso dá-lhe a oportunidade de analisar as suas ações e a sua atitude em relação a elas. Assim, ele justapõe estes dois sistemas e aproxima o seu “eu” da semelhança com o Criador, lembrando constantemente a sua existência.

Se o homem esquecer ou não souber da existência dos dois sistemas, ele é influenciado apenas pela natureza (Elokim), não pela Providência pessoal do Criador (HaVaYaH). Sem sobrepor estes dois sistemas, aceitando apenas um deles (ou Ele controla tudo ou nós controlamos), resulta que ou o Criador ou o homem não existe. O avanço do homem para o Criador só é possível quando ele consegue combinar forçosamente estes dois sistemas de providência em si próprio antes de cada ação.

12) Dar-vos-ei um exemplo do nosso mundo. Suponhamos que um homem se esconde de estranhos, de modo que ninguém o possa ver ou sentir, mas não consegue esconder-se de si próprio. O mesmo acontece com as 10 Sefirot que chamamos Keter, Hochma, Bina, Hesed, Gevura, Tifferet, Netzah, Hod, Yesod e Malchut. Elas não são mais do que 10 cortinas atrás das quais está oculto o mundo do Infinito. No futuro as almas terão de receber toda a luz que as 10 Sefirot lhes transmitirem a partir do Infinito.

Note bem, existem o Infinito, os 10 Masach [Trlas] ocultos e as Almas. Se uma alma está por trás de todas as 10 “coberturas”, ela não sente de todo o mundo do Infinito. À medida que a alma “remove” essas “coberturas”, aproxima-se do mundo do Infinito e começa a senti-lo cada vez mais.

As medidas de sensação do mundo do Infinito são chamadas de mundos: Adam Kadmon, Atzilut, Beria, Yetzira, Assiya, ou níveis da escada espiritual, 620 níveis, 125 níveis, 10 níveis, Sefirot. Não importa como se chamam; o caminho e a distância são os mesmos.

As almas adquirem as propriedades da luz dependendo de quanto dela e de que nível das 10 Sefirot recebem, por trás de qualquer “cobertura” em que se encontrem. A luz dentro das 10 Sefirot é absolutamente homogénea e estática em todos os níveis de todos os mundos, enquanto as almas receptoras estão divididas em 10 níveis, correspondendo às propriedades dos nomes desses níveis.

Isto significa que o Criador é indivisível e imutável no Infinito. Estando num dos níveis, a alma recebe através dos Masach [Tela]-ocultações do Criador e, naturalmente, já recebe a luz distorcida.

Cada um destes nomes – Keter, Hochma, Bina, Hesed, Gvurah, Tifferet, Netzah, Hod, Yesod e Malchut – significa uma certa propriedade, que oculta e, ao mesmo tempo, revela. Por um lado, cada nome indica o quanto oculta o Criador; por outro lado, indica o quanto revelamos o Criador se ascendermos a ele. São duas direções contrárias – a medida de ocultação e a medida de revelação.

Todos esses Masach [Telas] de ocultação de que agora falamos atuam apenas no mundo de Beria e abaixo, pois as almas que recebem esta luz estão apenas nestes três mundos: Beria, Yetzira e Assiya.

O que significa isto? As almas podem estar até acima dos mundos de Beria, Yetzira e Assiya, mas apenas à medida que ascendem com esses mundos. Ou seja, as almas estão sempre nestes três mundos. A noção de “ascensão dos mundos” significa que, se o homem deixa este mundo, ele pode estar no mundo de Assiya, depois no mundo de Yetzira, depois no mundo de Beria, mas não pode ascender acima do mundo de Beria. Se ascender, fá-lo apenas dentro desses mundos. Através dos seus esforços, ele faz com que esses mundos ascendam com ele. Esses mundos são a sua cobertura. Com esses mundos, ele ascende a Atzilut e, depois, ao mundo do Infinito.

Nos mundos de Adam Kadmon e Atzilut, as almas existem apenas no Pensamento, sendo inseparáveis do Criador. Por isso, estas 10 "cortinas" actuam apenas nas 10 Sefirot dos mundos de Beria, Yetzira e Assiya. No entanto, mesmo nestes mundos, as 10 "cortinas" são consideradas absolutamente divinas, até ao fim do mundo de Assiya.

Não existe distinção entre as Sefirot e o Criador, exactamente como antes de todas as restrições. A diferença reside apenas nos Kelim de que as 10 Sefirot são constituídas, pois nos mundos de Adam Kadmon e Atzilut o poder das 10 Sefirot ainda não se manifestou de forma suficiente, uma vez que estas 10 Sefirot são apenas um Pensamento. Os seus Kelim [Vasos] começam a expressar o seu poder de ocultação apenas nos mundos de Beria, Yetzira e Assiya.

No entanto, devido às “coberturas”, a luz nestas 10 Sefirot permanece inalterada, como se diz: “Eu nunca mudo, – diz o Criador sobre Si próprio, – sou omnipresente e ‘mudo’ apenas aos olhos do homem, dependendo apenas da sua capacidade de Me sentir e do nível de correção das suas propriedades, os seus olhos”.

13) Podem surgir perguntas: se não há manifestação das almas a receberem a luz nos mundos de Adam Kadmon e Atzilut, então para que servem aí as 10 Sefirot, os 10 Kelim? Para que servem os mundos de Adam Kadmon e Atzilut, se não há almas neles? Se estes mundos não ocultam nem impedem nada, qual é então o seu papel? E se eles impedem a luz em diversas medidas, para quem o fazem? Existem duas respostas:

a) Todos os mundos e as Sefirot têm de se desenvolver desta forma.

b) No futuro, as almas terão de receber das 10 Sefirot nos mundos de Adam Kadmon e Atzilut, devido à ascensão dos mundos de Beria, Yetzira e Assiya até Atzilut, e depois até Adam Kadmon. Por isso, é necessário que existam degraus e, lugares previamente preparados nestes mundos, para que os mundos de Beria, Yetzira e Assiya possam elevar-se até lá, entrar neles e receber uma revelação maior do Criador.

De outro modo, a alma não pode ascender; só o pode fazer com os mundos de Beria, Yetzira e Assiya, pois é assim que as almas terão de ascender ali, e esses mundos brilharão sobre as almas nesse momento. Então, cada uma delas receberá o seu nível a partir destas 10 Sefirot.

14) Assim, vemos que a Cabala fala de todos os mundos e níveis, de tudo excepto do Criador. Refere-se aos Kelim, aos vasos que medem os estados de ocultação para as almas, para que, depois, elas possam receber a luz do mundo do Infinito de acordo com os seus níveis. Todas estas cortinas de ocultação afectam apenas aqueles que devem receber a luz e não Aquele que, como a Origem, se oculta atrás delas, ou seja, não influenciam o Criador.

Os mundos são níveis como filtros inanimados no nosso mundo; eles impedem a luz, mas, ao contrário das almas vivas, não podem participar conscientemente no processo de comunicação com o Criador. A Sefira (Tela, mundo) por si só é um dispositivo inanimado para ocultar a luz espiritual das almas. Que tipo de dispositivo é esse? Já falámos sobre isso — este dispositivo dentro de nós é o nosso egoísmo.

15) Por conseguinte, podemos dividir estas Sefirot e Partzufim em três partes: a Essência do Criador, os vasos e a luz. Não temos qualquer forma de compreender ou sentir o próprio Criador, nem nas nossas sensações, nem no nossa mente.

Nos vasos existem sempre duas propriedades opostas: "ocultação" e "revelação", porque o vaso primeiro oculta o Criador, de modo que estas 10 vasos, chamados as 10 Sefirot, representam os níveis de ocultação. Porém, depois de as almas serem corrigidas, de acordo com as condições espirituais ditadas pelas 10 Sefirot, estes níveis de ocultação transformam-se em níveis de revelação, de realização espiritual do Criador.

Assim, verifica-se que os vasos são constituídos por duas propriedades contrárias uma à outra, e o nível de revelação dentro do vaso (o homem, a alma) é igual ao nível de ocultação. Quanto mais espesso for o vaso (a alma), ou seja, quanto mais ocultar o Criador e quanto mais egoísta se tornar no processo de correcção, mais poderosa será a luz que nele se revelará no fim da correcção. Desta forma, estas duas propriedades opostas são, na verdade, uma só.

A luz dentro das Sefirot é a medida da luz do Criador recebida pelas almas de acordo com as suas propriedades corrigidas. Tudo provém do Criador: tanto os vasos como a luz que os preenche. Por isso, existem sempre 10 luzes dentro dos 10 vasos, ou seja, 10 níveis de revelação de acordo com as propriedades dos vasos.

Não podemos distinguir entre o Criador e a Sua luz. Fora do vaso, Ele é imperceptível, impossível de apreender. Só conseguimos alcançar aquilo que entra nos nossos Kelim, nas nossas propriedades corrigidas. Compreendemos apenas o que vem d’Ele, o que se reveste nos nossos vasos, ou seja, nas nossas propriedades constituídas pelas 10 Sefirot. Portanto, tudo o que percebemos no Criador chamamos luz, embora se trate de uma sensação subjectiva dentro das propriedades corrigidas das nossas almas.

O vaso sente que existe independentemente, mas isso é uma ilusão. O que podemos compreender sobre o Criador? Revelamos as nossas próprias propriedades corrigidas. De acordo com o que lhes chamamos, bondade, misericórdia, etc., atribuímos essas propriedades ao Criador. O propósito da criação, o nivel da nossa unidade com o Criador, reside numa semelhança absoluta com Ele, em revelar toda a Sua grandeza, eternidade e perfeição.