Capítulo 7.5 – Da Introdução ao Zohar
Introdução ao Livro do Zohar (item 10): 'Agora podemos compreender a quarta questão: como é possível que da Sua Santidade surja a Merkava da impureza e das Klipot [cascas], uma vez que ele se encontra na extremidade oposta da Sua Santidade, e como pode ser que Ele o sustente e o mantenha?
Na verdade, é necessário compreender primeiro a essência da impureza e das Klipot [cascas]. Devem saber que se trata do grande desejo de receber, da qual dissemos que constitui a essência das almas pela criação. E porque elas desejam receber todo o preenchimento que existe no pensamento da Criação, esse desejo de receber não permanece nessa forma dentro das almas, pois se assim fosse, elas teriam de permanecer eternamente separadas d’Ele, uma vez que a diferença de forma as separaria d’Ele.
'E para corrigir a separação que se encontra sobre o vaso das almas, Ele criou todos os mundos e separou-os em dois sistemas, conforme o versículo: “Deus fez também um como o outro”, que são os quatro mundos de ABYA da santidade.
'Oposto a eles estão os quatro mundos de ABYA impuros. E Ele imprimiu o desejo de doar em ABYA da santidade e retirou deles o desejo de receber para si próprios, colocando-a no sistema dos mundos impuros de ABYA. Por esta razão, eles tornaram-se separados do Criador e de todos os mundos da santidade.
'Por esse motivo, as Klipot [cascas] são chamadas “mortas”, conforme o versículo: “sacrifícios dos mortos” (Salmos 106, 28). E os ímpios são atraídos para elas, como dizem os nossos sábios: “Os ímpios são chamados mortos mesmo enquanto ainda estão vivos”, porque o desejo de receber, impresso neles em oposição de forma à Sua Santidade, separa-os da Vida das Vidas, e eles estão distantes d’Ele de uma extremidade à outra.
'Isto deve-se ao facto de Ele não ter qualquer interesse na recepção, mas apenas na doação, enquanto as Klipot [cascas] desejam apenas receber para o seu próprio deleite, e nada têm a ver com a doação, não havendo maior oposição do que esta. Devem saber que o afastamento espiritual começa com alguma diferença de forma e termina na oposição de forma, que é a distância máxima possível no último nível.'
Se existe um completo desligamento entre o Criador e a criatura, como pode Ele sustentá-la e protegê-la? O Criador formou intencionalmente a Criação com traços opostos aos Seus. Assim, atribuiu às Suas criaturas a tarefa de corrigir esses traços. Para as ajudar, construiu dois sistemas de mundos opostos para servirem as criaturas.
Aquele que usa o lado direito, o da santidade, ou seja, o desejo de doar, é chamado “vivo” e “justo”. Aqueles que usam o lado esquerdo, o dos desejos não corrigidos, ou seja o egoísmo, são considerados “mortos” e “ímpios”. Todos estes estados se referem apenas à espiritualidade, quando a Luz se encontra no vaso (níveis inanimado, vegetativo e animado) ou quando é retirada dele (apenas o nivel inanimado).
Quando dizemos “mau”, referimo-nos a pessoas que já alcançaram a revelação do Criador, entraram nos mundos de BYA e agora sobem pela escada de 6.000 degraus em direcção ao Criador. Embora estejam agora a trabalhar com a intenção de doar, ainda podem cair no egoísmo e na recepção para receber. Estas duas situações devem ser vividas em cada nível.
O estado “mau” obriga-nos a avançar para a santidade e a corrigir os atributos da linha da esquerda. Mas quanto mais egoísmo corrigimos no nosso nível actual, maior porção de egoísmo recebemos no nível seguinte. Então temos de realizar as mesmas operações nos níveis espirituais e corrigir a porção seguinte de desejo de receber. As situações são muito mais agudas e profundas na espiritualidade, mas, ao mesmo tempo, o poder que recebemos para lidar com elas é também maior.
Escolhemos sempre o desejo que nos dá mais prazer em cada situação. Esta conduta foi-nos impressa do Alto e é imutável. Mas o que podemos mudar é a direcção do prazer para a sua origem. Assim, o foco deve incidir sobre o sentimento da origem do prazer!
O desejo de receber em si próprio não é egoísmo. Se eu quero receber porque o Criador me dá prazer, e Eu dou-lhe contentamento ao receber, isso é considerado dar, e não receber. Se não me importa quem me dá prazer, mesmo sabendo que vem do Criador, mas usamos tudo para extrair o maior prazer possível, então os nossos desejos são egoístas e corrompidos. O nosso mundo ainda se encontra muito abaixo do mundo dos desejos impuros, ou seja, mesmo abaixo dos desejos corrompidos.
Os mundos puro e impuro complementam-se mutuamente. Ambos são necessários para o progresso espiritual. O indivíduo encontra-se entre eles, na parte média, Tifferet. Esse é o único lugar neutro.
Acima dele está a santidade, e abaixo dele, a impureza. Nada há a corrigir na santidade, mas é impossível corrigir as forças impuras. Apenas no segundo terço de Tifferet é possível ligar a parte superior e a parte inferior, e assim corrigi-las.