Capítulo 3.2 – Com o que se ocupa a Cabala?
Os cientistas descobriram que as plantas reagem de forma diferente quando pessoas diferentes se aproximam delas. Por exemplo, se determinada pessoa prejudica determinada planta, a planta recorda-o e, quando essa pessoa se aproxima, reage com "ondas" internas intensas. Os peixes e os animais também sentem os outros de diversas formas. Tal como as plantas, quando o Criador Se revela a nós, podemos sentir o nosso ambiente circundante, sentir o "outro". Essa revelação ocorre nos mesmos sentidos em que sentimos as outras pessoas enquanto seres humanos comuns. Essa sensação externa está ausente na natureza inanimada e existe apenas um pouco nas plantas.
A ciência da Cabala ocupa-se da revelação do Criador pelo homem. O Criador está fora de nós, tal como tudo o que nos rodeia. Ele é externo, alheio. Está ainda mais distante e mais oculto do que tudo o que vemos à nossa volta. Está por detrás da nossa realidade.
A nossa capacidade de sentir o nosso ambiente circundante, bem como as nossas outras capacidades e propriedades, depende da medida de egoísmo presente em cada criatura. É essa propriedade, a medida do desejo de prazer, que desenvolve as necessidades que cada criatura deve satisfazer, assim como as propriedades e capacidades dessa criatura.
Assim, todas as propriedades na natureza animal, como a capacidade de se mover e de compreender, excedem as capacidades da natureza inanimada. A mesma proporção existe entre a natureza animal e a natureza humana. O menor egoísmo encontra-se na natureza inanimada. Ele manifesta-se apenas em leis estáticas e físicas que preservam as propriedades.
Um nível tão baixo de egoísmo cria apenas necessidades mínimas, que não exigem alterações internas — as quais exprimiriam vitalidade e criariam a necessidade de movimento.
Os corais constituem um estado intermédio entre o inanimado e o vegetativo, porque possuem uma maior quantidade de egoísmo, o que lhes confere o atributo do crescimento.
Um egoísmo maior gera a natureza vegetativa e a necessidade de mudar, engolir e defecar, crescer, reagir a condições externas e até desenvolver memória. Um egoísmo ainda maior produz muitos mais tipos de organismos vivos, dotados da capacidade de aprender, recordar, adaptar-se e mover-se livremente, consoante o seu nível de egoísmo.
As características de cada espécie são uma consequência directa da quantidade do seu desejo egoísta. Esse é o único factor que faz surgir esta ou aquela propriedade ou capacidade. Tudo o que caracteriza qualquer objecto provém de uma única origem: a sua quantidade de egoísmo.
Assim, a capacidade de um objecto sentir fora de si próprio existe de forma ainda mais intensa no ser humano, pois o seu objectivo é sentir o Criador. Mas também se pode dizer o contrário: porque os homens conseguem sentir fora de si próprios, podemos concluir que o propósito da criação da humanidade é estar em contacto com o Criador.
No entanto, para além desta propriedade, é vital que utilizemos o nosso intelecto para aumentar muitas vezes a nossa sensibilidade em relação aos outros. Através desta sensibilidade, tornamo-nos capazes de sentir a alegria e a agonia dos nossos semelhantes.
O intelecto ajuda-nos a desenvolver a capacidade de sentir os outros com maior clareza. Ela confirma a ideia de que o homem é a única criatura para quem foi preparada a revelação do Criador. Para perceber o Criador, é necessário desenvolver uma capacidade plena de sentir o ambiente circundante tal como ele realmente é. É preciso ser capaz de sentir fora de si próprio, ou seja, independentemente dos interesses egoístas pessoais.
Estamos constantemente confrontados com a nossa incapacidade de nos compreendermos uns aos outros. Os nossos interesses egoístas não nos permitem sentir fora de nós próprios. Não nos deixam aproximar-nos da natureza e daqueles que são como nós; pelo contrário, afastam-nos uns dos outros. Por isso, se quisermos tirar o máximo proveito da nossa vida aqui, temos de desenvolver a capacidade de sentir aqueles que são como nós e de os compreender.
Contudo, se desejarmos sentir o Criador, devemos desenvolver não apenas a capacidade de sentir os nossos semelhantes, mas também o nosso próprio intelecto. A nossa capacidade intelectual reforçada permitir-nos-á intensificar muitas vezes essa sensação, relacionarmo-nos com as pessoas à nossa volta de forma imparcial e até ignorar completamente o nosso egoísmo nas atitudes para com os outros.
Com esta percepção, podemos sentir o Criador tanto quanto sentimos os outros em vez de nós próprios. Quanto mais conseguirmos sentir em comparação com aqueles que ainda se encontram nos níveis vegetativo e animal, mais difícil se tornará descrever as emoções intensas que sentimos, ao ponto de se tornar praticamente impossível.
Moisés desenvolveu por si próprio a capacidade de sentir "fora de si". Foi essa capacidade que o levou a alcançar o nível espiritual mais elevado, e foi ela que lhe permitiu falar ‘face a face’ com o Criador.
O propósito da Criação é conseguir sentir o Criador, e o caminho para o fazer está formulado no versículo: "Amarás o teu próximo como a ti próprio".
Os níveis da nossa evolução — ou seja, a capacidade de O sentir e de nos aproximarmos d’Ele — chamam-se "níveis de crescimento espiritual". Cada indivíduo, e toda a humanidade, percorre o caminho gradual que conduz ao propósito que o Criador preordenou.
O Criador impele-nos ao longo desse caminho infligindo-nos dor, para nos forçar a questionar a origem da angústia. Ao examinarmos a origem da dor, devemos acabar por compreender que o melhor para nós é a ligação com o Criador, a ligação com a Força mais forte e eterna que controla as nossas vidas. Essa ligação acompanha-nos neste mundo e no vindouro.
A Cabala deve ajudar-nos a tornar-nos mais capazes de uma percepção objectiva da realidade. Deve conduzir a humanidade a analisar e reconhecer com acuidade o verdadeiro "bem" e o "mal", e a perceber que o mal é a nossa própria natureza. É a nossa natureza que nos impede de ver "para além do nosso nariz". Somos compelidos a pensar apenas com o "sexto sentido".
A Cabala sustenta que as Mitzvot (mandamentos) devem ser cumpridas como um objectivo em si próprias, mas que existe para elas um propósito completamente diferente. Os nossos sábios afirmam claramente que ao Criador não importa se degolamos pela garganta ou pela nuca, ou seja, Ele não se importa com a simples observância exterior das leis. Não é isso que Ele espera do homem, nem é para isso que nos deu as Mitzvot.
Aqueles que transformam o meio de correcção no próprio fim, e escolhem contentar-se com ele como forma de vida, ensinam os outros a afastarem-se da Cabala, a qual afirma que as regras são apenas um meio para um fim, enquanto o objectivo que devemos procurar é senti-Lo através da execução correcta da Sua Vontade e do Seu Conselho.
A purificação do homem é o verdadeiro objectivo da Torá, e a observância das Mitzvot é apenas um meio para o alcançar. Se a realização das Mitzvot não for dirigida a este objetivo, mas for por hábito que se tornou necessidade, então não produzirá o fruto correcto.
É como se a pessoa que actua sem ter esta intenção em consideração simplesmente não existisse! O Zohar escreve que uma Mitzva sem intenção ou propósito é como um corpo morto (um corpo sem alma). Por conseguinte, é necessário obter o fim desejado. Só então se pode compreender por que se existe.
A intenção de alcançar o propósito da sua existência, de sentir o Criador e de se unir a Ele deve ser autêntica. É a única razão para fazer qualquer coisa. Tudo o que se faz com este objectivo em consideração é considerado uma Mitzva.
Ou seja, se cumprirmos uma Mitzva pensando apenas num propósito egoísta, é como se nada tivéssemos feito! É assim que devemos relacionar-nos com cada Mitzva. É a única abordagem em que o acto nos ajuda a purificar-nos do nosso egoísmo.
Não basta aprender a cumprir mecanicamente as regras. É muito mais importante aprender o que produzirá a intenção correcta e obter a fé, ou seja, a sensação do Criador. Esse estudo deve preceder a execução mecânica das regras. Quando adquirirmos a intenção correcta, então, ao cumprirmos estes estatutos — que são, na verdade, os desejos do Criador —, aproximar-nos-emos efectivamente do Criador.
Devemos sublinhar que a Cabala não nega a realização física das Mitzvot, excepto quando a realização mecânica substitui a interna. A realização mecânica das Mitzvot é apenas uma preparação, e só dará fruto se se adquirir efectivamente a intenção espiritual no acto.
Antes de cumprir as Mitzvot, deve-se aprender tudo o que ajude a adquirir a intenção correcta. É isso que os livros de Cabala ensinam e nada mais!