Capítulo 3.1 – Altruísmo
Todos os livros sagrados descrevem as emoções espirituais que o homem deve alcançar. Todos eles tratam de uma única coisa: a escolha do espiritual em detrimento do físico; a grandeza do Criador. O Criador não necessita do nosso respeito, pois está completamente isento de egoísmo. A única coisa de que Ele necessita é proporcionar-nos prazer, na medida em que O preferimos ao mundo corpóreo e nos tornamos semelhantes a Ele.
O reconhecimento da grandeza do Criador testemunha o nível de correção de cada um. O nosso prazer ao unirmo-nos ao Criador pode ser infinito, eterno e completo, mas apenas quando não está limitado pelo egoísmo.
O altruísmo é uma característica especial que pode ser utilizada para corrigir o vaso. O egoísmo não traz qualquer benefício — basta considerar a elevada percentagem de pessoas ricas que cometem suicídio. Mesmo que as pessoas recebessem tudo o que desejam e as preenchessemos até ao limite máximo nos seus vasos de desejo, ainda assim não sentiriam que a sua vida tem sentido. Na verdade, o acto de receber prazer elimina o desejo por ele. Só é possível sentir a razão e o sabor na fronteira entre o prazer e a dor.
O Criador estabeleceu a exigência de corrigir o vaso, transformando-o de egoísta em altruísta, em nosso benefício e não no Seu. O nosso estado actual chama-se "este mundo". O nosso próximo estado chama-se "o mundo vindouro".
Qualquer pessoa que comece a aprender algo novo e o abandone após algum tempo, ainda assim retira algo disso. Esse algo permanece vivo dentro dela. Cada um de nós sente, ainda que inconscientemente, o que é mais importante na vida.
Existem muitos tipos diferentes de pessoas. Algumas são astutas e inteligentes; conseguem facilmente o sucesso, tornam-se ricas e influentes. Outras nascem preguiçosas e evoluem lentamente. São aquilo a que chamamos "inúteis". Na realidade, podem estar a trabalhar mais arduamente do que as inteligentes, mas alcançam menos. A algumas pode ser difícil levantar-se de manhã, mas nunca podemos avaliar com precisão os seus esforços, pois estes dependem de tantas propriedades internas. Não dispomos de quaisquer instrumentos para medir as propriedades e os esforços internos de alguém. Não me refiro ao esforço físico, mas ao esforço interno, mental.
O Baal HaSulam escreveu que 10% da população é altruísta. Estas pessoas sentem prazer ao dar aos outros. Tal como um egoísta pode matar se não obtiver o que deseja, também um altruísta pode matar se não conseguir dar o que deseja dar. Para ele, isso é um meio de obter prazer.
Estas pessoas continuam a ser egoístas, porque no fundo ainda tem a intenção de receber algo ao dar, embora isso esteja oculto. Naturalmente, também elas necessitam de correção. Na verdade, têm um caminho mais longo a percorrer até tomarem consciência do seu egoísmo.
O facto de não serem realmente altruístas exige um período mais longo de auto-reconhecimento, no final do qual serão compelidas a confrontar o seu próprio egoísmo. Quanto mais grosseiro e egoísta for alguém, mais próximo estará da espiritualidade. Nesse estado, o egoísmo é imenso e maduro, e pode iniciar o seu caminho para o mundo espiritual. Tudo o que resta agora é compreender que o egoísmo é prejudicial e pedir ao Criador que mude a intenção de "receber para seu próprio benefício" para "receber para o benefício do Criador".
A vergonha surge em Malchut de Ein Sof quando esta compreende o significado de Behinat Shoresh, de Keter. Trata-se de um estado em que há a sensação de contraste absoluto entre o homem e a Luz do Criador. A própria Malchut não consegue sentir a Luz em si própria, apenas as propriedades que a Luz desperta. A Luz em si não tem propriedades; é abstracta. Malchut discerne propriedades devido à influência da Luz sobre os seus próprios atributos.
Todas as nossas reacções são obrigatórias e úteis. Isto inclui as reacções espirituais da nossa alma, bem como as reacções animais e físicas. É um conceito comum que toda a doença resulta das tentativas do corpo para manter o seu equilíbrio.
Por exemplo, suponhamos que a pessoa tem uma determinada doença. Em resposta, o corpo eleva deliberadamente a temperatura para combater as bactérias e defender-se. Uma doença não é vista como um estado de doença, mas como a expressão externa de algo que ocorre no corpo, uma ruptura do equilíbrio interior. Por isso, não é bom suprimir a capacidade do corpo se defender.
Os nossos egos são altamente sofisticados. Se sentimos um desejo que não conseguimos satisfazer, o ego suprime-o imediatamente para evitar um sofrimento desnecessário. Mas no momento em que as condições amadurecem para alcançar esse prazer, os desejos correspondentes despertam. Isto aplica-se também a uma pessoa idosa ou doente. Essas pessoas não têm outros desejos senão continuar a viver. Os nossos corpos suprimem os desejos inalcançáveis.
A sabedoria da Cabala nega por completo a teoria da evolução. A criatura evoluiu segundo as quatro fases da Luz Directa, quando Behina Aleph se tornou Behina Bet, que se transformou em Behina Gimel, e assim sucessivamente. Mas quando Malchut de Ein Sof foi criada, absorveu todos os desejos das dez Sefirot superiores (quatro Behinot). Estes encontram-se agora dentro dela e não podem ser alterados de modo algum.
O aparecimento dos mundos e dos Partzufim não testemunha uma mudança nos desejos, mas uma mudança na intenção. Os desejos activam-se conforme o objectivo de cada um. Os próprios desejos permanecem inalterados e não criam nada de novo. O mesmo princípio se aplica aos pensamentos que pensamos hoje e que não pensávamos ontem. Estavam simplesmente ocultos de nós, mas sempre existiram dentro de nós. Os pensamentos surgem gradualmente, mas não são novos.
É impossível transformar um nível de existência noutro, como insuflar vida num objecto inanimado ou transformar uma planta num animal. Existem níveis intermédios entre os objectos inanimados e os vegetais, como os corais. Depois, entre o vegetal e o animal, existe uma forma de vida que se alimenta directamente do solo, chamada "Cão do Campo". O macaco existe entre o animal e aquelas criaturas que conseguem falar.
A única coisa que poderia acontecer seria uma centelha divina atrair alguém para o espiritual, criando assim nele um desejo de alcançar algo maior do que este mundo. Nesse momento, tornar-se-ia o "Filho do Homem".
A ciência e a tecnologia foram desenvolvidas apenas para nos conduzir a um beco sem saída, para a compreensão de que a tecnologia não é o caminho. Mas antes de procurarmos o novo caminho, temos primeiro de chegar a esse beco sem saída.
Todos os cabalistas tiveram discípulos. É estritamente proibido classificar os estudantes como melhores ou menos bons, ou aqueles que desejam mais a espiritualidade, ou menos. Todos nós nascemos com certos desejos, e nenhum de nós pode dizer por que fomos criados desta ou daquela forma, ou por que os nossos desejos são como são. Os processos de classificação e selecção ocorrem naturalmente no grupo e produzem um grupo estável e forte.
O Ari formulou um novo sistema. No entanto, mesmo os seus discípulos não compreenderam plenamente o seu sistema, excepto Chaim Vital. Havia grandes cabalistas no grupo do Ari, mas nenhum deles recebeu todo o seu conhecimento, excepto Chaim Vital. O método que o professor utiliza depende do tipo de almas que descem a este mundo. Existiam outras formas de estudo antes do Ari, mas a partir da descoberta do seu método, tornou-se possível a todos estudar, desde que tivessem um desejo suficientemente forte.
O Baal HaSulam não introduziu qualquer alteração fundamental no método do Ari, mas apenas o aperfeiçoou e aprofundou. Escreveu um comentário detalhado aos livros do Ari e ao Zohar. Graças a este comentário, qualquer pessoa que deseje estudar a sabedoria da Cabala e entrar no mundo espiritual pode compreender o significado interno do texto e encontrar o verdadeiro sentido dos livros da Torá.
As almas que desceram a este mundo antes do Ari receberam a sua espiritualidade num nível superficial. Após o falecimento do Ari, as almas que desceram ao mundo estudaram e analisaram-se a si próprias e ao mundo espiritual através de um método espiritual-científico. Por essa razão, os livros escritos antes do Ari são redigidos como narrativas, enquanto os livros escritos após a sua época são redigidos no estilo de O Estudo das Dez Sefirot, numa linguagem de Behinot, Sefirot e mundos. Trata-se de uma psicologia organizada, de uma abordagem científica à alma.
Os cabalistas não necessitam de praticar esta ou aquela ciência nem de realizar experiências. Podem fornecer todas as explicações a partir da perspectiva da Cabala, que é a origem de todas as ciências. Cada ciência tem a sua própria linguagem. Se os cabalistas não forem cientistas, terão dificuldade em descrever este ou aquele fenómeno nos termos profissionais dessa ciência.
O cabalista sente as leis reais do universo, que são a origem da essência material e espiritual. Mas em que linguagem deverá descrever a reciprocidade entre os diversos fenómenos? Como deverá descrever a força espiritual que constitui o fundamento deste mundo, e quais são as relações recíprocas entre os objectos espirituais?
Não existe no nosso mundo uma única fórmula que possa definir estas coisas. Os cabalistas podem transmitir estes sentimentos a outro, mas não podem transmiti-los àqueles que ainda não entraram no mundo espiritual. Mesmo que houvesse alguma forma de transmitir determinado sentimento, ainda assim seria impossível utilizá-lo no nosso mundo antes de se mudar a si próprio. Se as pessoas mudassem as suas qualidades, poderíamos comunicar numa linguagem espiritual e realizar actos espirituais.
Todos nós recebemos e sofremos conforme o nível em que nos encontramos. Transformar a angústia em algo espiritual exige um Masach [Tela]. Isto não pode ser concedido caprichosamente. Tal exigência cria uma barreira, uma separação. Por isso, a sabedoria da Cabala também é chamada "a sabedoria do oculto" (para aqueles que ainda não a alcançaram).
No Prefácio ao Livro do Zohar, o Baal HaSulam descreve quatro níveis de reconhecimento: matéria, forma revestida na matéria, forma abstracta e essência. A nossa ciência só pode lidar com o que diz respeito à matéria e à forma revestida na matéria. Uma forma sem matéria é um conceito completamente abstracto que não pode ser analisado com clareza. A essência, aquilo que dá vida aos objectos ou cria respostas, é completamente incompreensível.
O mesmo acontece no mundo espiritual. Um cabalista que aprende algo na espiritualidade alcança a matéria e a forma que está revestida na matéria, mas uma forma que não está revestida na matéria é inatingível. Isto significa que o mundo espiritual também tem as suas limitações na compreensão e na percepção do universo. Contudo, quando os cabalistas alcançam certo nível, recebem uma dádiva do Alto que lhes abre todos os segredos do universo.