Capítulo 31. Uma Semente de Altruísmo
Como pode um ser humano – que foi criado com qualidades de egoísmo absoluto; que não sente desejos senão aqueles ditados pelo corpo; que nem sequer consegue imaginar algo fora das suas próprias perceções – como pode um ser humano ir para além dos desejos do corpo e apreender algo que existe fora do domínio dos seus órgãos sensoriais naturais?
Fomos criados com um anseio por preencher os nossos desejos egoístas com prazer. Dado este estado, não temos qualquer possibilidade de nos alterarmos a nós próprios e de transformarmos as nossas qualidades egoístas nas opostas. Para que possamos criar a possibilidade de transformar o egoísmo em altruísmo, o Criador, ao conceber o egoísmo, depositou nele uma semente de altruísmo, que somos capazes de cultivar através do estudo e da ação segundo os métodos da Cabala.
Quando sentimos os desejos ditados pelo nosso corpo, somos incapazes de lhes resistir. Assim, todos os nossos pensamentos se dirigem a cumprir as ordens do corpo. Nesse estado, não temos liberdade de vontade para agir, nem sequer para pensar em algo que não seja o benefício próprio.
Por outro lado, durante a nossa elevação espiritual, experienciamos aspirações ao crescimento espiritual e ao afastamento dos desejos físicos que nos puxam para baixo. Nestes momentos, nem sequer percebemos os desejos do corpo e, por conseguinte, não necessitamos do direito a uma escolha livre entre o material e o espiritual.
Consequentemente, enquanto permanecermos no estado de egoísmo, não possuímos a força para escolher o altruísmo. Mas, uma vez que percebemos a grandeza do espiritual, já não enfrentamos uma escolha, pois já desejamos o espiritual.
Portanto, toda a noção de livre-arbítrio consiste numa escolha: qual força nos dominará, o egoísmo ou o altruísmo? Mas quando ocorre este estado neutro em que somos capazes de fazer uma escolha livre?
Assim, não há outro caminho para nós senão o de nos unirmos a um professor, de nos aprofundarmos nos livros de Cabala, de nos juntarmos a um grupo que aspira aos mesmos objetivos, de nos abrirmos à influência dos pensamentos sobre altruísmo e força espiritual. Consequentemente, a semente altruísta despertará em nós a semente que foi implantada em cada um de nós, mas que por vezes permanece adormecida durante muitos ciclos de vida.
Esta é a essência do nosso livre-arbítrio. Uma vez que começamos a sentir os desejos altruístas despertados, esforçamo-nos por perceber o espiritual sem grande esforço. A pessoa que se esforça por alcançar pensamentos e ações espirituais, mas que ainda não está firmemente ligada a certas convicções pessoais, deve proteger-se do contacto com pessoas cujos pensamentos estão enraizados no egoísmo.
Isto é especialmente verdadeiro para aqueles que aspiram a viver pela fé acima da razão. Devem evitar todo o contacto com as opiniões daqueles que percorrem a vida dentro dos limites da sua razão, pois são opostas em filosofia à Cabala. É dito nos livros de Cabala que a razão dos ignorantes é oposta à razão da Cabala.
Pensar dentro dos limites da nossa própria razão implica que, em primeiro lugar, calculamos os benefícios das nossas ações. Por outro lado, a razão da Cabala – a fé acima da razão humana – pressupõe que as nossas ações não estarão ligadas de modo algum aos cálculos egoístas da razão, nem aos possíveis benefícios que possam advir dessas ações.
Aqueles que precisam da ajuda dos outros são considerados pobres. Aqueles que se contentam com o que têm são considerados ricos. Mas quando reconhecemos que os desejos egoístas (libba) e os pensamentos (moha) impulsionam todas as nossas ações, compreendemos subitamente o nosso verdadeiro estado espiritual e percebemos o poder do nosso egoísmo e o mal que há em nós.
Os nossos sentimentos de amargura ao reconhecermos o nosso verdadeiro estado espiritual dão origem ao desejo de nos corrigirmos. Quando este desejo alcança o nível de intensidade requerido, o Criador envia a Sua luz de correção para o kli (vaso), e assim começamos a ascender os degraus da escada espiritual.
As pessoas em geral são educadas de acordo com as suas naturezas egoístas, incluindo a observância dos mandamentos da Bíblia, e continuam a manter automaticamente as noções que adquiriram na educação. Isto torna improvável que alguma vez se afastem deste nível particular de ligação com o Criador.
Assim, quando os nossos corpos (desejo de receber) perguntam por que cumprimos os mandamentos, respondemos que foi assim que fomos educados; é o modo de vida aceite para nós e para a nossa comunidade. Com a educação como base, o hábito tornou-se segunda natureza, e não requeremos esforço para realizar ações naturais, pois são ditadas tanto pelo corpo como pelo intelecto.
Assim, não há risco de transgredir aquilo que é mais familiar e natural. Por exemplo, um judeu observante não terá subitamente o desejo de conduzir ao sábado. Mas se quiséssemos comportar-nos de modo não natural à nossa educação, e que não fosse percebido pelo nosso ser como uma necessidade natural do corpo, até a ação menos significativa faria surgir do corpo a pergunta: Por que nos envolvemos nesta atividade e o que nos levou a abandonar o estado de relativa tranquilidade para o fazer?
Neste caso, seremos confrontados com uma prova e uma escolha, porque nem nós, nem a sociedade de onde provimos, praticamos as ações que planeamos empreender. Não há ninguém que possa servir de exemplo nem ninguém que apoie as nossas intenções.
Nem sequer é possível encontrar conforto no pensamento de que outros também pensam da mesma forma que nós. Como não conseguimos encontrar qualquer exemplo nem na nossa própria educação nem na sociedade, devemos concluir que é o temor ao Criador que nos impele a agir e a pensar de modo novo. Assim, não há ninguém a quem recorrer para apoio e compreensão, exceto o Criador.
Como o Criador é Um e é o nosso único apoio, também nós somos considerados únicos, e não parte das massas entre as quais nascemos e fomos criados. Como não encontramos apoio nas massas e dependemos unicamente da misericórdia do Criador, tornamo-nos dignos de receber a luz do Criador, que nos guia no nosso caminho.
Todo o principiante se depara com uma pergunta comum: Quem decide a direção do caminho, a pessoa ou o Criador?
Oi seja, quem escolhe quem: É a pessoa que escolhe o Criador, ou é o Criador que escolhe a pessoa?
De um ponto de vista, deve dizer-se que é o Criador Quem escolhe o indivíduo através do que é conhecido como “providência pessoal”. Como resultado, deve-se agradecer ao Criador por proporcionar a oportunidade de fazer algo pelo Seu Benefício.
Mas ao considerar por que razão o Criador escolheu este indivíduo em particular, oferecendo esta oportunidade única, surge a pergunta: por que cumprir os mandamentos? Com que propósito?
Agora, o indivíduo conclui que esta oportunidade foi dada para incentivar a ação pelo Criador, que o próprio trabalho é a sua recompensa, e que o afastamento deste trabalho seria um castigo. Assumir este trabalho é agora a livre escolha da pessoa, para servir o Criador; por isso, está preparada para pedir ajuda ao Criador – para fortalecer a intenção de que todas as ações realizadas beneficiem o Criador. Esta é a livre escolha que a pessoa faz.