<- Biblioteca de Cabala
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OS SEUS ÚLTIMOS DIAS
Uma vez, durante a lição, o Miller aproximou-se de mim. “Estás a ver isto?”, sussurrou, apontando para o RABASH. O RABASH estava sentado à mesa, a tremer todo.
“Não é a primeira vez, sabes”, disse ele. “Eu não tinha reparado! O que fazemos?!”, exclamei, ficando seriamente assustado. Claramente eram problemas cardíacos — podia já ter sido um acidente vascular cerebral! Estava a ter um AVC e não dizia nada a ninguém. Calava-se de propósito.
Telefonei a um médico conhecido meu. Ele trouxe um cardiografo e fizemos um eletrocardiograma; depois, o médico disse: “Têm de o levar imediatamente para o hospital, está em muito mau estado. Sabem que mais? Eu vou convosco.”
Leva-mo-lo para o Centro Médico Rabin. Eu sabia que o RABASH tinha um coração forte, mas não esperava que se recompusesse no espaço de uma hora. Nem sequer considerava isso possível! Mas quando fizeram outro eletrocardiograma no hospital, mostrou que tudo estava perfeitamente bem. O ritmo cardíaco, todos os parâmetros vitais eram excelentes, saudáveis como os de uma criança.
Queriam mandar-nos para casa, mas insisti que nos transferissem primeiro para a ala de cardiologia. Depois, acabaram por nos passar para medicina interna, considerando o incidente cardíaco como algo comum e sem urgência.
Afinal, os médicos tinham uma atitude muito diferente em relação ao assunto. Para eles, ele não era um grande cabalista, o último da sua geração, mas um homem de 85 anos, nascido em 1907, que já vivera uma longa vida…

HABITO NO MEIO DO MEU POVO (1)
Durante dois dias inteiros não saí do lado dele. Lavei-o, mudei-lhe o pijama, envolvi-o em cobertores e sentei-me à cabeceira da cama.
Na enfermaria havia mais 6 a 8 doentes, todos idosos como ele. Um deles gemia sem parar e eu quis insistir que transferissem o RABASH para um quarto individual, mas ele impediu-me. «Não, Michael, “habito no meio do meu povo”. Senta-te, descansa. Vou adormecer daqui a pouco, já o sinto. Quando adormecer, vai para casa. Volta de manhã cedo para me ajudar a pôr os tefilin.» (2) Depois pegou-me na mão e acrescentou: “Aqui tens o Shamati”, entregou-me o caderno azul que sempre carregara consigo. “Toma-o e estuda-o… agora vai.”
E eu saí.
Virei-me antes de deixar a enfermaria. Ele ergueu a mão em despedida. Quando saí do quarto, pensei comigo mesmo: Porque me deu ele o caderno?! Porque agora? O que quis dizer com isso?! Naquele momento não compreendi que se estava a despedir. Estava a entregar-me o seu bem mais precioso, as anotações das palavras do pai, que carregara consigo toda a vida.
Olhando para trás, parece-me tão estranho que não tenha ficado, tendo sido como que “hipnotizado” ao ponto de não lhe recusar. E mais uma vez percebo que nada poderia ter feito, que tudo está nas mãos do Criador, que nada acontece fora da Sua vontade, que nada somos diante Dele, nada!

A SUA PARTIDA
No dia seguinte, por algum motivo, atrasei-me na lição. Depois fui a casa, peguei na aveia que a Olga lhe tinha preparado exatamente como ele gostava: com leite, sem açúcar. Eram seis e meia da manhã quando cheguei ao hospital. Ainda me recordo da imagem do relógio quando olhei para ele, os ponteiros como que congelados no tempo.
Ele estava deitado na cama, virado para a janela e encolhido como uma criança. Os meus piores receios confirmaram-se; corri para ele e ouvi a sua respiração… Estava a sufocar e ninguém se importava! Ninguém tinha dado o alarme nem chamado os médicos! Na enfermaria só estavam outros doentes, que nem sequer ouviram que o RABASH estava a sufocar, ali deitado em silêncio, sem um gemido. “Rebbe! Rebbe!”, chamei-o, mas ele não respondeu. Corri em busca dos médicos.
O médico deu-lhe uma olhadela e compreendeu tudo. Alguém trouxe um desfibrilhador e tentaram reanimar-lhe o coração. Os médicos trabalharam nele durante provavelmente duas horas. Eu queria ficar ali na enfermaria, mas mandaram-me sair para o corredor.
Esperei no corredor, olhando para dentro do quarto pela janela, a ver-lhes o esforço. Fizeram mesmo tudo o que podiam; não se afastaram dele, aplicaram-lhe injeções intravenosas… Durante todo esse tempo estive ali, a perceber que estava a assistir à partida da pessoa mais próxima que tinha na vida. Não havia ninguém mais próximo — nem nunca haverá.
Mas não havia pânico em mim. Afinal, ele tinha-me preparado para a sua partida…
Morreu sem recuperar a consciência.
O médico — um homem robusto — saiu para o corredor, encharcado em suor. “Acabou”, disse-me. Assenti. Só tenho uma recordação vaga do que aconteceu depois.
Telefonei à Olga, que telefonou à Feyga e ao Miller. Vieram ao hospital, seguidos pelos filhos do RABASH. Reuniu-se uma multidão, enchendo o corredor com familiares e alunos. Entretanto, eu fumava cigarro atrás de cigarro.
Levaram o RABASH para a morgue. O médico entregou-me o relógio dele. Estava tudo acabado.

ELE PARTIU, MAS CONTINUA PRESENTE
O que aconteceu depois…
O funeral realizou-se no mesmo dia, uma sexta-feira. O jornal religioso Hamodia publicou a notícia:
15 de Setembro de 1991  
“Ao terminar o feriado de Rosh Hashana, [o RABASH] sentiu-se mal e foi imediatamente transportado para o Centro Médico Rabin. Os seus seguidores e admiradores rezaram pela sua recuperação, mas às 7 da manhã de sexta-feira devolveu a alma ao seu Criador. Junto à sua cama encontravam-se os seus filhos, Rav Shmuel e Rav Yehezkel, e o administrador da sua casa (3), Michael Laitman.”
O RABASH foi sepultado ao lado de Baal HaSulam (4).
Ao funeral compareceram aqueles que tinham sido avisados. Fiquei de lado, afastado da sepultura que tinha sido ocupada pelos familiares. Depois do funeral, seguiu-se a Shiva. As pessoas entravam e saíam. Houve muitas palavras, muitas lágrimas. A minha tensão arterial subiu, senti-me tonto e com a cabeça à roda pela primeira vez na vida. Quando a mediram, estava em 180/100. A imensa pressão interior estava a manifestar-se.
E, no entanto, apesar de tudo, recordo-me muito claramente de que não senti nem medo nem pânico. Duas partes do meu cérebro funcionavam simultaneamente. Numa delas, sentia e compreendia obviamente que a sua forma física tinha partido. Na outra, havia a certeza absoluta de que uma nova era estava a despontar.
E isto apesar de, nos últimos 12 anos, toda a minha vida ter girado em torno do RABASH. Estava com ele da manhã à noite. Mesmo quando estava fisicamente ausente, os meus pensamentos estavam com ele. “Acabou-se-lhe o queijo; tenho de comprar mais.”
“Ultimamente tem tido dificuldades em dormir; devo levá-lo ao médico.” “A Olga fez o jantar; não me posso esquecer de lho levar.” O RABASH tornara-se a minha segunda identidade. Nem conseguia imaginar a minha vida sem ele.

DE REPENTE, ELE TINHA PARTIDO!
Durante algum tempo ainda acordava a suar frio, olhando para o relógio com o pensamento em pânico: “Dormi demais! São nove e meia e eu precisava de estar em casa dele às nove!” E depois lembrava-me que não, não me tinha atrasado. Já não havia nenhum sítio onde tivesse de estar.
Deitava-me e fechava os olhos — e via-o ali diante de mim, como se estivesse plenamente vivo…
No início foi difícil para mim. Conduzir era especialmente difícil — habituara-me tanto a conduzir para todo o lado com ele no carro. Ainda ouvia a sua voz: “Mais devagar, Michael, não tão rápido!” Não gostava que eu conduzisse a mais de 90 quilómetros por hora. “É preciso limpar o para-brisas, Michael.” Gostava que o para-brisas estivesse impecavelmente limpo. “Michael, vamos até ao Monte Meron”, e seguíamos até à sepultura de RASHBI. Para onde havia eu agora de conduzir sem ele?!
Ainda assim, com o tempo, aprendi a lidar com isso. E precisamente graças à segunda parte do cérebro, a parte principal, na qual o sentia com absoluta clareza. Por um lado, perdi o meu Professor, o meu pai, o meu amigo. Por outro lado, não o perdi de todo; ele não foi a lado nenhum! Com o passar do tempo, comecei a senti-lo cada vez melhor. Afinal, o RABASH tinha-se entregue por completo. Não havia um único minuto em que fizesse algo por si próprio. Toda a sua vida estava estruturada numa única direção: de si para os outros.
E tinha-me contagiado com essa mesma orientação.
Sentia que ele me impelía para a frente, que não tinha outra escolha senão seguir os seus passos, sem desviar nem ceder a mais nada, mas avançar e fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para transmitir ao mundo tudo o que ele quisera transmitir. Senti essa responsabilidade nessa altura, e continuo a senti-la hoje.
Tudo o que me aconteceu desde então, devo-o inteiramente a ele.


1 “Habito no meio do meu povo” (2 Reis 4:13). O versículo refere-se àqueles que se unem num todo único para revelar o Criador nessa unidade, ou seja, luz, amor, doação.
2 Tefilin: um par de pequenas caixas negras de couro contendo pergaminhos com versículos da Torá.
3 Administrador da casa (em hebraico: “ish mufkad al beiti”): o cargo de maior honra de alguém ao serviço de uma grande personalidade espiritual. Provém do versículo “É fiel em toda a Minha casa” (Números 12:7), que o Criador disse a respeito de Moisés.
4 “Quando o RABASH faleceu, ninguém sabia onde o sepultar. Ao contrário da maioria, ele não tinha comprado um talhão no cemitério. Naquela altura, os talhões ao lado de Baal HaSulam eram vendidos por 5000 dólares ou mais. Algumas pessoas tinham assegurado o seu lugar há muito tempo, mas o RABASH nunca sequer o considerara. Porque não estava relacionado com o objetivo, para ele simplesmente não existia.”