O MEU NASCIMENTO
Mas o que poderia ser isso? Eu sabia que RABASH ansiava por que a Cabala fosse revelada a todo o povo, por isso há muito planeava escrever um livro.
“Devo investir-me num livro?”, perguntei-lhe.
“Sem dúvida. Tens de escrever um”, respondeu. “E eu ajudarei no que puder.” E muitas vezes perguntava como ia o trabalho.
O livro nascia em mim de forma muito natural, como se eu estivesse grávido dele. Afinal, eu copiava praticamente tudo o que aprendia com RABASH, incluindo todos os diagramas que ele regularmente corrigia para mim. Já era capaz de escrever e desenhar uma versão abreviada de todo o sistema dos mundos.
Hoje acusam-me de revelar a Cabala e de a ensinar a toda a gente, sem olhar a nacionalidade, idade ou qualquer outra coisa. Dizem que RABASH nunca o teria permitido. Que disparate!
Sim, ele nascera numa família ortodoxa. Sim, vivera toda a vida num ambiente religioso. E, no entanto, tal como o pai, Baal HaSulam, o seu pensamento era global. Sabia que estávamos a entrar numa época em que a Cabala seria revelada a todos e preparava-me para isso. Por isso apoiou plenamente a minha ideia de escrever livros em russo. Compreendia perfeitamente que esses livros seriam divulgados na Rússia não apenas entre judeus, e isso não o preocupava minimamente.
Quando o livro amadureceu por completo dentro de mim, sentei-me e escrevi-o em literalmente dois meses, dividindo-o em três volumes mais pequenos. Derramei tudo o que me angustiava, percebendo que, se não o escrevesse, rebentaria com aquela tensão interior.
Foi assim que o dei à luz. Não encontro termo mais adequado.
Quando todos os livros estavam terminados e impressos, levei-os a RABASH. Vê-lo ali sentado, com a cabeça ligeiramente inclinada, um cigarro na boca, enquanto lia as páginas e verificava os diagramas, encheu-me de alegria.
Depois perguntou-me: “Quantos exemplares vais imprimir? E qual será o preço de venda?”
“Eu simplesmente distribuía-o de graça”, disse eu.
“Não. Tem de ser vendido, e não por pouco dinheiro. Põe o preço de um livro normal”, disse RABASH.
E assim fiz.
Durante todo o processo de trabalho no livro senti-me continuamente elevado. Mas, assim que o livro saiu, senti-me esvaziado, como se todo o ar tivesse saído de mim. Mesmo sabendo que as descidas são estados necessários no caminho, mesmo estando preparado para elas, nada ajuda quando a descida chega de facto.
AS MINHAS DESCIDAS
Como vinham as descidas? De forma inesperada. De repente, a grandeza inquestionável de RABASH desmoronava-se. Era como cair de grande altura.
Pensava que estava preparado para elas, “protegido” por RABASH. Mas quando a descida chegava, nada ajudava e eu caía num infinito negativo.
Há uma descida em especial que nunca esquecerei. Fiquei muito magoado com RABASH e fiquei em casa, sem conseguir ir ter com ele.
Mais tarde contaram-me a cena: Rabash de pé na nossa sala de estudo, braços abertos em perplexidade, a repetir: “Como se abandona assim um amigo?!”
Falava de mim! Eu era o amigo! E eu abandonara-o!
Fiquei estupefacto quando soube. Se mo tivessem dito logo, teria largado tudo e corrido para ele!… Mas logo percebi a verdade: mesmo que mo tivessem dito, eu não teria conseguido elevar-me acima do meu ressentimento. Não, não teria ido.
Fiquei em casa uma semana inteira. Homem adulto e saudável, sentia-me um verdadeiro trapo. Apesar de todos os esforços, simplesmente não conseguia vencer-me.
Então chegou um telefonema inesperado de RABASH.
“Que se passa, Michael?”
“Não consigo levantar-me.”
“Levanta-te e vem, agora mesmo!”
“Não consigo!”
“Vem!”
“Não consigo sair de casa”, comecei a chorar. Nem me lembrava da última vez que chorara, mas agora não conseguia conter as lágrimas. “Não consigo forçar-me a mexer, Rebe!”, disse eu.
O que ele disse a seguir foi num tom calmo e sereno.
“Estás a ouvir-me, Michael?”
“Sim.”
“Estarei à tua espera esta noite. Vamos sentar-nos e fazer uma refeição. Eu compreendo-te.”
Nessa mesma noite, vieram a minha casa alguns elementos do grupo, os seus mensageiros. Levaram-me à refeição, onde RABASH me serviu um copo de uísque.
“Agora és um trapo (1) exatamente como eu”, disse. “Está bem. Agora bebe.”
Bebi. Foi a nossa refeição silenciosa habitual, com oração interior, e senti imediatamente que resultara! Eu era outra pessoa!
No dia seguinte, na lição da manhã, já estava ao lado de RABASH, e ele não fez qualquer comentário nem gesto que lembrasse o que acontecera.
ANULAÇÃO PERANTE O PROFESSOR
Isso é da maior importância, como me foi explicado ao longo de toda a vida ao lado de RABASH. Para receber do Professor, é preciso anular-se perante ele. É uma condição indispensável.
Uma vez, levava de carro Moshe Ashlag, o irmão de RABASH. Eu era ainda muito novo na altura e, enquanto conversávamos, Moshe disse de repente uma frase que ficou gravada para sempre na minha memória: “Nada te vai ajudar. Tens de aderir ao teu Rebe.”
Foi a palavra “aderir” que não me deixou descansar. Sonhava com esse ápice de unidade entre mim e RABASH — era a aspiração da minha vida. Falei disso muitas vezes com ele, sobretudo em Tiberíades, sobre a ligação “de boca a boca” (2). E a resposta que ouvia era sempre a mesma: anulação total perante o superior, que resulta num Masach [Tela] comum — quando o superior desce ao nível do filho e deixa nele uma impressão do espiritual.
É preciso tornar-se zero, “entrar” no professor, devotar-se por completo ao seu serviço, para que ele te possa transformar no teu próximo estado. Como uma criança encostada ao peito do progenitor, assim te deves anular, abrir a boca e receber do teu Professor.
Foi isso que a experiência me ensinou, e a compreensão era cristalina.
No início, recordo-me de procurar uma oportunidade para me tornar invisível ao lado de RABASH, sonhando entrar na sua “caverna” e ficar ali com ele. Isso tornou-se cada vez mais difícil à medida que o ego crescia. E anular-se tornava-se ainda mais difícil à medida que o Professor desejava doar mais.
QUANDO CAI A “NOITE”
Nestes dias, sempre que cai a “noite” (3), recordo inevitavelmente como RABASH era uma rocha. Uma rocha! E ao evocar em mim a sensação de pertença a essa rocha, retiro dela força. Retiro força dele! E, se não for propriamente força, retiro pelo menos paciência. Sem ela, não teria conseguido continuar, disso não há dúvida.
Vi um homem que trocara toda a vida pela realização espiritual e continuava a sacrificar-se a cada instante.
Nunca aconteceu, perante um problema, externo ou interno, que RABASH se detivesse a refletir durante um bocado e só depois reagisse. A sua reação era fulminante, mesmo mantendo uma calma absoluta exterior. Bastava-lhe um instante! E prosseguia para a frente com total convicção.
Mostrava-me a natureza do verdadeiro trabalho espiritual. Ser uma roda dentada sem sequer pensar! Corrigir-se a tal ponto que se continue a mover na mesma direção que todo o sistema.
É este o significado de ser “escravo do Criador” (4). Sim, tem de haver análise e decisão, a tomada de decisão, mas isso acontece a tais frequências e velocidade que o início e o fim praticamente se fundem.
Era este o homem que RABASH era.
ERROS
Era assim que todo o nosso grupo o via. E ansiávamos por ser exatamente como ele.
Como resultado, precipitámo-nos e cometemos erros.
Uma vez, várias pessoas convenceram o grupo a criar uma comuna.
Eu era contra, considerando-a artificial e prematura. Compreendia que a intenção era boa, mas protestei.
O argumento deles era mais ou menos este: Para que estudamos Cabala e os artigos de RABASH sobre o amor aos amigos? Para que nos chamamos amigos, até irmãos?!
Decidiu-se começar pelo que se considerava o mais básico: juntar todos os salários e dividi-los igualmente.
No dia seguinte, depois de uma reunião de amigos, RABASH e eu íamos a passear. Incapaz de me conter, contei-lhe tudo.
A reação foi completamente inesperada.
Parou no meio da rua, vermelho de raiva.
“O quê?!”
Repeti, gaguejando. Havia muito que não o via assim.
“Queríamos expressar o amor aos amigos…”, comecei a explicar.
“Quem vos deu o direito de fazer isso?!”, gritou ele.
Percebi então que algo terrível acontecera.
“O que podemos fazer agora? Todos decidiram…”, balbuciei.
“Quem decidiu?!”
“Todos.”
Virou-se bruscamente e começou a andar. Depois parou e acrescentou secamente:
“Não me meto. Vocês começaram, vocês que se desenrasquem!”
Voltei imediatamente para junto dos companheiros e contei-lhes a reação de RABASH. Acabámos com a ideia na hora.
Mais tarde perguntei-me como pudéramos ter sido tão cegos. Como pudéramos tomar tal decisão sabendo perfeitamente como acabam sempre essas revoluções? Especialmente eu, entre todos. Eu vivera essas coisas na pele. Viram o que significa quando egoístas decidem viver em amor fraterno — inevitavelmente inundam as ruas de sangue. E tudo porque não compreenderam a astúcia do ego, não fizeram a longa e minuciosa preparação necessária, não educaram a nova geração… Por isso desaba sempre. Teria acontecido o mesmo connosco.
RABASH previu o fracasso do nosso grupo, no qual tanto investira. Previu o ódio que inevitavelmente nos teria despedaçado. Viu que não estávamos prontos para nos elevar acima do ódio até ao amor.
Assustou-nos, e cortámos o mal pela raiz. Graças a Deus.
Aconteceu que os principais instigadores dessa iniciativa acabaram por abandonar o grupo semanas depois. Foi como se tivessem sido expulsos do Alto…
…No fim de uma semana intensa, regressámos a Tiberíades.
Quase sem falta, no caminho, visitávamos o túmulo de RASHBI no Monte Meron (5).
O PODER DE RABASH
O local de sepultura de RASHBI (6) era sempre especial para RABASH. Notei como ficava sempre inspirado ao entrar ali, tocar na pedra e dizer algumas palavras para si próprio.
Nunca dizia nada em voz alta, nunca abria o Livro dos Salmos ou um sidur como todos costumavam fazer. Em vez disso, permanecia perfeitamente concentrado no interior enquanto ali estava durante alguns minutos. Comigo ao seu lado.
Às vezes perguntava: “Então, sentiste alguma coisa? O que sentiste?” Eu partilhava as minhas impressões, mas isso apenas sublinhava o quão longe estava dele.
Uma vez vi um RABASH diferente no túmulo de RASHBI. Foi na festividade de Lag BaOmer (7).
A cada ano, RABASH mostrava menos e menos vontade de vir aqui na festividade. A razão era que centenas de milhares de pessoas começaram a visitar o túmulo em Lag BaOmer, transformando o local numa espécie de culto. A modéstia interior e o silêncio característicos de estar junto ao túmulo de RASHBI desapareceram, substituídos por ostentação e comercialismo. Multidões invadiam o local para comprar uma hamsa (8), uma mezuza (9), para “arranjar” a vida…
Aproximar-se do túmulo tornou-se uma luta que exigia maus modos e cotoveladas afiadas.
1984 foi o último ano em que visitámos o túmulo durante a festividade.
Recordo-me de abrir caminho até ao túmulo de RASHBI como quem assalta uma fortaleza. De frente para RABASH e segurando-lhe as mãos, caminhava de costas para abrir passagem na multidão. A princípio resultou, mas à medida que nos aproximávamos do túmulo, fui obrigado a parar. Embora empurrasse com as costas o mais que podia, a pessoa atrás de mim não se mexia um centímetro.
Virei-me e dei de caras com um homem corpulento que simplesmente não se movia. Quando tentei passar outra vez, ele reteve-me com facilidade e de propósito, com um sorriso irónico no rosto. Percebi então que qualquer esforço adicional seria inútil.
De repente ouvi RABASH dizer: “Afasta-te.’ Sem esperar, empurrou-me ele mesmo para o lado, depois estendeu a mão, agarrou o ombro do homem e virou-o para si.
O homem virou-se, pronto para a luta, mas no instante em que pôs os olhos em RABASH, o rosto ficou pálido, os olhos reviraram-se e começou a gritar. Foi algo selvático! O homem começou a gaguejar de medo e a agitar os braços, tentando afastar-se de RABASH. Mas a multidão era demasiado densa, comprimindo-nos a todos juntos. Ainda assim, ele continuava a uivar e a bradar em pânico…
E não era como se sentisse dor física, pois RABASH mal o tocara. No entanto, havia algo nos olhos de RABASH que o levara àquele estado.
Não faço ideia do que RABASH lhe transmitiu com o olhar, mas o homem recuou como se tivesse sido queimado com água a ferver. E, ao fazê-lo, empurrou a multidão, abrindo caminho até à lápide de RASHBI. RABASH aproximou-se, pôs a mão na pedra, ficou ali um breve instante e saiu.
Ainda me lembro de como a multidão ficou em silêncio enquanto ele ali esteve.
Quando acabou, RABASH dirigiu-se para o carro sem dizer uma palavra.
Foi com episódios como estes que descobri RABASH todos os dias, a toda a hora. E compreendi que essas descobertas nunca teriam fim. Nunca chegaria o momento em que pudesse dizer com segurança: “Eu conheço RABASH.”
COMO O RABASH LIDAVA COM O MEDO
Pouco depois, voltaria a ver quão pouco o conhecia. Saímos de Tiberíades cedo, ansiosos por chegar a tempo à lição em Bnei Brak, onde os outros companheiros nos esperavam. Enquanto conversava com o Rebbe, devo ter errado algures o caminho, porque de repente estávamos numa estrada desconhecida, com placas que não reconhecíamos. E, de súbito, entrámos numa povoação árabe. As ruas, as lojas, as pessoas — tudo árabe.
Era uma época de grande agitação política, com a Intifada no horizonte. E ali estávamos nós, completamente sozinhos no meio deles: dois judeus de barbas longas, de becas e chapéus pretos, o traje completo! Alguns repararam logo em nós, pararam e apontaram-nos aos outros. Outros começaram a correr atrás do carro ou paralelamente a ele. Percebi então que nada os impedia de parar o carro e arrastar-nos para um beco escuro para nos matar. Ou, melhor ainda, podiam enterrar-nos debaixo de uma pilha de pedras ali mesmo.
Tal cenário era perfeitamente realista. Eu tinha servido em Nablus (10) durante o serviço militar e não nos atrevíamos a aproximar-nos da cidade desarmados.
Já ouvia os gritos que trocavam entre si, via-lhes as expressões bestiais… E só conseguia pensar: “O Rebbe está aqui comigo, o que hei-de fazer?!”
Olhei para ele e vi que estava perfeitamente calmo. Nem um traço de preocupação no rosto. E então disse-me: “Lugar interessante. Nunca aqui tinha estado. Não tenhas pressa. Conduz normalmente.”
Reduzi a velocidade, conforme ele mandou. A multidão continuava a correr atrás e ao lado do carro.
Mas o RABASH transmitiu-me uma espécie de calma, como se nem os visse. Eu via-os, sim! Quando uma grande multidão começou a juntar-se mais à frente, percebi que nos iam parar… O que devia fazer?
De repente, surgiu de trás de uma esquina um autocarro. Um autocarro israelita da Egged. Comecei imediatamente a segui-lo de perto, copiando exatamente o seu percurso. Assim atravessámos a povoação e subimos a colina até sairmos dali.
Já em segurança, parei o carro, deixei-me cair no banco e acendi um cigarro. As mãos, todo o corpo tremiam-me.
“Rebbe, tive tanto medo!”, confessei.
“Eu não”, respondeu o RABASH.
“Como foi possível?!”, perguntei.
“Eu tinha a certeza de que nada aconteceria”, disse ele.
Como era possível? Olhei para o RABASH sem conseguir acreditar, mas ele estava perfeitamente calmo, até sorria.
“O que achas que eles pensaram quando nos viram?”, perguntou-me.
“Que éramos homens mortos!”, respondi.
“Não, pensaram que se homens como nós entravam na povoação deles, era porque tínhamos vindo por algum motivo, talvez para nos encontrarmos com um dos seus sábios. Talvez até tivéssemos sido convidados pelo seu imã (11)”, disse ele com toda a seriedade, acenando com a cabeça para reforçar.
Mais tarde percebi que ele não tinha pensado nada disso, apenas o dissera para me acalmar. A sua atitude perante o medo era completamente diferente da de uma pessoa comum.
Quando se está ligado ao Criador, não há medo. Vi isso em primeira mão com o RABASH. A forma como ele relacionava sempre tudo com o Criador, consigo próprio, com o mundo inteiro — de maneira a apagar todas as diferenças. E todos os medos e dúvidas dissolvem-se nessa ligação — quando se compreende que tudo vem do Criador, que o propósito de tudo o que acontece é trazer-nos à adesão com Ele. Se é assim, onde cabe o medo?
E ali mesmo, no carro, o RABASH tirou o seu caderno azul do Shamati e abriu-o exatamente na página certa: “Relativamente ao Temor e Medo que Por Vezes a Pessoa Sente”. Mais uma vez li as palavras de Baal HaSulam: “Quando o tenor se abate sobre a pessoa, deve saber que não há outro além Dele…” (12)
Era assim que o RABASH vivia. Não no medo, mas no temor do Criador. E nunca deixava de me espantar que essa ligação pudesse ser constante. Eu queria viver do mesmo modo.
O IMPREVISTO
E então aconteceu o imprevisível.
Regressámos de Tiberíades com intenção de voltar no fim da semana. Foi organizada uma pequena refeição, já não me recordo por que ocasião. A minha mulher Olga e as nossas filhas estavam no andar de cima com as outras mulheres, entre elas Yoheved, a mulher do RABASH.
De repente vi Olga e percebi imediatamente que algo não estava bem. Ela gritava-me do andar de cima, em russo: “Michael, sobe! Depressa!” Todos olharam para mim — ninguém ali falava russo. “Tenho de subir”, disse eu, e corri escadas acima.
Quando cheguei lá acima, vi a Rabbanit (13) deitada no chão, imóvel. Tinha os olhos abertos e respirava, mas não se mexia. Tivera um acidente vascular cerebral! Havia um médico presente; chamei-o imediatamente, sem explicar nada a ninguém. “Doutor, venha depressa!” O médico subiu e percebeu logo o que acontecera.
O nosso passo seguinte revelou-se um erro. “Vamos levá-la para o sofá”, disse o médico, embora não se deva mexer uma pessoa naquele estado. Transportámo-la para o sofá e eu ia chamar o RABASH quando ele apareceu. Viu tudo… e quedou-se em silêncio, completamente imóvel. Depois, com cuidado, dirigiu-se a um canto da sala e sentou-se, observando atentamente o que fazíamos. A inquietação e a ternura nos seus olhos nunca as esquecerei — a forma como a olhava. O olhar dela era idêntico. Era como se ela o estivesse a confortar, embora ele já compreendesse tudo.
Chegou então a ambulância e levou-a para o hospital.
A RABBANIT YOHEVED
O RABASH amava muito a sua mulher. Viveram juntos sessenta e quatro anos. Ela era um ou dois anos mais velha e provinha de uma família ilustre de Jerusalém. A família vivia em Jerusalém há sete gerações, a chamada “nobre aristocracia”.
A Rabbanit Yoheved era uma mulher alta, bela, de maneiras refinadas. Conhecia-a muito bem — tínhamos uma espécie de ligação interior. Talvez porque ela sentisse o meu afeto extremo pelo RABASH, como o de um filho pelo pai. Ela, por sua vez, olhava-me como a um filho. Mandava-nos peixe todos os Shabat — mais ninguém recebia tal presente; só a minha família.
Tinha a personalidade forte de uma verdadeira jerusalemita. O RABASH amava-a e respeitava-a, e até lhe deferia em certa medida.
Mesmo sabendo do afeto que tinham um pelo outro apesar das diferenças exteriores, o que presenciei após o internamento dela deixou-me verdadeiramente atónito.
NO HOSPITAL
Foi a forma como o RABASH cuidou dela.
Um ADMOR respeitado, professor e cabalista, cuidava dela com a ternura e o carinho que se tem por um bebé. Jamais imaginara tal coisa. Fiquei ali sentado, a olhar, estupefacto, quando o vi pela primeira vez — e nunca me habituei depois disso.
Com o tempo, ela recuperou a fala e o controlo de algumas partes do corpo, mas não das pernas.
Claro que era visitada pelas filhas e atendida por turnos pela minha mulher e por Feyga, mas durante os quatro anos que se seguiram, o RABASH ficou com ela todas as noites: cuidando dela, limpando-a, alimentando-a. Permanecia sempre ao seu lado, sentindo que ela precisava dele mais do que de qualquer outra pessoa. Partilhavam um vínculo interior extraordinário.
Mais uma vez testemunhei até que ponto ele era capaz de se anular até um estado inatingível, impossível. Dava tudo de si — a ponto de simplesmente não existir.
Olhávamos para ele e percebíamos quão selvagens éramos em comparação, quão infinitamente longe estávamos do seu estado. E maravilhávamo-nos com a sua elevação.
Era amor verdadeiro. Não o nosso amor corpóreo, egoísta, mas um amor fiel entre duas almas belas.
AMOR
O amor está acima do ego próprio. O RABASH e eu não falávamos muito sobre este tema, mas recordo-me de uma descrição que ele fez: “O amor é um animal de estimação que se alimenta de cedências mútuas.”
Era assim que ele vivia com Yoheved, construindo o amor em duas dimensões paralelas. Numa dimensão, discutiam e discordavam um do outro. De novo, eram radicalmente diferentes: de um lado, uma aristocrata de Jerusalém educada no espírito ortodoxo; do outro, um cabalista. Mas na outra dimensão, construíam uma ligação acima de todas as contradições. É este o significado de “O amor cobre todos os crimes”.
Ao observá-los, tornava-se claro que este era o único modo de duas pessoas forjarem um vínculo amoroso, forte, saudável e verdadeiramente humano.
DESPEDIDA
A Rabbanit Yoheved faleceu quatro anos depois, sem nunca se ter recuperado completamente do acidente vascular cerebral.
Aconteceu às onze da noite. Recebi um telefonema: “Michael, tens de vir imediatamente! Não sabemos o que fazer com o Rebbe.”
Cheguei logo. O RABASH estava deitado no seu quarto — em frente à cama vazia dela. Entrei e sentei-me ao seu lado. “Queres dizer alguma coisa a todos?”, perguntei. “Não”, respondeu.
Ficou em silêncio durante muito tempo. Eu não queria quebrar esse silêncio, por isso mantive-me ali, calado. Ouvíamos as vozes das mulheres através da porta. “O que querem elas, Michael?”, perguntou o RABASH. “Vai saber.”
Saí e as filhas disseram-me que queriam alugar autocarros para o cemitério de Har HaMenuchot, em Jerusalém. Voltei para junto do RABASH e contei-lhe. A sua reação foi de surpresa. “Har HaMenuchot? (14) Jerusalém? Porquê?! Olha pela janela — há um cemitério a trezentos metros desta casa. Enterremo-la ali.”
Isto não vinha de desleixo para com a mulher; era antes a sua atitude perante todas as coisas corpóreas. Claro que as filhas não o compreenderam e indignaram-se. “Queres que a nossa mãe, natural de Jerusalém, seja enterrada em Bnei Brak e não em Jerusalém?! Impossível!” Ao que o RABASH respondeu: “Façam o que quiserem. Eu não me meto.”
E assim Yoheved foi sepultada em Jerusalém.
O RABASH VOLTA A SURPREENDER-ME
Durante os sete dias que se seguiram ao funeral de Yoheved, o RABASH manteve-se calado, mergulhado em pensamentos. Quando terminámos a shivá, disse algo que me deixou mais uma vez atónito.
Mostrou-me o que significava apegar-se apenas ao objetivo, não ver nada além do objetivo, concentrar-se e devotar-se inteiramente ao objetivo. Acima da razão, acima dos sentimentos, acima de todas as convenções deste mundo, acima de tudo.
Veio ter comigo e disse: “Ajuda-me a encontrar uma esposa.” Fiquei ali, perplexo, sem saber o que dizer. Entretanto, ele continuou: “Preciso de fazer uma chupa. (15)”
Nessa altura, eu já compreendia a raiz espiritual dessa exigência. Sabia que um cabalista tem de estar casado, mas não podia ter previsto que o RABASH tomasse uma decisão tão fulgurante.
Ele e Yoheved tinham sido inseparáveis na alegria e na dor. Com a partida de Yoheved, pensei que ele esperaria um ano, talvez dois… mas não. Não podia esperar — não tinha direito. Estar casado — mesmo que apenas formalmente — era uma exigência vinda do Alto e, como tal, estava acima de tudo o mais para ele, porque era uma exigência espiritual.
E assim, no crepúsculo da sua vida, o RABASH desencadeou uma nova revolução…
Após uma longa busca, foi Feyga — que tinha cuidado de Yoheved e na qual o RABASH via uma aluna devota — quem se tornou a sua segunda esposa. Com este passo, o RABASH provou mais uma vez que estava preparado para qualquer revolução, independentemente do que os outros pudessem dizer ou pensar. Se a questão se relacionava com o objetivo, ele estava pronto para tudo. Mas disso falaremos mais noutra ocasião.
O RABASH ENFRAQUECE
Passou mais um ano. Cada dia passado com o RABASH era especial — estar junto dele era a mais elevada forma de felicidade. Claro que gostaria que durasse para sempre, mas compreendia que, mais cedo ou mais tarde, os nossos corpos físicos se separariam.
Procurava não pensar na sua morte, mas um dia levei um verdadeiro susto.
O RABASH já tinha 85 anos e, de repente, tornou-se notório que o “Rebbe corredor”, como passou a ser conhecido em Bnei Brak, já não era assim tão “corredor”.
Todos os verões íamos os dois para a praia, mas nesse verão ele deixou completamente de nadar. De cada vez, eu esperava que entrasse na água, mas ele não o fazia. “Vai tu, não esperes por mim”, dizia.
Sempre fora o primeiro a entrar na água, ansioso por fazer as suas quatrocentas braçadas vigorosas. E ali estava eu, a nadar sozinho, lançando olhares constantes para a praia. Ele acenava-me enquanto caminhava de um lado para o outro na areia, absorto nos seus pensamentos.
De certa forma, já se tinha deixado ir. Aceitara-o. Só eu ainda não o compreendera. Cortara com todos os tratamentos, o que nunca acontecera antes. Normalmente, ia aos médicos e seguia as suas indicações sem objeção. Mas quando descobri de repente que começara a ter perdas de sangue, fiquei preocupado e falei em tratamento. Em resposta, lançou-me um olhar estranho e disse: “Não te preocupes, está tudo bem.” “Mas Rebbe…” — comecei a objetar, mas ele cortou-me: “Nem mais uma palavra!” Ainda me recordo do gesto com que afastou o assunto com a mão, como quem diz: “Deixa lá.”
Ele sabia com absoluta clareza que estava de partida.
Sentia-o com certeza total, mesmo quando eu pensava que tudo passaria.
Nem sequer quis comprar etrog ou lulav (16) para a festividade de Sucot; não queria fazer nada com antecedência. As festas aproximavam-se: Rosh Hashana (17), depois Sucot, e ele não falava em construir uma suca. Eu conhecia o temor que tinha por esta festividade, exigindo que todos observassem os mais pequenos pormenores na construção da suca, abordando o assunto até um mês antes da chegada da festa. Mas, dessa vez, manteve-se calado.
Permanecia constantemente nos seus próprios pensamentos.
Olhando para trás, espanta-me que não tenha dado o alarme. Devia tê-lo convencido a ir ao médico e a fazer todos os exames. Devia ter insistido até ele aceitar e submeter-se ao tratamento…
Mas não me foi permitido fazê-lo. E, de alguma forma, esquecemo-nos do aviso que tínhamos recebido algum tempo antes. O meu amigo Yossi Gimpel contou-me que, numa conversa com uma mulher em Beer Sheva, ela mencionara de repente que o RABASH partiria em breve e acrescentara uma frase estranha: “Porque ages assim, Yossi?! Tens alguém a quem podes recorrer e saber tudo isto. E ele deseja que o faças, mas tu não podes.” Yossi respondeu-lhe: “Tens razão, não posso. Não sei como. Não sei como chegar até ele nem como perguntar. Desejo-o ardentemente, mas não sei como.” Então ela disse-lhe: “Muito bem, que assim seja. Mas lembra-te de que só tens até 1991.” Isso acontecera quatro anos antes da morte do RABASH. E depois foi esquecido, apagado da memória. Simplesmente não achávamos razoável acreditar em todas essas previsões.
Contudo, a previsão cumpriu-se.
Hoje compreendo que podemos estar completamente bloqueados, que o cérebro, as emoções, o medo e a angústia podem simplesmente ser desligados. Estamos sob o controlo total do Superior. Ele comanda absolutamente tudo.
E o RABASH sabia-o melhor do que ninguém. Mantinha um diálogo interior constante com o Criador.
1 A noção de “trapo” é multifacetada. Significa que somos incapazes de alcançar algo por nós próprios, que dependemos totalmente do Criador e que nos alegramos ao descobrir isso. Assim, temos o início e o fim da ação, e devemos esforçar-nos em cada ação para alcançar o estado de “trapo”. A partir daí, devemos apegar-nos ao Criador e obrigá-Lo a fazer algo.
O estado de “trapo” surge após todos os esforços, segundo o princípio “Trabalhei e encontrei”. É a fase final, um passo crítico em que chegamos à conclusão de que nada mais nos resta, que estamos completamente esgotados, sem energia nem forças motrizes, que agora temos de receber da luz.
Não podemos fazer uma correção por nós próprios, nem acumular os componentes necessários à perceção. Podemos, porém, receber do grupo o desejo de que precisamos para fazer os esforços. Permaneceria para sempre no nível de animal se o Criador não nos tivesse dado a oportunidade de subir ao nível exaltado, descrito por Baal HaSulam.
2 Na linguagem dos cabalistas, uma ligação “boca a boca” é uma ligação espiritual com um Masach [Tela] comum. Quando um discípulo e o seu professor têm a mesma intenção, diz-se que estão ligados um ao outro numa ligação “boca a boca”.
3 “Noite” refere-se a um estado em que o desejo desaparece e é substituído pela indiferença, o sabor perde-se. Torna-se difícil ouvir falar do trabalho de correção, cansamo-nos de falar continuamente sobre o amor aos amigos e a conexão.
4 “Escravo” é aquele que executa a vontade do seu Senhor sem se deter no seu propósito, sem o alcançar e sem sequer tentar alcança-lo. “Escravo devoto” significa que está cem por cento feliz por lhe ser dado um mandamento e poder executá-lo em perfeita conformidade com a vontade do Senhor — pura, completa, perfeita, sem uma única falha, sem qualquer interferência da própria razão, como um órgão que executa a ordem do cérebro do seu Senhor. Tão grande é o nosso desejo de nos corrigirmos, de nos tornarmos uma roda dentada que se move em uníssono com o sistema superior sem qualquer consideração! É isto que significa ser “escravo do Criador”, ou seja, a correção completa do homem. Ao fazê-lo, alcanço-O plenamente — todo o sistema e a sua força governante.
5 Monte Meron: a montanha mais alta da Galileia, junto à cidade de Safed.
6 RASHBI — Rabbi Shimon bar Yochai, grande cabalista, autor do Livro do Zohar.
7 Lag BaOmer: festividade dedicada a Rabbi Shimon bar Yochai (RASHBI).
8 Hamsa: amuleto em forma de palma da mão, popular entre judeus e árabes.
9 Mezuza: pedaço de pergaminho de pele de animal “puro”, contendo dois excertos da Torá que fazem parte da oração Shema Israel, colocado num estojo decorativo e afixado nos umbrais das portas das casas judaicas.
10 Nablus (Shechem): cidade no norte da Cisjordânia, junto ao rio Jordão, governada pela Autoridade Palestiniana.
11 Imã: cargo de liderança islâmica. Entre os sunitas, é habitualmente o título do guia de oração numa mesquita.
12 Shamati (Ouvi), Artigo n.º 138, “Relativamente ao Temor e Medo que Por Vezes a Pessoa Sente”, em Escritos de Baal HaSulam, vol. 2, p. 181.
13 Rabbanit: título dado à esposa de um rav (rabino).
14 Har HaMenuchot [lit. Monte do Repouso]: cemitério judaico central em Jerusalém.
15 Chupa: dossel sob o qual o casal judaico se coloca durante a cerimónia de casamento.
16 Etrog [citrão] e lulav [ramo de palmeira]: duas das quatro espécies de plantas usadas durante a festividade judaica de Sucot.
17 Rosh Hashana, literalmente “cabeça do ano”, é o Ano Novo judaico.