SOMOS UM GRUPO
O facto de estar sempre com RABASH não podia deixar de afetar as minhas relações com os amigos. Eles simplesmente não aceitavam esse facto. Falei sobre isso com o meu professor, mas ele tinha as suas próprias opiniões sobre o assunto. A sua resposta foi simples: “Deves estar ao meu lado.”
Depois chegou a Pesach [Páscoa Judaica], uma festividade rigorosa para RABASH, que ele passava sempre sozinho, não permitindo que ninguém se aproximasse. E todos sabiam disso. Mas, de repente, ele levou-me com ele para um terreno baldio para queimar os alimentos levedados (1).
(O mesmo aconteceria em todos os anos seguintes. Por vezes, o seu filho Yehezkel juntava-se a nós, mas na maioria das vezes estávamos sozinhos.)
Fiquei imóvel ao lado dele enquanto o fogo ardia, regozijando-me com a grande honra. Cada movimento de RABASH vinha com uma enorme pressão interna! Esta ação aparentemente simples de queimar pão levedado — um ato externo para a maioria das pessoas — para ele significava a queima do seu ego, de toda a sua vida que não estava direcionada para o Criador. E a própria festividade da “Pesach” significava o desapego da terra, uma fuga para uma dimensão superior — mais um nível espiritual a ascender e a dominar numa luta implacável consigo próprio.
Mantive-me em silêncio, com a respiração suspensa para não perturbar RABASH, embora uma pergunta me corroesse por dentro. A mesma pergunta de sempre. E lancei-a assim que tudo terminou, incapaz de me conter: “Quando é que vou alcançar isto na prática?! Quando é que não estarei apenas a queimar um pedaço de pão, mas a livrar-me deste inimigo mortal, este orgulho e amor-próprio? Quando?!”
RABASH não respondeu a este grito primal da minha alma. Em vez disso, olhou para mim quase com um sorriso, e senti uma tempestade de indignação a crescer dentro de mim! Ali estava eu, à beira das lágrimas, gritando-lhe do fundo do meu coração, e ele...
Não demoraria muito para perceber que ele, como sempre, tinha razão. Que era exatamente em mim que ele estava a pensar, desejando que este meu clamor se tornasse uma oração.
PÁSCOA AO ESTILO DE RABASH
Depois, RABASH convidou-me para o jantar, e vi em primeira mão o significado da Páscoa ao estilo de Baal HaSulam e RABASH. Era algo que nenhuma lógica podia explicar. Panelas, pratos, copos, colheres, garfos — tudo isso era ou completamente novo ou usado apenas uma vez, depois guardado e lavado somente após o fim da Pesach. Torneiras, moedores de carne e todos os outros utensílios de ferro eram substituídos. A comida era extremamente simples e limitada. O único sal utilizado vinha do Mar Morto, do mesmo lugar que fornecera a Baal HaSulam. E nada de plásticos de qualquer tipo, embora os materiais plásticos já fossem omnipresentes.
Durante a Páscoa, RABASH era “intocável”. Ele criava uma zona de exclusão à sua volta, como um campo minado que ninguém podia atravessar. Sentei-me à frente dele, com medo de fazer qualquer movimento errado, comendo com cuidado, como um pássaro, mantendo as mãos fora da mesa e mal tocando o garfo na comida.
Claro que, durante tudo isso, eu era atormentado por dúvidas: “Será que a observância externa da festividade é assim tão importante? Por que investir tanto tempo e dinheiro nisso? E, acima de tudo, que importância tem isso para um cabalista que despreza todas as exterioridades?”
Eu era jovem e egoísta, por isso sentia muita resistência interna a tudo isto. E foi exatamente por isso que a resposta que eventualmente recebi acabou por me convencer: “Quando realizas todas estas ações, sentes como o teu ego se rebela contra elas.” E eu sentia isso em abundância! Quanto à Pesach, ela simboliza a elevação acima do ego, que marca o início da ascensão espiritual. Neste caminho, cada ação envolve uma operação simples: separar o ego de ti próprio, arrancá-lo com carne.
Foi mais um lembrete de que eu precisava de seguir RABASH em todos os sentidos. Precisava ser como ele, observando estas ações ilógicas acima de toda a lógica terrena, impondo-lhes uma intenção espiritual, como ele fazia.
GRÃO DE CAFÉ
Manténs o foco por um tempo, lavando-te com pensamentos de que todas as coisas no nosso mundo são apenas ramos de raízes espirituais, mas até essas já estão relacionadas com desejos egoístas. E é por isso que devem ser completamente cortadas durante a Páscoa... E assim “cortas” esses desejos ao sentares-te ali a separar grãos de café.
Comprávamos café verde e separávamos os grãos, observando quaisquer impurezas ou insetos. Depois, torrávamos e moíamos os grãos, e só depois bebíamos o café. Imagina sentar-te ali, separando todos aqueles grãos durante horas a fio… Até perceberes que já chega.
O meu ponto de rutura chegou durante uma dessas sessões de escolher os grãos de café. Deixei-me cair na cadeira e olhei com raiva para o monte de grãos por verificar, fumando um cigarro atrás do outro e amaldiçoando a absurdidade de tudo aquilo. Então, RABASH aproximou-se, sentou-se à minha frente, pegou num grão, levantou-o ao nível dos olhos e disse: “Eu sento-me aqui e verifico grãos, estes pequenos grãos de café. Verifico-os com muito, muito cuidado! Quero que sejam puros e bons, para que possam ser transformados em café para os meus amigos desfrutarem.” Ele pousou o grão e pegou noutro. “E este grão verifico pelo meu professor”, olhou para mim, “porque o meu professor gosta de café. Faço isto por ele.”
Foi uma lição dura, muito dura. O que senti? Vergonha. O meu interior ardia de vergonha! RABASH levantou-se e afastou-se.
Atirei-me de novo aos grãos. As palavras de RABASH ecoavam dentro de mim. Mas mesmo isso durou apenas alguns minutos. O choque passou, e mais uma vez não consegui continuar!
Sentia perturbações intransponíveis. Se tivessem dito ao meu antigo eu, o imigrante recém-chegado ao país, “Separa estes grãos e ganharás dinheiro”, eu teria concordado. E tê-lo-ia feito bem. Mas ali, com o objetivo de servir o meu professor, que eu considerava grande, o maior!... Apenas fiquei sentado, incapaz de mover um dedo.
E percebi que as perturbações que acabavam de ser ativadas não eram deste mundo.
Ó, COMO ERA DIFÍCIL!
Estar ao lado de um cabalista é muito, muito difícil. Ser aluno, assistente, estudar com ele, cuidar dele... Por vezes, era insuportavelmente difícil. Estás sempre com ele, vês todas as suas manifestações, até que a imagem corpórea começa a apagar a sua grandeza, e começas a vê-lo como uma pessoa comum, com as suas exigências, hábitos e fraquezas, como qualquer outra. E não consegues afastar o pensamento traiçoeiro: o que o torna diferente dos outros? Lembro-me dos imensos esforços que eram necessários para perseverar e manter a convicção de que estava diante de um grande cabalista, “o último dos moicanos”, o último da sua linhagem.
RABASH era excecionalmente simples e aberto em tudo o que dizia respeito ao corpóreo. Não deixava margem para que alguém à sua volta lhe prestasse qualquer tipo de deferência. Não assumia o papel de ADMOR (2), encarregado de atrair e liderar um grande número de seguidores, de ser mimado e venerado pela sociedade. RABASH detestava tudo isso, e o seu comportamento era exatamente o oposto do que se poderia esperar.
A “INSIGNIFICÂNCIA” DE UM CABALISTA
Como qualquer cabalista, ele sentia a sua própria insignificância. “Quem sou eu? O que tenho?” Era isso que ele mostrava aos outros. Comparava-se ao Criador, pelo que a sua visão de si próprio era algo como: “Não sou nada, apenas cinzas e pó.” E essa atitude refletia-se em quem o rodeava. Isso era intencional da sua parte — ele projetava deliberadamente esse vazio externo, porque era assim que realmente se sentia. Em contacto constante com a força poderosa governante — ele chamava isso “estar diante do Criador” —, ele revelava a eternidade e a perfeição. E não podia deixar de se sentir insignificante em comparação com isso.
Quando lhe perguntava sobre isso, ele dizia: “Agora imagina como foi difícil para mim estar ao lado do meu pai...” De facto, esse era o seu pai. Pelo menos no meu caso, ele não era da família, mas um estranho. Podes tentar construir uma relação especial com um estranho, mas com um pai? Sentes o seu amor, o amor incondicional de um pai pelo seu filho, e isso tira-te toda a força para fazer qualquer coisa. Afinal, faças o que fizeres, ele continuará a amar-te. Ao fazê-lo, ele priva-te da obrigação de te relacionares com ele de uma maneira especial.
ELE ESGOTA-ME AS FORÇAS
RABASH afastava-me constantemente, esgotando as minhas forças para o tratar como alguém especial. Por um lado, ele aproximava-me, como o superior faz com o inferior. Começava a cuidar de mim como se fosse um bebé, a criar-me. Por outro lado, guiava-me por estados que, na altura, me pareciam cruéis. Eu não compreendia, revoltava-me contra ele interiormente, mas em resposta ele olhava para mim e dizia: “Eu sei que sou o culpado por todos os males da tua vida.”
Como a Rabbanit Feyga revelou mais tarde (3), ele tinha-lhe dito que sabia tudo sobre mim de antemão. Sabia que eu não descansaria até levar a Cabala para fora da nossa sala de estudo e para o mundo. Era isso que ele queria. Foi para isso que ele me criou. Foi por essa razão que ele me ensinou a caminhar sem usar a sua força, a sua grandeza como muleta. Ao mostrar-me a sua pequenez, até ao ponto de despertar o meu desprezo. E tudo isso para me direcionar ao Criador. Para que eu exigisse força d’Ele.
PORQUE NÃO PEDISTE?!
Numa ocasião, estávamos no bosque de Ben Shemen, e eu estava furioso com algo, com tudo! Então comecei a queixar-me sem me conter, dizendo que tudo e todos eram terríveis, que não estava a avançar, que toda a minha energia estava a ser desperdiçada... RABASH não me interrompeu, mas ouviu-me até ao fim. Quando finalmente terminei, ele disse de repente: “Porque não pediste?”
Fiquei atónito. Percebi subitamente que, enquanto estava cheio de raiva, o meu pedido — nem sequer um pedido, mas uma exigência — era que todos à minha volta mudassem. Todos, menos eu.
“Porque não pediste?” Era uma pergunta tão natural para ele. Porque é que a pessoa não pede a correção? A sua própria correção, em vez da dos outros? A correção do ego que o está a devorar? Ele grita, expele raiva e faz alarido... mas não pede. E não percebe que é aí que está a resposta: chegar à sensação que o verdadeiro inimigo — o único com quem ele deve lutar — está dentro de si. Ao mesmo tempo, “Não Há Nada Além d’Ele”, o que significa que apenas um apelo ao Criador pode ajudar. Mas esse apelo deve vir do coração, e não de um texto memorizado de um livro de orações. Não, deve vir de um coração partido.
Eu via como RABASH fazia isso. Ele fazia-o constantemente.
RABASH E KOTSK
É por isso que não duvido das palavras de RABASH quando dizia que, se tivesse nascido mais cedo, teria ido para Kotsk estudar com o Rabbi Menachem Mendel (4). Aquele grupo de cabalistas adequava-se a ele. Adequava-se à sua personalidade severa, ao seu coração enorme e ao seu vasto Masach [Tela]. Ele teria encaixado naquele grupo como ninguém. Um homem que vivia para o Objetivo, medindo-se em relação ao objetivo e a nada mais.
Kotsk era para ele. Um grupo cabalístico audaz que reunia todos os que queriam “pegar o Criador de assalto”. Viviam como uma comuna, perpetuamente famintos, vivendo cada dia como se fosse o último. Tratavam-se uns aos outros com dureza, cada um mostrando deliberadamente o seu aparente desprezo pela espiritualidade para dar aos outros espaço para um trabalho maior. Eram esse tipo de almas audaciosas que RABASH procurava.
Igualmente adequado a RABASH era uma citação do seu Professor, Rabbi Menachem Mendel: “Não há nada mais completo do que um coração partido; nenhum grito mais penetrante do que o silêncio.” Era assim que RABASH queria viver. Mais ainda, era assim que ele vivia. No entanto, por vezes, reinava o silêncio…
SILÊNCIO
De repente, RABASH fechava-se. Olhando para ele de lado, eu não conseguia compreender como tal encerramento era possível. Ainda há momentos, ele estava a correr, a atacar sem se poupar, e depois — silêncio. Num instante, tornava-se nada, ninguém.
Um certo período de desenvolvimento chegava ao fim, e ele parava. Não queria ler nada, ouvir ou ver nada... E esse estado podia durar várias horas.
Lembro-me de ir a casa de RABASH e vê-lo sentado numa cadeira, de costas para o sol, perfeitamente imóvel. A visão dele assustou-me. Ao aproximar-me cuidadosamente, ele olhou para mim e disse: “Pega numa cadeira.” Peguei numa cadeira. “Senta-te.” Sentei-me. “Vamos sentar-nos.”
Ficámos ali sentados por dez minutos, depois quinze minutos. Ele estava em silêncio, e eu também. E agora? Pensei, mas sem ousar perguntar.
Os cigarros vieram em nosso socorro. Quando começas a fumar, tudo parece um pouco diferente. Agora estás a brincar com o cigarro, a inspirar e a expirar. Então, ficámos ali, fumando em silêncio, provavelmente durante uma hora inteira.
Percebi que, nesses estados, a chave era manter-me discreto e esperar que passassem. Observava RABASH a fazer isso. Afinal, não estamos a lidar com o corpo ou a pessoa, mas com o desejo. E esse desejo deve ser processado ao máximo. Ou seja, quando alcanças um estado que está ao nível da matéria inanimada, tornando-te uno com a terra, triturado na rocha, completamente vazio, refugias-te e esperas... Até que um novo desejo irrompe, como um rebento que brota da terra. Então, podes respirar novamente, levantar-te e continuar a fazer um ataque ao Criador.
Até lá, apenas ficávamos ali, fumando um cigarro atrás do outro. Eventualmente, ele alcançava a mesa de cabeceira, pegava no seu caderno azul, abria-o numa página aleatória e lia: “Ninguém tem o direito de se libertar deste trabalho, mas deve alcançar uma exigência interior e um anseio por Lishma (5), que se tornaria uma oração, pois não pode ser alcançado senão através da oração.”
ANTES DO AVANÇO
E agora falarei sobre talvez o acontecimento mais importante na vida de RABASH. Eu já estava com ele há alguns anos quando, de repente, senti que ele estava desanimado. O nosso grupo era pequeno: seis homens idosos e um par de jovens. Estávamos tão imersos nos nossos próprios assuntos por tanto tempo, e precisávamos desesperadamente de uma injeção de sangue novo. No entanto, ninguém aparecia.
Em várias ocasiões, ele tinha-me dito que Baal HaSulam estava disposto a falar com pedras, tão ansioso estava por ser ouvido por alguém, qualquer um. E agora, anos depois, RABASH assumira a tarefa, mas qual era o resultado? Os mesmos seis alunos idosos e um par de jovens. Mais ninguém. Alguma vez mudaria?
Nenhum cabalista pode saber exatamente quando as massas virão. E não apenas pessoas idosas, mas os jovens. Um cabalista pode determinar uma tendência. Ele sabe exatamente o que vai acontecer: que a Cabala será revelada no mundo. Mas quando? Talvez demore muito, talvez só após a sua morte…
Nesse período, especialmente, eu tentava não o deixar sozinho, pois sentia que ele precisava de mim. Em várias ocasiões, ele indicava-me: “É importante que eu saiba que estás perto de mim.” Muitas vezes, durante grandes reuniões e celebrações, com centenas de familiares hassídicos à sua volta, eu observava-o a procurar-me na multidão, relaxando ao encontrar-me.
Certa vez, ousei perguntar-lhe se o meu sentimento estava correto, se ele queria mesmo ver e confirmar que eu estava lá. “Sim, é importante que eu te veja,” respondeu, e acrescentou: “Desde o hospital, é importante para mim que estejas por perto.”
APROXIMA-MO-NOS AINDA MAIS
Eventualmente, ele disse-me para me mudar. Antes, não o tinha permitido. Eu vivia em Rehovot, constantemente a conduzir entre lá e Bnei Brak, para cá e para lá. Muitas vezes, ficava a dormir na sala de estudo, especialmente nos dias em que participávamos num evento noturno. Se regressássemos às onze, talvez só chegasse a casa à meia-noite. E às duas da manhã, precisava levantar-me novamente e conduzir para estar na lição às três. Não fazia sentido voltar para casa, então ficava e dormia num banco. Isso durou alguns anos. Até a minha esposa se habituou à ideia, vendo quanto tempo eu passava na estrada. Eu estava fisicamente exausto, mas ainda assim RABASH recusava. “Ainda não,” dizia ele. Queria que eu fizesse esforços. Na juventude, ele trabalhara arduamente a construir estradas e a trabalhar em estaleiros de construção, estudando à noite. Toda a sua vida, ele esforçou-se ao limite em tudo — e exigia o mesmo de mim.
Por fim, ele concordou. “Chegou a hora.”
Não só concordou — ele próprio se encarregou de encontrar-me um apartamento perto dele, na Rua Rav Ami, número 5. Eu tinha um negócio lucrativo que abandonei completamente para garantir que não deixava nenhuns laços, vendi o nosso apartamento de cobertura em Rehovot e mudei-me. Até hoje, lembro-me de tomar a decisão de não levar nada da minha vida passada, nada que pudesse distrair-me do objetivo.
Queimei pontes porque percebi que me estava a ser dada uma oportunidade, apenas uma oportunidade, e não podia perdê-la. A oportunidade de estar perto de um grande cabalista, de me agarrar a ele, de viver a sua vida.
Nunca me arrependi desta decisão, nem por um segundo. Isso permitiu-me aproximar-me ainda mais de RABASH, e isso é algo que nenhum dinheiro pode comprar. Também comprei um carro novo, mais confortável para ele, com um assento alto, um porta-copos e espaço para guardar um livro.
Ele sabia que eu fazia tudo isso por ele, e sabia as minhas razões. Eu ansiava por essa adesão com ele, para que, mesmo que apenas algumas gotas, algo da sua grande alma se infiltrasse na minha alma infantil. Queria tanto aprender a doar como ele. Tinha inveja dele, implorando e suplicando para que me ajudasse.
Sonhei com esta cena muitas vezes: nós dois, juntos, sozinhos na natureza, em todos os mundos, interiormente ligados, unidos, isolados de todos os outros...
Mas estou a divagar. Deixem-me voltar ao evento “inesperado” que viria a transformar as nossas vidas.
A MINHA PROPOSTA A BERG
Por volta do início da festa de Sucot, fui informado de que Rav Berg tinha chegado dos EUA e que desejava encontrar-se comigo na sua Sucá.
Eu conhecia Berg, tendo assistido a algumas aulas com ele antes de encontrar RABASH.
Quando o conheci pela primeira vez, ele já estava “em ascensão”. No final, o seu desejo de transformar a Cabala num negócio prevaleceu — percebi isso na nossa terceira aula, quando Berg começou a falar de “forças cósmicas”, das mãos direita e esquerda do homem e de como purificá-las com a luz da misericórdia... Eu não procurava misticismo nem nada sobrenatural, e não o suportava. Por isso, parti.
Ainda assim, Berg e eu separámo-nos em termos amigáveis. Ele até me visitou em Rehovot para o Shabat. Ele compreendia que eu tinha uma abordagem completamente diferente para a Cabala, que eu procurava ciência, não misticismo. E ele respeitava isso.
Assim, quando recebi o telefonema e o convite, consultei RABASH sobre o que fazer. “Porque não ir?”, disse RABASH. “Eu já não sou exatamente a mesma pessoa de então”, respondi. “Ainda assim”, disse RABASH, “seria indelicado recusar”.
Era como se ele tivesse pressentido que algo aconteceria como resultado. Então, fui.
Fui ter com Berg e começámos a conversar. Naturalmente, disse-lhe imediatamente que estava a estudar com RABASH, o filho mais velho de Baal HaSulam.
Ainda me lembro de pensar que talvez tentasse convencer Berg, ainda alimentando a esperança de tocar o seu “ponto no coração”, que ele claramente possuía. Mas falhei — ele não reagiu de todo. “Nós temos o nosso próprio sistema, o nosso próprio método”, disse ele. “Ainda assim, podes expandir esse sistema”, propus. “Eu poderia partilhar com os teus instrutores o que aprendi com RABASH. Por exemplo, poderia dar aulas sobre o Prefácio à Sabedoria da Cabala.” Isso intrigou-o. “Vamos fazer isso”, concordou ele inesperadamente.
Olhando para trás, estou certo de que Berg compreendeu que era exatamente isso que faltava. Ele queria que os seus instrutores sentissem a autêntica Cabala, tal como ensinada por Baal HaSulam.
RABASH ATIVA-SE
Quando contei a RABASH, ele ficou ansioso.
Foi então que vi, mais uma vez, o que significava ser um verdadeiro discípulo de Baal HaSulam. Para ambos, qualquer oportunidade de disseminar a sabedoria era uma celebração, um presente do mais alto nivel, uma oportunidade vinda do céu que não podia ser desperdiçada. RABASH estava preparado para rever cada aula e responder a qualquer pergunta. Mais tarde, ele ligava-me para o centro de Berg, no meio da palestra, para perguntar: “Então, como está a correr? Estão a ouvir? Estão a compreender? Já chegaste à segunda restrição? Compreenderam tudo?”
Ou seja, comecei a ensinar logo após as festas, de manhã. Os meus alunos eram os próprios instrutores do Centro de Cabala de Berg, talvez 12 a 14 deles. Três deles eu já conhecia: Jeremy Langfort, Yossi Gimpel e Shmuel Cohen. Eram todos jovens, com cerca de trinta anos, cheios de energia e desejo. Como prometi a Berg, começámos com o Prefácio à Sabedoria da Cabala. Quando vi que aqueles rapazes eram sérios e desejosos da verdade, trouxe o Shamati e começámos a falar “de coração para coração”.
Isso pareceu realmente incendiá-los, pois era algo diferente de tudo o que já tinham ouvido. No início, ficaram em silêncio, mas depois começaram a fazer perguntas, todas pertinentes.
Imediatamente após as aulas, eu regressava a RABASH e relatava, até ao último detalhe.
Oh, como ele ficava feliz por a Cabala estar a expandir-se para além da nossa sala cheia de fumo e a chegar ao público! Não era sua intenção atrair alguém. Não havia nenhum plano ardiloso. Ele não se perguntava se aqueles jovens abandonariam tudo de repente para vir estudar com ele. Tudo o que lhe importava era que estavam a ouvir! A fazer perguntas! A tentar compreender!
ACONTECEU SIMPLESMENTE...
Eu ensinava em estrita conformidade com RABASH. Cada aula revelava algo novo para eles. E o número de alunos continuava a crescer — no final, tínhamos cerca de quarenta. Todas as coisas supérfluas, todas as Klippt [cascas], desapareciam de vista, deixando apenas a Cabala, tal como ela realmente é. Livre de misticismo, fios vermelhos, água benta e “forças cósmicas”. Uma ciência séria, do tipo que eles não conheciam antes. E isso levou a uma queda de ânimo, pois perceberam que tinham desperdiçado as suas vidas.
O golpe final veio por cortesia da Carta Nº 17 (6) de Baal HaSulam.
Começa de forma incisiva: “Aquele que começa a caminhar no início da linha precisa de grande cuidado para não se desviar nem para a direita nem para a esquerda da linha, nem mesmo um fio de cabelo, pois se no início o desvio for como um fio de cabelo, mesmo que continue completamente reto, é certo que não chegará ao palácio do Rei, pois não está a pisar a verdadeira linha...”
Os rapazes tinham um verdadeiro desejo, por isso começaram a ficar nervosos. Perceberam imediatamente a profundidade por detrás de cada palavra.
Continuámos a estudar a carta, linha a linha. Eu via os seus rostos concentrados — não perdiam uma única palavra. Li o resto da carta sem qualquer explicação, pois não era necessário: “Este é o significado de ‘Abre para mim uma abertura de arrependimento, como a ponta de uma agulha, e eu abrirei para ti portas por onde entram carros e carruagens.’ Interpretação: O olho da agulha não é para entrar e sair, mas para inserir o fio para costurar e para trabalhar. Da mesma forma, deves desejar apenas o mandamento do teu Professor, para trabalhar, e então eu abrirei para ti uma porta como uma entrada para um salão. Este é o significado do nome explícito no versículo, ‘Mas, na verdade (escrito como Salão em hebraico), eu vivo, e a glória do Senhor encherá toda a terra.’”
Terminei. Todos estavam em silêncio, sem fazer perguntas. Despedi-me e saí. Nessa mesma noite, Jeremy Langfort, um dos instrutores seniores de Berg, veio a minha casa. Ao que parece, veio para negociar. Perguntou se RABASH o aceitaria como aluno. “Porque não o faria? Estás casado, tens um emprego. Tenho a certeza de que sim”, respondi. “Nesse caso, vou começar a vir estudar convosco.”
REVOLUÇÃO
Jeremy abriu as comportas. Lentamente, mas com firmeza, outros instrutores do centro de Berg seguiram-no, e depois os alunos.
Já mencionei que não era, de forma alguma, o objetivo de RABASH “roubar” alunos de Berg; ele simplesmente queria falar-lhes sobre a verdadeira sabedoria da Cabala. E ele constantemente guiava-me nesse sentido. Quanto ao resto, simplesmente aconteceu. Em verdade, aquele que procura verdadeiramente não deixaria passar tal oportunidade. Ele desejaria desvendar a Cabala por si próprio. E eu não tenho nada para além de respeito e elogios por aqueles jovens. Eles eram, de facto, verdadeiros buscadores.
A sua transição acontecia todos os dias. Durante a aula da manhã, uma porta abria-se e eu era chamado lá fora. Lá, via esses jovens que pareciam tão deslocados em Bnei Brak: de cabelos compridos e vestidos segundo a moda [secular, boémia] de Telavive. “Queremos estudar aqui. Podemos?”, perguntavam. “Vou verificar”, respondia.
Claro que RABASH aceitava todos. Cerca de quarenta pessoas no total. Isso foi uma revolução para o nosso pequeno grupo.
6 Letter No. 17, The Writings of Baal HaSulam, Vol. 2, p 304.
1 Qualquer pão fermentado encontrado após a limpeza é tradicionalmente queimado. Queimar o pão fermentado simboliza a determinação de se livrar do ego e alcançar o mundo superior. Ao “queimar” os desejos egoístas, eles são reduzidos a cinzas, para nunca mais despertarem.
2 ADMOR é um líder espiritual no movimento hassídico. A abreviatura significa Adonenu Morenu ve-Rabennu (hebraico: Nosso Mestre, Professor e Mentor).
3 Feyga Ashlag é médica e passou vários anos a cuidar da esposa paralítica de RABASH. Aluna dedicada de RABASH, ela viria a tornar-se a sua segunda esposa.
4 Kotsk é uma cidade na Polónia. A partir de 1829, a cidade foi lar de um famoso grupo de cabalistas liderado pelo Rabino Menachem Mendel.
5 Lishma é a intenção para o Criador... Shamati (Eu Ouvi), Artigo Nº 20, “Lishma,” em Os Escritos de Baal HaSulam, Vol. 2, p. 40.
6 Carta Nº 17, Os Escritos de Baal HaSulam, Vol. 2, p. 304.