<- Biblioteca de Cabala
Continuar a Ler ->

A Pergunta Principal da Vida 


Quando cheguei ao RABASH(1), já estava exausto de tanto procurar e faminto por verdade, após a ter buscado infrutiferamente ao longo de toda a minha vida.  
“Qual é o sentido da minha vida?” Esta pergunta atormentava-me, esgotando-me literalmente, desde que me lembro. Em criança, deitava-me na erva alta do parque da cidade, contemplando as estrelas com esperança e anseio, e perguntava-me: “Será que as estrelas têm a resposta? Qual é o sentido da minha vida? Então? Qual é?!” Embora a minha vida mal tivesse começado, esse anseio já me consumia. O desejo por um propósito desconhecido, elevado e autêntico.  
Os anos passaram, e tentei encontrar a resposta na ciência, procurando-a em livros, deduzindo-a logicamente. Nada funcionou – só me sentia pior, cada esforço revelando ainda mais a infutilidade e a futilidade desta tarefa. Chegou um momento em que pensei que morreria sem nunca ter cumprido o meu propósito.
Após mudar-me para Israel, passei quatro anos no exército, a reparar equipamentos eletrónicos de aviões.  
Depois, saí para abrir o meu próprio negócio, que se revelou bastante bem-sucedido. Comprei um apartamento de luxo, tentando imitar a vida dos ricos e famosos, na esperança de que me pudesse perder nessa existência.  
Mas nada resultou. Acordava a meio da noite e saía para o quintal, contendo as lágrimas. “O que significa tudo isto?!” pensava, lançando um apelo ao desconhecido. “Ao menos mostra-me onde procurar! Dá-me uma direção!”  
Pensei que talvez a religião tivesse a resposta. A forma como as pessoas religiosas se comportavam – tão serenas, tão confiantes – certamente tinham encontrado o sentido da vida. Fui a Jerusalém visitar um famoso rabino que falava russo, que me disse que a serpente da Bíblia tinha duas pernas. E falava completamente a sério. “Duvidas das escrituras sagradas?!”  
“Devo acreditar nisso?” perguntei-lhe.
“Claro! Está escrito preto no branco,” respondeu.  
Uma abordagem tão pouco científica assustou-me e afastou-me.
Encontrei-me com Herman Branover, um físico que encontrara a religião. Pensei: “Um homem de ciência deve ter uma resposta para mim!” Mas ele não tinha.  
Passei três meses a estudar em Kfar Chabad (2), aprendendo o Talmude (3) ao lado de adolescentes, lendo o Tanya (4). Depois, abandonei.  
Durante as minhas peregrinações, conheci outra alma à procura, como eu. Chamava-se Chaim Malka, e tornámo-nos amigos, começando a reunir-nos todas as noites, trabalhando metodicamente em todos os livros. Chaim lia em voz alta, e eu tirava notas como se estivessemos numa aula universitária. Assim, percorremos os livros de RAMAK (5) e RAMCHAL (6).  
Ainda assim, sentia que os livros não estavam a ajudar. Pior, não iriam ajudar. Percebi que não íamos conseguir avançar sozinhos. Precisávamos de encontrar um Professor, alguém que já tivesse percorrido este caminho. E assim, começámos a procurar.  
Encontrámo-nos com Baba Sali (7). Todos falavam dele como cabalista. Revelou-se um homem simples e muito afável. Falou-nos do que tinha visto, mas não conseguiu explicá-lo.  
Depois, deparei-me com o ‘Centro de Cabala’ de Berg. Comprei todos os livros que tinham, encontrei-me com o próprio Berg e até assisti a algumas aulas com ele. Mas quando ele começou a usar o cosmos nas suas explicações, percebi que não era para mim. Simplesmente não suportava qualquer tipo de misticismo. 
Encontrei-me com Yitzhak Zilberman em Jerusalém. Era um cabalista renomeado que ensinava Cabala segundo o Vilna Gaon (GRA) (8). Contudo, era um homem religioso, respeitado por todos, ao contrário de Berg, o místico, que era universalmente odiado. Ele disse-me: “Tu e eu vivemos entre religiosos, por isso devemos estudar o Talmude. Isso dar-nos-á cobertura para estudar Cabala, porque ninguém gosta da Cabala.”  
Comecei a estudar com ele. Ele ensinou um pouco dos fundamentos da Cabala a partir do livro do GRA, Safra de-Tzniyuta. Ainda assim, nem ele conseguia explicar nada! Lia simplesmente o livro, e era tudo. Isso fazia-me ferver o sangue. “O que está a acontecer aqui? O que significa tudo isto?” perguntava. “Um dia saberemos a resposta,” dizia ele. Mas eu não me contentava com “um dia”. Precisava de respostas, não de promessas. Um dia, Zilberman visitou-me em casa e viu os livros de Baal HaSulam nas minhas prateleiras (9). Ficou pálido, apontou para eles e disse: “É melhor levares esses livros para a cave, fora de vista.” Foi então que decidi que já chegava.  
Essa foi a minha primeira defesa de Baal HaSulam – ainda não sabia que acabaria por ligar toda a minha vida ao seu nome e legado.  

QUANDO EMBATES NUMA PAREDE...
Um dia, estava a visitar o meu amigo Chaim Malka. Foi depois do trabalho. Estava exausto e esgotado, tendo-me literalmente arrastado até lá. Era uma noite fria de inverno, com chuviscos e rajadas fortes de vento. Chaim sugeriu que preparassemos café e começássemos a estudar, como de costume. Mas eu recusei. “Já não consigo mais,” disse-lhe.  
Lembro-me vividamente desse estado. Tudo é inútil, não há para onde ir a partir daqui, então para que continuar a viver?!  
É um milagre quando a pessoa é levada a tal estado e não lhe é permitido fugir dele. Pensar-se-ia, porque não me levantei simplesmente, bati a porta atrás de mim e esqueci tudo? Ganhava bem, tinha uma família maravilhosa, podia viajar para onde quisesse e viver como me apetecesse. Mas não. Embates numa parede – és literalmente empurrado contra ele. E então, de repente, uma centelha de esperança é plantada no teu coração.  
Foram precisos muitos anos para perceber que estes são os momentos mais preciosos da vida – quando sentes que chegaste a um beco sem saída. Isso é o que se chama uma oração. 
E foi nesse estado de desespero que pronunciei as seguintes palavras:  
“Chaim, vamos agora mesmo à procura de um professor.” As palavras flutuaram do denso nevoeiro de fraqueza que me envolvia. “Temos simplesmente de o encontrar. Hoje!”  
“Onde é que o vamos encontrar?” perguntou ele. “Já procurámos em todo o lado.”  
“Ouvi dizer que algumas pessoas estudam Cabala em Bnei Brak.”  
Até àquele momento, a ideia nunca me tinha passado pela cabeça. Só tinha estado em Bnei Brak uma ou duas vezes antes. Não conhecia de todo a cidade. E, no entanto, foi isso que saiu da minha boca. “Vamos para Bnei Brak.”  
Por sua vez, Chaim não pareceu hesitar nem por um segundo, concordando de imediato. “Está bem, vamos.”  
Entrámos no carro e conduzimos. Lembro-me da chuva a tamborilar no para-brisas. Conduzia praticamente às cegas, mas nem considerei voltar atrás ou parar e esperar que a chuva passasse. Não, tínhamos de continuar a conduzir, e o mais rápido possível.

UM ANJO NO SEMÁFORO  
Entramos em Bnei Brak e paramos num semáforo no centro da cidade, completamente sem saber para onde ir a seguir. Uma figura solitária, vestida com roupas religiosas negras, estava parada no semáforo, como se nos esperasse. Abri a janela e gritei através da chuva:  
“Desculpe-me! Onde se estuda Cabala por aqui?!”  
Há quarenta anos, pronunciar a palavra “Cabala” era suficiente para fazer as pessoas recuarem, como se fosses um leproso. No entanto, este homem olhou para mim calmamente e respondeu: “Vira à esquerda aqui e segue em frente. Verás um pomar com uma casa em frente. É lá que estudam Cabala.”
Quando contei esta história ao RABASH, ele disse que aquele homem era um anjo. É assim que a pessoa é conduzida ao lugar certo. Uma força misteriosa toma-te, guia-te e leva-te a um lugar onde encontras a resposta para todas as tuas perguntas. Desde que tenhas feito o esforço, certamente a encontrarás.

LENDO O GUIÃO DO ALTO
Seguimos as suas indicações e, de facto, após algumas centenas de metros, avistamos um pomar de laranjeiras. E então, à sombra das laranjeiras, uma casa.  
Todas as janelas estavam escuras, exceto uma, que brilhava tenuemente. Paramos, saímos do carro e entrámos no edifício. Estava completamente escuro, exceto por uma pequena sala no fundo do corredor. Entramos e deparamo-nos com cinco ou seis anciãos sentados à volta de uma mesa, a estudar.  
Logo à entrada, perguntei: “É aqui que se estuda Cabala?” O ancião à cabeceira da mesa respondeu com uma calma natural: “Sim, sentem-se.” Sentámo-nos à mesa.  
Eles estavam a ler O Livro do Zohar. O texto em aramaico estava acima, o hebraico abaixo, e explicavam-no em iídiche. O meu hebraico era razoável, conseguia ler e comunicar, mas aramaico e iídiche... isso era demais. Estava prestes a levantar-me e ir procurar outro lugar. Era impaciente e não me importava com o que os outros pudessem pensar de mim. Mas o Chaim deteve-me. Ele estava habituado a estudar num ambiente religioso e, por isso, respeitava “o sábio e os discípulos do sábio”. Parou-me com um gesto e disse: “Senta-te!”  
Assim, ficámos até ao fim da lição. Pensava para mim mesmo que o hebraico deles era tão estranho quanto o aramaico e o iídiche, e mal podia esperar para sair dali o mais rápido possível. Mas então, o ancião virou-se para nós e perguntou:  
“O que desejam?”  
“Viemos de Rehovot. Procuramos um lugar para estudar Cabala.”  
Lembro-me de dizer aquelas palavras: “Procuramos um lugar” em vez de “procuramos estudar”, porque estava certo de que aquele não era o lugar.  
“Vou arranjar-vos esse lugar. Deixem-me o vosso número de telefone. Vou organizá-lo e aviso-vos”, disse o ancião.  
Pensei inúmeras vezes naquela noite. Foi o tipo de Providência Divina que nunca se pode prever. Estava pronto para partir, para fugir dali. No entanto, fui detido. Que alegria!

NÃO QUERO IR
Regressamos a Rehovot. No dia seguinte, era um dia normal de trabalho. O Chaim apareceu no meu local de trabalho por volta das quatro da tarde e anunciou: “Esta noite voltamos àquele lugar para estudar.” Respondi que não iria, que não ficara impressionado com eles nem com o seu professor, e que não entendia o hebraico deles. Em resumo, estudar com eles era uma perda de tempo, e já tínhamos perdido tempo suficiente.  
Mas o Chaim não desistiu. Insistiu que tinha prometido, por isso não tínhamos escolha, tínhamos de ir e mostrar respeito. Não precisavamos de ficar muito tempo, mas tínhamos de ir.  
Concordei com a condição de que, pouco depois de chegarmos, fingiria ter-me lembrado de uma reunião importante, e desapareceríamos. Para sempre.  
Ele prometeu-me isso, e lá fomos.

É-ME DADA UMA OPORTUNIDADE  
Quando chegamos, vimos o mesmo ancião que claramente estava no comando.  
Ainda não sabia que este era o próprio RABASH – um grande cabalista a quem acabaria por dever a minha vida, nada mais, nada menos.  
Eu era demasiado insignificante para o saber na altura. É assim que a pessoa pode ser privada da sua visão, da sua audição, da sua razão. Quando não vês quem está à tua frente, e estás pronto para desistir e partir. Mas não, algo te impede de sair, dando-te a oportunidade de te agarrar.  
E a mim foi-me dada essa oportunidade.  
O primeiro sinal foi notar na parede do edifício uma placa que dizia “ARI-Ashlag”. Não tinha reparado na placa na noite anterior. Sabia que o ARI era um grande cabalista do século XVI. O Chaim e eu tínhamos tentado ler a sua Árvore da Vida. Também sabia de Rav Ashlag (Baal HaSulam), tendo lido a sua obra, O Estudo das Dez Sefirot, que não era nada simples. Também tínhamos estudado o seu Prefácio à Sabedoria da Cabala, e até pensámos que tínhamos compreendido algo. Ver a placa “ARI-Ashlag” tranquilizou-me um pouco. Significava que ali se estudava realmente Cabala.  
Entramos, e o RABASH chamou um dos anciãos, chamando-o Hillel. Chamou-o como quem chama uma criança:  
“Vem, Hillel. Estuda com eles.”  
Hillel tinha cerca de 65 anos na altura. Era um ancião doente, com olhos lacrimejantes, rosto pálido e mal se movia. E este homem vai ensinar-nos? Pensei para mim mesmo.  
Mais tarde, soube que Hillel era descendente de uma famosa linhagem hassídica. Poderia ter sido o líder de uma dinastia, mas, após conhecer o RABASH na juventude, começaram a falar sobre o trabalho interior, e Hillel percebeu subitamente que o RABASH sabia coisas das quais ele era totalmente ignorante. O encontro deixou-o tão abalado e inspirado pela sabedoria do RABASH que abandonou tudo e se agarrou a ele até ao fim dos seus dias.  
Tudo isso eu descobriria sobre o Hillel mais tarde. Na altura, porém, estava altamente cético de que pudesse aprender algo com ele. Comecei a lançar olhares furtivos para a porta, pensando em como escapar... Mas fiquei. E fiquei graças ao RABASH. Era a forma como ele se movia. Sem esforço, como ninguém que eu alguma vez conhecera. Fez um gesto na nossa direção, deu-me um aceno e um olhar, e isso foi o suficiente. Decidi não sair imediatamente.  
Só agora percebo que o RABASH já sabia tudo sobre mim.

CHOQUE 
Sentámo-nos numa sala vazia. Estava escuro, com trovões e relâmpagos a rugir lá fora. Era um inverno rigoroso, mas dentro do edifício estava quente e acolhedor, e isso também teve o seu efeito. Para onde iríamos?! E assim, começámos a estudar.  
“Costumamos começar com o Prefácio à Sabedoria da Cabala,” disse Hillel.  
Pensei imediatamente que isso seria um bom teste para ele, pois já tínhamos estudado esse livro por nossa conta. Não sabia na altura que “estudar” na Cabala não tinha o mesmo significado que na física ou na matemática, que o conhecimento não tinha qualquer papel aqui. Mas tudo isso viria depois – naquele momento, preparei-me para testar o Hillel. Lá estava ele: um ancião doente e cansado, limpando os olhos lacrimejantes com um lenço, gemendo e respirando com dificuldade. Enquanto o observava sentado à nossa frente, não fazia ideia do que estava prestes a acontecer.  
Ele começou a ler a primeira frase do Prefácio à Sabedoria da Cabala. E, enquanto lia, oferecia explicações...  
“Rabi Hananiah ben Akashia disse: ‘O Criador quis honrar Israel... Em hebraico, a palavra “honrar” é semelhante a “purificar”. Isto levanta duas questões: a) Quais são esses privilégios com os quais o Criador deseja honrar-nos? b) O que é esta “sujeira” da qual Ele nos quer purificar?”  
Hillel ergueu os olhos lacrimejantes para nos olhar e repetiu, seguindo Baal HaSulam:  
“Então, de que nos quer Ele purificar, hein?”  
Sem esperar pela nossa resposta, começou a explicar.  
Nunca esquecerei esse momento. De repente, senti como se tivesse sido pregado à cadeira. Todo o meu corpo começou a tremer. Olhava para ele, incapaz de desviar o olhar.  
Nunca na minha vida tinha ouvido uma explicação tão clara, concisa e científica. O homem que via à minha frente não era um velho doente, mas um guerreiro armado com espada e escudo. Não um professor cansado e esquecido, mas um grande sábio cuja sabedoria não tinha paralelo neste mundo.  
Ele falava dos conceitos mais complexos. A “física quântica” ou a “ciência dos foguetões” do mundo espiritual, mas apresentava-os de forma simples, com definições sucintas, de maneira compreensível e clara. Estava a revelar-nos o grande Baal HaSulam – e a criar uma mudança de paradigma no processo.  
O que senti nesses momentos? Imagina uma pessoa que sofria de uma dor terrível, com uma doença terminal confirmada e absolutamente sem esperança de recuperação, descobrindo subitamente que, afinal, havia uma cura para o seu mal, e que iria melhorar. Era uma sensação de alívio indescritível.  
De repente, tinha respostas para todas as perguntas pessoais que me atormentavam: “Quem sou eu?” “Por que existo?” “De onde venho?” E também para as questões globais, como: “Qual é o propósito deste mundo?” “De todo este universo?” E descobri que estavam todas intimamente ligadas. A compreensão era cristalina. Era isto! A verdade última! E eu não ia deixá-la escapar.  
Mais importante ainda, senti que tinha encontrado o meu lar. Que todo o caminho da minha vida, cheio de desespero e desesperança, vazio e depressão, me conduzira precisamente aqui, a esta casa nos arredores de Bnei Brak.

QUANDO O ENCONTRAS, NÃO O DEIXES ESCAPAR  
Nem sequer percebi quando a lição terminou – apenas que o Hillel fechou o livro de repente. Cada fibra do meu ser exigia que a lição continuasse. Como podia eu deixar aquele lugar agora? Como podia esperar-se que lidasse com assuntos mundanos? Não, impossível!  
Mas o Hillel disse o seguinte:  
“Acho que nos encontraremos uma vez por semana.”  
Uma vez por semana?! Não conseguia suportar a ideia. A minha resposta foi imediata:  
“Estamos livres amanhã. Queremos continuar amanhã. Amanhã, por favor!”  
E ele concordou.

HILLEL
No dia seguinte, cheguei preparado. Com um gravador. E assim começaram os nossos estudos.  
Passaram-se alguns meses, e com eles o meu entusiasmo inicial. Fiz um balanço do que acontecera até então e tirei a minha principal conclusão: estava no caminho certo, com o professor certo. Já não tinha medo de fazer perguntas, e as minhas perguntas eram precisas. Perguntava sobre a forma como a força superior nos governa, sobre o propósito da criação e como ele se manifesta em nós. O Hillel respondia a todas as perguntas com mestria. Mas eu não parava por aí, sempre aprofundando mais.  
Não era minha intenção confundi-lo ou perturbar o fluxo da lição – estava simplesmente ansioso por mergulhar mais fundo e compreender mais. A sede que sentia por esta sabedoria era diferente de tudo o que alguma vez experienciara na minha vida.  
Por sua vez, o Hillel apenas atiçava o meu fogo. As suas respostas eram quase instantâneas, como se soubesse de antemão quais seriam as minhas perguntas. E as suas explicações eram tão simples e específicas, como se estivesse a discutir um esquema mecânico. Há a luz e há o Kli [Vaso], e eles interagem entre si. E, afinal, esta relação entre a luz e o Kli [Vaso] explica absolutamente tudo.  
Começámos a estudar O Estudo das Dez Sefirot. Ele revelava-nos o sistema dos mundos, conduzindo-nos de força em força. Era rico numa sabedoria precisa e maravilhosa, e sabia como transmiti-la.

O RABASH QUER FALAR CONTIGO 
Os nossos estudos começaram no inverno, e dois ou três meses depois, mais perto da Páscoa, o Hillel disse-me: “Michael, o RABASH quer falar contigo em particular.”  
Não fiquei particularmente entusiasmado com isso. Estava bastante satisfeito a estudar com o Hillel, pois a sua maneira de ensinar era do meu agrado. Mas o olhar estranho que o Hillel me lançou deixou poucas dúvidas – tinha de ir falar com o RABASH.  
O RABASH chamou-me ao seu escritório, sentou-me à sua frente e abriu um livro. E assim começámos a estudar a “Introdução ao Livro do Zohar”.  
Eu já tentara ler essa introdução no passado, mas tinha tido dificuldade em avançar. Baal HaSulam começa o artigo com uma série de perguntas: “Qual é a nossa essência?” “Qual é o nosso papel na longa cadeia da realidade, na qual somos apenas elos minúsculos?” E assim por diante.  
O RABASH lia estas perguntas, comentando-as enquanto o fazia. “Como pode ser que um Criador eterno, sem início nem fim, dê origem a criações inúteis, efémeras e imperfeitas?”  
Enquanto ele lia e explicava, percebi que estava a ter dificuldade em acompanhar o seu raciocínio.  
Mas o RABASH continuou a ler.  
A partir do segundo ou terceiro itens do artigo, eu estava irremediavelmente perdido, como se as palavras fizessem parte de uma nova língua, estranha. Não conseguia ligá-las no meu intelecto, muito menos no meu coração. Agarrava-me a cada novo fio, apenas para o perder imediatamente.  
Não, não eram segredos da Torá ou algum tipo de mistérios arcanos, mas a experiência fez-me sentir um completo idiota. Estava habituado a compreender o material, a revesti-lo, a iluminá-lo, a fazer desenhos e anotações. E ali estava eu, com toda a minha educação, a sentir-me perdido no mar.  
Cerca de uma hora depois, o RABASH terminou a lição. “Por hoje é suficiente, continuaremos na próxima vez.” Saí com sentimentos mistos, frustrado com ele e comigo próprio, mas resolvido a compreender tudo na nossa próxima sessão.  
Essa próxima sessão chegou alguns dias depois.  
O Hillel informou-me novamente: “Se quiseres, podes visitar o Rebe (10) após a lição de hoje.”  
Tivemos outra lição, e novamente não compreendi nada.  
Depois disso, o Hillel deixou de me propor estudar com o RABASH.

SERÁ QUE ME ABANDONOU?
Isso incomodou-me. Estava zangado com o RABASH. Certamente, o facto de não ter compreendido nada não era culpa minha! Era tão novo nisto! E ele ia abandonar-me por causa disso?! Após acender este fogo dentro de mim, ia deixar-me queimar sozinho? Como podia ele?!  
Só mais tarde percebi o que o RABASH estava a fazer. Ele estava a testar-me. A testar se eu ia fazer uma birra. Será que procuraria uma oportunidade para continuar a estudar material que não compreendia de todo? Ou optaria por conhecimento que não ferisse o meu sentido de valor próprio? Essencialmente, ele estava a testar se valia a pena preocupar-se comigo. Estaria eu suficientemente maduro para a verdadeira busca, a dor, o crescimento exigido por este caminho? Estaria ele justificado em investir em mim o seu tempo e energia?  
Na altura, estava indignado com isso, mas hoje vejo como ele planeou tudo cuidadosamente.  
O superior sempre dá à luz o inferior. O inferior não pode nascer pela sua própria vontade. O RABASH estava a testar-me para ver se eu queria mudar. Se o despertaria, como um bebé que chora desperta o pai. Mesmo que não compreenda totalmente o que precisa, mas simplesmente porque se sente mal. Ele queria a minha oração subconsciente. Queria que eu o compelisse a preocupar-se comigo.  
E assim foi. Não conhecia o RABASH na altura, mas o facto de ele me “rejeitar” incitou em mim um grande desejo de chegar até ele.  
O RABASH via tudo, sentia tudo, e permanecia em silêncio.

SEMEANDO DÚVIDAS
De repente, percebi que havia outro tipo de estudo. Não o tipo racional e científico a que estava habituado. E embora continuasse a estudar com o Hillel, já não conseguia estudar como antes: examinando o material para tentar compreender os escritos e regozijando-me por ter conseguido a sua aquisição intelectual. O RABASH estragara-me esse prazer. Ele semeara em mim uma dúvida, que depois cresceu numa ideia persistente: agora queria “mergulhar” no material de estudo.

CABALISTAS ASTUTOS
Foi graças ao RABASH que comecei a compreender o que Baal HaSulam faz contigo! Ele deixa-te deslizar para o estudo, dando-te esperança de que podes compreender algo. Agarras-te a essa esperança, sentindo-te exultante... E então tudo desaparece, deixando-te perdido e desesperado. Como pôde isto acontecer?! Tudo parecia tão lógico e claro... Para onde foi tudo?!  
Isso acontece porque Baal HaSulam tem um objetivo diferente em consideração. Ele guia-te até à percepção de que o teu cérebro, a capacidade de raciocinar em que confiaste toda a tua vida, é impotente aqui. Compreender isso o mais rápido possível no teu caminho espiritual é fundamental. Mas se ao menos fosse tão simples abandonar a razão e render-se ao desconhecido!  
O RABASH exigia de mim a prontidão para penetrar entre as palavras. Para tornar o material de estudo transparente, de modo que, através dessa transparência, eu pudesse entrar numa nova realidade. Isso chama-se realização interior. Quando alcanças o mundo que existe para além do livro, para além das suas palavras. Quando, através das palavras, entras num novo mundo. O RABASH deixou-me com a sensação de que isso era possível.  
E percebi que não podia perder tal oportunidade.

A MINHA NOVA VIDA COMEÇA
Perguntei a Hillel sobre a possibilidade de assistir à aula noturna. Até então, eu apenas estudava à noite. A aula regular de RABASH começava às três da manhã e terminava às seis.
“Quero muito participar,” disse eu.
Hillel respondeu que falaria com RABASH.
“Quando?”
“Vou tentar fazê-lo hoje.”
“Podes falar agora? Eu espero.”
Hillel olhou-me por um longo momento e depois perguntou:
“E se RABASH estiver ocupado?”
“Não tenho pressa.”
Hillel subiu ao segundo andar, onde RABASH vivia, e regressou pouco depois.
“RABASH concordou,” disse ele. “Até logo, então.”
Aquele momento, há cerca de quarenta anos, marcou o início de um novo período na minha vida. O período principal, o único que considero verdadeiramente vida.

À ESPERA DE UM MILAGRE
Vivendo em Rehovot, todas as noites me levantava às duas da manhã e conduzia até à aula em Bnei Brak. Saltava da cama, corria para o carro e acelerava pela estrada, tremendo de antecipação. Queria ser dos primeiros a chegar àquele corredor frio e escuro. Preparava rapidamente uma chávena de café e abria O Estudo das Dez Sefirot. Não importava a página. Ficava imóvel sobre as linhas do texto, tentando sentir Baal HaSulam, penetrar no material através dele... Se é que isso era possível!
Um a um, todos se reuniam. RABASH descia do segundo andar, e a aula começava.
Não éramos muitos então, e a maioria já faleceu. Mas lembro-me de cada um deles. Lembro-me de cada momento, do olhar de RABASH sobre nós, das nossas salvas de perguntas e das suas respostas. E dos momentos em que RABASH fechava os olhos, e nós permanecíamos em silêncio absoluto, com medo de que o menor movimento o interrompesse.
Foi assim que comecei a estudar com RABASH.
E Chaim Malka decidiu continuar a estudar com Hillel.

RABASH TEM MEDO
Levei um gravador para a primeira aula, determinado a não perder uma única palavra. Afinal, esperara tanto por aquele dia!
Quando coloquei o gravador sobre a mesa, notei que RABASH ficou visivelmente assustado. Olhava para o aparelho em silêncio, sem saber o que pensar. E não começava a aula.
Ninguém jamais fizera algo assim — nem nas suas aulas, nem nas do seu pai. Não era costume gravar, nem mesmo com caneta ou lápis, quanto mais com um gravador.
“Não podes ligar isso”, disse-me ele. Tentei ao menos persuadi-lo, mas todos os meus esforços foram em vão. Percebi que, se não encontrasse uma solução, me lamentaria pelo resto da vida.

RABASH CONCORDA!
Fui a Telavive e comprei um gravador especial. Sentei-me em frente a RABASH e mostrei-lhe todas as funcionalidades. “Este botão pausa a gravação, e este permite rebobinar a fita. Podes encontrar qualquer palavra, qualquer frase. E este botão apaga tudo — se assim desejares.”
Ele ouviu-me com atenção e testou o gravador, ligando e desligando todos os botões. Enquanto isso, eu explicava que éramos assim, a nova geração de alunos, habituados a gravar tudo, a tomar notas e a fazer resumos. Que eu poderia não absorver nada se não escrevesse. Éramos assim: externos e vazios, com uma necessidade urgente de preenchimento.
E ele ouviu-me. Compreendeu que novos alunos viriam e que teriam de começar de algum modo. Então, concordou. Foi, nesse sentido, um verdadeiro revolucionário. Impôs, no entanto, uma condição: o gravador ficaria ao seu lado, e ele decidiria quando e o que gravar.
Ao longo dos anos, ele próprio operou o gravador, e acabámos por acumular mais de 2000 horas de gravações das aulas, além de muitos diagramas. Eu sentei-me ao seu lado durante tudo isso, tomando notas e fazendo esboços. E, por vezes, ele corrigia os meus diagramas ou refazia-os completamente.

AO CORAÇÃO
Passado algum tempo, compreendi por que razão RABASH se opunha tão veementemente a qualquer tipo de apontamentos. Por que tratava isso com um certo desdém. Certa vez, chegou mesmo a repreender-me: “Que importa se eu te disse algo ou não...” Era porque ele exigia mudanças no próprio aluno. As palavras que pronunciava deviam ser interiorizadas, não registadas em papel. Tinham de atravessar a barreira da memória, alcançar o coração e ressoar ali.
Ele era um exemplo vivo de como viver. Cada dia começava como uma página em branco, sem vestígios do dia anterior. Compreendia que o Criador exigia transformações no coração, não relatórios sobre material memorizado.

NÃO HÁ ACIDENTES
Continuei a estudar com RABASH à noite e com Hillel ao entardecer. Até então, RABASH não demonstrara qualquer interesse especial por mim. Para ele, eu era apenas mais um aluno. Se persistisse e permanecesse, ótimo. Se não, paciência. Pelo menos, era o que eu sentia na altura.
O meu futuro poderia ter sido muito diferente se, numa certa manhã, não me tivessem pedido para levar RABASH ao médico. Aceitei com alegria.
Foi uma sorte estar no lugar certo, na hora certa. Uma sorte que outros estivessem ocupados e que eu tivesse um carro. Porque aquele momento marcou o início de uma nova era na minha vida.
Levei RABASH ao médico. Diagnosticaram-lhe uma infeção no ouvido e encaminharam-no para um hospital. No hospital, o médico disse-me: “Suspeito que o seu professor tenha cancro.” O meu coração deu um salto. “O que fazemos?” “Ele precisa de ser internado imediatamente.”
Tudo isto aconteceu na véspera do feriado de Shavuot. Temi que RABASH não concordasse, que eu tivesse de o convencer. Fui ter com ele e expliquei a insistência do médico. RABASH ouviu-me e concordou facilmente com o internamento.
Isso foi uma lição para mim. Percebi que RABASH compreendia plenamente que precisava de estar em plena saúde física para ensinar. Não podia negligenciar o corpo, mas era o objetivo que determinava tudo. Por causa do objetivo espiritual, o corpo tinha de permanecer plenamente funcional. RABASH tratava as ordens dos médicos como um decreto divino.
A partir daí, tudo correu bem, o que foi algo surpreendente. Deram-nos um quarto privado. Perguntei a RABASH quando deveria voltar para o visitar. Pensei que me diria para regressar no dia seguinte, durante o horário de visitas, considerando o quão cumpridor das regras ele sempre fora. Em vez disso, disse-me: “Vem para a aula da manhã.”
Estremeci. Ainda hoje recordo o nervosismo que senti. RABASH ia estudar comigo a sós?! Nem sequer ousara sonhar com tal coisa!
Perguntei timidamente:
“A que horas devo estar aqui?”
“Às quatro”, respondeu ele.
Conduzi para casa, mas parecia que voava! Tinha de me preparar.

ENTRE HILLEL E RABASH
Estava à entrada do hospital às três e meia. Não me deixaram entrar, então trepei a cerca, rasgando as calças no processo, nervoso e apressado. Depois, subi pela escada de incêndio até ao quarto de RABASH. Ele já me esperava. Acendemos um cigarro — naqueles dias, podia-se fumar em qualquer lugar.
Desta vez, ele não abriu a Introdução, mas O Estudo das Dez Sefirot.
Eu tinha tantas esperanças de uma revelação, de compreender ao menos algo. Afinal, a linguagem de O Estudo das Dez Sefirot assemelhava-se à da física. Talvez estudar a sós com o professor fizesse a diferença, e o significado interno do texto se revelasse automaticamente? Ou talvez, agora que RABASH me tratava de forma diferente, ele explicasse tudo claramente? Nada disso aconteceu. Na verdade, foi pior.
Ele não explicou nada, apenas leu. Eu estava completamente perdido, e sempre que tentava pedir esclarecimentos, ele apenas coçava a cabeça.
“É simplesmente... assim.”
“Como?” perguntei.
“É simplesmente assim.”
Estava desesperado com a minha total falta de compreensão. Cheguei a pensar em passar por algumas aulas noturnas com Hillel para obter respostas às minhas perguntas. Sabia que lá as teria. Mas também sabia que não o faria.

O SISTEMA DE RABASH
Com a sua aparente secura, RABASH parecia perguntar-me: “Onde estão as tuas conquistas se tudo o que recebes são respostas prontas? Essas respostas não te moldam num investigador, apenas te satisfazem. E, quando satisfeito, não desenvolves em ti o vazio necessário para alcançar o Criador. Por mais que tentes, não dominarás a Cabala com o intelecto. Só o coração compreende.”
Apesar de ambos, Hillel e RABASH, serem alunos de Baal HaSulam, os seus sistemas eram opostos.
O sistema de Hillel era: “Somos capazes de compreender e aprender.”
O sistema de RABASH era: “Não sabemos nada e não compreendemos nada.”
RABASH calibrava-se unicamente para a realização. Sem realização, todo o teu conhecimento não vale nada. Como era difícil sair de uma aula com RABASH sentindo-me absolutamente vazio — enquanto os alunos de Hillel saíam cheios de alegria e inspiração. Eles diziam-nos: “O que não compreendem? É tão simples!” E prosseguiam com explicações!
Numa dessas ocasiões, RABASH reparou que eu estava ali, hesitando entre sentir alegria ou desespero após uma aula. Aproximou-se de mim e disse: “Se não te sentires mais vazio após uma aula, então não foi uma aula!
“Deves sair de uma aula sentindo que não tens nada. Deves gritar por dentro: ‘O que hei de fazer?!’ Se for esse o caso, então a aula foi um sucesso!”
Felizmente, ouvi RABASH. Descobri a tempo quem estava diante de mim. E que precisava de o seguir — passo a passo e sem questionar.

ESTADOS
Mas aqui está o que é notável. Mesmo compreendendo isto, eu não era imune à dúvida. Quando finalmente te comprometes e dizes a ti mesmo, “Esta é a minha vida, este é o meu caminho, este é o meu Professor,” é exatamente nesses estados de certeza que as perguntas começam a surgir. “Será este o caminho certo? Será ele o professor certo? E o objetivo, não deveria ser verificado?” E começas a lutar contra essas dúvidas, cometendo todo o tipo de erros no processo. São inevitáveis, pois ainda és apenas uma criança.
Certa vez, num desses estados, aproximei-me de RABASH e disse: “Tenho 34 anos. Pretendo dedicar toda a minha vida à Cabala. E tudo o que me interessa é uma única pergunta: és tu o Professor que me conduzirá ao objetivo?”
Esperava que ele tentasse tranquilizar-me, que me desse garantias, que acalmasse os meus medos e me enchesse de força e confiança. Mas aconteceu o oposto.
RABASH respondeu simplesmente:
“Não sei. Tens de o sentir por ti próprio.”
“O quê?!” perguntei, quase gritando.
“No teu coração,” disse ele. “Não há outro caminho.”
Ele orientava todos para o Criador.
Nunca quis que os seus alunos se fixassem nele.

RABASH ORIENTA
Passou uma semana, e notei que o RABASH começara a aproximar-se de mim. Visitava-o no hospital todas as manhãs, passando o dia inteiro com ele. Preparava-me para isso, cuidando de todas as minhas outras responsabilidades para que nada me distraísse. Esforçava-me ao máximo para não perder uma única palavra do que ele dizia. E isso exigia grande concentração.
Estar a sós com um cabalista do seu calibre não é fácil. Havia estados em que, de repente, percebia, com choque, que não tinha perguntas dentro de mim. Apesar de ter preparado uma quantidade de perguntas antecipadamente, encontrava-me subitamente sentado diante de RABASH, paralisado, incapaz de falar.
Era como se RABASH me estivesse a atordoar. Não conseguia abrir a boca, e ele parecia ignorar-me completamente. Mais tarde, sentia frequentemente que ele orientava toda a minha vida, como se soubesse tudo sobre mim e o meu futuro. E, de facto, assim era.

AGARRAR-ME COM TODAS AS FORÇAS
Foi o nosso tempo no hospital que ajudou a criar um vínculo verdadeiro e inquebrável entre nós.
Numa ocasião, não consegui conter o meu tormento e perguntei: “Como é que isto pode ser compreendido?” O que realmente queria dizer era: “Porque me torturas assim?!” Ele pareceu sentir o meu estado, pois a sua resposta foi muito simples e clara. Estávamos a estudar uma cena do Talmud, onde duas pessoas seguram um talit [xaile de oração], ambas reclamando a sua posse. “É meu,” diz uma. “Não, é meu,” diz a outra.
“O que está a acontecer aqui?” perguntei a RABASH. “Porque estão estas duas pessoas a rasgar o talit ao meio?!”
E ele disse, de repente:
“O talit é o homem.”
Fiquei paralisado em choque. A sua resposta virou-me o cérebro do avesso.
RABASH continuou:
“As duas forças que o rasgam são as duas forças que dominam o homem: a inclinação ao mal e a inclinação ao bem, o desejo de receber e o desejo de doar.”
Era tão simples, mas, ao mesmo tempo, tão profundo.
“E o homem deve ver-se como neutro, posicionado entre elas,” disse RABASH. “Deve ser responsável por decidir qual das duas falará nele. E agora pergunta-te: o que quer o Criador de ti? Afinal, é Ele quem te influencia de ambos os lados! Ele e mais ninguém!”
Naquele momento, senti claramente a incrível profundidade que havia nele. E que precisava de me agarrar a ele com todas as minhas forças. E de agradecer ao Criador por me ter dado esta oportunidade na vida. Mas, poucos minutos depois, vi diante de mim novamente o mesmo RABASH “seco”, a abrir ‘O Estudo das Dez Sefirot’ e a começar a ler monotonamente de uma página qualquer. Sem explicações, sem emoções, sem a menor preocupação pelo facto de eu estar de novo a sentir-me vazio e perdido.
Olhando para trás, percebo que ele me liga como um livro aberto. Já sabia que eu ficaria com ele, que nada me importava para além deste caminho, que nunca o abandonaria. Ele conhecia a minha vida futura de ponta a ponta. E estava a preparar-me para ela.

OS MEUS MEDOS
Ele continuava a lançar-me entre a frigideira e o fogo. Num momento, eu compreendia; no seguinte, não. Num momento, sentia algo; no seguinte, tudo desaparecia. Num momento, ele era grandioso aos meus olhos; no seguinte, eu tinha de lutar pela sua grandeza.
Esta luta constante forjou-me. Antes que me apercebesse, passou um mês, e RABASH estava prestes a receber alta do hospital. Fiquei horrorizado. O que seria de mim? Não, isto não podia simplesmente acabar! Não estava disposto a renunciar às nossas aulas noturnas juntos. Não conseguia imaginar não lhe preparar o café ao estilo de Jerusalém, como ele gostava, com uma colher rasa de café numa chávena de água a ferver, sem açúcar. Aqueles períodos de silêncio em que nos sentávamos juntos, ele fechava os olhos e pensava, e eu sentia literalmente com quem ele estava a falar. Ficava ali, com a respiração suspensa, para não o perturbar... E quando ele começava a falar com aquele timbre gutural agudo, desejava que a noite durasse para sempre! Apanhava-me a pensar que ele me fazia lembrar o meu avô. Como ele me era querido! Como poderia continuar sem ele?!
O nosso vínculo começou ali, no nosso hospital. “Nosso” porque parecia que ambos éramos seus “pacientes”. Ambos sentíamos isso — então e mais tarde.

 



1. RABASH – Rav Baruch Shalom HaLevi Ashlag (1907-1991), filho primogénito e sucessor espiritual de Baal HaSulam, o maior cabalista do século XX.
2. Kfar Chabad: um povoado religioso dos hassidim de CHABAD em Israel. CHABAD, também conhecido como Chabad-Lubavitch, é um dos maiores e mais conhecidos movimentos hassídicos.
3. Talmud Babilónico: o texto central do judaísmo religioso.
4. Tanya: um texto hassídico do século XVIII.
5. RAMAK: Moses ben Jacob Cordovero, um proeminente cabalista do século XVI.
6. RAMCHAL: Moshe Chaim Luzzatto, um proeminente cabalista do século XVIII.
7. Baba Sali: Israel Abuhatzeira, um rabino sefardita marroquino e cabalista do século XX.
8. GRA (Gaon de Vilna): Elijah ben Solomon Zalman, um talmudista e cabalista do século XVIII, líder principal do judaísmo misnagdic (oposto ao hassidismo) dos últimos séculos.
9. Baal HaSulam: Yehuda Leib Ha-Levi Ashlag, conhecido como Baal HaSulam [autor do Sulam (Escada)] pelo seu extenso comentário Sulam ao Livro do Zohar. Baal HaSulam também escreveu O Estudo das Dez Sefirot, um comentário extenso sobre os escritos de Isaac Luria (o ARI), para além de inúmeros ensaios e textos introdutórios. É considerado por muitos o maior cabalista do século XX, e possivelmente o maior desde o ARI. Baal HaSulam era também o pai do meu professor, RABASH.
10. Rebbe: um líder espiritual. Rebbe é a palavra iídiche para Rabino, que significa grande.