Capítulo 2.13 – Perguntas e Respostas
Qual é o Significado das Nossas Vidas?
P: As pessoas perguntaram sobre o significado das suas vidas nas gerações anteriores, mas na nossa geração todos podem estudar Cabala. Isso deve-se às nossas virtudes ou aos nossos pecados?
R: Sim, é verdade que tais questões não são novas. Mas na nossa geração, a questão sobre o significado das nossas vidas é colocada de forma mais aguda. As almas que regressam ao nosso mundo estão agora mais maduras, melhor preparadas. No passado, as pessoas estavam menos interessadas em encontrar o significado das suas vidas, e mais interessadas em ciência, ciências sociais, cultura, literatura, e assim por diante.
Mas nos dias de hoje, tornámo-nos desiludidos com tudo: fala-se menos da capacidade da ciência para proporcionar paz de espírito e confiança; as pessoas procuram frequentemente respostas para as questões mais básicas sobre a angústia que experienciam, e começam finalmente a compreender que a origem de todo este sofrimento é a ocultação do Criador e a dessemelhança com Ele. Começam a sentir um anseio por se conectar com Ele, e isso em última análise leva-os à Cabala.
A humanidade aproxima-se de um estado de procura pelo significado da vida, mas não ao nível do nosso mundo, pois já se deram conta de que não há felicidade na alta tecnologia, ou no desenvolvimento da nossa cultura e ética. As drogas e outros acessórios para o prazer produzem um desejo de evitar tais questões como o desejo de compreender o significado da vida, mas no entanto, isso permanece vital.
Cabala e Eu
P: Tudo foi predeterminado?
R: O ponto de partida e o ponto final são determinados pelo Criador. Mas o caminho do ponto de partida ao ponto final depende de nós. Temos a capacidade de escolher qual o caminho para alcançar o propósito da Criação. Mas mesmo no ponto de partida, operamos sob a pressão do nosso egoísmo absoluto. Somos os seus escravos e somos motivados apenas por desejos egoístas.
Quando mudamos a nossa natureza do egoísmo para o altruísmo, tornamo-nos também escravos, mas desta vez de uma natureza altruísta. A liberdade do desejo reside apenas na escolha de a quem servir: Faraó ou Moisés. Portanto, toda a Torá é um guia para atingir o propósito da Criação. Como se diz, “Eu criei a inclinação ao mal, Eu criei para ela a Torá como uma especiaria” (Gemarra Masechet Kidushin p. 30;2), o que significa: "Eu criei o egoísmo e dei a Torá/Cabala para o corrigir."
Todas as partes da Torá foram dadas para que possamos igualar os nossos atributos aos do Criador. Mas cada geração deve focar-se numa certa parte da Torá.
Um cabalista chamado Moisés ascendeu ao mundo espiritual através da sua compreensão espiritual, o que significa que foi capaz de sentir níveis espirituais, e descreveu-os num livro que chamou de "a Torá".
A Torá proíbe estritamente a representação de fenómenos espirituais como entidades físicas. É proibido imaginar um ancião distinto chamado Moisés a descer o Monte Sinai com um livro da Torá na mão. Torá significa "a Luz do Criador". Cada palavra na Torá é um nome do Criador. Os nomes do Criador são as sensações que se tem Dele, enquanto Ele próprio não tem nome.
É o indivíduo que realiza espiritualmente que dá nomes ao Criador de acordo com a sua perceção Dele: “Benigno”, “Misericordioso”, “Poderoso”, “Temível” e assim por diante. A Torá descreve tudo o que Moisés descobriu e compreendeu dos mundos espirituais, tudo o que o Criador lhe revelou e lhe ordenou transmitir-nos para que o realizemos.
O propósito da criação deste mundo pelo Criador é a unificação espiritual com Ele, a correção das propriedades do homem, ou seja: ascensão espiritual. Há 620 níveis espirituais desde o nosso ponto, que é o mais baixo possível, até ao Criador. Cada um desses níveis é chamado de Mitzva [Mandamento].
Quando nos corrigimos através de um certo ato altruísta, realizamos uma certa Mitzva [Mandamento] e consequentemente ascendemos ao nível correspondente. Isso significa que há 620 correções adicionais de adoção de desejos altruístas que devemos realizar depois de nos elevarmos acima da natureza egoísta do nosso mundo.
No último e mais alto nível espiritual, une-se completamente com o Criador. As suas propriedades e desejos tornam-se completamente idênticos aos do Criador. Devemos atingir esse estado de completa similitude de atributos com os do Criador enquanto vivemos fisicamente no nosso mundo.
Assim, alcança-se a completude de toda a Criação, e a lacuna entre o ponto mais alto e o mais baixo da Criação é preenchida. Nesse estado, tudo regressa ao Criador, aos Seus atributos, à Origem e a um estado de bem-aventurança altruísta infinita. É apenas nesse nível espiritual que a alma é libertada da necessidade de passar novamente pelos níveis de “este mundo”.
Mas enquanto houver correções a realizar, devemos regressar aqui repetidamente até completarmos a nossa correção através do estudo da sabedoria da Cabala. Por que razão as pessoas interpretam e relacionam de forma tão diferente o texto da Torá? Afinal, os próprios cabalistas descreveram o mundo espiritual para nós e deram-nos este livro. Chamaram-lhe Torá, para indicar que se relaciona com as palavras Ohr (luz) e Horaa (instrução).
Os cabalistas podem sentir os Mundos Superiores e descrever essas sensações nos seus livros numa linguagem única. Mas aqueles que não podem ver e sentir os mundos espirituais não conseguem compreender as explicações dos cabalistas. Afinal, não há corpos físicos como os nossos no mundo espiritual, e não há nomes que se possam usar para nomear os objetos ali. É de facto impossível transmitir esses sentimentos numa linguagem que os humanos compreendam.
Mas, como tudo o que existe no nosso mundo provém dos Mundos Superiores, e cada objeto físico tem uma raiz espiritual acima, os cabalistas decidiram nomear cada entidade espiritual de acordo com o seu ramo terreno, que parece descer de Cima para baixo, de uma raiz espiritual para um corpo material correspondente no nosso mundo. A raiz espiritual é a causa, e o ramo terreno é a projeção, a consequência.
Toda a Torá foi escrita nesta linguagem descritiva. Ela fala apenas de forças espirituais, assim como todos os outros livros sagrados. Os livros podem ser divididos entre aqueles que usam uma linguagem legal, como o Talmud, ou uma linguagem de narrativa histórica, como o Pentateuco. Mas todos esses livros descrevem apenas os mundos espirituais. Não têm qualquer intenção de se referir ao nosso mundo.
A confusão surge apenas quando lemos esses livros e automaticamente interpretamos as palavras de acordo com o nosso entendimento, que conhece apenas os termos do nosso mundo. Como resultado, começamos a pensar que se fala de coisas que acontecem no nosso mundo. Mas um cabalista que lê o mesmo texto compreende precisamente o que o autor quis dizer em cada secção do livro. É muito semelhante a um músico que consegue cantar a música apenas olhando para as notas.
P: Não sentimos o Criador e, consequentemente, não acreditamos que Ele existe. Não podemos ver o Mundo Superior; não sabemos nem compreendemos nada sobre ele. Nenhuma das ciências existentes nos permite influenciar o futuro, então com que base afirma que é possível influenciá-lo?
R: A sabedoria da Cabala não estuda os fenómenos deste mundo, mas as suas raízes espirituais no Mundo Superior. Essas raízes afetam tudo o que acontece no nosso mundo e produzem os acontecimentos das nossas vidas. Uma pessoa que estuda Cabala começa a ver e compreender o Mundo Superior.
Ao ver o Mundo Superior, começamos a sentir o Criador e a compreender como Ele criou o mundo espiritual. A sabedoria da Cabala refere-se a este ato como o “primeiro dia da criação”. Nos atos que se seguem, ou seja, nos dias seguintes, o Criador criou a natureza do Mundo Superior e as forças que o gerem. O último ato do Criador, no sexto dia, foi a criação de Adam HaRishon.
Porque Adam HaRishon foi a consequência do último ato do Criador, ele também constitui o propósito de toda a Criação. Tudo o que foi criado antes dele foi criado para ele. Então, julgando pelo programa do Criador, o que deve tornar-se o homem? Ele deve alcançar a unificação espiritual com o Criador, tornar-se semelhante a Ele em todos os aspetos, igualar-se a Ele e aprender a gerir o seu próprio destino.
Para além disso, o homem deve alcançar o mais alto nível espiritual de completude total sozinho. Isso significa que ele deve primeiro estar no nível espiritual mais baixo, completamente oposto aos atributos do Criador, e depois ascender ao nível espiritual do Criador através dos seus próprios esforços espirituais.
A sabedoria da Cabala pode ser usada para observar tanto o mundo espiritual quanto o nosso mundo, e a interação entre eles. O conhecimento que desce constantemente do Mundo Superior para o nosso e se materializa diante dos nossos olhos. As nossas reações a esta informação sobem ao Mundo Superior como conhecimento e determinam se sentimos o nosso amanhã como positivo ou negativo.
Portanto, o Criador, que está no mais alto nível espiritual, criou esta criação a partir de um atributo egoísta, que é completamente oposto a Ele, e encheu-a até ao limite com luz. Depois, esvaziou-a e baixou-a ao nível de “o nosso mundo”. Uma criatura que ascende novamente pela escada espiritual recebe um prazer muito mais intenso do que antes da descida a este mundo.
P: Se existe uma Força Superior que nos governa e a cada pequeno inseto no nosso mundo, então como somos diferentes de robôs?
R: Se usarmos a Cabala para mudar as nossas propriedades internas, também mudamos a influência externa que atua sobre nós. Como todo este mundo é construído para nos guiar à perfeição, o nosso processo de correção individual também muda um pouco o mundo exterior, revelando o seu lado melhor para nós. Torna-se então mais fácil, tanto para o indivíduo como para toda a humanidade, progredir para o objetivo final. O ponto de partida e o ponto final estão predeterminados, mas o caminho até lá pode ser um caminho de Cabala ou um caminho de dor. A escolha do caminho depende de nós.
P: A Cabala ajudará no meu progresso profissional?
R: A Cabala não só intensifica a sensação e a conquista dos Mundos Superiores, como também aprofunda, expande e refina outras emoções. Melhoramos as nossas conexões com o nosso ambiente e os acontecimentos à nossa volta, e aprendemos a considerar a ciência como algo trivial, usado apenas para a subsistência geral da humanidade e a sua adaptação ao mundo à sua volta, e nada mais.
Quando começamos a estudar Cabala, normalmente ficamos bastante confusos com todos os novos termos e emoções. Mais tarde, começamos a relacionar-nos com a ciência de um ponto de vista superior, vendo-a como algo incidental. Isso ajuda-nos a evitar curvarmo-nos perante a ciência e a relacionarmo-nos com ela de uma maneira mais verdadeira e profunda. A Cabala permite aos cientistas progredir e obter uma conquista mais completa, mesmo no nível do nosso mundo limitado.
P: Mencionou que existe uma providência geral que conduz a humanidade em geral, e que aquele que começa a estudar Cabala pode mudar a sua vida e destino. Pode uma pessoa que estuda Cabala mudar de alguma forma o curso coletivo da vida no seu ambiente, não só para si própria, mas também para os outros?
R: Isso pode ser feito, mas apenas divulgando a Cabala a outras pessoas, de forma suave e sem ser missionário. Podemos informar discretamente as pessoas à nossa volta que existe algo como a Cabala e interessá-las na leitura de livros escritos por cabalistas. Isso é suficiente para colocar uma pessoa num estado completamente diferente em relação ao Criador, onde já existe um tipo diferente de Providência sobre ela vinda do Alto.
Não tenho outra resposta: livros, ficheiros de áudio e vídeo, o nosso site na internet (www.kabbalah.info). Fazemos tudo para fornecer às pessoas os meios que escolherem para mudar o seu destino. De qualquer forma, as pessoas chegarão a isso em poucos anos, pois perceberão que amuletos, talismãs e bênçãos não são a solução para mudar as suas vidas. Todos devemos determinar os nossos próprios destinos e não nos eximir desta responsabilidade. Mudar as nossas vidas não pode ser comprado com dinheiro ou qualquer outra moeda.
O Mundo Espiritual
P: O que é um nascimento espiritual? É algo semelhante a um nascimento físico?
R: Tudo o que acontece no nosso mundo corresponde perfeitamente ao que acontece num nascimento espiritual. Quando alguém está completamente liberto do egoísmo, esse estado corresponde ao de um feto no útero da mãe. O feto passa então por nove meses de desenvolvimento espiritual que correspondem a um estado de conceção, até nascer como um ser independente, embora pequeno. Depois, há dois anos de infância e alimentação do “peito” do superior. Em seguida, a criança continua a crescer (à custa do Partzuf superior, mas de forma separada) até aos treze anos, e a partir dessa idade começa o seu estado de Gadlut (idade adulta). É assim que a alma de cada pessoa se desenvolve.
Tudo o que os livros de Cabala descrevem, tudo o que acontece no nosso mundo e tudo o que a Torá fala são processos de ascensão na escada espiritual. Não há nada para além do ser humano e do Criador, e todo o nosso caminho destina-se a aproximar-nos Dele.
P: Como pode alguém saber que alcançou uma conexão com o mundo espiritual?
R: Tudo o que podemos imaginar vem como consequência das nossas experiências no corpo físico. Portanto, todas as experiências de “voar” e outros “acontecimentos espirituais” estão completamente desconectadas do verdadeiro mundo espiritual.
A sensação de espiritualidade só pode ser obtida através de um Masach [Tela], uma característica anti-egoísta que só pode ser adquirida através do sistema da Cabala. Isso exige trabalho em grupo, o professor certo e vários anos de estudo intensivo com os livros apropriados. Por vezes, a pessoa pode ter uma sensação do mundo espiritual sem qualquer preparação. No entanto, é uma sensação passiva, porque a pessoa é incapaz de corrigir o eu quando a recebe como um dom do Alto sem esforços prévios para criar o Masach [Tela].
Isso não tem nada a ver com a evolução de uma alma comum no caminho da correção; é apenas algo que o Criador precisou fazer de acordo com o Seu próprio programa de desenvolvimento de unificação e separação das almas. É por isso que Ele o fez. Se pudéssemos ver a imagem completa da reencarnação das almas, compreenderíamos por que o Criador age desta ou daquela maneira com uma certa alma. Nenhuma parte da nossa alma coletiva pode alcançar o objetivo, o nível espiritual do Criador, antes de ser corrigida.
O Criador não permitirá que ninguém, sob quaisquer condições, entre no mundo espiritual sem um esforço espiritual. Se o fizesse, a pessoa seria incapaz de criar um vaso, o desejo necessário para sentir a perfeição do Criador.
P: O que aconteceria se o Criador se manifestasse perante nós neste preciso momento?
R: Nesse caso, apoderar-nos-íamos do prazer para nós próprios e nunca poderíamos sair desse prazer egoísta, embora seja tão pequeno que é praticamente inexistente em comparação com os prazeres espirituais — aqueles sentidos com o benefício voltado para o Criador. O Criador oculta-Se de nós para nos permitir construir um Masach [Tela], que é o objetivo voltado para o Criador. Somente depois disso Se revelará a nós. Apenas então o prazer será infinito e duradouro, porque tal é a natureza dos desejos altruístas.
P: Mas o Rav repete que tudo o que precisamos para entrar no mundo espiritual é a revelação do Criador?
R: O que eu quero dizer neste caso não são os prazeres que provêm do Criador, mas a revelação da Sua Divindade. Quando isso acontecer, anular-nos-emos perante o Criador e poderemos cancelar os Seus desejos egoístas e obter um Masach [Tela]. Somente depois disso o Criador Se revelará como a Origem de todos os prazeres.
P: Como distingue o “bem” do “mal”?
R: A nossa percepção do bem e do mal é muito diferente de como são percebidos na espiritualidade. O bem e o mal no nosso mundo baseiam-se em sentimentos subjectivos e egoístas, significando que algo é bom se for bom para mim, e mau se for mau para mim. Somente quando alguém transcende o seu próprio egoísmo é que alcança o que o bem e o mal realmente são.
Tudo é feito pelo Criador, mas não somos capazes de justificar as Suas Acções. Desastres globais, guerras e aniquilação de nações inteiras, tormentos horrendos e problemas por toda a parte, são chamados de bem por aqueles que alcançam a imagem colectiva do universo e dos mundos.
P: O que é a “liberdade de desejo”?
R: Quando alguém alcança o mundo espiritual, alcança tudo o que desce ao nosso mundo — as raízes e onde e como se concatenam ao nosso mundo. Todo o acontecimento terreno começa no mundo espiritual. Tudo o que nos aconteceu e que nos acontecerá provém dali.
O sistema da Cabala significa ter fé acima da razão, e o cabalista nunca explora o seu conhecimento para satisfação pessoal. É por isso que o seu conhecimento de si próprio ou dos outros não tem significado, porque o cabalista nunca o usará da maneira comum que as pessoas desejam.
Muitas pessoas perguntam-me sobre o futuro, mas eu digo-lhes para irem consultar um adivinho. O que eu posso fazer é aconselhar sobre o que se deve fazer, mas é proibido abrir a imagem aos outros porque estamos a negar-lhes a liberdade de escolha e a liberdade de desejo. Isso resultará na perda do desejo deles pela vida, porque se tudo for conhecido antes mesmo de acontecer, então para quê viver? As nossas vidas são apenas agradáveis quando temos um pouco de liberdade de desejo. É isso que nos separa de todos os outros elementos da Criação e devemos utilizar essa liberdade.
P: Quando alguém alcança o mundo espiritual, o que encontra lá?
R: Encontra harmonia absoluta dentro de si. Encontra que tudo é conduzido por uma Força Superior que leva todas as Criações a um único objetivo. Encontra o seu próprio objetivo e deixa de cometer erros. Compreende por que surge a doença e o propósito dos problemas na vida. Começa a compreender o bem ou o mal que as ações trazem e como se comportar com os outros. Já não há necessidade de aprender nada com ninguém porque esta pessoa se torna parte da Criação. Não há necessidades a satisfazer dentro; é para este estado que o Criador nos conduz.
Temos apenas duas escolhas: a primeira é aquela que toda a humanidade está presentemente a tomar. Envolve sofrimento e fugir de dor em dor sem qualquer capacidade de encontrar razão para viver. Este estado pode continuar até que a dor se acumule e leve alguém a um nível espiritual. É impossível saber ou sentir a quantidade anterior de dor acumulada, mas cada alma mantém a sua própria conta e precisa de uma quantidade diferente de sofrimento para a levar à espiritualidade. Este é o primeiro caminho, o caminho da dor. É um caminho muito longo e agonizante.
No entanto, o Criador dá a cada pessoa uma saída da angústia que nos sobrevém e oferece o mundo espiritual através de um segundo caminho — o caminho da Cabala (Torá). A palavra hebraica “Torá” significa “instrução”. Há instruções claras na Torá/Cabala que nos ensinam como alcançar a realização espiritual, ao mesmo tempo que a combinamos com a vida familiar, o estudo e o trabalho. Diz-nos como descobrir os nossos mundos espirituais interiores, bem como o mundo físico exterior.
Desejo
P: Se somos apenas um desejo, como todas as outras criações, então qual é o nosso desejo mais profundo?
R: O nosso desejo mais profundo é aderir ao Criador. Esse é o desejo inconsciente de todos. Foi impresso em nós desde o início e é o único desejo que realmente ansiamos satisfazer. Mas esse desejo só se torna claro para nós na medida em que estamos dispostos a aceitá-lo e realizá-lo. Até esse ponto, o Criador continua a impulsionar-nos e a tentar-nos com novos desejos, significando que o desejo primário se reveste com outros desejos.
P: E se eu tiver de repente um impulso para roubar algo?
R: Não haverá tal desejo. Pode haver um desejo de roubar, mas haverá um pensamento que o segue, porque essa é a maneira do Criador de nos mostrar quão desprezível e sujos somos.
Junto com o desejo há a sensação de repulsa por tal desejo aparecer em nós. É por isso que existe o “reconhecimento do mal”. Uma pessoa comum não considera tais desejos como mal, mas racionaliza: “Bem, eu não sou diferente de ninguém”.
Está escrito que Deus disse a Abraão: “Olha agora para o céu” e prometeu-lhe que a sua descendência e o seu povo seriam como as estrelas no céu — inumeráveis. As estrelas são centelhas da Luz Refletida que se quebraram da alma colectiva. Recolhe-se essas centelhas, corrige-se-as e assim se ascende. Por essa razão, as centelhas, que são almas minúsculas que sobem para o Alto, são chamadas de “estrelas”. O Criador prometeu a Abraão que, se seguisse este caminho, todo o céu seria seu.
Morte
P: Uma parte da alma passa dos pais para o filho?
R: O ser humano é um animal de duas pernas. Possui uma força vital chamada “alma animal”. Quando a pessoa morre, a alma sai do corpo, tal como acontece com qualquer outro animal. Mas a Cabala fala de um tipo diferente de alma, que é a Luz do Criador.
Uma alma é uma determinada quantidade de Luz que entra apenas quando essa pessoa adquire atributos altruístas específicos. Não tem nada a ver com a identidade dos pais.
P: A maioria das pessoas acha a morte angustiante, mas o que é realmente a morte do corpo?
R: O nosso problema com a morte começa com aquilo a que ligamos o nosso ego — associamos o ego ao nosso corpo, ou à nossa alma, à nossa parte interna? Se alguém vive dentro das propriedades e desejos da alma, então permanece com ela e conecta-se a ela. Para tal pessoa, a morte não é trágica, mas apenas uma transição para um estado diferente. É como se certas obstruções que o corpo tinha fossem removidas, para que se possa passar a um estado mais perfeito e completo, com uma capacidade melhorada para o progresso espiritual.
Verifica-se que a morte é algo de que só se pode estar feliz. A morte indica que está no caminho certo para o progresso espiritual e que já completou uma certa porção da viagem. Agora que essa parte está concluída, está livre para continuar sem o peso do corpo físico.
P: O que acontece a uma pessoa que experiencia a morte clínica?
R: As pessoas que experimentam a morte clínica sentem um desapego do ego porque entram num estado pós-morte. Embora ainda não seja espiritual, esse estado já não é animal porque a morte clínica separa-nos do nosso ego.
É-se incapaz de sentir o que é a espiritualidade antes de adquirir um Masach [Tela], porque falta a ferramenta de sensação chamada “Luz de Refletida”, a intenção de beneficiar o Criador.
No entanto, ainda se pode sentir a subtileza da espiritualidade por causa da dor sofrida. A agonia neutraliza o egoísmo porque leva o ego a uma situação em que está disposto a anular-se apenas para parar a dor.
Um rabino foi uma vez enviado a um homem preso na Rússia. Ele estava num estado mental muito pobre, sem qualquer conhecimento de hebraico, mas escreveu poemas em hebraico sobre estados espirituais sublimes que só um cabalista poderia experienciar. Claro, ele não usou termos cabalísticos, mas experienciou estados de desconexão do nosso mundo. Aqueles que experienciam a morte clínica também sentem um estado espiritual superior porque passaram por tormentos tais que o ego infligiu, e esses são suficientes para repelir alguém do seu egoísmo.
Esses tormentos fazem com que ele comece a olhar para si próprio “de lado”, e começamos a sentir alguma sensação espiritual. No entanto, esse não é o caminho que a Cabala nos aconselha a tomar porque temos a Cabala como cura. No caminho do tormento, as pessoas sentem estas coisas nas piores situações possíveis, mas esse não é o caminho que devemos seguir.
Os tormentos não vêm diretamente do Criador. Quando a alma animal morre, sentimos um pouco mais de Luz do Alto, mas é milhar de milhões de vezes menor do que o estado espiritual mais baixo que adquirimos como resultado do nosso próprio esforço!
P: Passamos para o mundo espiritual quando morremos?
R: A alma é o veículo espiritual do homem, o eu interno do homem. Está num certo estado espiritual antes de entrar neste mundo. Como o propósito da Criação é elevar a alma do seu estado mais baixo ao seu estado mais alto possível, a alma recebe egoísmo adicional, propriedades negativas adicionais que ocultam o eu espiritual de nós.
O eu tinha uma certa base espiritual; estava acima deste mundo antes de receber egoísmo adicional, que o levou a descer para este mundo. O egoísmo é adicionado na forma dos desejos de um corpo animal; é assim que começamos a sentir o nosso nascimento e existência no mundo corpóreo. No entanto, se removermos o nosso egoísmo adicional, regressaremos imediatamente ao lugar de onde descemos para este mundo, ou seja, ao nível original da nossa alma no mundo espiritual.
Agora relacionamo-nos com o mundo como todos os outros. O que devemos fazer é usar o nosso egoísmo para ascender na espiritualidade. Desta forma, ascendemos 620 níveis mais alto do que os níveis de onde começámos.
Quando ascendemos do nosso mundo e alcançamos o fim da correcção, ascendemos ao mundo de Ein Sof e sentimos 620 vezes mais completo do que o nosso estado preliminar actual. Os nossos corpos animais morrem porque lhes retiramos a satisfação egoísta. O significado da morte é que a força espiritual que nos dá o desejo de viver e absorver a força da vida, é retirada.
Perguntas e Respostas Diversas
P: Por que razão todos os encontros com o Criador ocorrem em montanhas (Monte das Oliveiras, Monte Moriá, etc.)?
R: A palavra Moriá vem da palavra Mora (temor); a palavra Har (montanha) vem da palavra Hirhurim (contemplações) de Mora, que é um Masach [Tela], para o Gar de cada nível. Sinai vem da palavra Sina'a (ódio), porque há ocultação da Luz de Misericórdia.
O Monte das Oliveiras é Malchut, o ponto deste mundo, o fim de todos os mundos. Todo o lugar onde Malchut termina sem tocar o ponto “deste mundo” é chamado Monte das Oliveiras.
P: Há alguma ligação entre o Monte das Oliveiras espiritual e o físico?
R: Não há ligação entre o Monte das Oliveiras espiritual e o físico. É por isso que qualquer pessoa pode chamar essa montanha por esse nome, e não apenas aquele que atingiu o Monte das Oliveiras espiritual.
P: Como pode uma pessoa comum nomear algo de acordo com a sua raiz espiritual se não a alcança e nem sequer sabe que existe?
R: Qualquer pessoa, mesmo um não-judeu, pode nomear qualquer lugar na terra de acordo com as suas raízes espirituais, mesmo sem alcançar essas raízes. Isso porque todas as pessoas são mensageiros do Criador, tal como é toda a Criação e toda a natureza. Assim como uma pessoa comum escolhe que uma montanha se chame Monte das Oliveiras por alguma razão terrena, assim um cabalista determina que esta montanha deve ser nomeada dessa forma por causa de uma raiz espiritual.
Isto ensina-nos que a diferença entre a realização espiritual de uma pessoa comum e o de um cabalista está apenas na profundidade da realização. O primeiro vê apenas a camada externa, e o segundo vê toda a profundidade até à razão primária. É por isso que a Cabala é também uma ciência. A única diferença é que a Cabala estuda a profundidade total da matéria até à sua camada mais interna, significando o desejo que foi criado pelo Criador, que é revestido por todas as outras propriedades. Por esta razão, um cabalista e uma pessoa comum podem dar o mesmo nome a algo porque as oliveiras crescem na mesma montanha.
A pessoa comum tem a sua própria razão para chamar algo pelo seu nome certo. Para além disso, a propriedade interna com que o Criador criou um objecto espiritual aparece em qualquer língua com o mesmo significado.
P: O que é um sonho?
R: Durante o sono estamos desconectados da espiritualidade. Existem apenas correntes eléctricas que correm pelo nossos intelectos e nada mais. Se desconectarmos o cérebro do corpo durante este tempo, não haverá sonhos. Podemos desconectar o ego do corpo para que o corpo durma separado do ego.
O estado de sonolência não tem nada a ver com a espiritualidade. Existe em toda a criatura viva. O estado de Dormita (sonolência) na Cabala é o nome dado ao tempo em que a Luz sai do Partzuf para um Partzuf superior. Tudo o que resta ao Partzuf chama-se Kista de Hayuta (um pequeno bolsinho de força vital), que é uma força de união e fortalecimento. Esse é o significado espiritual da sonolência. Se alguém pensa numa ideia durante o sono, é porque a conexão diminuída com o seu corpo físico permite uma visão mais clara. Como resultado, o intelecto e a imaginação operam num nível superior, mas isso não tem nada a ver com a espiritualidade.
P: Como e quando se alcança a compreensão espiritual?
R: A compreensão espiritual surge apenas através do esforço espiritual de estudar a sabedoria da Cabala, bem como da luta persistente contra os desejos egoístas. O momento preciso da compreensão é impossível de rastrear. Não se pode saber quando esse tempo chegará, porque os esforços espirituais devem ser dirigidos não para a compreensão, mas para dar ao Criador. No entanto, devemos sempre acreditar que “a salvação de Deus é como o piscar de um olho”.
Deixem-me esclarecer a realização: sentimos as consequências da nossa realização dentro de nós. Sentimos os deleites que receberems antecipadamente. Se os podemos provar, então a consequência será experienciada dentro de nós. Por exemplo, não podemos dizer que há prazer numa salada; o prazer está em nós desde o início, e a salada é apenas um meio para trazer à luz o deleite a fim de satisfazer o nosso desejo. Podemos pesar ou medir a salada de qualquer maneira que quisermos, mas não encontraremos prazer nela.
Isso significa que o sentido do prazer existe dentro de nós, incluindo a sensação do Criador. Em geral, sentimos tudo dentro de nós. É isso que quis dizer ao afirmar que sentimos “o Doador por trás da salada”. A questão não é quanta salada, ou quão boa foi a salada que comemos, mas que tipo de prazer experienciamos no momento, porque o prazer é sentido na nossa parte espiritual.
Por que razão o Criador fez com que só pudéssemos alcançar um vaso altruísta a partir de um egoísta? Mesmo a nossa capacidade de encontrar o centro de prazer no cérebro e estimulá-lo será apenas uma expressão externa desses vasos espirituais.
Novamente, por que razão o Criador criou um vaso egoísta a partir do qual subiríamos para um altruísta? Digamos que nos baseamos num pequeno vaso egoísta que pode conter dez gramas, mas recebemos esses dez gramas do Todo-Poderoso Criador, e usamo-los para agradar ao Criador. Nesse estado, o nosso prazer depende de quão grande é o Criador, não de quão grandes são os dez gramas.
Os dez gramas são apenas um eixo com o qual podemos virar tudo dentro de nós e chegar a uma realidade onde o prazer é infinito. Então, o tempo desaparece e cria-se um estado de perfeição por causa da conexão de Ein Sof.
P: Digamos que Israel, o Criador e a Divindade são um. Então, o que é a Divindade?
R: Não há nada para além do Criador e da criatura. O Criador criou uma criatura, que é o desejo de receber prazer do Criador. A única coisa que este desejo pode fazer é receber. Nomeia o que sente, significando que nomeia o reflexo do Criador nos seus sentimentos. Tudo depende das nossas sensações, significando como somos influenciados pelo Criador. Esses sentimentos são uma consequência de dois elementos: o próprio Criador e as nossas próprias sensações.
Se mudarmos esses, sentiremos o Criador de forma diferente. Nunca saberemos o que o Criador é quando não percebido através dos nossos sentidos. É por isso que nunca falamos do próprio Criador, mas apenas de como O sentimos dentro de nós, nos nossos sentidos. Esse sentimento nos nossos sentidos chama-se “Divindade”.
P: Podemos saber quando merecemos ser punidos ou recompensados?
R: Digamos que uma pessoa estava de pé numa varanda alta. Uma parte dela desaba subitamente e a pessoa cai e morre. Ou talvez ocorra uma catástrofe natural de repente. A quem culpamos?
Quando as crianças quebram algo, podemos puni-las, mas fazê-lo-emos a partir da nossa compreensão animal de recompensa e punição. Dessa maneira, ensinamos à criança a nossa própria compreensão e abordagem.
Era assim que funcionava na Rússia. Se eu não aceitasse o comunismo, podiam punir-me e até matar-me. Estabeleciam as suas próprias regras e a sua própria justiça, significando a sua própria compreensão do bem e do mal. Na verdade, deve haver um sistema honesto e objetivo de recompensa e punição, mas não um que favoreça os iniciadores do sistema, mas o bem-estar daqueles que o mantêm.
É impossível fornecer uma explicação precisa e concisa dos conceitos de recompensa e punição. Se o sistema for correto, deve ensinar-nos algo e não apenas existir. No entanto, não podemos ser objetivos; não sabemos o que se esconde por trás das nossas ações, que contradizem o propósito da Criação por causa dos nossos vasos corrompidos. Não há recompensa nem punição da perspectiva do Criador. Ele não deseja que o homem faça isto ou aquilo.
Há apenas uma tarefa em relação ao Criador — levar a humanidade a um estado interno especial, que nos permita receber a abundância e o deleite que nos está destinado depois de alcançarmos o propósito da Criação. O Criador não deseja punir nem recompensar qualquer atividade. Ele sempre nos conduz para o propósito da Criação.
Se assim é, então a quem se referem estes conceitos de recompensa e punição? A uma criança? A um adulto? Em que nível, em que nível de compreensão começa a recompensa ou a punição? Uma pessoa que cresce neste mundo torna-se subjugada às suas regras. Se pudéssemos conhecer alguém tão bem como o Criador o conhece, poderíamos prever cada movimento dessa pessoa em cada situação. Isso levanta a questão: “Onde está a nossa liberdade de escolha, e do que exactamente somos libertados?”
É liberdade das propriedades naturais que o Criador inseriu em nós, ou liberdade das influências do nosso ambiente? Onde está esse ponto de junção onde nos podemos tornar livres tanto da nossa própria natureza como do nosso ambiente? Se soubéssemos com certeza onde poderíamos escolher livremente, também poderíamos falar de recompensa ou punição, porque os passos que daríamos seriam passos feitos através de escolhas livres da nossa própria natureza e de outras influências externas.
Devemos saber que com cada movimento que fazemos e cada passo que damos, é o Criador que nos ensina, afina os nossos sentidos e nos dirige para o propósito da Criação. Se pudéssemos vê-lo dessa forma, então a recompensa e a punição teriam um significado completamente diferente, dependendo dos nossos objetivos.
Nesse caso, tudo o que passássemos — o bom e o mau — seria considerado uma recompensa. O mau não seria considerado doloroso ou tormentoso, mas como uma aprendizagem. Assim, poderíamos interpretar tudo de forma positiva. Significaria que a divisão entre recompensa e punição simplesmente não existe, porque encontraríamos apenas aspectos positivos na forma como o Criador trata as Suas criaturas.
No entanto, não chegamos a tal sentimento numa única experiência, mas após todo o tipo de ocultações pelo Criador. No início, há dupla ocultação, depois uma ocultação única. Depois disso vem a revelação do Criador, e finalmente o realização da eternidade, da completude e do amor para Com aquele que sempre nos amou, e que sempre quis dar a cada um de nós nada mais do que o maior prazer possível.