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Capítulo 2.11 – Ligando os Mundos

A realidade é composta por um Criador, ou o desejo de doar e proporcionar prazer, e uma criatura, ou o desejo de receber prazer. Não existe mais nada na nossa realidade para além destes dois componentes.

Quando o desejo de receber é corrigido através de um Masach [Tela] espiritual que atua contra o egoísmo, é chamada Partzuf, que é um objeto espiritual. Quando o Partzuf recebe prazer com a intenção de deleitar o Criador, realizando o Zivug de Hakaa [Acoplamento por Impacto], esse ato é chamado de Mitzva [Mandamento], e a Luz que entra no Partzuf é chamada de "Torá".

Se a pessoa consegue receber a Luz da Torá no seu egoísmo corrigido enquanto realiza uma Mitzva [Mandamento] físico, então o mundo físico e o mundo espiritual estão agora combinados dentro dessa pessoa.

Para tal, é necessário primeiro aprender o que se deseja alcançar com esse ato. A simples realização de Mitzvot (plural de Mitzva) não proporciona qualquer realização espiritual, apenas coloca a pessoa num nível de "imobilidade espiritual". Apenas a intenção – o seu poder e direção – pode conduzir alguém ao mundo espiritual e determinar o nível espiritual e a extensão da sensação da Luz Superior (a realização espiritual do Criador) que será alcançada.

Diz-se que uma "Mitzva sem intenção é como um corpo sem alma". Isso significa que uma Mitzva sem intenção está "morta" no sentido espiritual. Está num nível chamado "imóvel".

O propósito da Cabala é ensinar-nos a direcionar corretamente a nossa intenção. É por isso que a Cabala é chamada "a sabedoria do oculto". Apenas o indivíduo pode saber qual é a sua intenção, e por vezes até isso não é claro para a própria pessoa.

Portanto, a Cabala ensina-nos a examinar as nossas intenções exatas, para que eventualmente comecemos a sentir o nosso egoísmo e a nossa verdadeira essência – o desejo de receber prazer sem reservas ou consideração pelas necessidades dos outros.

No início da nossa procura espiritual, não compreendemos totalmente por que nos envolvemos tanto com a Cabala e nos dedicamos intensamente ao estudo. Fazemos essas coisas sem consciência dos nossos motivos. Somente depois, quando descobrimos o Criador, começamos a ver e sentir como fomos guiados do Alto, e então tudo se encaixa.

Todos os mundos foram preparados antecipadamente dentro de nós. Eles não existem sem a pessoa que os percebe. Cada um percebe apenas esta ou aquela secção da Luz uniforme e eterna que se estende dos mundos. Refere-se a ela como "o nosso mundo" e atribui nomes a essas secções. Esses nomes são discriminações espirituais que fazemos, através das quais começamos gradualmente a alcançar o mundo exterior, o mundo que está fora de nós.

Se queremos acelerar o nosso progresso, devemos receber um desejo adicional de elevação espiritual uns dos outros, o que significa que devemos aderir aos desejos de elevação espiritual dos outros. No entanto, entramos em contacto com muitas pessoas que não estão relacionadas com a Cabala, e assim podemos absorver os seus pensamentos e desejos. Se trouxermos esses desejos externos para o grupo, inconscientemente "infetaremos" os nossos amigos e obstruiremos o seu progresso espiritual. Isso voltar-se-á contra nós sob a forma de fraqueza e falta de motivação para o estudo. Portanto, todos nós devemos ser muito cautelosos na escolha do nosso ambiente e limitar a nossa conexão com ele.

A nossa missão é purificar-nos completamente de questões externas, sejam elas boas ou más segundo a nossa opinião atual. Devemos viver apenas o nosso eu puro, através do qual poderemos sentir o Criador. Podemos avançar usando os nossos próprios vasos (desejos), ou podemos usar vasos que provêm de um Partzuf superior, ou seja, os vasos do nosso professor.

O Rabash tinha muitos alunos que se reuniam uma vez por semana para estimular sentimentos sobre a importância do seu trabalho. Isso ajudava a criar um vaso coletivo. Todos os cabalistas, desde a época do Rabi Shimon Bar-Yochay, realizaram assembleias semanais de amigos para esse fim. O Ari e o Rabi Moshe Chaim Lutzato (Ramchal) escreveram sobre tais assembleias, assim como outros cabalistas na Rússia, entre os quais estão alguns dos maiores professores das gerações anteriores.

A influência da sociedade externa desperta os nossos desejos bestiais, que se tornam um sério obstáculo ao progresso espiritual. Devemos evitar a companhia de pessoas que tentam influenciar-nos, consciente ou inconscientemente. Até mesmo conversar com tal pessoa pode resultar na perda de conquistas espirituais que levaram meses a alcançar.

Não desejo encorajar o isolamento da sociedade, mas um estudante principiante deve ser extremamente cuidadoso com o conhecimento que absorve. Afinal, a nossa única livre escolha consiste em escolher o ambiente certo, ou seja, a sociedade à qual nos juntamos e cuja influência estamos sujeitos.

Somos apenas pontos egoístas que devem amadurecer para o trabalho espiritual. Esse "ponto no coração" que se abre e amadurece é a raiz e o início de tudo. Todas as outras atividades são apenas consequências e resultados desse ponto. A única coisa que foi criada é o desejo de receber prazer, ou seja, um desejo de receber para benefício próprio em diferentes níveis de evolução.

O desejo de benefício próprio é chamado de "Klipa [casca]". Ele cobre-nos até que desenvolvamos o suficiente para pedir para nos livrarmos dela, a fim de alcançar o próprio fruto, a casca corrigida.

A casca corrigida e o fruto são um desejo de doar, de dar e receber prazer, como o Criador. A Klipa [casca] é um conceito espiritual; o seu corpo espiritual consiste (como o corpo de um Partzuf puro) num Rosh (cabeça) e num Guf (corpo). O Rosh da Klipa [casca] é chamado Daat (sabedoria) e o Guf da Klipa [casca] é chamado “receção”. O Rosh puro é chamado “fé acima da razão” e o próprio Guf é chamado “doação”.

Apenas um grupo de amigos unidos pelo seu desejo pode tirar os outros das situações em que caem, onde não conseguem controlar-se ou criticar-se a si proprios. Se alguém se reunir com amigos diariamente, isso ajuda a purificar os pensamentos e a dar um impulso na direção certa.