Capítulo 2.10 – A Sensação da Luz
O Criador influencia-nos através de várias coisas no nosso ambiente. É nosso dever compreender que tudo o que nos acontece não é senão o Criador a aproximar-se de nós. Se reagirmos corretamente a esta influência, começaremos a compreender e a sentir o que o Criador realmente deseja de nós, até ao ponto em que começaremos a senti-Lo.
O Criador influencia-nos não apenas através de certas pessoas, mas também através de toda a realidade. O mundo está construído desta forma, precisamente porque é a melhor forma de o Criador nos influenciar e promover rumo ao propósito da Criação.
Quando enfrentamos várias situações na nossa vida quotidiana, não sentimos a influência do Criador por detrás delas. Isso acontece porque as nossas propriedades são completamente opostas às Dele. Mas, assim que começamos a igualar-nos ao Criador, mesmo que só um pouco, começamos imediatamente a senti-Lo.
Em resposta a cada golpe do destino, devemos fazer a pergunta certa: “Por que me foi dado isto?” e não, “O que fiz para merecer este castigo?” ou “Por que está o Criador a fazer-me isto?” Não há castigos, embora encontremos muitas descrições deles na Torá. Há apenas incentivos para mover a humanidade em direção ao estado perfeito.
Os nossos intelectos são apenas uma ferramenta de apoio extra que nos ajuda a perceber corretamente o que sentimos. Devemos encarar as nossas vidas como uma grande sala de aula onde o Criador é o nosso professor. Só Ele possui todo o conhecimento e dá-nos apenas o que somos capazes de perceber em cada momento. Com esta atitude, de forma progressiva e segura, a sensação do Criador virá aos nossos sentidos espirituais recém-nascidos.
Contudo, por enquanto, continuamos a virar as costas à Origem. Só conseguiremos enfrentá-la e aproximar-nos Dele se fizermos um esforço consciente. É por isso que o Criador nos envia livros e companheiros de grupo, para que possamos progredir espiritualmente.
O estudante está no mundo corpóreo e o professor no mundo espiritual. Devido ao ego, o estudante não consegue compreender nem valorizar o professor.
No entanto, se um estudante conseguir “apagar” o seu próprio intelecto, os seus raciocínios e opiniões, e operar com o intelecto do seu professor, que já está no mundo espiritual, poderá assim conectar-se com a espiritualidade, mesmo que a um nível inconsciente.
Não vemos nem sentimos o Criador neste mundo. Por essa razão, os nossos egos não podem agir pelo Criador. No entanto, os estudantes podem ver os seus professores, falar com eles e aprender com eles. Confiam e respeitam os seus professores. Por causa disso, podem fazer coisas pelos seus professores.
É semelhante ao processo em que o AHP do superior (o professor) entra no GAR do inferior (o estudante). Alcançar o AHP do professor significa aceitar cada ato, pensamento e conselho dado. Se o estudante se “unir” ao AHP do professor, o professor pode elevar o estudante temporariamente e revelar o que é a espiritualidade.
Quando lemos livros escritos por homens justos como Baal HaSulam, Rabbi Shimon Bar-Yochai e Rabbi Baruch Ashlag, conectamo-nos com eles através da Luz Circundante que purifica os nossos desejos, ou seja, os nossos Vasos.
Portanto, quando lemos estes livros, devemos sempre recordar o nível espiritual do autor. Isso permite-nos não apenas conectar com as ideias e a direção, mas também formar uma ponte que nos pode ajudar no nosso progresso à medida que nos ligamos ao autor. Não importa se o autor está ou não presente; podemos ligar-nos a ele nos nossos sentimentos, enquanto estudamos os seus livros.
Aos 18 anos, o filho mais velho de Baal HaSulam, Baruch Ashlag, terminou os seus estudos na Yeshiva (escola para judeus ortodoxos) e começou a trabalhar como operário da construção. Levantava-se antes do amanhecer, comia um quilo de pão e cebola, bebia um pouco de água e ia trabalhar. Pão e cebola também eram a sua ceia. Nos feriados, adicionava um pouco de arenque ou algo que tornasse a sua refeição festiva.
Rabbi Baruch Ashlag viveu uma vida muito dura. Estava entre os trabalhadores que construíram a estrada Hebron-Jerusalém. Os trabalhadores viviam em tendas e mudavam de lugar em lugar enquanto faziam cada troço da estrada.
O cozinheiro permitia que Baruch Ashlag estudasse na cozinha a partir das três da manhã. Em troca, Baruch enchia e aquecia as panelas para que o cozinheiro não tivesse de se levantar tão cedo.
Continuou este modo de vida mesmo após se casar. A sua esposa e filhos viviam em Jerusalém, e quando ele chegava lá, assistia às lições do seu pai, o que significava caminhar da cidade velha de Jerusalém até Givat Shaul (o bairro onde Baal HaSulam vivia, mais de uma hora de caminhada em cada sentido). Naqueles dias, também havia a possibilidade de encontrar um chacal pelo caminho.
Na casa de Baal HaSulam havia pobreza e carências ao ponto da fome. Mas havia coisas que eram indispensáveis para ele, como papel, tinta e café. Ele escrevia constantemente, pois escrever era a sua vida.
Quando Baal HaSulam morreu, Rabash parou de trabalhar e começou a formar um grupo de estudantes. No entanto, as coisas avançavam lentamente e com grande dificuldade. Os seus estudantes começavam os estudos aos 14-15 anos, e quando cresciam e se casavam, a sua ambição de estudar diminuía significativamente. Em vez de virem diariamente, vinham apenas uma vez por semana ou até uma vez por mês.
Cada pessoa recebe os seus próprios problemas para resolver. Por vezes, o menor obstáculo pode tornar-se uma muralha intransponível.
Mais tarde, em 1984, trouxe ao meu professor dezenas de novos estudantes, e Rabash começou a escrever artigos para lições diárias de grupo. Mas mesmo antes disso, ele escrevia sempre sobre os mundos espirituais que descobria. Gravei todas as minhas lições com o meu Rebbe.
Hoje, existem vários livros baseados nesse material, muito do qual foi escrito em pequenos pedaços de papel. Estes constituem agora uma adição importante aos escritos de Baal HaSulam.
Baal HaSulam falou de muitas coisas, mas havia uma que ele descrevia com clareza: não devemos esquecer que há um Líder para o mundo, e por vezes, quando a necessidade surge, Ele envia os Seus mensageiros. Outras vezes, Ele deixa-nos avançar sozinhos.
Há muitas maneiras de nos conectarmos com o Criador, e muitas operações de apoio pelas quais Ele é responsável. Assim, podemos considerar qualquer obstáculo no nosso caminho de estudo, incluindo a partida do nosso professor deste mundo, como uma mudança na nossa providência particular.
O Criador muda a Sua providência, mas sempre para o melhor, ou seja, cada mudança aproxima-nos do fim da correção. Embora o nosso egoísmo nos dite as suas condições e diga que a situação anterior era melhor, mais fácil, mais agradável, devemos ainda assim tentar ver a Orientação do Criador de forma vívida em cada situação e acontecimento.
Mesmo quando o Cabalista morre e os seus muitos estudantes ficam sem um professor, trata-se de uma mudança qualitativa no seu trabalho, pois a providência tornou-se mais rápida e rigorosa.
Quando nos aproximamos da espiritualidade, começamos a sentir-nos como um paraquedista lançado ao ar pela primeira vez. Sabemos que há um paraquedas atrás de nós, mas nos primeiros segundos em que estamos no ar, oramos e perguntamo-nos: “Para que precisei disto?”
Então, o paraquedas abre-se acima de nós e sentimos uma certeza completa. Mas isso não dura muito, pois em breve teremos de aterrar no solo. Esquecemo-nos de que o paraquedas nos protege e usamos as nossas próprias capacidades para aterrar em segurança. No entanto, o nosso medo é realmente subjetivo, porque, na verdade, é o paraquedas que nos sustenta e nos leva lentamente ao chão.
Rav Baruch Ashlag costumava dizer sobre um dos seus estudantes que, quando lhe foi oferecido um novo cargo, foi convocado para o gabinete do ministro. Mas, na mesma noite, havia um banquete na casa do Rav. O estudante não foi ver o ministro e não conseguiu o cargo; escolheu o que era mais importante para ele – encontrar-se com o Rav.
Rav Ashlag não deixou artigos prontos para publicação, pois não queria publicar os seus textos depois do seu pai, o seu grande professor. No entanto, o tempo passa e a procura por textos cabalísticos muda. Os estudantes de hoje já não conseguem absorver o material da forma como nos foi apresentado.
Pode-se dizer que Rabash foi o último dos grandes Cabalistas do passado. Ele continha em si toda a vida anterior do Judaísmo. O seu conhecimento da história do Judaísmo e dos grandes rabinos das últimas gerações era muito impressionante, e ele contava as suas histórias como se fizessem parte da sua própria vida.
Podemos ver claramente nas suas histórias que, no início do século XX, houve um declínio espiritual que atingiu um nível tão baixo que as portas para o mundo espiritual começaram a fechar-se, iniciando-se um tempo de escuridão espiritual.
Se, em séculos anteriores, uma pessoa tivesse recebido a oportunidade de dedicar uma vida inteira em troca da realização espiritual, essa pessoa teria concordado imediatamente. Hoje, porém, estamos tão imersos nas nossas tolices diárias que não conseguimos libertar-nos delas.
Os estudantes de hoje devem aspirar a uma ligação muito próxima com os seus professores, pois eles representam um nível muito elevado. Um Rav é uma pessoa num nível espiritual muito elevado, e a obtenção desse nível é o objetivo de cada estudante.
Quando os estudantes de Rabash estavam ao seu lado, sentiam uma imensa fonte de poder espiritual. Era muito difícil pensar como ele, muito menos compreender as suas ações e motivos. Também era difícil para o Rav relacionar-se com os seus estudantes, pois ele tinha de se diminuir ao nível deles e ocultar a sua realização para lhes dar liberdade de escolha.
Qualquer compreensão é dada de acordo com o progresso espiritual de cada um. Isso protege-nos do Estilhaçamento. É muito difícil compreender uma pessoa que vive simultaneamente uma vida corpórea e espiritual; é sempre desconcertante determinar por que algumas coisas são importantes e outras são ignoradas por tal pessoa. Por vezes, é completamente incompreensível antes de se alcançar um nivel espiritual mínimo.
Rabash interessava-se muito pelas ciências naturais, como a física e a química. Ele conectava imediatamente tudo o que aprendia com a Cabala e via o que já tinha sido revelado e o que ainda não tinha sido revelado.
O desejo de seguir um caminho espiritual é dado à pessoa pelo Criador, mas o homem deve fazer o esforço que esse caminho exige. Os estudantes de Cabala devem perguntar-se constantemente qual é o seu propósito nesses estudos. Estão a estudar Cabala para absorver o conhecimento nos seus egos ou para sentir o Criador e corrigirem-se a si próprios?
Qualquer pessoa que caminhe no caminho da espiritualidade e aprenda sobre a forma de ascender a ela divulga os livros e os meios que contêm lições de Cabala. Ao fazê-lo, é como se estivesse a aderir à Vontade do Criador e a espalhar as Suas ideias no mundo, tornando-se assim um parceiro do Criador neste mundo, aproximando-se Dele em ações e pensamentos.
A revelação do Criador à criatura é o momento em que a criatura iguala as suas próprias propriedades à Luz que se expande do Criador. Ou seja, o Criador aparece na propriedade específica que foi igualada a Ele.
Devemos completar a equivalência dos nossos atributos com Ele em toda a escada espiritual enquanto estamos neste mundo e numa única vida. Todas as nossas vidas passadas são apenas preparações para subir os degraus da escada até alcançarmos o Criador do mundo.