<- Biblioteca de Cabala
Continuar a Ler ->

Capítulo 2.9 – Recompensa Espiritual


As pessoas desejam ser recompensadas por tudo o que fazem. Mesmo quando trabalham para alcançar a espiritualidade, querem uma recompensa, pois somos feitos de puro egoísmo e não podemos agir de nenhuma outra forma. Por trás de cada ato, há sempre uma intenção; caso contrário, o nosso egoísmo não nos permitiria dar um único passo!

Iniciamos o nosso trabalho espiritual a partir do zero, como se o Criador tivesse iluminado desde longe com a iluminação da Luz Circundante. Esta iluminação leva-nos a agir e decidimos renunciar a todas as belezas deste mundo em favor de uma sensação espiritual.

Nem sequer sabemos exatamente o que queremos receber, pois a Luz brilha de longe, sem revestir os nossos vasos. Neste ponto, a Luz dá-nos apenas a sensação do prazer futuro que encontraremos na espiritualidade, algo que não podemos encontrar no mundo à nossa volta. A Luz Circundante opera sobre nós e atrai-nos para a espiritualidade, transformando-nos nos nossos próprios coveiros.

Primeiro, queremos usar o mundo espiritual da mesma forma que usamos este mundo. Acreditamos que adquirir forças espirituais nos dará a capacidade de prever o futuro, controlá-lo, talvez até voar. Mas, aos poucos, percebemos que, em vez disso, devemos dar toda a nossa força e dedicar cada objetivo ao Criador. Devemos anular-nos a nós próprios e renunciar ao nosso controlo sobre nós mesmos em favor do controlo do Criador sobre nós. É assim que verdadeiramente crescemos.

Surge a questão: “Qual é a ligação entre um judeu por nascimento e um ‘judeu espiritual’?” A resposta é: numa pessoa que nasceu judia, há uma tendência para se tornar um judeu no sentido espiritual. O Criador associa almas a corpos de tal forma que os judeus ‘genéticos’, assim como todos aqueles que se juntam a eles, devem corrigir-se primeiro. Isso não indica que os judeus sejam de maior qualidade do que os outros. Na verdade, os judeus de hoje são maiores egoístas do que os membros de qualquer outra nação. Num estado corrigido, Israel é um desejo corrigido que se dirige ao Criador. Israel é o nome dado aos desejos altruístas, ou seja, aos desejos de doação (GE – Galgalta ve Eynaim). O nome “gentios” ou “nações do mundo” é dado aos desejos egoístas, ou desejos de receber (AHP – Awzen, Hotem, Peh). É por isso que se diz que Israel, ou seja, GE, será uma minoria. Quando o resto das nações for corrigido, a Luz de Hochma aparecerá em cada alma e também no vaso coletivo da humanidade.

As nações do mundo sentem, inconscientemente, a sua dependência de Israel. Esse sentimento é-lhes dado pelo Criador para pressionar os judeus e colocá-los em movimento rumo à correção. É difícil para nós imaginar o que isso significa em termos de crescimento espiritual, quando um grupo tem de esperar por outro e depende completamente de outro para a sua própria correção.

O estado de Israel é um presente do Criador e tem direito a existir apenas na medida em que dá ao altruísmo o direito de existir. Esta é a ideia de aproximação ao Criador que se espalha pelo mundo. A Vontade do Criador de proporcionar deleite não é suficiente. É necessário também um movimento por parte do homem, de baixo, para desejar receber exatamente esse prazer.

Ainda não sentimos esse desejo e, por isso, estamos lentamente a perder o que nos foi dado, sem sequer termos consciência disso. Ainda não estamos prontos para receber a Terra de Israel espiritual. Além disso, estamos até dispostos a abdicar da nossa terra, porque não estamos espiritualmente conectados com o presente que nos foi dado.

A palavra Eretz (terra) significa Malchut, ou Ratzon (desejo). A palavra Yisrael (Israel) vem das palavras Yashar El (direto a Deus), o que significa que a terra de Israel é um estado em que todos os desejos da pessoa estão direcionados para o Criador. Quando a pessoa está nesse estado, dizemos que “está na terra de Israel, ou que regressou a ela”.

É por isso que se diz que não há nada mais importante do que estar na terra de Israel. Também se diz que todas as Mitzvot são válidas quando realizadas na terra de Israel, e que realizá-las fora de Israel é apenas uma lembrança até que se chegue à terra de Israel.

É por isso que não só somos incapazes de receber o presente da terra de Israel, como estamos até dispostos a livrar-nos dele. Não sentimos o doador do presente, e isso faz com que não consigamos apreciar a sua importância.

Enquanto não estivermos purificados das cascas, elas continuarão a pressionar-nos. É por isso que, hoje, dependemos dos árabes. Eles continuarão a governar as nossas vidas até que substituamos os nossos vasos egoístas por vasos altruístas. Tudo o que acontece nesta terra é definido por raízes espirituais. Essas raízes podem ser afetadas pelos nossos desejos.
Não temos outra alternativa senão tornarmo-nos dignos da terra de Israel, seja pelo caminho da Cabala, seja pelo caminho da dor.

Quando tentamos estabelecer contacto com o Criador, descobrindo-O e sentindo-O, realizamos o nosso trabalho sob uma de duas condições: “ocultação simples” ou “ocultação dupla”. Na ocultação dupla, estamos completamente cegos, e o Criador está totalmente escondido. Tal pessoa existe apenas neste mundo.

No entanto, na ocultação simples, começamos a compreender que é o Criador quem influencia o nosso trabalho, embora ainda não O sintamos explicitamente. Contudo, de tempos a tempos, a sensação de ligação com Ele desaparece, e afundamo-nos completamente no nosso mundo outra vez. Estes estados mudam constantemente numa pessoa assim.

Esta luta da pessoa consigo própria expressa-se na sua livre escolha. A livre escolha só é possível num estado de completa ocultação do Criador. Portanto, devemos valorizar este estado, pois é o único que pode dar frutos e produzir rebentos que, no devido tempo, gerarão frutos espirituais.

O fruto espiritual é alcançado precisamente num estado de ocultação, quando avançamos sem saber ou compreender nada; na total escuridão, contra qualquer conceção razoável. Quando alcançamos a revelação do Criador, recordamos o nosso passado sombrio, pois agora, quando vemos e sentimos o Criador, parece que perdemos a nossa liberdade de escolha.

Existem dois tipos de providência: geral e particular. A providência geral é executada através da Luz Circundante e atua sobre a humanidade e a natureza como um todo. É esta providência que conduz o mundo inteiro, segundo um plano predeterminado, até ao fim da correção. Ela leva à constatação de que o “progresso” tecnológico está a conduzir a humanidade a um beco sem saída. Pode proporcionar uma sensação superficial de saciedade e abundância, mas gera um vazio interior, uma completa vacuidade.

A providência particular, por outro lado, atua sobre cada pessoa individualmente, através da Luz Interior. A pessoa que começa a procurar a ligação com o Criador no nosso mundo é afetada pela Providência Particular do Criador.

O contacto com o mundo espiritual é criado quando há um Masach [Tela] que se sobrepõe aos desejos egoístas. Quando mudamos as nossas propriedades egoístas e as transformamos em altruístas, recebemos a Luz do Criador nos nossos vasos corrigidos, nas propriedades corrigidas.

O processo de ascensão espiritual é uma jornada longa e árdua. É necessário renascer em cada nível até finalmente nos assemelharmos ao Criador e nos fundirmos completamente com Ele.