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Capítulo 2.8 – A Forma Correta para Avançar


A sociedade em que vivemos está inundada pela busca incessante de prazeres animais (corpóreos), como dinheiro, glória e sexo. É impossível pecar num estado assim, e igualmente impossível cumprir Mitzvot. Isto simplesmente não é espiritualidade.
Contudo, há esperança nessa situação, desde que estejamos dispostos a restringir o uso desses desejos, ou, melhor dizendo, a direcionar os nossos desejos para a espiritualidade. Quando isso acontece, somos admitidos no primeiro nivel do mundo espiritual, onde há uma Luz muito mais forte do que a que brilha no nosso mundo.
Pedimos um Masach [Tela] para resistir ao prazer animal e nos abstermos de o receber para nós próprios, mas apenas com a intenção “para o Criador”. Obtemos um Masach [Tela] e, assim, corrigimos o nosso primeiro nível. Depois, ascendemos ao nível seguinte, onde enfrentamos um desejo de receber ainda maior e, consequentemente, uma Luz maior. Ao adquirir um Masach [Tela] com um poder anti-egoísta maior, corrigimos também esse nivel e continuamos a subir.
Imaginemos o nosso mundo como uma linha horizontal de valor zero. O primeiro desejo egoísta de receber na escala de níveis será considerado como –1 (menos um) e será sentido como um declínio, ou uma queda. O Masach [Tela] e a Luz recebida com a intenção para o Criador valerão +1 e serão considerados uma ascensão. A distância entre –1 e +1 é igual ao tamanho e à altura do Partzuf.
Quando se completa o primeiro nível, é-nos dado um egoísmo de valor –2. Isso exige um Masach [Tela] de valor +2. É assim que acontece a ascensão ao nível seguinte. Quanto mais alto se sobe, mais baixo se cai, mas apenas para subir ainda mais alto.
Malchut do mundo de Ein Sof estilhaçou após não conseguir receber a Luz “para o Criador” no mundo de Nekudim. Isso foi o estilhaçamento dos vasos. Como resultado, os vasos de doação e os vasos de receção misturaram-se, e cada desejo egoísta absorveu centelhas dos desejos altruístas do Criador, que permitem aos desejos egoístas ligarem-se ao Criador e à espiritualidade.
Quanto maior for a tarefa que alguém está destinado a cumprir, mais elevado é o nível de vasos com que está equipado, e mais profundas e altas são as suas descidas e ascensões. Por isso, nunca devemos julgar a pessoa pelos seus atos, pois não podemos saber que correções os outros estão a atravessar.
O melhor é ter a seguinte imagem diante de nós: o solo e a terra são o nível egoísta, onde estamos. O céu é de onde vem a Luz. Se a Luz não tiver contacto connosco, não podemos desprender-nos do chão, como se nunca tivéssemos saído dele. Não temos forças próprias para nos elevarmos acima disso. Apenas a Luz do Criador nos pode elevar.
Quanto mais elevado for o lugar de alguém no mundo espiritual, maior é a distância entre os altos e baixos. Assim, a queda no mundo de Atzilut pode chegar quase tão baixo quanto este mundo. Foi por isso que o grande cabalista, Rabino Shimon Bar-Yochay, quando estava um nível antes do último, de repente se sentiu (e se denominou) como “Shimon do mercado”. Todo o conhecimento e as propriedades corrigidas, tudo desapareceu, e ele tornou-se completamente ignorante. Foi assim que descreveu a sua situação no Livro do Zohar.
Isso acontece a todos, mesmo à pessoa que acabou de iniciar a sua ascensão espiritual. Como se levanta após uma queda e volta ao caminho? Faz-se isso participando no grupo, mesmo sem um pingo de desejo. Nesse estado, deve-se continuar a agir de forma mecânica ou automática, pois, numa descida, é impossível até ler um livro. Por vezes, a única saída é dormir, desligar-se de tudo, deixar o tempo fazer o seu trabalho.
O estado mais perigoso é quando estamos no ponto espiritual mais elevado e começamos a desfrutar do prazer que recebemos, da segurança, da estabilidade e da clareza, todo o prazer que vem com a eternidade.
Esse momento pode ser a causa da descida. É muito importante lembrar que esse estado nos foi dado precisamente para que continuemos a focar-nos em deleitar o Criador exatamente nessa situação.
É impossível evitar completamente as descidas. As descidas são necessárias para o progresso, porque, sem elas, não teríamos outra forma de adquirir desejos de receber adicionais, com os quais ascender novamente.
O termo Partzuf descreve a nossa atitude para com os outros, que reflete o nível do nosso desenvolvimento. É impossível obter o bem sem primeiro obter o mal. Por exemplo, quando subimos na espiritualidade através de quinze níveis e caímos no décimo sexto, é porque os nossos atributos reais foram revelados na sua pior forma, pois, na ascensão, estamos expostos a uma Luz maior, e isso permite-nos ver-nos a nós próprios em comparação com as propriedades corrigidas de um nível superior.
Os níveis espirituais pelos quais passamos continuam a viver em nós. Só conseguimos ver o mal quando ascendemos a um nível espiritual superior. Quanto maior for a Luz que brilha, pior nos vemos em comparação com ela. É assim até ao último nível, o fim da correção.
Rabash (Rabino Baruch Ashlag) escreve numa carta aos seus discípulos (carta n.º 2): “A verdade é que há outra razão para isso: Baal HaSulam explica no seu livro, O Estudo das Dez Sefirot, que o Ari descreve por que razão Melech HaDaat (Rei de Daat), no mundo de Nekudim, que era o nível de Keter e o mais elevado Melech (rei), caiu mais baixo do que todos os outros reis quando ocorreu o estilhaçamento. Isso acontece porque aquele que possui o maior aviut [espessura] é também o mais elevado quando está na posse de um Masach [Tela]. Mas, quando perdem os seus Masach [Tela], tornam-se os piores e, consequentemente, caem mais baixo do que todos os outros reis.
As suas palavras também podem ser interpretadas para descrever aqueles que seguem os caminhos do Senhor: essas pessoas têm um desejo tanto pela corporeidade como pela espiritualidade, como se diz, que aqueles que estavam próximos de Baal HaSulam tinham um Masach [Tela] e Aviut [Espessura], mas, agora que ele partiu, não tinham ninguém a quem se submeter, ficando apenas com o Aviut, sem Masach [Tela], e apenas desejavam tornar-se rabinos e ‘judeus bonitos’. Por isso, eu (Rabash) desconfio de tudo o que sai das suas mãos, pois não há ninguém para os conter.
Falo aqui brevemente, pois não os quero nos meus pensamentos, porque sabes a regra de que ‘o homem está onde estão os seus pensamentos’, mas, como conheço o teu apego pela verdade, sou obrigado a trazer à mente o Aviut [Espessura] que não tem Masach [Tela], que são vasos estilhaçados que ainda não estão no caminho da correção, e que Deus tenha misericórdia.
Deixo-vos um breve exemplo para que compreendam o acima exposto: é sabido que cada nível tem uma parte intermédia que consiste em ambos. Entre o inanimado e o vegetativo, há o coral; entre o vegetativo e o animal, há as “pedras do campo”, que são animais ligados à terra pelo umbigo e recebem dela o seu sustento; e entre o animal e o falante, há o macaco. Isso levanta a questão: o que está entre o verdadeiro e o falso, que é o ponto onde é constituído por ambos.
Antes de esclarecer isto, acrescentarei uma regra conhecida: algo pequeno é difícil de ver, enquanto um objeto grande é mais fácil de ver. Consequentemente, quando alguém mente apenas um pouco, não consegue ver a verdade, de que está num caminho falso, mas pensa que está num caminho verdadeiro. No entanto, não há maior mentira do que essa, porque não tem mentiras suficientes para ver o seu estado real.
Mas naquele que acumulou muitas mentiras, a falsidade cresceu tanto que, se a pessoa quiser ver o seu estado real, agora pode fazê-lo. Assim, agora que pode ver a falsidade, ou seja, que está num caminho falso, vê o seu estado real, ou seja, vê no seu coração a verdade de como entrar no caminho certo…”
Um observador que não tem qualquer ligação com a sabedoria da Cabala pensará sempre que não está a fazer nada de errado e que é como todos os outros. Essa pessoa acredita que está no caminho certo devido à pequena quantidade de reconhecimento do mal que obteve. Mas, assim que uma quantidade substancial de falsidade tenha sido acumulada, a pessoa poderá ver a verdade da situação (desde que esse seja o seu verdadeiro desejo).
Nessa altura, reconhecer-se-á que a pessoa esteve no caminho errado todo o tempo. Isso permitirá que mude para o caminho certo – o caminho da verdade. Quando reconhecemos que o nosso estado atual é intolerável e que chegámos ao fim da linha, então pediremos a ajuda do Criador.
“…Acontece que este ponto – que é um ponto verdadeiro, de que está a seguir um caminho falso – é o intermédio entre o verdadeiro e o falso, é a ponte que liga o verdadeiro ao falso. Este ponto é o fim da mentira, e daqui em diante começa o caminho da verdade. Podemos entender de forma semelhante o que Baal HaSulam escreveu, que, para alcançar Lishma, devemos primeiro obter o maior Lo Lishma, e então podemos chegar a Lishma.
Da mesma forma, podemos interpretar o acima, que Lo Lishma é considerado falsidade e Lishma é considerado verdade. Quando a mentira é pequena, ou seja, quando as Mitzvot e as boas ações são poucas, então tem-se um pequeno Lo Lishma e não se consegue ver a verdade. Portanto, nesse estado, diz-se que se está num caminho bom e verdadeiro, ou seja, trabalhando em Lishma.
No entanto, quando alguém se dedica à Torá e às Mitzvot dia após dia num estado de Lo Lishma, pode então ver a verdade, porque a multiplicidade de mentiras a amplifica. Assim, pode-se ver que, de facto, está num caminho falso, e nesse momento começa a corrigir as suas ações. Isso significa que, nesse estado, sente que tudo o que faz é apenas Lo Lishma.
A partir deste ponto, passa-se para o caminho da verdade, ou seja, Lishma. Só neste ponto começa a transição de Lo Lishma para Lishma. Como poderia alguém mudar a sua situação anteriormente, enquanto argumentava que estava a trabalhar em Lishma? Assim, se alguém está ocioso no trabalho, é impossível ver a verdade de estar imerso na falsidade. No entanto, ao acumular Torá e Mitzvot para trazer contentamento ao Criador, podemos ver a verdade de que estamos num caminho falso, chamado Lo Lishma, que é o ponto intermédio entre o verdadeiro e o falso.” (Rav Baruch Shalom Ashlag, Shamati, Igrot, carta n.º 2)
O Criador opera em qualquer situação em que estejamos, seja boa ou má. Não tomamos nem podemos tomar quaisquer decisões. Podemos acelerar o nosso desenvolvimento, mas certamente não podemos alterá-lo. Se olharmos para este caminho através dos olhos do egoísmo, ficaremos aterrorizados e apavorados. Mas, se percebermos o egoísmo como algo mau que deve ser destruído, se o olharmos de fora, quereremos imediatamente arrancá-lo e substituí-lo pelo altruísmo.