Capítulo 1.11 – Liberdade de Escolha – Operar Acima da Natureza
Não tem sentido discutir a liberdade de escolha antes da pessoa adquirir forças espirituais e a capacidade de operar acima da sua natureza. A liberdade de escolha é a liberdade de actuar contra os próprios desejos. Só nesse momento se torna possível decidir livremente.
A Luz que provém do Criador criou o desejo de prazer em quatro fases. Essas fases constituem a criatura. Esta criatura começa depois a materializar-se gradualmente até chegar ao nosso mundo, onde se quebra numa multitude de pequenos fragmentos. Cada fragmento chama-se “alma”. À medida que as almas ascendem a níveis superiores, vão alterando progressivamente as suas propriedades, mediante um sistema especial que as desloca constantemente de um lugar para outro, para que se ajudem mutuamente na correcção.
A Torá, a Cabala e todas as Escrituras Sagradas foram escritas por pessoas que subiram a escada espiritual e redigiram as suas instruções a partir daí. Muitos cabalistas subiram esses níveis, mas existem condições que limitam o número de pessoas autorizadas a escrever. Apenas três cabalistas alcançaram o nível final e receberam permissão para descrever o sistema. São eles o Rabi Shimon Bar-Yochai, autor do Zohar, o Ari, autor da Árvore da Vida, e o Rabi Yehuda Ashlag, autor do Comentário Sulam ao Zohar e do Estudo das Dez Sefirot.
Todos estes livros foram escritos depois de os seus autores terem ascendido ao nível do Criador em todas as propriedades e capacidades. Quando a pessoa adquire as propriedades do Criador, torna-se livre. Tal pessoa não está limitada de modo algum; encontra-se acima de tudo.
A Cabala raramente menciona a ascensão nos níveis, embora seja para nós o mais importante. Os livros falam principalmente da descida a partir dos mundos Superiores. A descida é descrita em detalhe no Zohar, nos escritos do Ari e no Estudo das Dez Sefirot. Aprendemos acerca da ascensão de baixo a partir das cartas e artigos que Baal HaSulam e Rabash (Rabi Baruch Ashlag) escreveram aos seus discípulos.
Parece haver escassez de material que descreva a ascensão. Mas a razão reside no facto de o material complementar dever apenas servir para encorajar a pessoa a alcançar o estado de “este mundo” e actuar como trampolim para a ascensão ao mundo espiritual. Uma vez no mundo espiritual, os livros que falam dos mundos de cima para baixo, da sua estrutura, dos Partzufim e das Sefirot, servem como “manuais” para a ascensão, pois o caminho de cima para baixo e de baixo para cima é o mesmo.
Se a pessoa que estuda o Estudo das Dez Sefirot se encontra num certo nível espiritual e aprende acerca das propriedades de um nível superior, não faz diferença para ela estudar a concatenação dos mundos de cima ou a ascensão de baixo. O importante é estudar as propriedades de um nível superior para saber com o que se deve igualar, aspirar a isso, determinar o que requer correcção, e assim sucessivamente.
Um mundo é um estado vazio da alma. Por conseguinte, “este mundo” é apenas um conceito. Um mundo é Malchut, um vaso, uma alma. O termo “este mundo” indica que a alma se encontra completamente vazia, em absoluta escuridão.
Existem apenas cinco mundos espirituais. Embora “este mundo” não seja considerado um mundo espiritual, constitui, no entanto, um estado consciente, pseudo-espiritual, que precede a entrada no mundo espiritual. Nesse estado, a pessoa já reconhece a sua irrelevância relativamente ao mundo espiritual.
É da maior importância para nós impulsionarmo-nos do nosso estado actual para o estado de “este mundo”, que corresponde à descida ao estado do Egipto. A sensação aguda desse estado chama-se “exílio no Egipto”. Então poderemos impulsionar-nos para o mundo espiritual. Uma vez na espiritualidade, os tormentos terminam, pois teremos o Criador a guiar-nos.
Nessa etapa já teremos uma ligação estreita com a Força Superior; estaremos em contacto próximo com Ela e nos conectaremos com Ela tal como nos conectamos uns com os outros neste mundo. Todas as questões deste mundo desaparecem instantaneamente no momento em que atravessamos para o mundo espiritual.
Cada nível coloca novas questões. As respostas a essas questões chegam sob a forma de conhecimento e força. Os problemas deste mundo desaparecem assim que a pessoa atinge o primeiro nível espiritual. Está escrito: “A sua alma o ensinará”. Isto significa que a alma nos ensina como avançar. A partir desse ponto não há mais escuridão; dispomos de um “mapa” que nos guia no “país espiritual”.
A palavra Olam (mundo) provém da palavra Ha’alama (ocultação). Significa “o estado interior da alma”. Na realidade não existe nada excepto a alma, o “eu”, e o Criador. Tudo o que percebemos como real é apenas um reflexo das nossas propriedades nos nossos sentidos. Se as nossas propriedades estivessem corrigidas, não sentiríamos senão a Luz pura a preencher o vaso. Esse é o estado de “Ein Sof” (infinito).
Um mundo é uma fase de transição, quando a alma se encontra apenas parcialmente corrigida. A alma percebe o Criador segundo a medida da sua correcção. A sua corrupção faz com que sinta que existe algo que pode opor-se ao Criador. Essa aparente “força” ou “influência” chama-se Sitra Achra (o Outro Lado). Nesse estado, a alma é chamada Olam, ou seja, “ocultação”.
Isso ocorre quando o Criador se revela apenas parcialmente. Essa revelação parcial é necessária, pois não pode haver sensação de ocultação sem alguma revelação; não há maneira de saber que se está na escuridão sem saber que existe Luz.
Quanto maior a revelação, maior a sensação do Criador; quanto maior a ocultação, maior a sensação da “Sitra Achra”. Se o Criador se encontra totalmente oculto no nosso mundo, todas as nossas forças se voltam contra Ele. A verdade é que estas forças são muito fracas em comparação com as forças impuras espirituais. O nosso egoísmo, a nossa força maligna, é diminuto. Quanto mais subimos e quanto maior se torna a revelação do Criador, tanto maior cresce a força que se opõe ao Criador.
Estas forças obscuras prosseguem desde este mundo até ao mundo de Atzilut. As Forças Puras (o Criador) e as forças impuras (a Sitra Achra) mantêm-se paralelas ao longo de toda a subida de baixo para cima.