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Capítulo 1.10 – Fé Acima da Razão

Tudo quanto as pessoas desejam da vida é satisfazer as suas próprias necessidades, mas quando se sentem insatisfeitas com a sua situação, começam a ansiar por alcançar a verdadeira fonte do seu estado, ou seja, o Criador. O nosso desejo pelo Criador constitui o nível mais elevado no desejo de estudar o eu. Para o alcançar, é necessário confrontar face a face o próprio egoísmo, que actua como um obstáculo sofisticado entre o Criador e o indivíduo.

Para permitir às pessoas que se estudem a si próprias e o alcancem, Baal HaSulam estava disposto a falar com qualquer um, nem que fosse apenas para ter mais discípulos. Chegou mesmo a publicar um texto que mais tarde viria a constituir a base do livro Matan Torá (A Entrega da Torá), mas quase ninguém o quis escutar. A ironia reside no facto de que, no passado, havia muitos professores cabalistas, mas poucos alunos, ao passo que hoje em dia há muitos que desejam estudar, mas quase não existem cabalistas.

A situação em que nos encontramos hoje é a primeira na história. Há uma necessidade e um desejo crescentes a partir de baixo, ao mesmo tempo que somos empurrados para uma escuridão espiritual mais profunda. Mas, na verdade, esta é uma situação muito favorável, pois significa que, uma vez surgido o desejo pela verdadeira espiritualidade, receberemos de imediato uma resposta favorável do Alto.

A intensidade do amor entre uma pessoa e o Criador é determinada pela angústia da sua saudade. Essa angústia resulta da ausência da Luz no vaso, e a saudade provém da sensação de preenchimento pela Luz do Criador quando se está em adesão com Ele. Assim, se apenas se conseguisse reunir os desejos genuínos, a resposta adequada chegaria.

A dificuldade que enfrentam as pessoas que tentam romper a barreira e sentir a espiritualidade através do estudo intelectual reside no facto de não se deixarem deter pela circunstância de que o intelecto é apenas um produto da nossa natureza egoísta. Por isso, os seus esforços para alcançar a espiritualidade com o intelecto são infrutíferos. A maioria dos alunos de Cabala principiantes tende a seguir esse caminho, pois é habitual pensar que podemos alcançar  a espiritualidade mediante o intelecto.

Mas quando se aprende a ir acima da razão, começa-se a compreender que o vaso egoísta é fundamentalmente um desejo de desfrutar todo o tipo de prazer, e não necessariamente aquele que provém do Criador. O vaso espiritual, pelo contrário, dirige-se inicialmente a agradar o Criador através de nós.

Os seres humanos abrem um livro, leem-no com assiduidade e tentam compreendê-lo com o intelecto. Mas é impossível sentir no intelecto aquilo de que o livro fala. Com mera compreensão, não se consegue atravessar o Machsom [barreira] que separa o mundo espiritual do nosso.

Tudo o que os alunos podem fazer é reunir-se em volta do Professor, dedicar os seus desejos ao conjunto colectivo e receber em troca um desejo unificado que é dezenas de vezes maior. Cada membro do grupo deve ser considerado uma força valiosa capaz de nos ajudar a encurtar o caminho espiritual em dezenas de vidas mundanas.

Baal HaSulam escreve no item 155 da “Introdução ao Estudo das Dez Sefirot” que apenas os alunos que se aprofundam no mesmo livro conseguem extrair dele aquilo por que o seu coração dorido anseia, e só se compreenderem por que o desejam. Todos eles devem anular-se uns perante os outros. Quando se reúnem, devem ter sempre presente o motivo da sua presença.

Tais atitudes devem ser formadas nas primeiras etapas da construção do grupo, a fim de criar proximidade física. Esta levará depois à proximidade espiritual, tal como fizeram os grandes cabalistas no passado. Se cada membro do grupo ansiar por estar junto dos outros, e se essa saudade arder em cada coração como um fogo, então essa necessidade será em breve realizada.

Os nossos cérebros e até a nossa consciência são apenas factores secundários. Processam e apoiam o cumprimento dos nossos desejos. O intelecto não passa de um acessório. Assim que se compreende que é o sentimento que deve ser cultivado, e não o intelecto, começa-se imediatamente a vislumbrar o caminho que conduz ao mundo espiritual. O problema reside nos nossos hábitos e na falta de confiança.

Não estamos habituados a confiar nos nossos sentimentos. Queremos primeiro compreender, e só depois sentir e actuar. Mas se o nosso cérebro constitui um obstáculo, porque razão nos foi dado?

Foi-nos dado para que o desenvolvêssemos e depois o transcendêssemos, indo acima da nossa razão, ou seja, seguindo os nossos sentimentos. O percurso “acima da razão” baseia-se na tentativa e no erro. Todo aquele que começa a percorrê-lo tem de tropeçar nele e levantar-se pela própria força, começando a perceber as circunstâncias quotidianas como auxílio do Alto para o seu progresso espiritual.

Existem muitas forças criadas pelo Criador, como o “mau-olhado”, a calúnia, etc. O seu único propósito é ensinar-nos a controlarmo-nos. A Regra de Ouro afirma: “Anda humildemente com o teu Deus” (Miquéias 6:8). Deve-se ocultar os objetivos até do próprio egoísmo, quanto mais aos dos outros.

Contudo, isto não significa que devamos vestir-nos ou agir de modo diferente do habitual no lugar onde vivemos, nem abster-nos de contacto com as pessoas. Mas, na presença de estranhos, deve-se limitar a conversas gerais (conversas ligeiras).

Quando os alunos de Cabala se reúnem, não devem falar do seu amor pelo Criador e uns pelos outros. Isso seria apenas expressar sentimentos pessoais e opiniões privadas. Devem antes falar em termos mais gerais da grandeza do Criador, da grandeza do objectivo (a espiritualidade) e da grandeza dos amigos no grupo.

As pessoas que estudam Cabala reúnem-se com o auxílio de Forças Superiores, Forças do Criador. Obtêm um objectivo colectivo para as suas vidas, e esse objectivo torna-se cada dia mais claro. A única questão que resta é então como acelerar a consecução desse objectivo.

Existe uma hierarquia muito clara entre o Criador e nós: estamos no fundo, e o Criador no ponto mais elevado. Temos de subir os níveis dessa escada desde a nossa posição actual até à do Criador.

Há diferentes maneiras de ascender. Uma delas chama-se “Despertar de Baixo”, em que, através de uma influência que vem do Alto, começamos a desejar a realização espiritual e a ascensão. Começamos a ler livros, a juntar-nos a um grupo, etc. Há também outra via: o “Despertar do Alto”. Isso ocorre quando o próprio Criador escolhe elevar a pessoa.

A diferença entre esses caminhos reside no facto de o Despertar do Alto ser a ascensão lenta e constante de todo o nosso mundo, independentemente das nossas ambições pessoais. Contudo, aqueles que parecem ter um desejo pessoal são conduzidos ao estudo da Cabala. Se essas pessoas não utilizarem o que lhes é dado, as Forças Superiores começam a exigí-lo delas. Por conseguinte, deve-se levar muito a sério o trabalho espiritual que nos é concedido do Alto.

Há em nós algo chamado “Coração de Pedra”. Refere-se ao nosso egoísmo. Só pode ser corrigido quando uma Luz Colectiva, chamada Messias, vier ao nosso mundo. Apenas essa luz o pode corrigir, mas primeiro temos de ansiar pela correção dessa parte do egoísmo no nosso mundo. Quando existir tal desejo, o fenómeno chamado “a vinda do Messias” ocorrerá instantaneamente, e esse estado livrar-nos-á para sempre dos tormentos deste mundo.