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Capítulo 1.7 – De Cima para Baixo

O estudo da Cabala centra-se na estrutura dos mundos tal como evoluem de cima para baixo até ao nosso mundo. Poder-se-ia pensar que, estando no mundo corpóreo, seríamos ensinados a subir pelo caminho espiritual de baixo para cima, e não o inverso.

Mas a verdade é que é exatamente o mesmo caminho de que os cabalistas falam. Um cabalista é uma pessoa que vive no nosso mundo, mas alcançou a espiritualidade de baixo para cima. Nenhum dos escritos dos cabalistas fala de uma pessoa que não tenha alcançado a espiritualidade.

O nosso propósito é construir um instrumento sensorial adicional, com o qual possamos sentir o mundo espiritual e o Criador. Foi assim que se fez antes e é disso que os cabalistas escrevem. Não há outra revelação do Criador ao homem. Uma pessoa só pode sentir o mundo espiritual e o Criador mudando-se a si própria. É disso que pode escrever e transmitir aos outros.

O Primeiro Homem escreveu sobre as suas realizações. Abraão, o Patriarca, seguiu os seus passos, o que por sua vez foi seguido por Moisés, que designou as suas realizações do Criador e da Criação por "Torá". Os cabalistas que se seguiram escreveram os seus sentimentos e realizações em livros adicionais, a Mishna, o Talmud e assim por diante. Cada cabalista escreveu sobre a sua investigação do nosso mundo e do caminho para entrar no mundo espiritual. Chamamos a estes livros "Livros Sagrados" ou "Torá", da palavra hebraica Ohr (luz) e Hora’a (instrução), significando instruções para entrar no mundo espiritual.

Os livros não chegaram "do nada". Não foram gravados em pedra por um Poder Superior nem escritos pelo Criador em papiro. Houve sempre um cabalista que se sentou e pôs por escrito a investigação espiritual. Essa investigação é feita de baixo (o nosso mundo) para cima.

O facto é que a ascensão de baixo para cima é pessoal e difere de pessoa para pessoa. Existem certamente métodos comuns, regras gerais, nívels e fases na ascensão, mas embora os caminhos sejam comuns a todos, cada pessoa os vive de forma diferente. O mundo espiritual é alcançado de baixo para cima. Mas para que esta instrução seja adequada a todos, os cabalistas escreveram-na de Cima para baixo, não de baixo. É na verdade o mesmo caminho, mas visto de cima é descrito em termos mais gerais, mais uniformes.

A Luz desce do Criador, construindo cinco mundos no seu percurso — Adam Kadmon, Atzilut, Beria, Yetzira e Assiya. Abaixo do mundo de Assiya encontra-se alo Machsom [Barreira ]— uma partição que separa este mundo dos mundos espirituais. Existe outra partição entre o mundo de Atzilut e os mundos abaixo dele. Chama-se Parsa. Entre o mundo de Ein Sof e o mundo de Atzilut existe a restrição.

Assim, do estado mais elevado — o mundo de Ein Sof — até ao mais baixo, onde estamos, existem cinco mundos — Adam Kadmon, Atzilut, Beria, Yetzira, Assiya —, cada um composto por cinco Partzufim e cada Partzuf por cinco Sefirot. Assim, o número total de nívels que se interpõem entre o nosso estado futuro (necessário) e o nosso estado presente é 125.

Estes nívels não estão gravados em pedra, mas estão dentro de nós. São níveis de desenvolvimento espiritual interno. Quando mudamos algo dentro de nós, ascendemos um nível. Quando mudamos outro, subimos outro nível e assim sucessivamente. Todos os níveis são níveis de equivalência com o Criador.

O mundo de Ein Sof é uma equivalência completa de forma com o Criador, enquanto o nosso mundo está em completa oposição. Os níveis entre o nosso mundo e o mundo de Ein Sof são medidas de equivalência do homem com o Criador, fases de proximidade ao Criador.

O objetivo que o Criador nos estabeleceu é que, estando neste mundo, trabalhemos em nós próprios e corrijamos gradualmente as nossas propriedades internas, de modo que, estando num corpo mundano, estejamos no mundo de Ein Sof na nossa alma interior, nas nossas propriedades internas.

Isto significa que devemos assemelhar-nos ao Criador enquanto vivemos neste mundo. Até o conseguirmos, continuaremos a regressar até termos êxito. Não teremos escolha e seremos impelidos a fazê-lo. Isto aplica-se a cada pessoa. Ajuda a explicar porque somos frequentemente confrontados com pressões e situações desagradáveis. Estas servem para nos fazer compreender que há uma razão para a angústia, que o sofrimento não é sem sentido e que o Criador quer fazer algo com a humanidade.