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Capítulo 1.6 – Marcos

Poderemos ficar surpreendidos ao verificar, ao longo do nosso caminho espiritual, que não só não estamos a evoluir, como chegámos a um impasse, ou até estamos a recuar. Veremos que as nossas hipóteses de entrar no espiritual se estão a esvair rapidamente. Mas é precisamente nessa etapa, quando sentimos a nossa incapacidade de lidar com os obstáculos, que se indica um progresso impressionante.

Se pararmos apenas por um momento, veremos que, na realidade, estamos a avançar mais rapidamente. Contudo, tentamos medir o nosso progresso com sentidos que estão apenas a começar a evoluir. Qualquer correção e mudança que realizemos aproxima-nos da aquisição do objetivo de dar. Para isso, porém, temos de passar por muitíssimas mudanças. Devemos descobrir o que é realmente o nosso “eu” e o que ele quer de nós, o que significa o "desejo de receber", a descoberta da substância da Criação, e o significado da vida e da morte.

Chegamos à conclusão de que a vida significa sentir a Luz, e a morte é a sensação de escuridão, a ausência da sensação do Criador. Passamos por muitas situações diferentes até conhecermos o verdadeiro significado de "bom" e "mau".

Uma barreira é uma cortina que oculta a Luz do nosso mundo. Em que difere o Machsom [barreira] do Masach [Tela]? A natureza do Masach [Tela] é completamente diferente da da Machsom [barreira], pois toda a Luz se encontra diante do Masach [Tela] e nada a oculta senão o homem, que a rejeita com o poder do seu desejo de não receber para satisfação própria.

O Machsom [barreira], ao contrário do Masach [Tela], situa-se fora de nós, cobrindo a Luz Superior. O Masach [Tela] é algo que erguemos dentro de nós, a partir da nossa compreensão e consciência do desejo de resistir à receção egoísta da Luz, impedindo que ela entre em nós de forma egoísta. Se deixarmos a Luz entrar, queremos que o nosso objetivo seja dar ao Criador. Quando existe um Masach [Tela], não é necessária a cortina, porque o Masach [Tela] consegue resistir à Luz.

A Divisão dos 125 nívels que Constituem o Nosso Caminho

Existem 125 nívels de realização espiritual entre o nosso mundo e o mundo de Ein Sof. Mas tudo o que precisamos para a nossa correção é alcançar o mundo de Atzilut, ou seja, o fim da Segunda Restrição. Temos de atravessar os mundos de Assiya, Yetzira e Beria, cada um composto por 2.000 anos (estados, níveis). Assim, o total das correções que temos de percorrer é 6.000, após o que entramos nas correções pertencentes à Primeira Restrição.

A nossa alma consiste em cinco partes: Keter, Hochma, Bina, Zeir Anpin e Malchut. Elas dividem-se pela intensidade do seu desejo de receber, formando dois grupos: Galgalta e Eynaim (Keter e Hochma), e Awzen, Hotem, Peh (Bina, Zeir Anpin e Malchut). Keter chama-se Galgalta (crânio), Hochma (sabedoria) chama-se Eynaim (olhos), Bina (inteligência) chama-se Awzen, Zeir Anpin chama-se Hotem (nariz), e Malchut (reino) chama-se Peh (boca). A estrutura de todas as almas é idêntica: a primeira parte da alma desfruta de doar, enquanto a segunda desfruta de receber.

Devemos ocupar-nos apenas de corrigir a nossa Galgalta e Eynaim (GE), os nossos vasos de doação, os desejos de dar. O nosso caminho espiritual começa com uma ascensão acima do nosso mundo. Uma ascensão é uma correção gradual da nossa Galgalta e Eynaim. Ao ascender ao mundo de Atzilut, confirmamos que os nossos vasos de doação estão corrigidos. Não podemos corrigir os nossos vasos de receção.

Então, o que podemos fazer? Podemos elevar gradualmente os nossos vasos de receção (AHP) dos mundos de BYA para o mundo de Atzilut. Primeiro elevamos o AHP do mundo de Beria, que é o AHP com a menor quantidade de egoísmo. Depois elevamos o AHP do mundo de Yetzira, que é mais egoísta, e finalmente elevamos o AHP do mundo de Assiya, o mais egoísta de todos os vasos. Na verdade, não corrigimos o vaso/desejo, apenas o conectamos ao seu GE correspondente, e o combinamos com os desejos altruístas.

Após cada correção, recebemos mais Luz. A correção chama-se “ascensão”. Há uma ascensão de cada um dos lugares dos mundos de Beria, Yetzira e Assiya. O AHP que sobe ao mundo de Atzilut não são desejos "reais" de receber (vasos de receção), não são o nosso “eu”, o nosso “coração de pedra”. Somos incapazes de corrigir essa parte. A única parte que podemos corrigir é uma pequena porção chamada AHP de Aliyah (AHP elevado). Mas não é necessária uma correção maior. Assim que esta correção for feita, o próprio Criador corrigirá o coração de pedra.

Para sabermos o que devemos corrigir, temos de ver e sentir o que precisa de correção. Para isso, existem ascensões e descidas que não dependem de nós, chamadas "despertar do Alto”. São os feriados, o Shabat (sábado, o sétimo dia da semana) e os inícios do mês. São-nos dados apenas porque já corrigimos os nossos vasos de doação, não queremos nada para nós próprios, e já estamos no mundo de Atzilut.

O primeiro ato – a ascensão – será a junção do AHP de Aliyah do mundo de Beria; o segundo ocorrerá ao adicionar o AHP do mundo de Yetzira, e o terceiro será a adição do AHP do mundo de Assiya. Quando a pessoa já tiver subido estes três nívels, o coração de pedra está corrigido, constituindo o Fim da Correção.

Podemos sentir prazer da receção ou da doação. O prazer da doação sente-se nos vasos de doação, enquanto o prazer da receção sente-se nos vasos de receção. Mas ambos os tipos de vasos estão corrompidos em nós.

Os mais fáceis de corrigir são os vasos de doação. Corrigimo-los dando não para o nosso próprio prazer, mas para agradar ao receptor. Esses vasos são mais fáceis de corrigir porque o ato (dar) e o propósito (para outro) estão na mesma direção.

Os vasos de receção permitem-nos desfrutar apenas quando recebemos. São muito mais difíceis de corrigir porque temos de agradar ao outro ao receber. Isto exige uma ligação muito mais estreita com o Criador, porque a receção passa pelo cerne do “eu”, o ego humano.

Por essa razão, o AHP é corrigido gradualmente, após a correção de Galgalta e Eynaim. Assim, não é tão difícil ascender ao mundo de Atzilut com vasos de GE corrigidos, como adicionar-lhes o AHP, porque a correção do AHP contradiz o objetivo.

Todos os cinco mundos são como cortinas que ocultam a Luz do Criador. Quanto mais baixo o mundo, mais ele cobre a Luz. Os mundos/Masachim [Telas] terminam no Machsom [Barreira], que oculta completamente a Luz do nosso mundo. Apenas uma minúscula centelha chamada “Luz Minuta” entra no nosso mundo. É apenas o suficiente para sustentar a vida na terra. O Criador assim o fez para podermos viver sem Masach [Tela]. Na ausência de Luz e tendo apenas uma luz minuta, não há necessidade de Masach [Tela].

Essa Luz fraca divide-se em muitas partículas. Ela move os átomos, desloca as moléculas, cria toda a substância e impele-a para o desenvolvimento e o crescimento. Dá vida a cada nível de existência: o inanimado, o vegetativo, o animal e o falante – o nosso próprio nível.

E se adquirirmos um Masach [Tela] mesmo sobre o menor desejo de receber, através dos nossos estudos, dos nossos grupos e dos nossos professores – um Masach [Tela] sobre a About [Espessura] de raiz –, então já somos capazes de resistir à Luz mais ténue – a Luz de Nefesh, que, por pequena que seja, é ainda muito maior do que a “Luz Minuta”. Nesse ponto, somos capazes de permanecer nessa Luz sem a receber para nós próprios. O Masach [Tela], nesse caso, funciona como a barreira – a transição deste mundo para o mundo espiritual.

Por exemplo: se a pessoa foi ensinada a não roubar e alguém coloca uma nota de 100 dólares diante de nós, não a roubaremos. Mas no momento em que enfrentamos a tentação de uma quantia maior do que aquela que fomos ensinados a não roubar, não conseguiremos resistir; toda a nossa educação anterior será insuficiente para resistir a essa quantia.

O mesmo se aplica à espiritualidade: onde existe a Luz de Nefesh, trabalhamos para o Criador sem qualquer dificuldade, sentimo-Lo, mantemos contacto com Ele e desfrutamos porque queremos agradar-Lhe. Temos um Masach [Tela] suficiente para este nível que nos protege de receber para nós próprios. Esse estado chama-se "o mundo de Assiya".

Depois, como resultado dos nossos estudos e dos esforços adicionais que fazemos, adquirimos um Masach [Tela] sobre uma medida maior de egoísmo, a de Aviut Aleph (primeiro nível de Aviut [Espessura]) e podemos agora receber a Luz de Ruach para doar. Em conformidade, temos proteção contra roubar uma quantia maior de dinheiro, digamos 1000 dólares. Nesse caso, passamos do mundo de Assiya para o mundo de Yetzira. Do mesmo modo, ao adquirir um Masach [Tela] para o segundo nível de Aviut [Espessura], ascendemos de Yetzira para Beria.

Ao passar de um mundo para o seguinte, a cortina do mundo anterior cai e, em vez dele, colocamos um Masach [Tela] que se adequa à Aviut [Espessura] desse mundo. O Masach [Tela] que cobria o mundo superior entra nos vasos e o mundo superior aparece. Quando isso acontece, somos capazes de cumprir a lei do mundo em que estamos, e portanto não precisamos da lei. Elevamo-nos acima dela e cumprimo-la por vontade própria consciente.

Uma vez que a nossa alma consiste em cinco partes, devemos adquirir cinco Masachim [Telas] separados em níveis ascendentes de poder, de acordo com a Aviut [Espessura] do egoísmo. Atravessamos o Machsom [barreira] quando adquirimos um Masach [Tela] de Aviut [Espessura] de raiz e alcançamos o nível espiritual do mundo de Assiya.

Um Masach [Tela] para o primeiro nível de Aviut [Espessura] eleva-nos ao nível do mundo de Yetzira. Um Masach [Tela] para o segundo nível de Aviut [Espessura] eleva-nos ao nível do mundo de Beria. Um Masach [Tela] para o terceiro nível de Aviut [Espessura] eleva-nos ao nível do mundo de Atzilut. E finalmente, um Masach [Tela] para o quarto nível de Aviut [Espessura] eleva-nos ao nível do mundo de Adam Kadmon.

Acima de Adam Kadmon, a alma ascende ao mundo de Ein Sof. Existem cinco Partzufim em cada mundo, compostos por cinco Sefirot. Cada vez que a pessoa adquire cinco novas Sefirot, adquire um novo nível, um novo Partzuf. Se for no mundo de Assiya, as primeiras cinco Sefirot dão-nos a capacidade de alcançar o Partzuf de Malchut do mundo de Assiya. As cinco Sefirot seguintes elevam-nos ao Partzuf de Zeir Anpin do mundo de Assiya. Mais cinco Sefirot e chegamos ao Partzuf de Bina de Assiya, mais cinco e estamos no Partzuf de Hochma de Assiya, e as últimas cinco Sefirot concedem-nos o Partzuf de Keter do mundo de Assiya.

Desta forma, a alma adquire os Masachim [Telas] na Aviut [Espessura] de raiz do mundo de Assiya e passa ao primeiro Masach [Tela] do primeiro nível de Aviut [Espessura] do mundo de Yetzira. A alma continua assim até atravessar todos os mundos e todos os 125 nívels.

Quando estamos no mundo de Assiya com a nossa Aviut [Espessura] de raiz, a nossa alma evolui através de vários níveis como um feto no ventre da mãe (Bina). A conceção dura nove meses, o mesmo tempo que leva uma mulher neste mundo.

O nascimento da alma é a transição da Aviut [Espessura] de raiz para o primeiro nível de Aviut [Espessura], do mundo de Assiya para o mundo de Yetzira, o que corresponde ao nascimento de um bebé no nosso mundo. No mundo de Beria, a alma evolui e recebe Luz que aumenta gradualmente o seu Masach [Tela].

Mas no mundo de Beria, a alma ainda se encontra num estado de Katnut (ou seja, só possui vasos de GE). Para além do mundo de Atzilut começa o processo gradual de crescimento da alma, a aquisição dos vasos de AHP. O crescimento continua até aos treze anos, a idade do Bar Mitzvah. Nesta etapa, a alma torna-se independente em Atzilut e possui os Masachim [Telas] com os quais pode começar a receber para dar, adicionando os vasos de receção denominados AHP de Aliyah.

Existem dois Partzufim chamados Zeir Anpin e Nukva (Malchut) no mundo de Atzilut. Relacionam-se entre si de diversas formas, dependendo da situação da alma (Katnut ou Gadlut). Estes estados chamam-se Zivug (Acoplamento espiritual).

O termo Eretz (terra) no mundo espiritual refere-se ao lugar onde se está ou ao lugar para onde se dirige. A palavra Eretz provém de Ratzon (desejo). A nossa alma consiste num grande desejo (Eretz) com muitas “terras” menores dentro dele. Existem desejos chamados “nações do mundo” ou “estrangeiro”, e existe a Terra de Israel, que é o desejo mais próximo do Criador. Os vizinhos desta Eretz — Jordânia, Egito e Síria — querem a Terra de Israel porque é aí que o Criador pode ser encontrado.

O processo de correção começa pelos desejos mais finos, chamados “Israel” ou Galgalta e Eynaim. Por um lado, são os desejos mais próximos do Criador, mas, por outro, os mais distantes. Isto deve-se à lei da oposição entre Luzes e vasos.

Para regressarmos ao Criador, temos de ser o maior egoísta, porque devemos sentir que falta algo muito importante nas nossas vidas. Por um lado, os vasos egoístas estão longe do Criador, mas, por outro, quando invertemos as nossas intenções, tornamo-nos os mais próximos Dele.

Quando começamos a estudar Cabala, aprendemos lentamente a classificar os nossos desejos por ordem de Aviut [Espessura]. Quando a classificação estiver concluída, determinamos quais dos nossos desejos podemos começar a corrigir. Ao iniciarmos o trabalho com os nossos desejos, começamos a ver onde nos encontramos no mapa espiritual.