Capítulo 1.5 – A Cabala Enquanto Meio para Alcançar a Espiritualidade
A Cabala gira em torno dos mundos espirituais. Por isso, o estudante atrai Luzes espirituais durante o estudo. O estudo de outras partes da Torá também desperta uma certa iluminação espiritual, mas a intensidade da Luz no estudo da Cabala é muito maior do que no estudo de outros escritos.
Contudo, devemos assegurar-nos de que estudamos pelo caminho correto de instrução, senão pode obter-se o resultado oposto: quanto mais estudamos, mais nos sentimos justos em vez de sentirmos o nosso próprio mal (que é o resultado desejado). Sentir o nosso próprio mal facilitar-nos-ia: imagine estudar durante meses e, a cada mês, sentir que se está a tornar mais mesquinho. Poderá chamar-se agradável a essa sensação?
De modo nenhum! No entanto, é a verdade! Se continuarmos a sentir-nos melhor connosco próprios, então estamos a aprender uma mentira, agradável, mas mentira. Com base nisso, a sociedade pode dividir-se em dois grupos opostos: “Senhorios” e “Donos da Torá”.
Os Senhorios são aqueles que estudam Torá e se contentam com o estudo. Sentem que acumulam mérito para o mundo vindouro. Este mundo já lhes sorri e estão confiantes de que serão felizes na vida futura.
Os donos da Torá, porém, são pessoas que desejam fazer algo consigo próprias. Estes dois grupos estão em completa oposição um ao outro, embora a aparência exterior seja a mesma. Têm um preenchimento espiritual completamente diferente, tal como dois computadores podem parecer idênticos mas usar sistemas operativos distintos.
Todas as religiões baseiam-se nos esforços da pessoa para receber recompensa neste mundo e no vindouro. Um cabalista, porém, só pode ser alguém que não atribui importância à recompensa, mas procura encontrar a Verdade. É certo que tais pessoas são muito poucas, mas o seu número aumenta significativamente de geração para geração. Há casos em que alguém chega a certo ponto na busca da verdade e depois abandona gradualmente. A razão será explicada mais adiante no estudo da reencarnação.
Todos os mundos (incluindo este) são estados interiores em nós. Não os encontraremos em lado nenhum fora de nós. Ou seja, não somos nós que estamos dentro dos mundos, mas os mundos estão dentro de nós. Fora de nós existe apenas o Criador, a Luz Superior.
As pessoas neste mundo estão convencidas de que estão dentro de uma espécie de existência, uma realidade criada antes de entrarmos nela. Mas isto é uma ilusão. Fora de nós não há nada senão a Luz do Criador. Essa Luz afeta os nossos sentidos de tal modo que a sentimos como sólida, líquida ou gasosa, como vegetativa ou animal. Tudo o que podemos imaginar e ver à nossa volta é construído dentro dos nossos próprios sentidos, fazendo-nos sentir como se tudo existisse fora de nós. Mas a verdade é que não há nada fora, apenas o Criador.
Este mundo é o ponto mais baixo que um cabalista alcança. É o oposto total do Criador e designa-se “o exílio no Egito”. A força natural que atua sobre nós nesse estado, a força da nossa natureza egoísta, não nos permite avançar para lado nenhum exceto cuidar de nós próprios. Isso chama-se “o estado de Faraó”.
O nosso egoísmo não nos deixa sentir o estado sublime e perfeito. É o egoísmo, a força interior e ímpia do homem chamada “Faraó”, de que a Torá fala longamente, ao passo que a força que faz alguém sair desse estado se chama “Moisés”. Faraó, Moisés e tudo o que está escrito sobre o êxodo descrevem estados e emoções espirituais.
O nosso estado atual é o mais baixo possível. É um estado de sono absoluto e até de inconsciência. Não temos qualquer sensação de quem ou onde somos. É mesmo um estado mais baixo do que “este mundo”, pois definir o nosso estado como “este mundo” implica que já temos consciência de que existe outro mundo. É tão baixo que não conseguimos sentir qualquer espiritualidade.
A Torá não é uma epopeia histórica, embora haja correlação entre o texto e a história humana. Mas isso deve-se apenas a que a construção dos mundos se baseia no mesmo princípio: tudo o que acontece num mundo espiritual reflete-se no mundo inferior adjacente, até ao nosso.
Tudo o que a humanidade terá de atravessar na sua ascensão pelos mundos tem de ser sentido por cada indivíduo em cada um dos mundos, especialmente no nosso. A ascensão no nosso mundo faz-se no nosso estado atual e com a nossa substância egoísta deste mundo.
Existe uma lei na natureza espiritual que diz: “Toda a raiz espiritual deve tocar num ramo corpóreo.” Isto significa que toda a origem espiritual, toda a força espiritual, tem de descer e construir a sua manifestação corpórea final no nosso mundo.
Por exemplo, existe no mundo de Atzilut uma força negativa chamada Faraó e uma positiva chamada Moisés. Estas forças têm de se materializar pelo menos uma vez no nosso mundo. Em princípio, tudo o que aconteceu ou está a acontecer no mundo espiritual já aconteceu no nosso, exceto a vinda do Messias, a ascensão e a saída para o mundo espiritual. Isso é tudo o que ainda espera acontecer. Mas os tempos que antecedem a ascensão são também os mais difíceis, mais sombrios e mais dolorosos.
Quando “trabalhamos em nós próprios” com a Cabala, entramos num estado chamado “o exílio no Egito”. Durante este processo, sentimos que nos estamos a tornar menos virtuosos, que éramos melhores antes de começarmos os estudos. Isto é incorreto; é através dos estudos que descobrimos a nossa verdadeira natureza. À medida que continuamos a estudar e a ser influenciados pela Luz e pelo nosso estudo correto da Cabala, desenvolvemos um forte desejo de atravessar esta barreira e entrar no mundo espiritual. Ansiamos assemelhar-nos ao Criador, mesmo que seja da forma mais pequena.