Capítulo 1.4 – O Despertar do “Ponto no Coração”
O estudo da sabedoria da Cabala é a investigação da relação do homem com o Criador. Explora cada pensamento, desejo do homem e, na verdade, toda a realidade que se alcança com os sentidos. Mesmo no nosso mundo, abaixo do mundo espiritual, há níveis de realização. No início do nosso período de preparação para a espiritualidade, começamos a compreender as ligações e relações entre os objetos espirituais, embora esta compreensão não possa comparar-se com a sensação real quando a espiritualidade é alcançada.
Quando o Zohar diz: “Vai e pergunta a Rabbi Shimon e a Rabbi Abba”, significa que devemos ascender ao nível deles e perguntar por que apresentam as coisas da forma que o fazem. Quando o Zohar escreve que certa pessoa encontrou Rabbi Shimon, significa que essa pessoa se elevou ao nível de Rabbi Shimon e, por isso, pode ver e compreender o que Rabbi Shimon pode.
É assim que um nível recebe o seu nome, e quando ascendemos a ele, somos chamados por esse nome. Se alcançarmos apenas uma parte desse nível, somos considerados “filho dele”. Por isso somos considerados filhos de Adam, porque somos todos partes do nível chamado “Adam”, e a nossa tarefa é alcany essa parte individualmente.
Uma pessoa que se eleva a certo nível sente o que acontece nele, alcança as suas características e vê o Criador em conformidade. Ao subir mais alto, as imagens vistas no nível anterior também mudam.
Não é como um cinema que projeta 125 filmes diferentes, um para cada nível, porque só existe a Luz Superior Simples e a pessoa que se eleva a certo nível espiritual. Adquirimos certos atributos espirituais e, assim, sentimos uma parte da Luz Superior. Essa parte é o que chamamos “mundo”. Podemos mesmo sentir uma parte minúscula da Luz Superior nos nossos atributos egoístas, que chamamos “o nosso mundo”.
Tudo o que realmente existe é o desejo de receber este ou aquele atributo do Criador. Os atributos adquiridos apresentam-nos certa imagem. Pessoas diferentes que alcançam os mesmos atributos do Criador verão a mesma imagem, apesar dos seus desejos diferentes, mas de ângulos distintos. É como um debate em que o número de opiniões é igual ao número de participantes.
Devido a pensamentos e ideias diferentes, temos também perspetivas diferentes sobre o mundo. Contudo, a imagem geral permanece a mesma. É o mesmo relativamente às nossas experiências pessoais variadas, embora concordemos quanto à aparência das coisas.
Se tentarmos compreender-nos uns aos outros com os nossos atributos ou com o nosso desejo de receber, apenas nos afastamos mais uns dos outros. Só nos podemos compreender uns aos outros através dos atributos do Criador que alcançaremos nos níveis espirituais.
O Primeiro Homem foi criado apenas com desejos altruístas, ou seja, vasos de doação. Cuidava de todas as árvores no Paraíso porque podia usar todos os seus desejos altruístas. Se assim é, então como poderia ter corrigido os seus desejos egoístas (vasos de receção), se não os tinha, ou, mais precisamente, se não os sentia dentro de si? O pecado do Primeiro Homem foi premeditado. Teve de pecar, provar da Árvore do Conhecimento e misturar-se com os desejos egoístas (vasos de receção) para criar uma mistura completa dos vasos de doar e dos vasos de receção. Apenas depois haveria uma correção gradual dos vasos de receção.
Parece não haver pecado aqui, porque foi premeditado pelo Criador. Mas, na verdade, há ainda uma violação das regras, quer conscientemente quer inconscientemente. Adam sabia? Não, não sabia. Queria cometer um pecado? Não, não queria. Mas transgrediu a lei? Sim, transgrediu.
Mesmo a corrupção na espiritualidade não é coincidência; tudo é sempre feito para um só propósito — corrigir o egoísmo e uni-lo ao altruísmo. Se não houvesse em cada desejo egoísta uma centelha altruísta, um vaso que apareceu ali no momento do pecado do Primeiro Homem, o egoísmo seria incorrigível e a ascensão espiritual impossível. Assim, o pecado do Primeiro Homem foi uma necessidade.
Vivemos em completa escuridão espiritual. A Luz Circundante brilha do exterior e desperta o nosso egoísmo, o nosso desejo de receber, mas não consegue penetrar no egoísmo. É assim que somos despertados para a espiritualidade.
Para nos despertar ainda mais, não necessariamente para a espiritualidade, mas para qualquer realização pessoal, uma parte da Luz Circundante deve (aparentemente) estar dentro de nós. Para esse fim, o “ponto no coração” é inserido nos nossos corações egoístas. Este ponto é uma dádiva do Alto. É o ponto mais baixo de um objeto espiritual superior, o posterior de um Partzuf superior.
Olhando do Alto, não há nada senão vaso, tela e Reshimot (registos/recordações). Mas se olharmos de baixo, verificamos que a alma tem três linhas: direita, esquerda e do meio. O homem deve gradualmente dominar cada uma das linhas e uni-las. Este processo consiste no sofrimento da linha esquerda, na capacidade de lidar com ele através das forças da linha direita, e na receção da Luz do Criador na linha do meio.
Há aqui certa dualidade. Da perspetiva do Criador, tudo é claro e previsto, incluindo o pecado do Primeiro Homem e o seu processo detalhado de correção. Tudo tem o seu lugar e tempo. Na verdade, tudo já está no fim da correção. Mas para nós, é tudo um segredo. O homem ainda tem de descobrir as regras que governam o oculto. Devemos avançar com fé acima da razão, com o desconhecido a pressionar e a encorajar-nos a esforçarmo-nos para encontrar o Criador e manter o contacto constante com Ele por escolha própria.
Mas nós e o Criador temos características opostas, e devido ao nosso egoísmo temos medo de nos conectarmos com Ele, pois não sabemos o que é a inclinação para o bem, quanto mais o altruísmo puro!
Do ponto de vista do Criador, nada muda alguma vez; todos estão no fim da correção, deleitando-se na Luz do Criador. O que muda é a angústia que começamos a sentir como resultado do nosso egoísmo e das nossas tentativas contínuas de o corrigir, desde o ponto de partida até ao mundo de Ein Sof, da receção para a doação. Se uma pessoa neste mundo não receber esse ponto altruísta, esse atributo espiritual do Alto, será impossível realizar qualquer ato espiritual.
Está escrito que, no momento do nascimento espiritual, a pessoa recebe imediatamente o “posterior da alma sagrada”, ou seja, o último (e mais baixo) nível da alma, designado por “ponto” devido à restrição (Tzimtzum). Este é colocado nos nossos corações, no meio do nosso egoísmo.
Sem esse ponto, as pessoas permanecem no nível animal. Os seus desejos não vão para além do nível deste mundo. Tais pessoas podem sentir-se atraídas por ideias e filosofias pseudoespirituais, prever o futuro e ser extremamente sensíveis, mas nada as liga à espiritualidade. Apenas o “ponto no coração” pode tirar-nos do estado animal e elevar-nos ao espiritual.
Estas pessoas podem parecer iguais por fora, mas a diferença só se vê quando há equivalência de atributos espirituais, quando o “ponto no coração” se torna um Partzuf completo. Por vezes, esse ponto pode permanecer dormente no coração durante muitos ciclos de vida. Se esse ponto estiver ausente, a pessoa pode estudar Cabala durante anos, estar num grupo, anotar tudo e fazer tudo o que é necessário para alcançar a espiritualidade, mas sem resultado.
Mesmo que alguém se junte a um grupo para se tornar professor e se orgulhe do conhecimento adquirido, se não houver desejo interior de unificação com o Criador, o grupo rejeitá-lo-á espiritualmente. Assim, o êxito na obtenção da espiritualidade depende da presença do “ponto no coração”.
Rav Laitman perguntou ao seu professor se o “ponto no coração” poderia ser adquirido caso não existisse desde o início. O professor respondeu que, se a pessoa entra num grupo e vê que tudo gira em volta de um único desejo — encontrar o Criador — e se vê outros a chegar de longe com apenas esse objetivo, então, com os livros corretos e o professor certo, a pessoa sem “ponto no coração” pode captar o desejo geral, mesmo que o ponto ainda não tenha despertado.
No entanto, sabe-mos que um desejo extremamente forte pode despertar o “ponto no coração”. Até o Ari o mencionou.
Para que um indivíduo se inclua no desejo unificado do grupo, deve estar em total concordância com esse desejo. Isto porque, mesmo quando o ponto existe, os seus atributos variam de pessoa para pessoa. Por exemplo, sabemos que o rabino Yosef Karo, autor do Shulchan Aruch (o código de leis judaico), uma obra de valor inestimável, dormia durante as lições de Cabala com o Ari.
Claro que havia pessoas que absorviam naturalmente a Cabala lurianica (a Cabala do Ari), e outras que não conseguiam compreendê-la e tinham dificuldade em se desligar da Cabala do Ramak (Rabbi Moshe Cordovero). O Ari introduziu uma mudança fundamental no método de estudo da Cabala, permitindo-nos estudá-la de baixo para cima, ou seja, da perspetiva dos vasos, das almas.
O método de estudo do Ramak examinava o mundo da perspetiva das Luzes, ou seja, da perspetiva do Criador, ao passo que nós o estudamos da perspetiva do Masach [Tela], que ajuda a Luz a expandir-se. Rav Laitman estudou Cabala com muitos professores, mas não encontrou respostas até lhe mostrarem os livros do Ari e de Baal HaSulam.
O nível Superior é o Criador, o nosso próprio estado futuro. O nível inferior é a criatura no seu estado atual. Os níveis são como um acordeão, que se abre à medida que progredimos.
O que é o tempo? É um conceito mutável e vivo? E, se assim for, existe fora ou dentro de nós? Cada nível mantém o seu próprio tempo?
O conceito de “tempo” é uma consequência da ação das cascas (klipot). Continuamos a sentir o “tempo” enquanto nos recusarmos a concordar com o Criador em tudo o que nos acontece. Mas o tempo desaparece após a nossa correção completa, quando nada mais precisa de ser alterado e tudo está em paz absoluta.
A raiz do tempo é a descoberta da carência e a necessidade de correção. A Primeira Restrição (Tzimtzum) criou um espaço vazio destinado à correção. A restrição ocorreu porque o desejo, oposto à perfeição, e as contradições não podiam reconciliar-se imediatamente. Foi isso que criou o “tempo” e o “espaço” no nosso mundo. Estas duas contradições podem ser unidas alterando-se o tempo ou o espaço. Antes da Primeira Restrição, não havia “tempo” nem “espaço”.
Se existisse um cronómetro especial ligado ao coração do homem, poderíamos ver o eixo da vida espiritual em diferentes pessoas. Algumas vivem mil anos, outras apenas um minuto. O nosso relógio comum mostra apenas o tempo “inanimado”, ou seja, o ritmo de progresso do inanimado para o fim da Criação.