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Capítulo 1.1 – A Grande Ilusão


"Não terás outros deuses antes de Mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem nenhuma semelhança." (Êxodo 20, 3)


O judaísmo proíbe a idolatria e qualquer forma de fetichismo. Esta proibição envolve o princípio mais fundamental do judaísmo: que tudo o que vemos é apenas uma criação da nossa imaginação.

Ao longo dos anos, muitos de nós adotámos, consciente ou inconscientemente, este princípio depois de percebermos que, ao alterar a nossa perspetiva, poderíamos lidar melhor com os problemas do dia a dia. Esta perspetiva determina as nossas reações, os nossos sentimentos e, em última análise, a nossa realidade. Qual é, então, a realidade verdadeira à nossa volta?

Hoje, os cabalistas podem afirmar um princípio que os judeus ocultaram durante milhares de anos: não existe realidade alguma, mas apenas algo designado por “a Sua Essência”, a “Força Superior”. Esta Força opera de tal modo que se manifesta como uma imagem de certa realidade, a qual chamamos “o meu mundo”.

Todos nós conseguimos ver e sentir imagens e sensações variadas, dependendo dos nossos órgãos sensoriais e das nossas propriedades internas. Todas as nossas sensações são subjetivas e existem apenas em relação aos nossos sentimentos.

Contudo, como os órgãos sensoriais das criaturas não humanas diferem dos nossos, elas veriam o mundo de forma completamente distinta da nossa. Na verdade, é possível que os órgãos sensoriais de outra criatura sejam tão diferentes dos nossos que ela exista numa dimensão distinta, sem nunca nos encontrar.

Quanto mais próximas estiverem as propriedades de alguém das propriedades da Força Superior, mais próxima a imagem do “meu mundo” estará da realidade verdadeira, e menos distorcida será pelos atributos egoístas. Sendo a propriedade da Força Superior o altruísmo, quando alguém alcança essa qualidade e se une à Força Superior, aprende a sentir a realidade tal como ela é. Tudo o que foi dito acima serve apenas para sublinhar que todas as nossas sensações são pessoais e podem mudar com o tempo.

A única forma de nos aproximarmos da perspetiva correta da realidade é estudar a Cabala, pois é o único estudo que trata da parte da realidade que a humanidade ainda não alcançou. Mas não basta estudar o texto, pois lemos sobre o desconhecido. Devemos também dirigir-nos à visão correta e preparar-nos para um sentimento mais verdadeiro, ainda oculto.

Tudo existe dentro de nós. Fora de nós existe apenas a Força Superior, o Criador. Não O podemos sentir de outra maneira senão pela forma como Ele atua sobre os nossos órgãos sensoriais. Apenas através destas sensações podemos adivinhar algo acerca do Criador.

Por isso, o estudo da Cabala deve ser corretamente orientado; os pensamentos devem concentrar-se no estudo das propriedades internas que ainda não conseguimos ver em nós próprios.

Todos os mundos, Partzufim, Sefirot, nomes, tudo aquilo de que a Cabala fala, existem em nós e serão revelados em nós, dependendo do nível da nossa correção. Encontraremos em nós o nosso Moisés interior e Aarão, o Rei David e os anjos, o mal, os justos, e os níveis de realização chamados “Jerusalém”, “o Templo” e mais. Cada palavra na Torá fala das nossas próprias forças e dos nossos níveis de capacidade para sentir o Criador.

Esse é o único tema da Torá. É também a única coisa de que falamos na nossa vida quotidiana, pois falamos dos nossos sentimentos. Na verdade, tudo o que sentimos é a influência do Criador. Tudo à nossa volta não é mais do que a influência do Criador sobre cada um de nós.

Assim, para discernir a imagem verdadeira do mundo, devemos encontrar dentro de nós o que lemos, ao lermos a Torá, pois cada palavra escrita existe em nós — apenas ainda não foi descoberta.

Sentimos aquilo de que os livros falam de acordo com o nosso crescimento espiritual, daí a importância do estudo a partir de fontes genuínas da Cabala: o Zohar, os escritos do Ari e os escritos de Ashlag. Este é o caminho mais seguro para alcançar a correção dos nossos sentimentos e atributos, e a nossa ascensão espiritual.

A melhor forma de progredir é estudar recordando que estes livros falam realmente do que está dentro de nós, que tudo isto já existe algures dentro de nós. Todos estes mundos e Partzufim são coisas que devemos descobrir dentro de nós. São as nossas próprias propriedades.

Quanto mais controlo adquirirmos sobre estes atributos, mais sentiremos como o Criador opera dentro de nós. Embora nunca possamos senti-Lo “fora” de nós, compreenderemos como Ele opera dentro de nós porque, “pelas Tuas ações Te conhecemos”.

E como nos sentamos juntos em grupo, a estudar as nossas propriedades reais ainda ocultas, colaboramos no estudo de como o Criador opera dentro de nós. Temos um objetivo comum, um pensamento comum e uma área de experimentação comum — os nossos próprios sentimentos.

Isto resulta num objetivo coletivo, pensamento e desejo que, com o tempo, cria no grupo o sentimento de um só corpo e propriedades comuns — um sentimento de que não há entidades separadas, mas apenas um “homem”, e diante dele, o Único Criador.

Este pensamento deve ser dirigido para dentro, para a mudança das nossas qualidades, em busca do Criador dentro de nós. Em vez da leitura comum da Torá, descobrimos a Torá “enquanto especiaria”, como meio de correção. É também chamada “poção de vida”, pois verte em nós a sensação do Criador, a Luz da eternidade e da plenitude.

As pessoas que estudam a partir de livros errados são privadas deste remédio e permanecem com as suas propriedades. Não descobrem o Criador, e a sua Torá torna-se seca, ocultando ainda mais o propósito da Criação do que antes.