Capítulo 30. Temor ao Criador
O Criador preenche toda a criação com a Sua Luz. Embora nademos dentro desta Luz, não a conseguimos perceber. Os prazeres que sentimos são apenas pequenos raios que, pela misericórdia do Criador, nos alcançam; pois sem qualquer prazer terminaríamos a nossa existência.
Sentimos estes raios como forças que nos atraem a certos objetos, nos quais os raios penetram. Os próprios objetos não têm importância, o que se torna evidente quando, em determinado momento, deixamos de nos interessar por coisas que outrora exerciam grande atração sobre nós.
A razão por que recebemos apenas uma pequena porção da Luz, e não toda a Luz do Criador, reside no facto de o nosso egoísmo atuar como barreira. Quando existem desejos egoístas, não conseguimos perceber a Luz, devido à lei da equivalência de qualidades, a lei da semelhança.
Dois objetos só se percebem mutuamente na medida em que as suas qualidades coincidem.
Mesmo no nosso próprio mundo, vemos que, se duas pessoas se encontram em níveis completamente diferentes de pensamento e desejo, não conseguem compreender-se.
Assim, um indivíduo que possuísse as qualidades do Criador ficaria simplesmente imerso no oceano ilimitado de prazer e conhecimento pleno.
Porém, se o Criador preenche tudo com Ele próprio e não há necessidade de O procurar como se de um objeto precioso se tratasse, então, evidentemente, Ele não merece ser considerado uma “recompensa”. Do mesmo modo, não podemos aplicar o conceito de trabalho à Sua procura, já que Ele está à nossa volta e dentro de nós.
Poderemos não O perceber, mas Ele está dentro de nós, dentro da nossa fé. Ao mesmo tempo, quando O percebemos e recebemos prazer d’Ele, não se pode dizer que fomos recompensados. Afinal, se não houve trabalho realizado e o objeto em questão existe em abundância por todo o mundo, então esse objeto não pode ser considerado uma recompensa.
Resta, pois, a questão: qual é a nossa recompensa por resistirmos à nossa natureza egoísta?
Primeiro, devemos compreender por que razão o Criador instituiu a lei da congruência. Em consequência dela, embora Ele preencha tudo, não conseguimos percebê-Lo, pois Ele oculta-Se de nós.
A resposta à pergunta “Qual é a nossa recompensa por resistirmos ao nosso ego?” é a seguinte: O Criador instituiu a Lei da Equivalência de Forma. Esta permite-nos perceber apenas os objetos que se encontram no nosso próprio nível espiritual. Assim, somos impedidos de experienciar o sentimento mais terrível proveniente do nosso egoísmo (que é a natureza das criaturas) ao recebermos prazer d’Ele – pois, juntamente com o prazer, surgem os sentimentos de vergonha e humilhação.
O egoísmo não suporta este sentimento. Se não conseguirmos justificar perante nós próprios ou perante os outros ações más; se não conseguirmos encontrar quaisquer circunstâncias externas que, supostamente, nos tenham forçado, contra a nossa vontade, a praticar o mau ato; então preferimos qualquer outro castigo exceto o sentimento de humilhação do “eu”, porque o “eu” é o pilar da nossa existência. Uma vez humilhado, o “eu” desaparece espiritualmente; é como se tivéssemos desaparecido deste mundo.
Mas quando alcançamos um tal nível de compreensão que o nosso único desejo é dar tudo ao Criador, e quando estamos constantemente preocupados com o pensamento do que mais poderemos fazer pelo Criador, então descobrimos que fomos criados para receber prazer do Criador, e que é exatamente isso que o Criador deseja. Nesse momento, recebemos todos os prazeres possíveis porque queremos cumprir a Vontade do Criador.
Nesse caso, não há lugar para sentimentos de vergonha, pois o Criador mostra-nos que deseja dar-nos prazer e quer que o aceitemos. Assim, ao aceitar, estamos a cumprir a Vontade do Criador, e não desejos egoístas pessoais. Como resultado, tornamo-nos análogos ao Criador nas qualidades, e o Madach [Tela] desaparece. Tudo isto sucede porque alcançamos o nível espiritual em que podemos dar prazer, tal como o Criador.
Do exposto, podemos concluir que a nossa recompensa pelos esforços realizados deve consistir em receber novas qualidades altruístas – desejos de “dar” e aspirações a proporcionar prazer – semelhantes aos desejos do Criador para connosco. Este nível espiritual e estas qualidades são conhecidos como “temor ao Criador”.
O temor espiritual e altruísta, tal como todas as outras qualidades anti-egoístas dos objetos espirituais, é completamente diferente de qualquer uma das nossas qualidades ou perceções. O “temor ao Criador” é o temor de ser afastado do Criador. Este não surge de cálculos de benefício egoísta, nem do medo de ficar com o egoísmo, nem do medo de se tornar semelhante ao Criador. Tudo isto se baseia em noções de benefício pessoal e considera apenas o próprio estado.
O temor ao Criador é uma preocupação altruísta e desinteressada por não conseguir fazer algo que poderia ter sido feito pelo Criador. Tal temor é, em si próprio, uma qualidade altruísta de um objeto espiritual, em contraste com o nosso temor egoísta, que está sempre ligado à incapacidade de satisfazer as nossas próprias necessidades.
Alcançar a qualidade de temer o Criador deve ser a causa e o objetivo dos nossos esforços.
Devemos empenhar todas as nossas forças neste intento. Então, com a ajuda das qualidades que alcançarmos, poderemos receber todos os prazeres que nos estavam reservados. Tal estado é conhecido como “a correção final” (gmar tikkun).
O nosso temor ao Criador deve preceder o nosso amor pelo Criador. A razão é a seguinte. Para que possamos cumprir as nossas obrigações a partir de um sentimento de amor; para reconhecer o prazer contido nas ações espirituais conhecidas como “mandamentos”; para que estes prazeres despertem o sentimento de amor (pois, no nosso mundo, amamos aquilo que nos traz prazer e odiamos aquilo que nos traz sofrimento); devemos primeiro alcançar o temor ao Criador.
Se observarmos os mandamentos a partir do temor, e não a partir de sentimentos de amor ou de prazer, isso significa que não percebemos o prazer que está oculto nos mandamentos, e que estamos a cumprir a Vontade do Criador por temor ao castigo. O corpo não resiste a esta tarefa, pois também teme o castigo, mas pergunta constantemente qual a razão para realizar as tarefas em questão.
Por sua vez, isto dá-nos motivo para aumentar o nosso temor e a nossa crença no castigo e na recompensa inerentes ao domínio do Criador, até começarmos a perceber constantemente a existência do Criador. Ao adquirirmos o sentimento da existência do Criador, isto é, ao alcançarmos a fé n’Ele, podemos começar a cumprir a Vontade do Criador a partir de um sentimento de amor, pois adquirimos o gosto e encontramos prazer na observância dos mandamentos.
Por outro lado, se o Criador nos permitisse cumprir os mandamentos a partir do sentimento de amor desde o início, contornando assim o temor e recebendo apenas prazer da tarefa, nunca desenvolveríamos fé no Criador. Podemos comparar isto às pessoas que passam toda a vida a perseguir prazeres mundanos, e que não precisam de fé no Criador para cumprir os mandamentos (as leis) da sua natureza, pois a sua natureza os obriga a isso prometendo uma recompensa.
Portanto, os cabalistas que percebessem desde o início o prazer a obter ao seguir as leis espirituais do Criador observá-las-iam involuntariamente, tal como outros se apressariam a cumprir a Vontade do Criador apenas pelo enorme proveito oculto no caminho da Cabala. Então, ninguém conseguiria aproximar-se do Criador.
Por esta razão, os prazeres contidos nas leis espirituais e no caminho da Cabala, como um todo, estão ocultos. (A Luz é o prazer que está escondido em cada lei espiritual; a Luz do Criador é a soma de todas as leis espirituais). Estes prazeres revelam-se apenas quando se alcança um estado de fé constante no Criador.