Capítulo 29. A Transformação da Nossa Natureza
Todo o sentimento que experienciamos emana do Alto. Se sentimos um anseio, um amor e uma atração pelo Criador, é um sinal seguro de que o Criador experiencia os mesmos sentimentos em relação a nós (de acordo com a regra de que “o homem é uma sombra do Criador”). Assim, aquilo que a pessoa sente em relação ao Criador é o mesmo que o Criador sente em relação a essa pessoa, e vice-versa.
Após a queda espiritual de Adão como resultado do seu pecado (que simboliza a descida espiritual da alma primordial do mundo de Atzilut para o nível conhecido como “este mundo” ou “o nosso mundo”), a sua alma dividiu-se em 600.000 partes distintas. Estas partes revestiram-se nos corpos humanos que nascem neste mundo. Cada parte reveste-se num corpo humano tantas vezes quantas forem necessárias para se corrigir completamente.
Quando todas as partes individuais distintas completarem o seu processo independente de correção, voltarão a fundir-se numa única alma colectiva, conhecida como “Adão”.
Na alternância das gerações há a causa, conhecida como “os pais”, e o efeito, conhecido como “os filhos”. A razão para o aparecimento dos filhos é continuar a correção daquilo que não foi corrigido pelos pais, ou seja, as almas da encarnação anterior.
O Criador aproxima-nos de Si não por causa das nossas boas qualidades, mas por causa dos nossos sentimentos de inferioridade e do nosso desejo de nos purificarmos da nossa “imundície”. Se experimentássemos prazer no estado de exaltação espiritual, poderíamos raciocinar que vale a pena servir o Criador para obter tais sensações.
Por isso, o Criador costuma retirar o prazer do estado espiritual da pessoa, a fim de revelar por que razão se procura a elevação espiritual: se por desejo de servir, para receber os prazeres que receberiam ao fazê-lo, ou por causa da fé no Criador. Desta forma, dá-se à pessoa a oportunidade de agir por algo que não seja pelo prazer.
A remoção do prazer de qualquer estado espiritual mergulha imediatamente a pessoa num estado de depressão e desespero, no qual não há desejo de trabalho espiritual. Contudo, é precisamente neste estado que se tem uma verdadeira oportunidade de se aproximar do Criador pela virtude da fé acima da razão.
Sentir desespero ajuda a compreender que a presente falta de atracção pelo espiritual é apenas uma percepção subjectiva. Na realidade, nada há maior do que o Criador.
Do exposto acima, podemos concluir que o Criador prepara deliberadamente uma queda espiritual para nos elevar rapidamente a um nível ainda mais alto.
Esta é também uma oportunidade para aumentar a nossa fé. Por isso se diz: “O Criador prepara a cura antes da doença” e também: “Com a mesma coisa com que o Criador fere, Ele também cura.”
Embora todo o esforço para remover a nossa força vital e o nosso interesse pela vida abale todo o nosso ser, se verdadeiramente desejarmos ascender espiritualmente, acolheremos a oportunidade de sustentar a fé acima da razão. Ao fazê-lo, afirmaremos o nosso desejo de nos libertarmos dos prazeres pessoais.
O ser humano costuma estar absorto em si próprio, concentrando-se nos sentimentos e pensamentos pessoais de sofrimento e prazer. Mas, ao esforçar-se por alcançar a percepção espiritual, devemos redireccionar os nossos interesses para assuntos desinteressados, para o espaço preenchido pelo Criador, de modo que a existência e os desejos do Criador sejam o foco total da nossa vida.
Devemos correlacionar tudo o que acontece com o Seu plano; devemos transferir-nos para Ele, de modo que apenas as nossas cascas corpóreas permaneçam dentro dos limites físicos.
Contudo, os nossos sentimentos interiores, a essência da pessoa e do eu, tudo o que é designado como alma, deve ser transferido “para fora” do corpo. Só então sentiremos constantemente a força do bem que permeia toda a Criação. Este sentimento é semelhante à fé acima da razão, porque tentamos transferir todos os nossos sentimentos para fora, para além dos limites dos nossos corpos.
Uma vez alcançada a fé no Criador, devemos permanecer neste estado independentemente dos obstáculos que o Criador possa enviar, para aumentar a nossa fé e começar gradualmente a receber a luz do Criador no vaso criado pela fé.
Toda a Criação está construída na interação entre duas forças opostas: o egoísmo, o desejo de receber prazer, e o altruísmo, o desejo de agradar. O caminho de correção gradual é a experiência de transformar os nossos desejos egoístas nos desejos opostos, e este caminho é construído pela combinação das duas forças.
Gradualmente, pequenas quantidades de desejos egoístas fundem-se com os desejos altruístas e são assim corrigidos. Este método de transformação da nossa natureza é conhecido como “o trabalho nas três linhas”. A linha direita é chamada “linha branca’ porque não contém falhas nem defeitos.
Depois de termos conquistado a linha direita, podemos obter a maior parte da linha esquerda, a chamada “linha vermelha”, que contém o nosso egoísmo. Há uma proibição contra o uso do egoísmo em ações espirituais, pois é possível cairmos sob a sua influência.
As forças impuras/desejos esforçam-se por receber a Luz da sabedoria, Ohr Hochma, por si próprias, para perceber o Criador e deleitar-se em benefício próprio, usando essas percepções para satisfazer desejos egoístas. Se nós, pela virtude da fé acima da razão (ao esforçarmo-nos por receber, mas não nos nossos desejos egoístas), recusarmos a possibilidade de perceber o Criador, as Suas ações e o Seu domínio, e recusarmos a gratificação da Sua Luz; se decidirmos ir para além das nossas aspirações naturais de conhecer e experienciar tudo, de ter conhecimento prévio de tudo, de saber qual a recompensa que receberemos pelas nossas ações; então já não estaremos presos pela proibição de usar a linha esquerda.
Quando escolhemos este caminho, chama-se “a criação de uma sombra”, porque nos isolamos da Luz do Criador. Neste caso, temos a opção de usar uma pequena parte dos nossos desejos do lado esquerdo e conectá-los com a direita.
A combinação resultante de forças e desejos é conhecida como “linha do meio”. É precisamente nesta linha que o Criador Se revela. Subsequentemente, todo este processo repete-se num nível espiritual mais elevado, e assim sucessivamente, até ao fim do caminho.
A diferença entre o trabalhador assalariado e o escravo é que, no processo de trabalho, o assalariado pensa na recompensa que receberá pelo trabalho; o tamanho da recompensa é conhecido e serve como razão para o seu trabalho. O escravo, por outro lado, não recebe qualquer recompensa, mas apenas o mínimo necessário para a sobrevivência. O escravo não possui nada; o senhor possui tudo. Portanto, se um escravo trabalha arduamente, isso indica o desejo do escravo de agradar ao senhor, de lhe fazer algo agradável.
O nosso objectivo é sentir em relação ao nosso trabalho espiritual como o escravo que trabalha sem qualquer recompensa.
A nossa jornada espiritual não deve ser influenciada por qualquer medo de castigo nem por qualquer antecipação de recompensa, mas apenas por um desejo desinteressado de cumprir a vontade do Criador.
Para além disso, nem sequer devemos antecipar perceber-Lo como resultado, porque isso também é uma forma de recompensa. Devemos cumprir a Sua Vontade sem querer que Ele saiba que o fizemos pelo Seu Benefício, sem sequer pensar que algo especial foi feito pelo Seu Benefício, sem ver os resultados do nosso trabalho, mas apenas tendo fé de que o Criador está satisfeito connosco.
Se o nosso trabalho for verdadeiramente como descrito acima, então devemos eliminar completamente as noções de recompensa e castigo da consideração. Para compreender isto, é necessário saber o que a Cabala entende por noções de recompensa e castigo.
Recebemos uma recompensa quando despendemos uma certa quantidade de esforço para obter algo que desejamos. Como resultado desses esforços, recebemos ou encontramos aquilo que é desejado. Uma recompensa não pode ser algo que existe em abundância no nosso mundo e que é acessível a todos os outros. O trabalho traduz-se nos nossos esforços para receber uma recompensa particular, que não podemos obter sem esses esforços.
Por exemplo, dificilmente se pode afirmar que se realizou “trabalho” ao encontrar uma pedra, se as pedras abundam em toda a parte. Nesse caso, não há trabalho nem recompensa. Por outro lado, para possuir uma pequena pedra preciosa, é preciso despender um grande esforço, porque é muito difícil encontrá-la. Nesse caso, fazem-se esforços reais e recebe-se uma recompensa.