<- Biblioteca de Cabala
Continuar a Ler ->

Capítulo 27. As Etapas de Correção


Etapas de Correção

O ser humano tem de realizar, mesmo contra a sua vontade, todas as acções necessárias para sustentar a vida física no corpo. Por exemplo, mesmo quando estamos doentes e sem apetite para comer, forçamo-nos a ingerir alimentos, sabendo que, de outro modo, não recuperaremos a saúde. Isto acontece porque, no nosso mundo, a recompensa e o castigo são claramente perceptíveis para todos; assim, todos têm de obedecer às leis da natureza.
Mas, independentemente de as nossas almas estarem doentes e só poderem ser curadas mediante esforços altruístas, quando não conseguimos ver recompensas e castigos evidentes, não nos conseguimos forçar a empreender o processo de cura.
Portanto, a cura da alma depende inteiramente da nossa fé.
A metade inferior do objecto espiritual superior encontra-se dentro da metade superior do objecto espiritual inferior. No objecto inferior, o masach [Tela] localiza-se na área dos olhos. Este estado é conhecido como “cegueira espiritual”, porque, nessa condição, apenas a metade inferior do objecto superior nos é visível, já que o masach do objecto espiritual inferior oculta parte do objecto superior.
O objecto espiritual superior faz descer o seu masach para o inferior; depois revela-se ao inferior, que começa a ver o objecto superior tal como o superior se vê a si próprio. Como resultado, o objecto inferior recebe o estado de plenitude (gadlut). O inferior vê então que o superior se encontra num estado de “grandeza” e compreende que a ocultação anterior do superior e a sua manifestação aparente como estado “pequeno” (katnut) foram feitas exclusivamente em benefício do inferior. Desta forma, o inferior pôde tomar consciência da importância do superior.
Todos os estados consecutivos que experienciamos no nosso percurso podem comparar-se a uma doença infligida pelo Criador, que o próprio Criador acaba por curar. Quando percebemos esta doença (por exemplo, como desespero, fraqueza e desesperança) como vontade do Criador, esses estados transformam-se em etapas de correção e podemos progredir rumo à unidade com o Criador.
Assim que a Luz do Criador entra num desejo egoísta, esse desejo submete-se imediatamente à Luz e fica pronto para ser transformado em altruísmo. (Já foi dito muitas vezes que a Luz não pode entrar num desejo egoísta, mas há dois tipos de Luz: a Luz que vem corrigir o desejo, e a Luz que traz prazer; neste caso referimo-nos à Luz que traz a correção.)
Assim, quando a Luz entra nesses desejos, eles são transformados nos seus opostos. Desta maneira, até os nossos maiores pecados se convertem em méritos. Mas isto só ocorre se regressarmos por amor ao Criador, quando somos capazes de receber toda a Luz do Criador não por nós próprios. Só então as nossas ações (desejos) anteriores se transformam em vasos capazes de receber Luz.
Tal estado, porém, não pode ocorrer antes da correção final. Até lá, só podemos receber uma parte da Luz do Criador, não por nós próprios, mas segundo o princípio da linha do meio.
Há várias formas de receber: por caridade, por dádiva, ou por apropriação forçada (exigindo porque se julga com direito). Quando se recebe por caridade, pode haver vergonha, mas pede-se por necessidade. Já a dádiva não se pede; é dada a quem se ama. Quem exige não considera o que recebe nem como caridade nem como dádiva, mas por direito.
Este último sentimento é característico dos justos que exigem do Criador, julgando ter direito a algo destinado a eles no próprio plano da Criação. Por isso se diz: “Os justos apropriam-se à força.”
Abraham (a linha direita: fé acima da razão) estava disposto a sacrificar Isaac (a linha esquerda: razão e controlo do estado espiritual) para progredir constantemente apenas pela linha direita. Consequentemente, avançou para a linha do meio, que combina as duas.
A fé simples é uma fé não controlada e costuma ser conhecida como “fé abaixo da razão”. A fé verificada pela razão é conhecida como “fé dentro da razão”. Mas a fé acima da razão só é possível depois de se ter analisado o próprio estado.
Assim, se, vendo que não conseguimos nada, ainda assim escolhermos a fé como se tudo estivesse realizado, e continuarmos a sustentar essa crença até ao ponto crítico, então isso é considerado “fé acima da razão”, porque ignorámos a razão. Só então nos tornamos dignos da linha do meio.
Há três linhas de comportamento espiritual: a linha direita, a linha esquerda e a combinação das duas — a linha do meio. Se o indivíduo possui apenas uma linha, não pode ser considerada nem direita nem esquerda, pois só a posse de duas linhas opostas permite determinar qual é qual.
Existe também a linha recta, conhecida como estado de perfeição, pela qual viaja todo aquele que acredita; é o único caminho cujas leis somos educados e pelo qual percorremos toda a vida.
Todo aquele que viaja por este caminho sabe exactamente quanto esforço deve despender, segundo os seus próprios cálculos, para sentir que cumpriu todas as obrigações. Assim, sente satisfação no trabalho. Para além disso, sente que cada dia que passa acrescenta mais méritos e benefícios, pois observou vários mandamentos adicionais.
Esta linha de acção chama-se “linha recta”. Aqueles que foram guiados por ela desde jovens não se desviam, porque foram ensinados a comportar-se assim desde a infância, sem necessidade de auto-controlo ou auto-crítica. Por isso, viajam em linha recta toda a vida, e cada dia aumenta os seus méritos.
Aqueles que viajam pela linha da direita devem actuar como os que viajam pela linha recta. A única diferença é que os da linha recta não têm auto-crítica do estado espiritual. Os que viajam pela linha direita dão cada passo com dificuldade, pois a linha esquerda neutraliza a direita, despertando sede espiritual e, por isso, não traz satisfação do estado espiritual alcançado.
Quando viajamos pela linha recta, não examinamos criticamente o nosso estado, mas acrescentamos constantemente novos méritos aos anteriores, pois temos uma base sólida em que nos apoiar. Entretanto, a linha esquerda apaga todos os esforços anteriores.

Fé, o Único Antídoto para o Egoísmo

O factor mais importante na percepção do prazer é a sede de prazer, a qual na Cabala é conhecida como “vaso”. O tamanho do vaso é determinado pelo nível em que se sente a necessidade da falta de prazer.
Por esta razão, se duas pessoas-vasos distintas recebem o mesmo prazer, uma sentirá uma saciedade absoluta, enquanto a outra não sentirá possuir nada e, por isso, ficará muito deprimida.
Portanto, cada pessoa deve esforçar-se por viver no momento presente; tomando o conhecimento dos estados anteriores; com fé acima da razão no estado presente, não temos necessidade do futuro.
A percepção de Eretz Yisrael (“Terra de Israel”) e, consequentemente, a revelação do Criador, é concedida àqueles que alcançaram o nível espiritual de Eretz Yisrael. Para alcançar este nível, é preciso livrar-se das três forças impuras, que significam a circuncisão espiritual do egoísmo, e assumir voluntariamente a condição de restrição (tzimtzum), para que a Luz não entre no egoísmo.
Quando a Cabala diz que algo é “proibido”, na realidade implica que algo é impossível mesmo que seja desejado. O objectivo, porém, não é desejá-lo. Por exemplo, se um indivíduo trabalha num certo emprego durante uma hora por dia, e não conhece outros trabalhadores que já tenham sido recompensados pelo seu trabalho, essa pessoa preocupar-se-á se haverá pagamento pela tarefa realizada, mas muito menos do que a pessoa que trabalha dez horas por dia.
Esta última deve ter muito mais fé no patrão, mas também tem de suportar maior sofrimento por não ver outros a serem recompensados. E se alguém desejar trabalhar dia e noite, então essa pessoa sente uma consciência ainda maior da ocultação do patrão e da recompensa. Isto porque o trabalhador tem uma maior necessidade de saber se haverá, no final, a recompensa prometida.
Contudo, aqueles que avançam pela fé acima da razão desenvolvem em si próprios uma imensa necessidade da revelação do Criador e, juntamente com ela, uma capacidade para enfrentar essa revelação. Nesse momento, o Criador desvendará toda a Criação diante deles.
A única forma de evitar o uso de desejos egoístas é avançar pelo caminho da fé.
Só se recusarmos ver e saber por medo de perder a capacidade de trabalhar altruisticamente poderemos continuar a receber sentimentos fortes e conhecimento na medida em que o avanço pelo caminho da fé não seja impedido.
Torna-se assim claro que o ponto crucial de não trabalhar pelo próprio benefício provém da necessidade de abandonar as possibilidades egoístas limitadas de alcançar prazer. Em vez disso, deve-se procurar obter as possibilidades ilimitadas de receber prazer fora das fronteiras estreitas do corpo. Tal “órgão” espiritual de percepção é conhecido como “fé acima do conhecimento”.
Aqueles que alcançam o nível de desenvolvimento espiritual em que podem trabalhar sem receber qualquer recompensa para o egoísmo tornam-se compatíveis em qualidades com o Criador (e, portanto, alcançam proximidade com Ele, porque nos reinos espirituais só a diferença de qualidades separa os objectos, pois não existem conceitos de espaço e tempo).
Obtém-se também prazer infinito, não limitado por sentimentos de vergonha como quando se recebe caridade. Quando percebemos a presença totalmente abrangente e invisível do Intelecto Superior, que permeia todo o universo e tem domínio sobre tudo, recebemos o mais verdadeiro sentido de apoio e confiança. Por isso, a fé é o único antídoto para o egoísmo.
Os seres humanos, por natureza, só têm poder para fazer aquilo que compreendem e sentem. Isto é conhecido como “fé dentro da razão”. A fé é chamada uma força superior, confrontadora, que dá a capacidade de agir mesmo quando ainda não realizamos nem compreendemos a essência das nossas ações; isto é, a fé é uma força que não depende do nosso interesse pessoal, do egoísmo.
Diz-se que no lugar onde se encontra um ba’al teshuva (aquele que deseja regressar e aproximar-se do Criador) não pode estar um justo completo. Quando se corrige um novo desejo, considera-se que se é completamente justo. Quando se é incapaz de corrigir, chama-se “pecador”.
Mas se alguém se supera a si próprio, então chama-se “aquele que regressa”. Como todo o nosso caminho conduz apenas ao objectivo da Criação, cada estado consecutivo novo é superior ao anterior e o novo estado daquele “que regressa” é superior ao estado anterior do “justo”.
Percebemos o Criador como uma Luz de prazer.
Dependendo das qualidades e do nível de pureza do nosso próprio vaso altruísta (o nosso órgão de percepção da Luz espiritual), percebemos a Luz do Criador de diferentes formas. Tendo isto em consideração, embora exista apenas uma Luz, atribuímos-lhe diferentes nomes com base nas nossas próprias percepções dela e no seu efeito sobre nós.


Luz que Traz a Correção

Existem dois tipos de Luz do Criador: a Luz do conhecimento, da razão e da sabedoria (chamada Ohr Hochma), e a Luz da misericórdia, da confiança e da unidade (chamada Ohr Hassadim). Por sua vez, a Ohr Hochma apresenta-se em dois tipos, conforme a sua ação sobre nós.
Primeiro, quando a Luz chega, descobrimos o nosso próprio mal. Depois, quando já descobrimos o mal e compreendemos que não devemos usar o egoísmo, essa mesma Luz confere força a esses desejos egoístas, de modo que possamos trabalhar (receber prazer) com eles, mas não para nós próprios. Finalmente, quando ganhamos força para vencer o nosso próprio egoísmo, essa mesma Luz torna possível que os desejos corrigidos, outrora egoístas, recebam prazer no altruísmo.
Por outro lado, a Ohr Hassadim concede-nos o desejo de “dar” em vez de “receber” prazer. Por esta razão, dos 320 desejos não corrigidos da alma, a acção da Ohr Hochma separa as 32 partes de Malchut (que vão sendo gradualmente sentidas à medida que ocorrem ascensões espirituais, tal como o indivíduo vai compreendendo progressivamente toda a profundidade do seu mal e se horroriza ao tomar consciência da sua própria essência) do desejo de receber prazer pessoal, porque compreendemos que o egoísmo é o nosso pior inimigo.
Os restantes 288 desejos não têm nem direcção egoísta nem altruísta, pois são simplesmente sensações (como as da audição, da visão, etc.), que podem ser usadas de qualquer modo que escolhemos: para nós próprios ou para os outros. Sob a ação da Ohr Hassadim, desenvolvemos o desejo de trabalhar altruisticamente com todas as 288 sensações. Isto ocorre depois de a Ohr Hochma ter substituído os 32 desejos egoístas pelos 32 desejos altruístas.
Uma correção sob a influência da Luz ocorre sem sensação de prazer derivado dela. Sente-se apenas a diferença de qualidades entre o próprio egoísmo e a magnificência da Luz. Só isto já é suficiente para se libertar dos desejos corpóreos. Por isso se diz: “Criei a inclinação ao mal, e criei a Cabala como remédio para ela.”
Mas depois, tendo corrigido os desejos, começa-se a receber a Luz para deleitar o Criador. Esta Luz, também conhecida como “Torá”, é chamada “Os Nomes do Criador”, porque o indivíduo recebe em si próprio e na sua alma uma parte do Criador e atribui nomes ao Criador de acordo com os prazeres recebidos da Luz.
Só podemos entrar no mundo espiritual tornando-nos completamente desinteressados (desejando misericórdia, hafetz hesed).
Esta é a condição mínima para garantir que nenhum desejo egoísta nos possa alguma vez seduzir e, assim, causar dano, porque nada queremos para nós próprios.
Sem a protecção das tendências altruístas com a qualidade da Ohr Hassadim, quando começamos a receber o prazer ilimitado da Luz Superior, inevitavelmente desejaremos gratificar-nos a nós próprios e, assim, provocaremos a nossa própria ruína; nunca conseguiremos abandonar o egoísmo pelo altruísmo. Toda a nossa existência consistirá em perseguir esses prazeres, que são inacessíveis aos nossos desejos egoístas.
Mas a Ohr Hassadim, que nos confere um anseio pelo altruísmo, não pode fazer brilhar a sua Luz nos nossos desejos egoístas. Os desejos egoístas são sustentados por uma centelha da Luz que se encontra em nós, colocada à força pelo Criador para resistir às leis da natureza da espiritualidade. Isto permite-nos manter a vida, porque, sem receber qualquer prazer, o ser humano não consegue sobreviver.
Se esta centelha da Luz Superior desaparecesse, pereceríamos imediatamente. Só assim poderíamos romper com o egoísmo e com o nosso desejo insatisfeito de ser gratificados, o que nos traria trevas absolutas e desespero.
Qual a razão por que a Ohr Hassadim não pode entrar no egoísmo? Como já foi demonstrado anteriormente, a própria Luz não traz distinção entre Ohr Hochma ou Ohr Hassadim, mas é o indivíduo que determina esta distinção. Um desejo egoísta pode começar a receber prazer na Luz, independentemente da origem da Luz; ou seja, pode começar a receber prazer na Ohr Hassadim por si próprio. Apenas um desejo preparado para ações altruístas pode receber a Luz para receber prazer no altruísmo; ou seja, receber a Luz como Ohr Hassadim.
O indivíduo recebe prazer de três tipos de sensações: passadas, presentes e futuras. O maior prazer deriva das sensações do futuro, porque o indivíduo começa a antecipar o prazer no presente, ou seja, o prazer é experienciado no presente. Desta forma, antecipar e pensar em actos reprováveis é pior do que os próprios actos, porque a antecipação prolonga o prazer e ocupa os pensamentos do indivíduo durante muito tempo.
O prazer presente é geralmente curto na sua duração, atendendo aos nossos desejos mesquinhos e facilmente satisfeitos.
O prazer passado, por outro lado, pode ser recordado repetidamente no intelecto e desfrutado. Assim, antes de nos envolvermos num acto de bondade, é necessário dedicar muito tempo a pensar e a preparar-nos para ele. Isto permite-nos absorver o maior número possível de sensações diferentes, para que mais tarde possamos recordá-las a fim de recriar as nossas aspirações rumo ao espiritual.
Porque o egoísmo é a essência da nossa natureza, desejamos deleitar-nos nas nossas vidas. Assim, se nos for dado do Alto, nos nossos desejos, uma pequena semente de alma, que pela sua natureza deseja e tenta existir em prazeres anti-egoístas, então o egoísmo já não pode motivar esses tipos de acções. Assim, deixa de haver gratificação numa tal vida.
Isto porque a alma não nos dá descanso, recordando-nos constantemente que não vivemos uma vida verdadeira e plena, mas apenas existimos. Como resultado, começamos a ver a vida como insuportável e cheia de sofrimento, porque, independentemente das nossas ações, somos incapazes de receber prazer. Pelo menos, não podemos ficar satisfeitos com nada, porque a alma não nos permite satisfazer-mo-nos. Assim continua até que o próprio egoísmo decida que não há outra solução senão escutar a voz da alma e seguir as suas direcções. Caso contrário, nunca estaremos em paz.
Esta situação pode ser descrita como “o Criador que nos traz de volta a Ele contra a nossa vontade”. É impossível percebermos sequer o mais pequeno prazer se não sentirmos previamente a sua falta. Esta falta de um prazer desejado define-se como “sofrimento”.
A capacidade de receber a Luz Superior também requer um desejo prévio por ela. Por esta razão, quando estamos a estudar e durante outras acções, devemos pedir para sentir uma necessidade da Luz Superior.
“Não há Nada Além Dele.” Tudo o que acontece é o Seu desejo, e todas as criações cumprem a Sua Vontade. A única diferença é que existe um pequeno grupo de pessoas que cumprem a Sua Vontade porque assim o desejam. A experiência de unificação do Criador com o ser criado só é possível quando existe uma congruência de desejos.
Uma “bênção” define-se como uma dispersão do Alto da Luz de misericórdia (Ohr Hassadim), o que só é possível quando estamos envolvidos em actos altruístas. Dizem os cabalistas: “As necessidades do teu povo são grandes, mas a sua sabedoria é pequena.” As necessidades são grandes precisamente porque a sabedoria é pequena.
Rabbi Yehuda Ashlag said: "Our state can be likened to the state of the King’s son, who was placed by his father in a palace filled with all kinds of treasures but with no light with which to see it all. So the son sits in the darkness and lacks only the light in order to possess the riches. He even has a candle with him (the Creator sends him the possibility to begin the advance toward Himself), as it is said: ’The soul of a human being is the candle of the Creator.’ One needs only to light it by his own desire."
Rabino Yehuda Ashlag disse: “Embora se diga que o objectivo da criação é incompreensível, há uma grande diferença entre a sua incompreensão pelo sábio e a ignorância do simplório.”
Rabino Yehuda Ashlag disse: “A lei da raiz e do ramo implica que o mais baixo deve alcançar o nível do mais alto, mas o mais alto não tem de ser como o mais baixo.”
Todo o nosso trabalho consiste na preparação para receber a Luz. Como disse Rabino Yehuda Ashlag: “O mais importante é o kli — vaso, embora o kli sem luz seja tão sem vida como o corpo sem a alma. Assim, devemos preparar o nosso kli com antecedência, para que, quando receba a luz, funcione correctamente. Isto pode comparar-se a uma máquina feita pelo homem que funciona com electricidade. A máquina não funcionará a menos que esteja ligada à fonte eléctrica, mas o resultado do seu trabalho depende da forma como a própria máquina foi construída.”
No mundo espiritual, todas as leis e desejos são diametralmente opostos aos do nosso mundo.
Tal como no nosso mundo é extremamente difícil agir contra o conhecimento e a compreensão, assim no mundo espiritual é extremamente difícil progredir com conhecimento.
Como disse Rabino Yehuda Ashlag: “Diz-se que, quando todos estavam de pé durante o serviço no Templo, ficavam muito apertados, mas quando todos se prostravam, havia muito espaço.” O acto de estar de pé simboliza o estado de “grandeza” do partzuf, a receção da Luz; enquanto o ato de prostração é um estado de “infância” e representa a falta de Luz.
Neste estado inferior havia mais espaço e uma maior sensação de liberdade, porque no estado de ocultação do Criador, aqueles que estão no processo de ascensão espiritual sentem o potencial para avançar contra a sua razão, e esta é a origem da alegria no seu trabalho.
Rabino Yehuda Ashlag costumava contar a história de um grande cabalista do século passado, Rabino Pinchas, da aldeia de Korits. Rabino Pinchas não tinha dinheiro nem mesmo para comprar “A Árvore da Vida” do Ari, e foi forçado a ensinar crianças durante meio ano para ganhar o dinheiro necessário para adquirir este livro. Embora possa parecer que os nossos corpos são um obstáculo à nossa ascensão espiritual, só parece assim porque não estamos cientes das funções que o Criador lhes atribuiu.
Como disse Rabino Yehuda Ashlag: “O nosso corpo é como uma âncora (uma peça num relógio); embora a âncora pare o relógio, sem ela o relógio não funcionaria, não avançaria.”
Noutra ocasião, Rabino Ashlag disse: “No cano de uma espingarda de longo alcance há um estriamento especial que torna difícil a saída da bala, mas precisamente por causa deste estriamento a bala voa mais longe e é mais precisa.” Na Cabala, tal estado é conhecido como kishui.
Rabino Yehuda Ashlag disse: “Todos estão tão habituados a interpretar a Bíblia de acordo com os conceitos deste mundo, que mesmo quando está explicitamente dito na Bíblia ‘Protejam as vossas almas’, ainda assim entende-se que significa a saúde do corpo.»
Rabino Yehuda Ashlag disse: “O indivíduo encontra-se no estado espiritual na medida em que compreende que os seus desejos egoístas são, na essência, a força impura.”
Rabino Yehuda Ashlag disse: “O mais inferior dos níveis espirituais é alcançado quando o espiritual se torna o mais importante e vem antes do material.”
Rabino Yehuda Ashlag disse: “Só numa coisa é que a pessoa pode mostrar altivez: em afirmar que ninguém mais pode agradar ao Criador mais do que ele próprio.”
Rabino Yehuda Ashlag disse: “A recompensa por cumprir um Mandamento está em ganhar a percepção daquele que o ordena.”
Rabino Yehuda Ashlag disse: “As preocupações deste mundo não preocupam aqueles que se dedicam à ascensão espiritual, tal como a pessoa gravemente doente não se preocupa com o salário, mas apenas com sobreviver à doença.”
Rabino Yehuda Ashlag disse: “No espiritual, tal como no nosso mundo físico, se algo nos acontece por circunstâncias que estavam fora do nosso controlo, esse facto em si não nos salvará. Por exemplo, se alguém cair, inadvertidamente, de um penhasco, o mero facto de ter caído, mesmo que não quisesse cair, não o salvará de morrer. O mesmo acontece no mundo espiritual.”
Quando Rabino Yehuda Ashlag estava doente, chamou-se um médico para o ver. O médico prescreveu repouso e paz, sugeriu que era importante acalmar os nervos do paciente e comentou que, se ele se dedicasse ao estudo, deveria escolher algo simples como os Salmos.
Quando o médico saiu, Rabino Yehuda comentou: “Parece que o médico pensa ser possível ler os Salmos superficialmente, sem procurar um significado mais profundo.”
Rabino Yehuda Ashlag disse: “Não há lugar intermédio entre o espiritual, altruísta ‘dar’ e o material, egoísta, impuro ‘receber’. Se em cada momento a pessoa não está ligada ao espiritual, esquece-o por completo e permanece no estado impuro e físico.”
Diz-se no livro HaKuzari que o Rei Kuzari, quando chegou o momento de seleccionar uma religião para o seu povo, recorreu a um cristão, a um muçulmano e finalmente a um judeu. Quando o Rei ouviu o judeu, verificou que o cristão e o muçulmano lhe prometiam vida eterna celestial e grandes recompensas no mundo vindouro, após a sua morte. Por outro lado, o judeu falava das recompensas pelo cumprimento dos Mandamentos e do castigo por os desobedecer neste mundo.
Mas ao Rei parecia mais importante preocupar-se com o que receberia no mundo vindouro, após a morte, do que com a forma como deveria viver a sua vida neste mundo.
O judeu explicou então que aqueles que prometem recompensa no mundo vindouro o fazem porque querem afastar-se da falsidade desta maneira, para ocultar a mentira e o significado nas suas palavras. De forma semelhante, Rabino Yehuda Ashlag explicou que, segundo as palavras de Agra, o conceito de yehudi (“judeu”) é o nome para aquele que alcançou todo o mundo espiritual, todo o mundo vindouro, enquanto neste mundo.
Isto é o que a Cabala nos promete como recompensa. Todas as recompensas da Cabala devem ser recebidas enquanto a pessoa está neste mundo, especificamente enquanto dentro do corpo, para sentir tudo com o corpo.
Rabino Yehuda Ashlag disse: “Quando a pessoa sente que as forças impuras, ou seja os desejos egoístas, começam a pressioná-la, este é o início da sua libertação espiritual.”
Rabino Yehuda Ashlag disse, comentando a Cabala “Tudo está nas mãos de Deus, excepto o temor de Deus”: Em relação a tudo o que a pessoa pede ao Criador, o Todo-Poderoso decide se concede à pessoa o que lhe é pedido ou não. No entanto, o pedido para conceder o ‘temor do Céu’ não é decidido pelo Criador, mas se a pessoa verdadeiramente anseia ter o temor de Deus, certamente lhe será concedido este pedido.