Capítulo 26. Cognição do Mundo Espiritual
Cognição do Mundo Espiritual
Muito papel foi desperdiçado por filósofos a discutir a impossibilidade de compreender o Criador. O judaísmo, enquanto doutrina fundada na experimentação pessoal dos cabalistas, responde à pergunta: Como podemos falar sobre a possibilidade ou impossibilidade de perceber o Criador antes de O percebermos?
Qualquer afirmação definitiva implica uma certa medida de percepção. Por isso, é primeiro necessário definir o que se entende ao dizer “é impossível perceber o Criador ou a infinidade”. Com base em quê podemos afirmar que compreendemos estas noções?
É claro que, ao falarmos de compreender o Criador, implicamos que tal compreensão seria feita com os nossos órgãos sensoriais e o nosso intelecto, tal como se faz ao investigar qualquer outra coisa no nosso mundo. Para além disso, todos os conceitos devem ser compreensíveis para todos no nosso mundo, tal como quaisquer outros conceitos que estejam a ser investigados. Assim, as ideias devem encarnar algo tangível e real, algo que possa ser discernido pelos nossos órgãos sensoriais.
O limite mais próximo da percepção encontra-se nos órgãos de sensação tátil, quando entramos em contacto direto com o limite externo do objeto. Quanto ao uso do sentido da audição, já não estamos em contacto direto com o próprio objeto, mas sim em contacto com o intermédio que transmite o objeto (como o ar), o qual esteve em contacto com o limite externo do objeto, seja pelas cordas vocais de um ser humano, seja pela superfície oscilante que emite uma onda sonora. Do mesmo modo, usamos os nossos órgãos de percepção espirituais para perceber o Criador.
Uma sensação de contacto (muito semelhante a uma sensação tátil) com o limite externo do ser criado é conhecida como “visão profética”. Por outro lado, um contacto que foi interrompido por um certo outro meio que entrou em contacto com o limite externo do ser criado (muito semelhante à sensação da audição) é conhecido como “audição profética”.
A “visão profética” é considerada a revelação mais evidente (tal como no nosso mundo desejamos ver um objeto e consideramos isso a percepção mais completa do objeto), porque entramos em contacto direto com a Luz que emana do próprio Criador.
Por outro lado, a “audição profética” (a voz do Criador) é definida pelos cabalistas como incompreensível, em oposição à visão profética. É semelhante à nossa capacidade de ouvir ondas sonoras, pois o que realmente sentimos são os sinais do objeto espiritual intermédio que emanam do contacto desse objeto intermédio com o limite externo do Criador. Interpretamos estas ondas, tal como no caso da visão profética, como ondas sonoras.
Os cabalistas que alcançaram a compreensão profética do Criador primeiro percebem-No através dos seus correspondentes espirituais da visão ou da audição. Posteriormente, interpretam o que perceberam. Notavelmente, a compreensão de fenómenos visíveis dá-lhes uma cognição completa, ao passo que é impossível compreender a natureza de um fenómeno puramente auditivo.
Mas, tal como no nosso mundo, mesmo uma simples audição é suficiente para apreender qualidades do objeto em estudo (mesmo uma pessoa cega de nascença sente muitas qualidades das que estão próximas), também a cognição espiritual derivada da audição é suficiente. Isto deve-se ao facto de que, com a audição espiritual, a informação que chega contém em si todas as outras qualidades ocultas.
O mandamento de compreender o Criador na essência reduz-se à percepção d'Ele através da visão e audição espirituais a tal ponto que temos absoluta certeza de que estamos conscientes de um contacto visual e auditivo pleno com o Criador, o qual é chamado "face a face".
A criação e o governo dos seres criados ocorrem através de dois fenómenos opostos: a ocultação da omnipotência do Criador e a revelação gradual da Sua omnipotência, de modo que as criaturas O possam perceber através das suas qualidades corrigidas.
Por esta razão, um dos nomes do Criador em hebraico é Maatzil, da palavra tzel, "sombra"; há também outro nome: Boreh, derivado das palavras bo-re’eh, "vem e vê". Consequentemente, destes palavras derivaram os nomes dos dois mundos: Atzilut e Beria.
Somos incapazes de compreender o verdadeiro estado da criação, mas apenas aquilo que os nossos sentidos podem perceber, seja material ou espiritual.
A nossa consciência divide tudo o que existe no mundo em vazio ou suficiência. Isto assim é, mesmo que as "pessoas cultas" insistam que realmente não existe tal conceito como vazio completo ou vácuo.
Este conceito está para além da nossa compreensão, porque só podemos compreender o que falta através dos nossos sentidos. Mas somos capazes de sentir uma ausência ou um vazio se compararmos a relação do que existe neste mundo com a nossa situação após a morte.
Contudo, mesmo vivendo neste mundo, sentimos como se tudo o que está fora dos nossos corpos fosse de algum modo ausente e não existisse realmente. A verdade é exatamente o oposto: o que existe fora de nós é eterno e existente, enquanto nós próprios somos nada e desaparecemos no nada.
Estes dois conceitos são absolutamente inadequados porque as nossas sensações levam-nos a acreditar que tudo o que existe está ligado a nós e existe apenas nesse enquadramento; ao passo que tudo o que está fora de nós não tem qualquer valor. Mas a razão aponta para o oposto — que somos nós os insignificantes, enquanto tudo o que está fora de nós é eterno.
Apreensão de Níveis Espirituais Superiores
A porção infinitamente pequena da Luz Superior que existe em todos os objetos, tanto animados como inanimados, determinando a sua existência, é conhecida como "a pequena Luz" (Nehiro Dakik).
A proibição de revelar os segredos da Cabala provém da preocupação de que surja desdém pela Cabala. Tudo o que é desconhecido suscita respeito e é percebido como algo valioso. Tal é a natureza dos seres humanos: uma pessoa pobre valoriza um cêntimo, mas uma vez que possui um milhão, já não valoriza o milhão, mas procura dois milhões, e assim por diante.
O mesmo padrão pode ser observado na ciência: o desconhecido suscita respeito e é considerado valioso, mas uma vez que se torna conhecido e compreendido, deixa de ser valorizado. Então, novos objetos desconhecidos tomam o lugar dos anteriores e tornam-se objetivos a perseguir.
Por esta razão, os segredos da Cabala não podem ser revelados às massas, porque uma vez que os apreendam, crescerá o desdém pela Cabala. Mas os segredos da Cabala podem ser revelados aos cabalistas porque estes procuram expandir o seu conhecimento, tal como os cientistas deste mundo o fazem.
Porque não valorizam o seu conhecimento, esse facto em si impele-os a perseguir a compreensão do que ainda é desconhecido. Assim, todo o mundo foi criado para aqueles que procuram apreender os mistérios do Criador. Aqueles que sentem e apreendem a Luz Superior da vida que emana do Criador (Ohr Hochma) não obstante não apreendem o Criador, ou a Sua essência, no processo.
Mas isto não se aplica àqueles que apreendem níveis espirituais superiores. Aqueles que percebem os níveis espirituais e a Luz particular a esses níveis não só percebem a Luz, mas apreendem o Criador. Os cabalistas não podem alcançar nem mesmo o nível espiritual mais baixo se não apreenderem o Criador e as Suas qualidades em relação a nós, as quais pertencem a esse nível espiritual particular.
No nosso mundo, chegamos a compreender os nossos amigos de acordo com as suas ações, tanto para connosco como para com os outros. Depois de nos familiarizarmos com as várias qualidades de um indivíduo, como bondade, inveja, ira, disposição para o compromisso e assim por diante, podemos afirmar que “conhecemos” esse indivíduo.
Do mesmo modo, depois de um cabalista apreender todas as ações e a manifestação Divina nessas ações, o Criador revela-Se ao cabalista através da Luz, de uma forma completamente compreensível. Se os níveis espirituais e a Luz que deles emana não trouxerem consigo a possibilidade de perceber o Criador “em Si próprio”, então consideramo-los impuros. (“Em Si próprio” implica, tal como no nosso mundo, que obtemos uma impressão de alguém através das suas ações e não sentimos a necessidade de descobrir mais nada. Afinal, aquilo que não podemos perceber de todo não desperta em nós interesse nem necessidade de ser percebido).
As forças impuras, tais como klipa e Sitra Achra, são as forças que nos dominam, impedindo-nos de nos deleitarmos em todo o prazer que nos chega para nos satisfazer com o pouco que experienciamos. Ou seja, estas forças incitam-nos a contentarmo-nos com o conhecimento que já possuímos, a conformarmo-nos com a casca (klipa) enquanto deixamos de lado o “fruto” propriamente dito.
Por isso, os nossos intelectos não conseguem compreender o propósito de trabalhar em benefício do Criador, pois a interferência causada pelas forças impuras não nos permite compreender o significado oculto da Cabala.
Num objeto espiritual, a Luz que preenche a sua metade superior, desde o Rosh (cabeça) até ao Tabur (umbigo), é chamada “o passado”, enquanto a luz que preenche a sua metade inferior é chamada “o presente”. A luz circundante que ainda não entrou no objeto, mas aguarda a sua vez de ser revelada, é chamada “o futuro”.
Se alguém caiu espiritualmente e os desejos egoístas aumentaram, então a importância do espiritual diminui aos olhos dessa pessoa.
Mas um declínio espiritual é enviado do Alto com um propósito: transmitir a compreensão de que ainda se está no exílio espiritual; isto, por sua vez, deve incitar a pessoa a orar pela redenção.
Contudo, não encontraremos verdadeira serenidade até elevarmos o nosso propósito predestinado — a libertação espiritual de nós próprios e de toda a humanidade — acima de tudo o mais. O exílio é um conceito espiritual.
Galut não é a escravidão física que foi experienciada por todas as nações em algum momento da sua história. Galut é a escravidão de cada um de nós pelo nosso pior inimigo — o egoísmo. Para além disso, esta escravidão é tão sofisticada que não temos consciência de que estamos constantemente a trabalhar para esse senhor — essa força externa que nos possuiu e agora dita-nos os seus próprios desejos.
Nós, como loucos, não nos apercebemos disto e esforçamo-nos com todo o nosso empenho para cumprir todas as exigências do ego. Verdadeiramente, o nosso estado pode ser comparado ao dos doentes mentais que percebem vozes imaginárias como ordens ou, pior ainda, como desejos pessoais verdadeiros, e que executam essas ordens e desejos.
O nosso galut é o nosso exílio do espiritual, a nossa incapacidade de estarmos em contacto com o Criador e de trabalharmos só para Ele. Tomar consciência de estarmos neste estado é uma condição vital para a nossa libertação dele.
Inicialmente, o ego está inclinado a estudar Cabala e a fazer o esforço necessário para compreender o espiritual, pois vê certos benefícios em possuir conhecimento espiritual. No entanto, quando começamos a perceber todas as implicações do verdadeiro trabalho “em benefício do Criador” e somos forçados a pedir a nossa libertação, então afastamos tal redenção, convencendo-nos de que é impossível ter êxito num tal trabalho.
Assim, mais uma vez, tornamo-nos escravos da nossa própria razão, ou seja, regressamos aos ideais da vida material. A nossa redenção de tal estado só pode ser encontrada ao agir de acordo com a fé acima da razão.
Uma descida espiritual não implica a perda da fé.
Ao revelar-nos mais sobre o nosso egoísmo, o Criador concede-nos a possibilidade de fazer um esforço extra e, ao fazê-lo, aumentar a nossa fé. O nosso antigo nível de fé não se perdeu, mas quando consideramos o trabalho que temos pela frente, experimentamo-lo como tendo sido uma descida espiritual.
O nosso mundo foi criado à semelhança do mundo espiritual, com a exceção de que é formado a partir de matéria egoísta. Podemos obter um conhecimento significativo do mundo circundante, se não sobre as qualidades dos objetos espirituais, pelo menos sobre as suas inter-relações, comparando-as com o nosso mundo.
O mundo espiritual também contém conceitos como o mundo, um deserto, um aldeamento, países, etc. Todas as ações espirituais (mandamentos) podem ser mantidas em qualquer nível, exceto os mandamentos do amor e do temor. Estes mandamentos revelam-se apenas àqueles que alcançaram o nível espiritual da Terra de Israel (Eretz Yisrael).
Dentro do nível de Eretz Yisrael existe um sub-nível conhecido como Jerusalém (Yerushalayim), derivado das palavras yir’ah (temor) e shalem (completo): o desejo de experienciar tremor perante o Criador, o qual nos ajuda a libertarmo-nos do egoísmo.