<- Biblioteca de Cabala
Continuar a Ler ->

Capítulo 25. O Processo de Adaptação ao Criador

A Criação, uma ação altruísta, é a saída do egoísmo. Consiste em colocar um limite ou um Masach [Tela] ao prazer que chega sob a forma de Luz espiritual. Este Masach [Tela] reflecte, por sua vez, o prazer de volta à sua Origem. Ao fazê-lo, limitamos voluntariamente o nosso potencial de prazer e estabelecemos o motivo pelo qual aceitamos o prazer — não para nós próprios, mas em benefício do objectivo da criação.
O Criador deseja dar-nos prazer; assim, ao deleitarmo-nos nesse prazer, deleitamos por sua vez o Criador, e esta é a única razão pela qual nos permitimos desfrutar desse prazer. Notavelmente, decidimos por nós próprios que o prazer que recebemos deve provir disto: de beneficiarmos o Criador e, assim, termos a força de vontade para resistir a receber prazer diretamente.
Nestes casos, as nossas acções e a forma das ações do Criador coincidem, e para além do prazer original experienciamos também um grande prazer pela concordância das nossas qualidades com as qualidades do Criador — a Sua grandeza, força, poder, pleno conhecimento e existência ilimitada.
O nível da nossa maturidade espiritual é determinado pela dimensão do Masach [Tela] que conseguimos erguer no caminho do prazer egoísta: quanto maior a força das nossas contramedidas aos interesses pessoais, mais elevado o nível alcançado e maior a Luz que receberemos "em benefício do Criador".
Todos os nossos órgãos de percepção estão construídos do seguinte modo: quando contactam com a informação que entra através do som, da visão, do olfacto, etc., podemos então interpretar essa informação. Até que o sinal contacte com estas barreiras, não podemos nem sentir nem interpretar a informação.
Naturalmente, todos os nossos instrumentos de medição funcionam de acordo com este princípio fundamental, pois as leis do nosso mundo são simplesmente consequências das leis espirituais. Por isso, os novos fenómenos revelam-se no nosso mundo e, do mesmo modo, a nossa primeira revelação do Criador e cada sensação subsequente d'Ele dependem unicamente da dimensão do limite que conseguimos erguer.
No domínio espiritual, este limite é conhecido como vaso (kli). O que efectivamente percebemos não é a própria Luz, mas a sua interacção com o limite no caminho da sua disseminação, a qual deriva da influência desta Luz no vaso espiritual do ser humano.
Do mesmo modo, no nosso mundo, não percebemos o fenómeno em si, mas apenas o resultado da sua interacção com os nossos órgãos de percepção ou com os nossos instrumentos.
O Criador dotou uma certa parte de Si próprio com um desejo egoísta de prazer, desejo que Ele próprio criou. Consequentemente, essa parte deixou de perceber o Criador e sente-se apenas a si própria, o seu próprio estado, o seu próprio desejo. Esta parte chama-se “a alma”.
Esta parte egoísta é também uma parte do Criador, pois só Ele existe e não há vazio que não esteja preenchido por Ele. Contudo, porque o egoísmo sente apenas os seus próprios desejos, não percebe o Criador.
O objectivo da criação é que esta parte escolha regressar ao Criador pela sua própria vontade e pela sua própria decisão, tornando-se novamente semelhante a Ele nas suas qualidades.
O Criador controla completamente o processo de conduzir esta parte egoísta à união com Ele. Mas este controlo externo é imperceptível. O desejo do Criador manifesta-se (com a Sua própria ajuda oculta) no desejo de aderir com Ele que emana das profundezas da parte egoísta.
Para simplificar este problema, o Criador dividiu o egoísmo em 600.000 partes. Cada uma destas partes resolve o problema da rejeição do egoísmo gradualmente, chegando lentamente à percepção de que o egoísmo é mau através do processo repetitivo de aquisição de qualidades egoístas e sofrimento resultante delas.
Cada uma das 600.000 partes da alma colectiva é conhecida como “a alma” de um ser humano. O período de adesão com o egoísmo é conhecido como “a vida” de um ser humano. Uma interrupção temporária da ligação com o egoísmo é conhecida como “a existência” nos reinos superiores, espirituais. O momento em que a alma adquire qualidades egoístas é conhecido como “o nascimento” de um ser humano no nosso mundo.
Cada uma destas 600.000 partes da alma colectiva deve, após uma série de adesões com o egoísmo, escolher unir-se ao Criador e rejeitar o egoísmo, apesar de o egoísmo ainda estar presente na alma enquanto esta se encontra ainda [revestida] num corpo humano.
O processo gradual de adaptação ao Criador nas qualidades; a aproximação sistemática das qualidades da alma às do Criador é conhecido como “a ascensão espiritual”. A ascensão espiritual ocorre ao longo dos níveis ou degraus conhecidos como sefirot.
No total, desde o primeiro até ao último degrau de adesão com o Criador, a escada espiritual consiste em 125 degraus ou sefirot. Cada 25 sefirot constituem um estágio concluído, conhecido como um “mundo” ou um “reino”. Assim, para além do nosso próprio estado, conhecido como "o nosso mundo", existem 5 mundos.
O objectivo da parte egoísta é alcançar as qualidades do Criador ainda existindo em nós, neste mundo, de modo que, apesar do nosso egoísmo, possamos ainda perceber o Criador em tudo o que nos rodeia e dentro de nós. O desejo de unidade é um desejo natural em todos nós. É um desejo não influenciado por quaisquer pressupostos ou inferências; é antes um conhecimento profundo acerca da necessidade de nos unirmos ao Criador.
No Criador, este desejo existe como uma vontade livre, mas na criação actua como uma lei natural permanente. Como Ele criou a natureza segundo o Seu próprio plano, toda a lei natural representa o Seu desejo de ver tal ordem estabelecida. Portanto, todos os nossos instintos e desejos "naturais" emanam directamente do Criador, enquanto as inferências que requerem cálculos e conhecimento prévio são frutos das nossas próprias ações.
Se desejarmos alcançar a unidade completa com o Criador, devemos elevar esse desejo ao nível de conhecimento instintivo, como se tivesse sido recebido com a nossa própria natureza diretamente do Criador.
As leis dos desejos espirituais são tais que não há lugar para desejos incompletos ou parciais — aqueles que deixam espaço para dúvida ou para desejos alheios. Por esta razão, o Criador atende apenas à súplica que emana das nossas próprias profundezas e que corresponde ao desejo completo do vaso espiritual no nível em que existimos.
Mas o processo de nascimento de tal desejo nos nossos corações ocorre lentamente e acumula-se sem que o saibamos, num nível superior ao que o mero intelecto humano pode apreender.
O Criador consolida todas as pequenas orações que fazemos numa só e, ao receber a súplica final de ajuda da magnitude necessária, ajuda-nos.
Do mesmo modo, quando entramos na esfera de ação da Luz do Criador, recebemos tudo de uma vez, porque o Doador Supremo é eterno e não faz cálculos baseados no tempo e na circulação das vidas. Por esta razão, mesmo o nível espiritual mais baixo gera uma sensação completa da eternidade.
Mas porque continuamos a experienciar uma série de ascensões e declínios espirituais mesmo após atingirmos o nível espiritual inicial, existimos em condições tais como o mundo, o ano, a alma.
A alma dinâmica, que ainda não completou a sua própria correção, requer um lugar para se mover; este lugar é conhecido como “o mundo”. A soma de todos os movimentos da alma é percebida como tempo e é conhecida como um “ano”.
Mesmo o nível espiritual mais baixo gera a sensação de perfeição completa a tal ponto que só pela fé do indivíduo acima da razão compreendemos que elevar-se ao novo estado não é mais do que superar a “negação espiritual” de um nível espiritual superior. Só ao apreender este conceito se pode ascender ainda mais alto, ao nível espiritual que se acreditava existir e que se elevou acima da própria sensação de perfeição.
Os nossos corpos funcionam automaticamente de acordo com as leis da sua própria natureza egoísta e do hábito. Se repetirmos constantemente a nós próprios que desejamos apenas a ascensão espiritual, acabaremos por desejá-la. O corpo, graças a estes exercícios incessantes, aceitará este desejo como natural. Diz-se frequentemente que o hábito se torna um segunda natureza.
No estado de declínio espiritual, devemos agarrar-nos à crença de que “Quando Israel está no exílio, o Criador está com eles”.
Quando nos encontramos num estado de apatia e desespero, mesmo o mundo espiritual não nos interessa, pois tudo parece existir no nível em que nos encontramos nesse momento.
Por isso, devemos acreditar que este sentimento não é mais do que a nossa consciência pessoal, pois estamos presentemente num estado de exílio espiritual e, assim, inconscientes do Criador, que também se encontra exilado da nossa consciência.
A Luz que emana do Criador passa por quatro estágios antes de o egoísmo ser criado. Apenas o último, o quinto estágio (Malchut), é chamado criação porque percebe os seus próprios desejos egoístas de se deleitar na Luz do Criador.
Assim, os primeiros quatro estágios são todas qualidades da própria Luz, através das quais Ele nos cria. Aceitamos a qualidade mais elevada, a do primeiro estágio, ou o desejo de deleitar uma futura criação, como a qualidade do próprio Criador. No extremo do espectro encontra-se o quinto estágio de desenvolvimento, ou a criação egoísta, que deseja contrariar a sua própria natureza egoísta e tornar-se semelhante ao primeiro estágio. Embora se façam tentativas, estas são apenas parcialmente bem-sucedidas neste esforço.
O primeiro estágio de egoísmo, que pode contrariar-se plenamente a si próprio, é conhecido como o mundo Olam Adam Kadmon.
O segundo estágio de egoísmo é o mundo Olam Atzilut.
O terceiro estágio de egoísmo, que forma uma parte do quinto estágio que já não pode ser comparado nem ao primeiro nem ao segundo estágio, é o mundo Olam Beria.
O quarto estágio de egoísmo, que forma uma parte do quinto estágio, não tem força para se opor a si próprio, de modo a ser comparado ao primeiro, segundo ou terceiro estágios, mas pode apenas assemelhar-se ao quarto estágio do desenvolvimento da Luz. É conhecido como o mundo Olam Yetzira.
A parte restante do quinto estágio não tem força para aspirar a ser como qualquer um dos estágios anteriores. Pode apenas resistir passivamente ao egoísmo, impedindo-se de receber prazer (a ação contrária ao quinto estágio). Isto é conhecido como o mundo Olam Assyia.
Cada mundo possui cinco sub-estágios que são chamados partzufim: Keter, Hochma, Bina, Zeir Anpin e Malchut. Zeir Anpin consiste em seis sub-sefirot: Hesed, Gevura, Tifferet, Netzah, Hod e Yesod. Após a criação dos cinco mundos, o nosso mundo material — o reino abaixo do mundo de Assiya — foi criado e nele foi criado o ser humano.
O ser humano foi dotado de uma pequena porção das qualidades egoístas do quinto estágio. Se os seres humanos ascenderem no processo de desenvolvimento espiritual de baixo para cima dentro dos mundos espirituais, então a parte de egoísmo que neles se encontra e, igualmente, todas as partes desses mundos que usaram para a sua ascensão, tornam-se comparáveis ao primeiro estágio, com a qualidade do Criador.
Quando todo o quinto estágio se elevar ao nível do primeiro, então todos os mundos chegarão ao propósito da criação.
A causa espiritual do tempo e do espaço é a ausência de Luz na alma colectiva, onde as ascensões e declínios espirituais resultam numa sensação de tempo, e o lugar para a futura presença da Luz do Criador dá uma impressão de espaço no nosso mundo.
O nosso mundo é afetado por forças espirituais que nos transmitem uma sensação de tempo causada pela mudança da sua influência. Como dois objetos espirituais diferentes nas suas qualidades não podem ser um só objeto espiritual, exercem a sua influência um após o outro, primeiro o superior e depois o inferior, e assim sucessivamente. No nosso mundo, isto produz uma sensação de tempo.
Somos dotados de três instrumentos para a tarefa de corrigir com sucesso o nosso egoísmo: sentimentos, intelecto e imaginação. Quanto à matéria e forma espiritual, a matéria é representada pelo egoísmo, enquanto a sua forma é determinada pelas forças opostas, correspondentes ao nosso próprio mundo.
Definimos deleites e sofrimentos como bom e mau, respetivamente. Mas o sofrimento espiritual serve como a única fonte de desenvolvimento e progresso da humanidade. A redenção espiritual é a perfeição, recebida com base em fortes sensações negativas, que são recebidas como agradáveis.
Como a linha esquerda regressa à direita, as desgraças, sofrimentos e pressões são transformados em felicidade, prazer e liberdade espiritual.
A razão disto é que em todo o objeto existem duas forças opostas: egoísmo e altruísmo, que são experienciadas como afastamento ou proximidade do Criador.
Há muitos exemplos disto na Bíblia: o sacrifício de Yitzhak, os sacrifícios no Templo, e assim por diante. (Em hebraico, sacrifícios são korbanot, palavra derivada de karov — aproximar-se de algo).
A linha direita representa a essência do objeto espiritual, enquanto a linha esquerda é, na verdade, apenas aquela parte do egoísmo que pode ser empregada ao juntá-la às intenções altruístas.