<- Biblioteca de Cabala
Continuar a Ler ->

Capítulo 24. Fé 

Conta-se na Bíblia que Abraão declarou que Sara era sua irmã e não sua esposa, porque temia ser morto para que ela ficasse disponível para outros. Dado que a Cabala compara o mundo inteiro a uma única pessoa — pois a alma foi dividida em 600 000 partes apenas para simplificar a execução do objetivo último —, Abraão é considerado a personificação da fé dentro de nós.
Uma esposa é permitida apenas ao marido, ao contrário da irmã, proibida apenas ao irmão, mas não aos outros. Abraão viu que ele próprio (a fé) era o único (a única qualidade dos seres humanos) capaz de fazer de Sara o fundamento da vida.
Compreendeu também que outros homens (outras qualidades de uma pessoa) poderiam prejudicá-lo (à fé), pois estavam fascinados pela beleza de Sara e desejavam possuí-la eternamente por causa do seu próprio ego. Por essa razão, Abraão declarou Sara (o objetivo da criação) como sua irmã, não a tornando assim proibida aos outros homens (as qualidades de uma pessoa). Consequentemente, até que a correção esteja completa, pode-se usar a Cabala em benefício próprio.
A diferença entre todos os reinos espirituais e o nosso mundo reside no facto de que tudo o que pertence aos reinos espirituais é parte do Criador e assumiu a forma de uma escada espiritual para facilitar a ascensão espiritual dos seres humanos.
O nosso mundo egoísta, pelo contrário, nunca fez parte do Criador, mas foi gerado do nada e desaparecerá após a ascensão da última alma do nosso mundo para o mundo espiritual. Por essa razão, todos os tipos de atividade humana transmitidos de geração em geração, bem como tudo o que é produzido a partir dos materiais deste mundo, estão condenados a desaparecer.
Pergunta: A primeira criação recebeu toda a Luz e rejeitou-a, para não sentir vergonha; como pode tal estado ser considerado próximo do Criador, uma vez que uma sensação desagradável deveria significar um afastamento do Criador?
Resposta: Num tal estado espiritual, o passado, o presente e o futuro fundem-se numa única totalidade. A criação não experienciou o sentimento de vergonha porque decidiu alcançar um tal estado de unidade com o Criador pelos seus próprios desejos, experienciando assim a decisão e as suas consequências ao mesmo tempo.
A confiança e a sensação de ausência de perigo resultam ambas do efeito da Luz Circundante (Ohr Makif) e da perceção do Criador no presente. Mas, como o indivíduo ainda não gerou qualidades corrigidas apropriadas, o Criador não é sentido como Luz Interior (Ohr Pnimi), mas como Luz Circundante.
Confiança e fé são conceitos semelhantes. A fé é “a prontidão psicológica para sofrer por um objetivo”.
Não há obstáculos ao desejo de alguém para além da falta de paciência para exercer o esforço necessário e do cansaço. Assim, uma pessoa forte é aquela que possui a confiança, a paciência e a força para sofrer. Uma pessoa fraca é aquela que sente falta de tolerância ao sofrimento e desiste logo ao início da pressão exercida pelo sofrimento.
Para conseguir perceber o Criador, é necessário intelecto e força. Sabemos que, para alcançar algo de grande valor, é preciso empregar grande esforço e suportar imenso sofrimento. A quantidade de esforço que investimos determina, aos nossos olhos, o valor do objeto que procuramos alcançar.
O nível da nossa paciência significa a força vital. Até aos quarenta anos, estamos no auge da nossa força, enquanto depois disso a força vital diminui juntamente com a capacidade de acreditar em nós próprios, até que a autoconfiança e a fé desaparecem completamente no momento da nossa saída desta vida.
Dado que a Cabala é a sabedoria suprema e uma aquisição eterna, em contraste com todas as outras aquisições deste mundo, exige naturalmente os maiores esforços, pois “compra-nos” o mundo, e não algo temporário e transitório. Tendo apreendido a Cabala, podemos apreender a fonte de todas as ciências no seu estado verdadeiro e completamente revelado. Isso por si só mostra que tipo de esforço é necessário, pois sabemos quanto esforço é exigido para apreender uma única ciência, mesmo na estrutura limitada em que a compreendemos.
Recebemos do Alto as forças verdadeiramente sobrenaturais necessárias para apreender a Cabala e somos assim capazes de suportar o sofrimento no caminho para a apreensão da Cabala. Neste momento, recebemos a autoconfiança e a força vital necessárias para compreender a Cabala por nós próprios.
Mas não podemos superar todos os obstáculos sem a ajuda clara do Criador (a ajuda obscurecida do Criador é evidente no facto de o Criador sustentar a vida em toda a criação). A fé é a força que determina o quão prontos estamos para agir.
No início dos nossos caminhos, falta-nos a capacidade de perceber o Criador, pois não temos qualidades altruístas. Ainda assim, começamos a sentir a existência de uma força suprema e omnipotente que governa o mundo e voltamo-nos para essa força nos momentos de desespero absoluto. Fazemo-lo instintivamente.
Esta qualidade especial é-nos dada pelo Criador para que, mesmo perante uma educação e visão antirreligiosas, possamos começar a descobri-Lo mesmo a partir do estado de ocultação absoluta.
Enquanto observamos gerações de cientistas a desvendar os mistérios da natureza, se empreendêssemos um esforço semelhante para descobrir o Criador, Ele revelar-Se-ia a nós na mesma medida em que os mistérios da natureza se revelam. Na verdade, todos os caminhos da busca da humanidade nos levam através da revelação dos mistérios da natureza.
Mas onde estão os cientistas que examinam o objetivo da criação? Pelo contrário, os cientistas são habitualmente aqueles que negam a existência do Domínio Supremo.
A razão da sua negação reside no facto de o Criador lhes ter concedido apenas a capacidade de raciocinar e de se dedicarem exclusivamente à investigação e à inovação material.
Mas precisamente por essa razão, apesar de todas as ciências, o Criador instila em nós uma fé instintiva. A natureza e o universo parecem-nos negar a existência do Domínio Superior; assim, os cientistas não possuem o poder natural da fé.
Para além disso, a sociedade espera dos trabalhos dos cientistas resultados materiais, e eles obedecem instintivamente a essa expectativa. Como as coisas mais preciosas neste mundo existem em quantidades mínimas e só se encontram através de grande esforço, e a revelação do Criador é a mais difícil de todas as descobertas, um cientista procura naturalmente evitar o fracasso e não se lança na tarefa de revelar o Criador.
Assim, a única forma de nos aproximarmos da perceção do Criador é cultivar dentro de nós o sentimento de fé, independentemente da opinião da multidão. O poder da fé não é maior do que todos os outros poderes inerentes à natureza humana — todos eles resultam da Luz do Criador. A qualidade particular que distingue o poder da fé de todos os outros é que o poder da fé tem o potencial de nos colocar em contacto com o Criador.
O processo de perceção do Criador é comparável ao processo de aquisição de conhecimento. Primeiro, aprendemos e compreendemos.
Depois, tendo alcançado isso, começamos a utilizar o que aprendemos.
Como sempre, é difícil no início, mas os frutos só são colhidos por aqueles que alcançam o objetivo final: a entrada no mundo espiritual. Nesse momento, obtemos o prazer ilimitado de perceber o Criador e, consequentemente, adquirimos um conhecimento absoluto de todos os mundos e daqueles que os habitam, bem como da circulação das almas em todos os estados-temporais, desde o início da criação até ao seu fim.