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Capítulo 21. Corrigir o Egoísmo


Todo o corpo espiritual de leis destina-se a ajudar-nos a superar o nosso egoísmo. Portanto, a lei espiritual "ama o teu próximo como a ti próprio" é um resultado natural do apego ao Criador. Como Não Há Nada Além Dele, quando uma pessoa compreende isto, todas as criações, incluindo o nosso mundo, fundem-se na nossa percepção do Único Criador.
Assim, torna-se claro como os nossos antepassados foram capazes de obedecer a todas as leis espirituais muito antes de elas serem efetivamente transmitidas. Uma consequência da elevação espiritual encontra-se quando começamos a amar os nossos piores inimigos e os adversários de todas as nações. Assim, o maior trabalho pode envolver orar pelos nossos inimigos.
Quando o Rabino Levi Yitzhak de Berdichev foi atacado pelo seu extenso trabalho no ensino da maneira correta de servir o Criador, os rumores disto chegaram ao Rabino Elimelech de Lizhensk. Ele exclamou: "O que há para se surpreender! Isto acontece constantemente! Se isto não ocorresse, nenhuma nação poderia escravizar-nos."
Existem duas etapas de batalha contra os desejos egoístas: Primeiro, perseguimo-los. Depois, tentamos escapar-lhes, apenas para perceber que estes desejos continuam a perseguir-nos.
Aqueles de nós que negam a unidade do Criador ainda não sentem que Ele e tudo o que acontece no mundo, incluindo tudo o que acontece a cada indivíduo, são um e o mesmo. O Rabino Yichiel Michal (Maggid mi Zlotchiv), um cabalista do século passado, viveu em grande pobreza.
Os seus alunos perguntaram-lhe: "Como pode recitar a bênção ao Criador por ter-lhe dado todas as coisas necessárias quando tem tão pouco?" Ele respondeu: "Posso abençoar o Criador que me deu tudo, porque aparentemente é a pobreza que preciso para me aproximar Dele, e é por isso que Ele ma dá."
Não há nada que negue o domínio do Criador mais do que a depressão. Notavelmente, cada pessoa chega a este sentimento por razões diferentes: sofrimento, um sentimento de impotência pessoal, ausência do que é desejado, etc. É impossível sentir alegria pelos golpes que se recebem a menos que se compreenda a sua necessidade e imenso valor; então, cada golpe pode ser tomado como medicamento.
A única preocupação da pessoa deve ser por que razão se preocupa. "Não se deve considerar o sofrimento como mau", explicou o Rabino Moshe de Kovrin, "pois não há nada mau no mundo, mas sim que é amargo, porque o medicamento é sempre amargo."
O esforço mais sério deve ser feito para "curar" os sentimentos de depressão, porque a consequência da fé é a alegria, e só ao aumentar a fé se pode salvar da desolação. Por esta razão, quando se diz na Mishna que "Uma pessoa deve estar grata pelo mal", o Talmude acrescenta imediatamente: "E deve recebê-lo com alegria", porque não há mal no mundo!
Porque percebemos apenas o que efetivamente entra nos nossos sentidos e não o que permanece fora de nós, podemos apreender o Criador apenas na medida em que Ele atua sobre nós. Por isso, precisamos dos nossos sentidos para negar a unidade da sua Origem; eles existem especificamente para que a pessoa, em última análise, sinta e revele a unidade do Criador.
Diz-se que, após a travessia do Mar Vermelho, as pessoas acreditaram no Criador e começaram a cantar. Apenas a fé permite cantar. Se um indivíduo sente que, através do autoaperfeiçoamento, será capaz de se corrigir, deve examinar a sua atitude em relação à crença na omnipotência e na unidade do Criador, porque só através do Criador, através da oração por mudança, é possível alterar algo em si próprio.
Diz-se que o mundo foi criado para o deleite dos seres criados. Olam (o mundo) deriva da palavra he’elem ou ha’alama – significando “ocultação”. É ao experienciar as tendências opostas de ocultação e revelação que uma pessoa experiencia prazer. E este é o significado da expressão "Criei uma ajuda contra ti" (ezer ke-negdo).
O egoísmo foi criado como uma ajuda para a humanidade.
Gradualmente, enquanto luta contra ele, cada pessoa adquire todos os sentidos necessários para experienciar o espiritual. Por esta razão, cada pessoa deve olhar para todos os obstáculos e sofrimentos com uma plena consciência do seu propósito, ou seja, induzir alguém a pedir a ajuda do Criador para receber a redenção desse sofrimento. Então, o egoísmo e outros aspetos desagradáveis transformam-se em "ajuda contra ti" – que é na verdade contra o próprio egoísmo.
Também é possível oferecer uma interpretação alternativa. Imagine o egoísmo de pé "oposto a nós", em vez do Criador, ocultando e cobrindo o Criador de nós, como se dissesse: "Eu estou entre o Criador e vocês."
Assim, o "eu" ou "si proprio" de uma pessoa está entre essa pessoa e o Criador. Para este propósito, há um mandamento primeiro para "lembrar o que nos foi feito" por Amaleque, e depois para "apagar toda a memória" Dele.
Não devemos procurar dentro de nós pensamentos que sirvam como obstáculos, mas sim pegar na primeira coisa que surge nos nossos corações e intelectos a partir do momento do despertar, e ligá-la ao Criador. É assim que os "obstáculos" nos ajudam a fazer regressar os nossos pensamentos ao Criador. Disto, vemos que o pior é quando nos esquecemos do Criador.
Na medida em que o egoísmo nos impele ao pecado, também nos impele a ser excecionalmente "justos". Em ambos os casos, afasta-nos da verdade. Na mesma medida em que podemos fingir ser justos perante os outros, por vezes, sem nos apercebermos de que nos estamos a enganar, começamos a acreditar que somos verdadeiramente justos.
O Rabino Jacob Yitzhak de Lyublin (Hoseh mi Lyublin) disse: "Tenho mais amor pelos pecadores que sabem que são pecadores, do que pelos justos que sabem que são justos. Mas os pecadores que pensam que são justos nunca encontrarão o caminho certo, porque mesmo no limiar do inferno pensam que foram levados para lá para salvar os outros."
Um verdadeiro cabalista quer que os alunos temam e respeitem o Criador mais do que temem e respeitam o seu professor. Assim também são encorajados a depender e confiar no Criador mais do que dependem e confiam no seu professor.
Quando o Rabino Nahum de Ruzhin, um cabalista do século passado, encontrou os seus alunos a jogar damas, disse-lhes da semelhança entre as regras do jogo em questão e as regras da espiritualidade: em primeiro lugar, não se pode fazer dois movimentos simultaneamente; em segundo lugar, pode-se mover para a frente mas não para trás; em terceiro lugar, quem chega ao fim pode mover-se como quiser, de acordo com os seus desejos.
Se acreditamos que alguém está a falar sobre nós, tornamo-nos interessados no que dizem. Aquilo que é desejado mas está oculto é conhecido como um “segredo”. Se lemos a Bíblia e sentimos que ela está a falar sobre nós, então somos considerados como tendo começado a estudar a sabedoria oculta da Cabala, onde leremos sobre nós próprios, embora ainda não estejamos cientes disto.
À medida que progredimos no caminho espiritual, perceberemos que a Bíblia fala sobre nós, e então a Bíblia transformar-se-á de oculta em revelada. Aqueles que leem a Bíblia sem colocar questões sobre si próprios não podem discernir na Bíblia nem as partes ocultas nem as reveladas; para esses indivíduos, a Bíblia aparece simplesmente como um relato histórico ou uma coleção de estatutos legais.
Para aqueles que estudam a Cabala, diz-se que a Bíblia fala apenas do presente. Do ponto de vista do egoísmo, não há nada mais estranho e antinatural, irreal e absurdo, do que "vender-se" a si próprio para a escravatura ao Criador, apagar em si próprio todos os pensamentos e desejos, e escravizar-se à Sua vontade, seja ela qual for, sem saber antecipadamente o que é.
Todas as exigências espirituais parecem igualmente sem sentido para quem está distante do Criador.
E, inversamente, assim que alguém experiencia a ascensão espiritual, concorda com esse estado de ser sem resistência ou crítica da razão. Então, já não se envergonha dos seus pensamentos e aspirações dirigidos para se comprometer com o Criador.
Estas situações contraditórias são-nos dadas especificamente para nos ajudar a compreender que a nossa redenção do egoísmo está acima da natureza, e é concedida apenas pela Vontade do Criador. Até então, existimos num estado de insatisfação, porque ou comparamos o nosso estado presente com o do passado, ou comparamos o nosso presente com as nossas esperanças para o futuro, e assim sofremos pela ausência da experiência desejada.
Se soubéssemos os grandes prazeres que podemos receber do Alto, e não os estivéssemos efetivamente a receber, sofreríamos imensuravelmente mais. No entanto, pode-se dizer que, no que diz respeito aos prazeres espirituais, eles são mantidos afastados da nossa consciência, e permanecemos num estado de inconsciência e não percebemos a sua ausência.
Assim, é vital para nós sentir a Presença do Criador. Se subsequentemente perdêssemos essa perceção, já é claro que ansiaríamos novamente por ela. Como se diz nos Salmos, número 42: "Como o cervo anseia por correntes de água, assim a minha alma clama por Ti, Deus."
O desejo de perceber o Criador é chamado "a aspiração a 'elevar' a Presença do Criador do pó", isto é, do estado mais baixo na nossa compreensão, quando tudo no nosso mundo nos aparece mais precioso do que ser capaz de sentir o Criador.
Aqueles que cumprem os mandamentos devido à sua educação (que em si própria é uma manifestação do desejo do Criador) fazem-no da mesma maneira que aqueles que aspiram a apreender o Criador. A diferença reside na perceção do indivíduo em questão. Isto é de primordial importância, pois o desejo do Criador é beneficiar as Suas criações dando-lhes o sentimento da Sua proximidade.
Assim, para abandonar a observância habitual dos mandamentos e passar a agir de forma livre, devemos compreender claramente o que recebemos como resultado da nossa educação e da sociedade, e o que agora aspiramos como indivíduos independentes.
Por exemplo, considere alguém que recebeu uma educação de acordo com o sistema de "Mussar", que ensina que o nosso mundo é nada. Nesse caso, o mundo espiritual é percebido como apenas ligeiramente maior do que nada. Por outro lado, a Cabala ensina que este mundo, tal como é percebido, está cheio de prazeres. No entanto, o mundo espiritual, o mundo de sentir o Criador, é incomparavelmente mais belo.
Por isso, o espiritual surge não como simplesmente mais do que nada, mas como maior do que todos os prazeres do nosso mundo. É impossível forçar-se a beneficiar o Criador da mesma forma que o Criador nos beneficia, porque tais inclinações não se encontram nos seres humanos.
No entanto, devemos ser claros sobre "a quem" devemos ansiar. Quando procuramos a verdade por trás do nosso desejo de nos aproximarmos do Criador, devemos ter em consideração que, quando desejamos sinceramente o Criador, todos os outros pensamentos e desejos desaparecem, tal como a luz de uma vela é dominada pela luz de uma tocha.
Até percebermos o Criador, cada um de nós sente-se como se estivesse sozinho no mundo. Mas como só o Criador é Um e Único, e como só Ele é capaz de dar, e dá a todo o mundo, e como somos absolutamente opostos a esta característica de dar, imediatamente ao receber a perceção do Criador adquirimos, ainda que temporariamente, estas mesmas características, como explicado acima na analogia de uma vela perante uma tocha.
Ao viver de acordo com as leis do mundo espiritual, somos capazes de realizar tudo o que precisamos enquanto ainda neste mundo.
Quando acreditamos que tudo, mesmo o mal que experienciamos, foi enviado pelo Criador, permanecemos continuamente apegados a Ele.
Há o Criador e a criação – o ser humano que não é capaz de perceber o Criador mas só pode "acreditar" na Sua existência e unidade, e no facto de que só o Criador existe e detém o domínio sobre tudo (a palavra "acreditar" é colocada entre aspas porque, no sentido cabalístico, a fé refere-se à perceção do Criador).
A única coisa que se deseja é receber prazer. Tal foi o desígnio do Criador. Tal foi também o objetivo da criação, a vontade do Criador. No entanto, deve-se experienciar o prazer da mesma maneira que o Criador. Tudo o que alguma vez aconteceu, está a acontecer, ou acontecerá a cada um de nós, tudo tanto o bom como o mau, é predestinado e é-nos enviado pelo Criador.
No fim da correção, tornar-se-á perfeitamente claro que tudo o que aconteceu foi necessário para o nosso benefício. Mas enquanto cada um de nós está no caminho da retificação, para cada um de nós este caminho parece abranger muitos milhares de anos, ser extremamente longo, amargo, sangrento e extraordinariamente doloroso. Independentemente de quão preparados possamos estar para o próximo golpe, assim que percebemos uma provação a aproximar-se, esquecemo-nos de que ela vem dessa Poder Singular no mundo do qual tudo deriva.
Esquecemo-nos de que somos meros instrumentos nas mãos do Criador, e começamos a imaginar-nos como unidades atuantes independentes. Consequentemente, acreditamos que as circunstâncias desagradáveis são causadas por outros humanos, em vez de as reconhecermos como instrumentos da Vontade do Criador.
Assim, o conceito mais importante que precisamos de compreender deve ir para além da mera aceitação de que tudo vem do Criador. Deve também focar-se na ideia de que não devemos sucumbir a sentimentos e pensamentos prejudiciais durante os nossos momentos mais difíceis.
Nem devemos subitamente começar a pensar "independentemente" e cair na crença de que os acontecimentos nas nossas vidas nesse momento são de alguma forma causados por outros seres humanos, em vez de pelo Criador; nem devemos considerar que o resultado de qualquer fenómeno é determinado por outras pessoas ou circunstâncias, em vez de pelo Criador.
É possível aprender isto apenas através das nossas próprias experiências, mas enquanto estamos a aprender tendemos a esquecer por que os acontecimentos nas nossas vidas ocorrem. Tudo o que acontece nas nossas vidas é para desenvolver e impulsionar o nosso crescimento espiritual. Se nos esquecermos disto, podemos cair numa falsa crença de que há uma falta de Supervisão Divina e uma ocultação completa do Criador.
Este processo ocorre da seguinte maneira: o Criador dá-nos o conhecimento de que só Ele, o Criador, governa o mundo, e depois coloca-nos no meio de acontecimentos assustadores e infelizes que trazem várias consequências desagradáveis. Os sentimentos desagradáveis agarram-nos tão fortemente, que nos esquecemos de Quem os enviou, e para que propósito estes golpes duros são entregues.
De tempos a tempos durante o curso desta "experiencia", é-nos dado o entendimento de por que isto nos está a acontecer, mas quando estas ocorrências desagradáveis aumentam, o nosso entendimento desaparece. Mesmo quando subitamente "lembramos" Quem nos envia tais sofrimentos e por que são enviados, somos incapazes de nos convencer a atribuí-los ao Criador, e apelar a Ele por ajuda.
Em vez disso, ao mesmo tempo que percebemos que tudo se origina do Criador, ainda tentamos ajudar-nos a nós próprios. Podemos visualizar este processo da seguinte maneira:
No nosso caminho para o Criador está uma força impura, distrativa ou pensamento, que nos obriga a romper com ela para nos apegarmos ao Criador;
Quando estamos perto do Criador, somos como uma criança ao colo da mãe, mas os pensamentos/forças alheias tentam arrancar-nos do Criador para nos impedir de O sentir e de sentir o Seu domínio;
É como se o Criador nos concedesse algo importante para nos proteger do nosso inimigo. Depois, o inimigo ataca e lutamos valentemente contra esse inimigo.
Quando a luta termina, torna-se muito claro que estávamos meramente a lutar contra obstáculos enviados pelo Criador para atingir o entendimento e a elevação.
No fim, adquirimos conhecimento sobre nós próprios e sobre a gestão Divina do Criador, bem como cultivamos amor pelo Criador, finalmente compreendendo por que Ele nos enviou todos os obstáculos.
A nossa educação não deve ser uma que nos force ou suprima, mas sim que nos ajude a desenvolver as competências necessárias para formar uma perspetiva crítica sobre os nossos próprios estados internos e desejos. A educação adequada deve incluir instruções sobre como desenvolver as competências para pensar e analisar, enquanto a educação tradicional, pelo contrário, geralmente tenta incutir em nós ações e reações automáticas que podemos recorrer no futuro.
Na verdade, todo o objetivo da educação deve centrar-se no estabelecimento de uma prática habitual de analisar e avaliar constantemente e independentemente as nossas ações independentes. Estas são ações livremente escolhidas, e não aquelas em que fomos coagidos por uma força externa, nem influenciadas pela nossa educação.
Como podemos alcançar a verdade quando o ego percebe a confiança como amargura ou dor? Quem está preparado para passar por tal provação voluntariamente?
Recebemos vitalidade e energia da paixão, honra e inveja.
Por exemplo, se estamos vestidos com roupas esfarrapadas, envergonhamo-nos porque os outros estão melhor vestidos. Mas se os outros também estiverem mal vestidos, então ficamos apenas com metade do sentimento desagradável. Por esta razão, diz-se que "uma desgraça partilhada é meia consolação."
Se recebêssemos prazer apenas de uma destas três fontes, nunca poderíamos avançar no nosso desenvolvimento espiritual. Por exemplo, se possuíssemos apenas o impulso para o prazer mas não para a honra, andaríamos nus em tempo quente porque não sentiríamos vergonha. O anseio pela honra e por uma posição elevada na sociedade pode diminuir se as pessoas moderarem as suas necessidades, como fazem durante grandes provações ou guerras.
Mas no desejo de receber prazer ou de diminuir o sofrimento, temos pouca dependência das opiniões dos outros, tal como a dor de dentes de alguém não diminui porque outra pessoa também experiencia uma dor semelhante. Assim, o trabalho "pelo benefício do Criador" deve basear-se no prazer, não na honra; caso contrário, pode-se tornar contente e parar a meio do caminho.
Diz-se que "a inveja dos eruditos aumenta a sabedoria." Mesmo se alguém não tem desejo de honra, ainda se perguntará por que alguém é honrado, em vez de si próprio. Por esta razão, as pessoas dedicam grandes esforços à ciência para garantir que os outros não recebam maiores honras do que elas.
Tais esforços expandem o conhecimento, e um padrão semelhante pode ser observado entre novos alunos. Alguém vê que os outros se levantam antes do nascer do sol para estudar, por isso força-se a levantar cedo também, mesmo que no fundo haja um forte desejo de não o fazer.
Mas se compreendermos que cada pensamento não é verdadeiramente nosso, mas na realidade vem do exterior, então torna-se mais fácil resistir a esses pensamentos. A sociedade afeta as pessoas de tal forma que elas aceitam todos os pensamentos e desejos impressos nelas pelos outros como os seus próprios. Assim, é crucial que escolhamos um ambiente apropriado para nós próprios que seja caracterizado por objetivos e aspirações adequados.
Se, no entanto, desejarmos ser influenciados por e receber pensamentos de um círculo particular de pessoas, o método mais seguro para alcançar este objetivo é colocar-nos entre elas; além disso, servi-las e assisti-las, pois o processo de receber ocorre do superior para o inferior. Assim, num grupo de estudo, é crucial perceber todos os outros como mais conhecedores do que a si próprio.
Isto é conhecido como “adquirir dos autores”, porque isto é ganho através da comunicação com os outros. Além disso, quando estamos entre outros no trabalho e em casa, é desejável que mentalmente permaneçamos no nível dos nossos pares. Isto garantirá que nenhum pensamento alheio entre em nós inadvertidamente, causando-nos assim raciocinar à maneira dos nossos vizinhos, cônjuge ou colegas.

Ansiar por Qualidades Espirituais
É absolutamente impossível para um principiante distinguir um verdadeiro cabalista de um falso, porque cada um defende as mesmas verdades sobre a necessidade de se melhorar e renunciar ao egoísmo.
Mas estas palavras, como a Luz do Criador que brilha sobre tudo, podem ser comparadas a uma Luz sem vaso, ou seja, pode-se proferir as palavras mais profundas, mas a menos que se possuam kelim – os vasos para conter o sentido dessa Luz – o orador pode não compreender o significado interno. É muito mais difícil receber ideias e noções dos livros de um escritor cabalista, o processo conhecido como "mi sfarim" [lit. dos livros], do que adquirir conhecimento diretamente de um professor. Isto deve-se ao facto de que, se alguém deseja absorver os pensamentos do autor, deve acreditar que o autor é um grande cabalista.
Quanto maior o respeito pelo autor, mais se poderá absorver dos livros do autor. Dos milhares que perceberam o Criador, apenas o Rabino Shimon Bar Yochai (Rashbi), o Rabino Ashkenazi Yitzhak (Ari) e o Rabino Yehuda Ashlag (Baal HaSulam) receberam permissão para escrever sobre Cabala numa linguagem compreensível para aqueles que ainda não adquiriram as perceções dos níveis espirituais.
Outras obras cabalísticas usam imagens que só são compreensíveis para aqueles que já entraram nos reinos espirituais, e portanto não podem ser usadas por principiantes.
Ao apoiar-se na escolha de companheiros e na escolha de livros como fonte de conhecimento – um indivíduo pode gradualmente ganhar a capacidade de pensar de forma independente. Antes desta etapa, o indivíduo permanece no estado comum a todos os seres humanos neste mundo, isto é, no estado de desejar ser independente, mas incapaz de o ser.
Diz-se que a inveja, o prazer e a honra por honra tiram uma pessoa deste mundo. Isto significa simplesmente que estes três desejos humanos induzem a pessoa a agir. Embora não sejam considerados bons desejos, motivam ainda assim a pessoa a mudar, crescer e desejar atingir cada vez mais, até adquirir a compreensão de que o verdadeiro ganho é o ganho de natureza espiritual, e decidir deixar este mundo pelo espiritual.
Assim, diz-se destes três desejos que "tiram" a pessoa deste mundo e levam-na para o mundo espiritual vindouro. Como resultado da acumulação de conhecimento e inteligência, um indivíduo começa a discernir o que é mais valioso neste mundo, e a compreender que se deve tentar alcançar esse objetivo mais valioso. Desta forma, afasta-se dos desejos "para seu próprio benefício" e alcança os desejos "pelo benefício do Criador".
Toda a criação pode ser vista como o anseio por receber prazer, ou o sofrimento causado pela ausência do prazer que emana do Criador. Existem duas condições necessárias para sentir prazer:
1. O prazer deve aparecer e desaparecer, deixando uma impressão, uma memória (reshimo de ro’shem – uma impressão).
2. Deve-se alcançar o conhecimento e a força necessários para romper a casca exterior e assim tornar-se digno de participar do fruto.
Existem vários tipos de forças impuras, distrativas, conhecidas como klipot, significando “cascas” ou “peles”. O seu nome reflete o seu propósito. Estas forças (1) protegem as forças espiritualmente puras (o fruto na casca) de elementos perfurantes que danificam o reino espiritual – os não iluminados que poderiam prejudicar-se a si próprios e aos outros após alcançar o espiritual e (2) criam obstáculos para aqueles que verdadeiramente desejam possuir o fruto.
Consequentemente, ao lutar com elas, ganha-se o conhecimento e a força necessários para romper a casca exterior e assim tornar-se digno de participar do fruto. Em nenhuma circunstância se deve sentir que quaisquer pensamentos contra o Criador, contra o caminho e contra a fé emanam de uma origem diferente do Criador.
Apenas o Criador, a Força singular que rodeia um ser humano, atua em toda a criação, enquanto a um ser humano é atribuído o papel de observador ativo.
Ou seja, os seres humanos são deixados a experienciar toda a gama de forças que atuam sobre eles, e a lutar contra a crença de que essas forças vieram de uma origem  diferente do Criador. Na verdade, a menos que o Criador confira tais pensamentos obstrutivos para bloquear o estudo da Cabala e o autoaperfeiçoamento, não se pode avançar.
As principais klipot são a klipat mitzraim (Egito), que afasta a pessoa do desejo de continuar no caminho espiritual, e a klipat noga, que dá a falsa sensação de que tudo está bem como está, e de que não há necessidade de avançar. Neste caso, sente-se como num sono, embora o coração não concorde com esta condição ("ani yeshena ve libi er" – Eu durmo, mas o meu coração está acordado).
Textos cabalísticos verdadeiros, especialmente os textos do Rabino Yehuda Ashlag, são escritos de tal forma que quem neles se aprofunda já não pode tirar prazer do falso brilho da klipat noga, uma vez que a compreensão do objetivo da criação se torna clara.
Aqueles que são escolhidos pelo Criador para serem aproximados de Si são enviados o sofrimento do amor (isurei ahava). Este é sofrimento destinado a induzir estas pessoas a superar as dificuldades da sua condição e a moverem-se mais perto do Criador.
Esta aspiração interna do indivíduo, que se sente como própria, é chamada “a pressão de dentro” (dahaf pnimi). Quando agimos, isto é considerado "revelado", pois está disponível para todos verem e não pode ser sujeito a várias interpretações.
Por outro lado, os nossos pensamentos e intenções são considerados "ocultos". Podem diferir grandemente da forma como os outros os percebem, e podem mesmo diferir da nossa própria perceção das nossas intenções. Por vezes, não estamos cientes do que exatamente nos impulsiona para esta ou aquela ação.
As nossas verdadeiras intenções internas que nos motivam estão frequentemente ocultas de nós, bem como de observadores externos. Por esta razão, a Cabala é conhecida como a parte oculta da Bíblia, a sabedoria oculta, pois instrui-nos sobre intenções e como direcioná-las para o Criador.
Assim, este conhecimento deve ser oculto de todos, por vezes até do próprio indivíduo em questão. É imperativo acreditar que tudo neste mundo acontece de acordo com a Vontade do Criador, é governado por Ele, enviado por Ele e controlado por Ele.
Há aqueles que sustentam que os nossos sofrimentos não são sofrimentos, mas recompensas.
Isto é verdadeiro apenas em relação àqueles justos que podem relacionar todas as circunstâncias e todas as consequências subsequentes com o domínio do Criador. Apenas em tais casos, quando as pessoas podem viver pela sua fé na justiça última do domínio do Criador, apesar de grandes provações e sofrimento, as maldições se transformarão em bênçãos.
No entanto, aquelas provações que não podemos superar indo além das limitações da nossa razão trazem-nos um declínio espiritual, pois apenas ao manter a fé acima da razão podemos encontrar apoio. Uma vez que caímos da fé e voltamos à dependência da razão, devemos então esperar para ser salvos.
Por outro lado, aqueles que podem suportar estas provações ascenderão, pois o sofrimento e as provações aumentam a força da fé. É nestes casos que as provações e o sofrimento se transformarão em bênçãos.
Um verdadeiro apelo ao Criador deve vir das profundezas do coração de alguém, o que significa que todo o coração deve estar de acordo sobre aquilo que quer dizer ao Criador. O apelo deve ser dito não com palavras, mas com sentimentos, pois apenas aquilo que ocorre no coração da pessoa é ouvido pelo Criador. O Criador ouve ainda mais do que se poderia preferir, porque compreende todas as causas e todos os sentimentos que Ele mesmo envia.
Nenhuma criação pode evitar o objetivo predestinado – começar a ansiar por qualidades espirituais. Mas o que deve fazer uma pessoa que sente falta de desejo suficiente para se separar dos prazeres deste mundo? Como lidar com a ideia de se separar de parentes, família e todo o mundo tão cheio de vida e de pequenos deleites, com tudo o que os desejos egoísticos pintam tão vividamente no intelecto dessa pessoa? O que fazer se, mesmo ao pedir a ajuda do Criador, não se deseja verdadeiramente que o Criador ouça e conceda este apelo?
Para ajudar e apoiar aqueles nesta posição requer preparação especial e a realização de quão vital é adquirir qualidades altruístas. Tal realização desenvolve-se gradualmente à medida que se compreende quão distante se está das alegrias espirituais e da paz interior que atraem essa pessoa de longe.
Isto pode ser comparado a um anfitrião que deve estimular o apetite dos seus convidados com aperitivos para que desfrutem da refeição que os espera. Sem serem primeiro preparados para a refeição, os convidados nunca experienciarão verdadeiro deleite dela, independentemente de quão deliciosa ou abundante seja. Esta abordagem é também eficaz para despertar o apetite por deleites tão antinaturais e desconhecidos, como receber prazer do altruísmo.
A nossa necessidade de proximidade com o Criador nasce gradualmente em nós quando sob a influência dos nossos esforços inspirados durante tempos de extrema distância da redenção espiritual. Estes incluem tempos de grave privação e escuridão, quando precisamos do Criador para salvação pessoal, para que o Criador nos livre das situações sem esperança em que Ele nos colocou.
Se estivermos verdadeiramente necessitados da ajuda do Criador, então isto pode ser considerado como o sinal de que estamos prontos para receber esta ajuda, pois desenvolvemos um "apetite" para aceitar os prazeres preparados para nós pelo Criador.
O nível em que experiemciamos sofrimento será paralelo ao nível em que poderemos receber prazer. No entanto, se tivermos de passar por sofrimento, e receber alegria do Alto no mesmo nível em que sofremos, então este é o caminho do sofrimento, não o caminho da Cabala.
Para além disso, surge uma questão: há realmente necessidade de pedir ao Criador seja o que for? Talvez se deva experienciar sofrimento até ao ponto em que o corpo deseje redenção completa e clame ao Criador com tal força que Ele o salve.
A resposta é simples: uma oração, mesmo que não brote das profundezas do coração, ainda prepara o indivíduo para a salvação.
Numa oração, prometemos ao Criador que, após recebermos força espiritual, concentraremos todos os nossos esforços em devolver as aspirações espirituais que presentemente faltam. Nisto reside o grande poder da oração.
O Criador aceita um apelo deste tipo, e como resultado, avançaremos pelo caminho da Cabala, em vez do caminho do sofrimento. Por esta razão, nunca devemos concordar com o caminho do sofrimento, mesmo se estivermos certos de que o sofrimento é enviado pelo Criador; e mesmo se acreditarmos firmemente que tudo o que é enviado pelo Criador é enviado para nosso benefício.
O Criador não quer que aceitemos passivamente o sofrimento. Pelo contrário, espera que evitemos o sofrimento, que evitemos a condição em que Ele nos deve empurrar por trás pelo sofrimento. Quer que nos esforcemos por nós próprios através dos meios da fé, e peçamos esta oportunidade de avançar.
Mesmo se ainda não possuirmos um verdadeiro desejo de alcançar o estado correto, devemos ainda pedir ao Criador que conceda o verdadeiro desejo e fé através do poder da oração. Ou seja, devemos pedir ao Criador que nos dê um desejo de pedir, que agora falta.
As nossas almas, o "eu" de cada um de nós, existem numa condição perfeita desde o momento em que o Criador decidiu como deveriam existir. Esta condição pode ser descrita como “a condição de paz absoluta” (pois toda ação é iniciada pelo desejo de ganhar um estado mais perfeito), e a condição de felicidade absoluta (pois todos os desejos criados em nós pelo Criador são absolutamente cumpridos).
Para alcançar este estado, devemos adquirir o desejo de o alcançar. Ou seja, devemos resolver transformar as nossas aspirações presentes em perfeitas, altruístas. Não há outra alternativa: "Assim diz o Criador: ’Se não fizerem a escolha correta por vossa própria vontade, então colocarei sobre vocês governantes cruéis, que vos forçarão a voltar para Mim.’"
Cada indivíduo possui simultaneamente dois estados perfeitos: o presente e o futuro. Em qualquer momento, experienciamos apenas o presente, mas uma transformação para o estado "futuro" pode ser alcançada num instante ao alterar as nossas naturezas de egoístas e materialistas, para altruístas e espirituais.
O Criador é capaz de realizar tal milagre dentro de cada um de nós em qualquer momento, pois ambos os estados existem simultaneamente. A diferença está no facto de podermos perceber um estado imediatamente, mas não o outro estado perfeito, que existe paralelo ao primeiro, apesar da nossa existência em ambos os estados simultaneamente.
A razão para esta ocorrência pode ser explicada pelo facto de que as nossas qualidades-desejos não coincidem com as qualidades do estado perfeito não percebido. Como o Criador declara: "É impossível para Mim e para vocês existirmos no mesmo lugar", pois somos opostos nos nossos desejos.
Por esta razão, cada um de nós possui duas condições, ou, como referido na Cabala, dois corpos. Notavelmente, há o corpo físico, que ocupamos no momento presente e que na Cabala é conhecido como “a capa material”.
Por outro lado, são os nossos desejos e as nossas qualidades que são considerados o corpo no sentido cabbalístico, pois neles se encontra a nossa alma, que é uma parte do Criador. Se no nosso estado presente, os nossos corpos consistem totalmente em desejos e pensamentos egoístas, então apenas uma partícula microscópica das nossas almas, o chamado nerdakik, pode penetrar em nós como uma centelha da maior Luz, que nos dá vida.
O segundo corpo, que existe paralelo ao primeiro, é o corpo espiritual, que ainda não sentimos. Consiste nos nossos futuros desejos e qualidades altruístas que constituem a nossa alma absoluta, ou seja, aquela parte do Criador que será revelada no futuro, uma vez concluído o processo de correção.
As qualidades de ambos os corpos, o egoísta e o altruísta, e as suas forças vivificantes, são divididas em sentimentos e intelecto, que percebemos com os nossos corações e o nosso intelecto. O corpo egoísta deseja receber com o coração e apreender com o intelecto, enquanto o corpo altruísta deseja dar com o coração e acreditar com o intelecto.
Não somos capazes de alterar nenhum destes dois corpos. O espiritual não pode ser alterado porque é completamente perfeito, e o presente é completamente imutável e não pode ser corrigido de todo porque foi desenhado assim pelo Criador.
Mas existe um terceiro corpo, que serve como elo de ligação entre os outros dois. O corpo médio, dirigido do Alto, consiste em desejos e pensamentos constantemente mutáveis, que devemos esforçar-nos por corrigir nós próprios e pedir ao Criador a sua correção. É desta forma que conectamos o corpo médio, conhecido como klipat noga, com o corpo espiritual.
Quando nos tornamos capazes de ligar todos os desejos e pensamentos que surgem constantemente, ao corpo espiritual, o nosso corpo egoísta partirá então e adquiriremos um corpo espiritual. Nesse ponto, o Criador alterará todas as qualidades do corpo egoísta para que se tornem opostas, e todo o egoísmo inato se transformará em altruísmo absoluto.
Em todas as situações que nos enfrentam na vida, devemos esforçar-nos por ver tudo como vindo diretamente do Criador, e por ver o Seu ponto de vista como se fosse o nosso. Devemos afirmar que "é Ele quem se interpõe entre tudo o resto e eu; é através Dele que olho para todos neste mundo, incluindo eu próprio. Tudo o que é percebido por mim emana Dele, e tudo o que emana de mim vai apenas para Ele. Por esta razão, tudo o que nos rodeia é Ele." Como se diz, "Estás tanto à minha frente como atrás de mim, e puseste a Tua mão sobre mim." "Tudo o que está em mim", deve-se dizer, "tudo o que penso e sinto, vem de Ti, e é um diálogo Contigo."
O sentimento mais horrível é a nossa perceção do abismo infinito.
Isto atinge-nos quando um vazio súbito parece abrir-se mesmo debaixo dos nossos pés; um vazio caracterizado por desesperança, medo, falta de qualquer apoio, e uma partida completa da Luz circundante que nos deu um sentido do futuro, do amanhã, do momento seguinte.
Todas as variações desta sensação negativa terrível derivam da maior sensação original e, na verdade, podem ser consideradas aspetos dela. Todas elas são enviadas para nós da mesma origem, Malchut, a alma vazia posta à frente pelo Criador para que cada um de nós preencha cada parte dessa alma com Luz.
Todas as sensações de escuridão que experienciamos emanam desta alma vazia e só podem ser superadas pela fé no Criador, pela perceção Dele. É por esta razão que todo o sofrimento é enviado pelo Criador.
O Rei David, a encarnação das nossas almas, descreve a condição da alma em cada linha dos seus salmos, retratando todas as suas impressões à medida que ascende os vários níveis. É espantoso quanto temos de suportar antes de termos o entendimento, a consciência e o caminho para a via correta. Ninguém nos pode dizer qual deve ser o próximo passo.
Apenas por necessidade, tendo tropeçado no passo anterior, escolheremos a ação correta. Quanto mais formos estimulados pelas dificuldades, mais depressa podemos crescer espiritualmente. Assim, diz-se: "Feliz é aquele que é afligido pelo Criador."
Não devemos conhecer o nosso próximo passo, ou o nosso futuro; a proibição contra a adivinhação na Bíblia não deve ser tomada de ânimo leve.
O crescimento espiritual ocorre apenas através do crescimento da fé. Isto é apoiado pelo facto de que tudo o que vivemos num dado momento, e tudo o que viveremos no momento seguinte, emana do Criador e só pode ser superado ao alcançar proximidade com Ele. Isto ocorre por necessidade, uma vez que a nossa natureza recusa admitir que Ele tem domínio sobre nós.
O conhecimento do nosso estado futuro, ou meramente a nossa confiança no conhecimento dele, tira-nos a oportunidade de fechar os olhos, ficar em silêncio e aceitar qualquer manifestação súbita da Regra Superior como verdadeira e justa. Isto só é possível quando nos aproximamos do Criador.
A Bíblia descreve todos os nossos estados progressivos de ascensão espiritual na linguagem quotidiana do nosso mundo. Como já sabemos, há apenas duas qualidades em toda a criação: altruísmo e egoísmo, a qualidade do Criador e a qualidade das Suas criações. A Cabala, por outro lado, descreve as etapas de ascensão espiritual na linguagem de sentimentos diretos, como é feito nesta parte do livro, ou na linguagem de sefirot, a descrição físico-matemática de objetos espirituais.
Esta linguagem é universal, compacta e precisa. A sua forma externa é discernível pelos principiantes. Também nos ajuda a compreender os outros e a ser compreendidos por eles, uma vez que se concentra em objetos espirituais abstratos e em acontecimentos que, até certo ponto, estão removidos de nós.
Quando tivermos passado para as etapas espirituais, podemos usar esta linguagem "científica" para descrever as nossas próprias ações e sentimentos, porque a Luz que percebemos já carrega a informação sobre a ação em si, o nome da ação e o nível espiritual.
No entanto, um Cabalista só pode transmitir sentimentos e sensações sobre um nível espiritual particular àquele que já experienciou esse nível, uma vez que outra pessoa não compreenderá esses conceitos. Da mesma forma, no nosso mundo, um indivíduo que não tenha passado por uma sensação particular e que não a conheça através de uma sensação análoga não será capaz de compreendê-la.
Há duas etapas consecutivas de correção do egoísmo. A primeira etapa é não usá-lo de todo, mas pensar e agir apenas com o desejo de "dar", sem qualquer pensamento sobre possível ganho dos resultados das ações. Quando formos capazes de agir dessa forma, prosseguimos então para a segunda etapa: começamos a empregar gradualmente o nosso egoísmo, incorporando-o gradualmente nas nossas ações e pensamentos altruístas, corrigindo-o assim.
Por exemplo, uma pessoa dá tudo aos outros, sem receber nada em troca; este é o primeiro passo de desenvolvimento. Se alguém for verdadeiramente capaz de agir desta forma em todos os casos, então, para poder dar ainda mais, os ricos fornecerão a esse indivíduo ainda mais.
As riquezas passarão assim através desse indivíduo para serem dadas aos outros. A quantidade de riqueza que será recebida dos outros dependerá de se alguém pode dar tudo o que foi recebido sem ser tentado por tal abundância. Nesse caso, o egoísmo será empregue para uma causa nobre: quanto mais se recebe, mais se dá. Mas pode-se dar tudo?
A quantidade de riqueza que passa pelas mãos de alguém determina o nível da sua correção.
A primeira etapa é conhecida como “a correção da criação” (do egoísmo), e a segunda etapa é conhecida como “o objetivo da criação”, ou a capacidade de usar o egoísmo em ações altruístas, para objetivos altruístas.
A Cabala centra-se nestas duas etapas de desenvolvimento espiritual. No entanto, os desejos e prazeres mencionados na Cabala são milhares de milhões de vezes maiores do que todos os prazeres do nosso mundo combinados.
Estas duas etapas estão também em conflito constante uma com a outra, porque a primeira rejeita completamente o uso do egoísmo e a sua correção, enquanto a segunda usa-o em pequenas quantidades, determinadas pela força da capacidade de alguém para contrariá-lo para a sua correção. Assim, as ações nestas duas condições são opostas uma à outra, mesmo que ambas sejam altruístas no propósito.
Mesmo no nosso mundo, um indivíduo que dá tudo é oposto em ação àquele que recebe, mesmo para dar. À luz disto, muitas das contradições e conflitos retratados na Bíblia tornam-se mais compreensíveis.
Por exemplo, o conflito entre Saul e David, os argumentos e as contradições entre as escolas de Shamai e Hilel, o conflito entre Mashiach Ben-Joseph (o Cabalista Ari) e Mashiach Ben-David, e outros, quase todos os assuntos contenciosos e guerras, que são interpretados por aqueles que não estão no reino espiritual como conflitos entre nações, tribos, famílias e indivíduos egoístas.
Após um período de empreender trabalho intenso sobre nós próprios, aprendendo e esforçando-nos pela perceção espiritual, sentiremos um desejo de ver alguns resultados. Parecerá que, após todo o trabalho que fizemos (especialmente em comparação com o trabalho feito pelos outros à nossa volta), ganhámos o direito de experienciar a revelação do Criador, de ver uma manifestação clara das leis espirituais que estudámos com tanto ardor, e de perceber os prazeres dos mundos espirituais.
Na realidade, no entanto, todas as coisas parecem ser exatamente opostas às nossas expectativas: poderemos sentir que estamos a regredir, em vez de progredir, em comparação com outros que não estudam Cabala. Poderemos sentir que, em vez de perceber o Criador, e em vez de o Criador nos escutar, estamos a afastar-nos cada vez mais do Criador.
Além disso, o hiato crescente dos feitos espirituais e a nossa diminuição das aspirações espirituais pareceriam ser o resultado direto dos nossos estudos. Assim, surge uma questão legítima: olhando para aqueles que estudam a Bíblia de uma forma simples e comum, podemos ver que eles vêm a sentir a sua superioridade sobre os outros, enquanto nós que estudamos Cabala crescemos mais descontentes, vendo quão piores nos tornámos nos nossos desejos e pensamentos, e quão mais afastados nos movemos dos bons desejos espirituais que nos levaram à Cabala em primeiro lugar!
Talvez fosse melhor não começar a envolver-se no estudo da Cabala de todo! Talvez todo o tempo dedicado a estes estudos seja gasto em vão! Por outro lado, poderemos já sentir que só aqui podemos encontrar a verdade e as respostas às questões dentro de nós.
Este sentimento só adiciona à pressão que se acumula: não podemos abandonar a Cabala porque é a verdade, mas parecemos não ter nada em comum com ela e, assim, estamos a afastar-nos dela, com a perceção de que os nossos desejos são muito mais inferiores do que os dos nossos contemporâneos.
Parece-nos que se outro estivesse no nosso lugar, o Criador teria respondido a essa pessoa há muito tempo e tê-la-ia trazido mais perto de Si. Outro não se teria queixado e tornado amargo porque o Criador era inconsiderado para com eles, ou possivelmente, não reagindo de todo às suas ações.
No entanto, na essência, estas emoções são experienciadas apenas por aqueles que estão no processo de verdadeiro trabalho espiritual sobre si próprios, em vez de por aqueles que meramente se debruçam sobre o estudo da Bíblia, apenas para aprender os seus significados simples e para manter os mandamentos.
Isto porque aqueles que aspiram a ascender esforçar-se-ão por alcançar um estado espiritual no qual todas as aspirações, pensamentos e desejos pessoais estão desprovidos de interesses pessoais. Para este fim, a quintessência dos verdadeiros pensamentos e motivações de alguém é revelada do Alto.
Podemos provar que podemos suportar o nosso teste após termos passado pelo sofrimento, tendo encontrado dentro de nós a enormidade do nosso egoísmo, e tendo visto a grande distância entre o eu e mesmo a mais insignificante qualidade espiritual. Provaremos que somos dignos de vislumbrar os mundos espirituais, no entanto, se pudermos ainda, apesar de tudo o que suportámos, silenciar o coração, e expressar amor pelo Criador sem exigir uma recompensa pelos esforços e sofrimento.
E se, apesar de tudo o que foi suportado, estas condições forem mais caras do que os prazeres animais e a tranquilidade.
Em geral, sempre que começamos a fazer trabalho real sobre nós próprios, começamos imediatamente a ver os obstáculos no nosso caminho para a perceção do espiritual.
Estes obstáculos aparecem como vários pensamentos e desejos alheios, como a perda de confiança na correção do caminho escolhido, como desânimo face aos nossos desejos reais.
Todos estes obstáculos são enviados para nós para nos testar do Alto. Eles determinarão se realmente possuímos uma sede pela verdade, independentemente de quão contraditória ela seja à nossa própria natureza egoísta, ou quão angustiante seja desistir dos nossos próprios confortos pelo benefício do Criador.
Por outro lado, as pessoas comuns não estão a ser testadas, e sentem-se muito confortáveis com o modo de vida normal, pensando mesmo que um lugar no próximo mundo está garantido porque estas pessoas mantêm os mandamentos da Bíblia.
Assim, tais indivíduos sentem que tanto este mundo como o mundo vindouro estão assegurados, e rejubilam com o pensamento da recompensa futura, sentindo que é bem merecida porque estão a cumprir a Vontade do Criador, e assim ganharam compensação tanto neste mundo como no mundo vindouro.
Ou seja, o egoísmo da pessoa que cumpre os mandamentos aumenta muitas vezes em comparação com o egoísmo da pessoa não cumpre, que não espera recompensa do Criador no reino espiritual.
Mas o Criador testa-nos não para descobrir onde estamos espiritualmente. O Criador sabe isto sem testar, porque é Ele quem dá uma posição particular a cada pessoa. Ele testa-nos para nos tornar conscientes do nosso próprio estado espiritual. Ao criar em nós o desejo por prazeres terrestres, o Criador afasta aqueles que são indignos, e dá àqueles que Ele quer aproximar a oportunidade de se aproximarem dos portões do mundo espiritual ao superar todos os obstáculos.
Para que o indivíduo escolhido sinta ódio pelo egoísmo, o Criador revela gradualmente o verdadeiro inimigo de alguém e mostra o verdadeiro culpado que está no caminho de entrar nos reinos espirituais, até que o sentimento de ódio se desenvolva a tal nível que alguém consiga separar-se dele completamente.
Tudo o que existe fora do "eu" da pessoa é o próprio Criador, uma vez que o fundamento da criação é a perceção do "eu" por cada um de nós. Esta ilusão do "eu" pessoal constitui a criação e é sentida apenas por nós. Mas fora deste sentido do "eu" pessoal, só o Criador existe.
Assim, a nossa atitude para com o mundo e todos à nossa volta reflete a nossa atitude para com o Criador. Se nos habituarmos a tal atitude para com tudo, restabelecemos assim um laço direto com o Criador. Mas se não há ninguém exceto o Criador, então o que é este "eu"? O "eu" é o sentido de "eu", o sentido do nosso próprio ser, que na verdade não existe.
No entanto, de acordo com os desejos do Criador, a alma (que é uma parte Dele), sente-se assim porque está removida do Criador. O Criador oculta-Se da alma, mas à medida que essa parte do Criador sente o Criador cada vez mais, o "eu" começa a sentir cada vez mais que é uma parte do Criador, em vez de uma criação independente.
As etapas da nossa perceção gradual do Criador são conhecidas como “os mundos”, ou Sefirot.
Normalmente, nascemos sem qualquer sentido do Criador, e percebemos tudo à nossa volta como “realidade”. Esta condição forma "o nosso mundo".
Se o Criador desejar trazer-nos para mais perto Dele, por vezes começaremos a sentir uma existência vaga de uma Força Superior. Ainda não vemos esta Força com a nossa visão interior, mas sentimos que ao longe, do exterior, algo ilumina, trazendo-nos sentimentos de confiança, de elevação espiritual e de inspiração.
Mas o Criador pode novamente tornar-se distante e impercetível. Nesse caso, sentimos isto como um regresso ao nosso estado original, e de alguma forma conseguimos esquecer que em tempos estávamos certos da existência do Criador, e até O percebíamos.
O Criador pode também distanciar-Se de tal forma que sentimos a partida de uma Presença espiritual, e como resultado tornamo-nos desanimados. Este sentimento é enviado pelo Criador àqueles que Ele deseja trazer ainda para mais perto de Si, porque um sentido de anseio pelo sentimento maravilhoso que desapareceu faz-nos tentar trazer esse sentimento de volta.
Se fizermos um esforço e começarmos a estudar Cabala, e encontrarmos um verdadeiro professor, então o Criador ou Se revela num maior nível através da nossa ascensão espiritual, ou Se oculta, incitando-nos a encontrar uma saída do nosso estado de descida.
Se, ao exercer a nossa força de vontade, formos capazes de superar este estado desagradável da ocultação do Criador, então receberemos ajuda do Alto na forma de elevação espiritual e inspiração. Por outro lado, se não tentarmos sair desse estado através das nossas próprias forças, o Criador poderá aproximar-Se Ele Próprio de nós, ou poderá deixar-nos totalmente (após nos incitar várias vezes a fazer um esforço independente para avançar na Sua direção), embora ainda sejamos incapazes de O perceber.