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Capítulo 17: Adesão com o Criador 


Adesão com o Criador

A Cabala é chamada “a ciência do oculto” porque revela àquele que a estuda aquilo que antes estava escondido. A verdadeira imagem da existência é revelada apenas àquele que a apreende, como está escrito no poema de Rabi Ashlag:
A verdade milagrosa resplandecerá,
E a boca apenas pronunciará essa verdade,
E tudo o que for revelado em confidência
Tu verás, mas nenhum outro!
A Cabala é o ensinamento do que é secreto, pois está oculto ao leitor comum e só se revela sob condições muito especiais. Aqueles que a estudam descobrirão que esses segredos se tornam gradualmente mais claros a partir dos próprios ensinamentos, juntamente com uma orientação especial para direcionar os desejos e pensamentos do leitor.
Apenas aquele para quem a Cabala deixa de ser um ensinamento oculto e se torna revelado pode ver e compreender a construção do mundo, e o chamado “alma” e “corpo” só pode ser visto e compreendido por aqueles para quem a Cabala deixa de ser um ensinamento oculto e se torna revelado. Contudo, mesmo esses não conseguem transmitir as suas visões percebidas da criação a mais ninguém, não tendo o direito de passar essa informação, com uma exceção: durante a ascensão espiritual gradual, aprende-se a verdade da criação: Não há nada exceto o Criador!
Os órgãos sensoriais com os quais fomos criados conseguem perceber apenas uma pequena parte de toda a criação, conhecida como “o nosso mundo”. Todos os mecanismos que inventámos ampliam o alcance dos nossos órgãos sensoriais. Somos incapazes de imaginar quais órgãos sensoriais nos faltam, porque não sentimos qualquer privação pela sua ausência.
Isto pode ser comparado a não sentir a necessidade de um sexto dedo na mão. Como não temos os sentidos necessários para perceber outros mundos, não os podemos sentir. Portanto, apesar de estarmos rodeados por um ambiente tão rico, só conseguimos ver um pequeno fragmento dele. Para além disso, mesmo o fragmento que percebemos é bastante distorcido, pois só conseguimos apreender uma pequena porção dele.
No entanto, usando o que percebemos como base, criamos as nossas visões de toda a existência. Tal como aqueles que veem apenas em modo de raio-X, onde tudo é percebido como uma imagem esquelética que obstrui os raios-X, também nós temos uma visão distorcida do universo. Assim como não podemos obter uma imagem verdadeira deste universo com base na visão de raio-X, também não podemos compreender a verdadeira imagem da criação através dos nossos sentidos limitados.
Nenhuma quantidade de imaginação pode compensar a nossa falta de capacidade de perceber, pois até as nossas fantasias são construídas com base em experiências passadas. Apesar de tudo isto, tentemos criar um conceito simples do chamado “outro mundo”, que existe do outro lado da nossa conceção, aquele além do alcance dos nossos órgãos sensoriais.
Primeiro, imagine que está num vácuo. Diante de si estende-se um caminho. Ao longo do caminho, em certos intervalos, há marcações desde o zero, onde está agora, até ao fim. Estas marcações dividem o caminho em três partes.
Não nos movemos ao longo do caminho pelo avanço alternado dos nossos pés, mas por mudanças alternadas nos desejos.
No mundo espiritual, lugar, espaço ou movimento não existem como os entendemos. O mundo espiritual é o mundo das emoções que existem fora do domínio dos corpos físicos.
Os objetos são emoções. O movimento é a mudança de qualidades. O lugar é uma certa qualidade. O lugar no mundo espiritual é definido pelas suas características. Portanto, o “movimento” é definido como “a mudança das emoções de alguém, semelhante ao conceito de movimento espiritual no nosso mundo, o movimento das emoções, mas não o movimento físico.
Assim, o caminho que tentamos compreender é a alteração gradual das nossas qualidades internas, os nossos desejos.
A distância entre objetos espirituais é definida e medida pela diferença nas suas qualidades. Quanto mais semelhantes forem as qualidades, mais próximos os objetos são considerados. A proximidade ou distância dos objetos é definida pela mudança relativa nas suas propriedades. Se dois objetos são idênticos, então fundem-se num só. No entanto, se uma nova qualidade aparece num dos objetos espirituais, essa qualidade particular separa-se do primeiro, e desta forma nasce um novo objeto espiritual.
No fim do caminho diante de nós está o próprio Criador. O Seu atributo – o desejo completo de doar – determina a Sua distância de nós. Como nascemos neste mundo apenas com características egoístas, estamos tão distantes do Criador como o leste está do oeste. E o objetivo que o Criador coloca diante de nós é alcançar as Suas qualidades enquanto vivemos neste mundo, ou seja, fundir-nos espiritualmente com Ele.
O nosso caminho é levar-nos a uma alteração gradual das nossas qualidades até que sejam exatamente como as do Criador. A única qualidade do Criador que define a Sua essência é a completa ausência de qualquer traço de egoísmo.
Isto é seguido pela ausência de qualquer pensamento sobre si próprio, ou sobre a sua condição e poder – uma ausência de tudo o que constitui a essência dos nossos pensamentos e aspirações. Mas, como existimos neste mundo numa cobertura externa específica, devemos cuidar do essencial para manter essa cobertura. Isso não é considerado um sinal de egoísmo.
Em geral, podemos determinar se um pensamento ou desejo do corpo é egoísta por um teste simples: se queremos libertar-nos de um pensamento, mas a nossa sobrevivência depende dele, então tal pensamento ou ação é considerado involuntário, não egoísta, e, portanto, não nos separa do Criador. O Criador avança-nos em direção ao nosso objetivo da seguinte maneira: Ele dota-nos de um desejo “mau” ou de sofrimento, que pode ser comparado a avançar com o pé esquerdo.
Se encontrarmos em nós a força para pedir ajuda ao Criador, então o Criador dar-nos-á um desejo “bom” ou prazer, que pode ser comparado ao movimento para a frente com o pé direito. Mais uma vez, recebemos do Alto um desejo mau ainda mais forte ou dúvidas sobre o Criador, e, novamente, com um esforço ainda maior da vontade, devemos pedir-Lhe que nos ajude.
O Criador ajudará dando-nos um desejo bom ainda maior, e assim por diante.
Desta forma, avançamos. Não há movimento para trás. Quanto mais puros os desejos, mais longe está a pessoa do ponto inicial de egoísmo absoluto. O movimento para a frente pode ser descrito de várias maneiras, mas é sempre um avanço alternado através de todos os sentimentos.
Após um sentimento de algo espiritual, uma perceção subconsciente da existência do Criador, segue-se um sentimento de confiança, que depois traz um sentimento de alegria. Depois, este sentimento começa a desvanecer-se, indicando que subimos a outro degrau de ascensão espiritual, que não podemos perceber devido à falta de órgãos sensoriais com os quais o pudéssemos experienciar plenamente. Como ainda não alcançamos o próximo nível através do sofrimento, esforço e trabalho (não construímos os vasos apropriados), a perceção do próximo nível ainda não nasceu.
Os novos órgãos sensoriais para a próxima etapa (o desejo de prazer e o sentimento de sofrimento devido à falta desse prazer) podem ser desenvolvidos de duas maneiras:
1. O Caminho da Cabala: Aqui, começamos a perceber o Criador, depois perdemos a nossa conexão. No seu lugar, surge o sofrimento porque não podemos sentir prazer.
O sofrimento é necessário para que, eventualmente, possamos sentir prazer.
Desta forma, nascem novos órgãos sensoriais que nos permitem perceber o Criador em cada etapa consecutiva. Tal como no nosso mundo, sem um desejo por um objetivo ou objeto, não somos capazes de experienciar prazer com ele.
As diferenças entre as pessoas, e entre o homem e o animal, são determinadas pelo que escolhem para lhes trazer prazer. Portanto, o avanço espiritual não é possível sem primeiro sentir uma carência. Devemos sofrer pela ausência do que desejamos.
2. O Caminho do Sofrimento: Se alguém, através do esforço, estudos, apelos ao Criador e súplicas dos amigos, não conseguir elevar-se a novos desejos de amar e temer o Criador; se exibir superficialidade de pensamento, desrespeito pelo espiritual e uma atração por prazeres baixos, então essa pessoa descerá ao nível das forças do mal.
Neste caso, a pessoa avançará pela via da esquerda nos níveis correspondentes dos mundos egoístas (maus) ABYA (Azilut, Beria, Yetzira, Assiya). No entanto, o sofrimento tornar-se-á um vaso no qual uma nova perceção do Criador pode ser recebida.
O progresso pelo caminho da Cabala difere do caminho do sofrimento, pois recebemos a Luz do Criador. Esta é uma sensação da presença do Criador, que depois nos é retirada.
Quando nos falta esse prazer, começamos a ansiar pela Luz. Esse anseio é o vaso, ou novo conjunto de órgãos sensoriais, através do qual podemos tentar receber uma perceção do Criador. Esses objetivos puxam-nos para a frente até recebermos as perceções desejadas.
Quando avançamos pelo caminho do sofrimento, somos empurrados por trás pelo sofrimento, ao contrário do caminho da Cabala, onde avançamos pelo desejo de prazer. O Criador guia-nos de acordo com o Seu plano – levar-nos, transferir cada um de nós e toda a humanidade, nesta vida ou nas vidas vindouras, ao ponto final deste caminho onde Ele Se encontra.
Este caminho representa os degraus que usaremos para nos aproximarmos Dele à medida que assumimos mais das Suas características. Somente ao fundirmos as nossas qualidades com as do Criador poderemos obter uma verdadeira perceção da criação do mundo e ver que nada mais existe para além do Criador.
Todos os mundos e os seus habitantes, tudo o que sentimos à nossa volta, assim como nós próprios, constituem apenas uma parte Dele. Mais precisamente, nós somos Ele. Todos os nossos pensamentos e ações são determinados pelos nossos desejos. O intelecto serve apenas para nos ajudar a alcançar aquilo que desejamos.
Quando recebemos os nossos desejos, eles são-nos concedidos do Alto, e apenas o próprio Criador pode alterá-los.
O Criador fez isto intencionalmente para que compreendêssemos que tudo o que nos aconteceu no passado, presente e futuro em todas as áreas da vida depende absolutamente Dele. As nossas situações só podem melhorar se Ele assim o desejar, pois só Ele é a causa do que aconteceu, acontece e acontecerá.
Isto é necessário para que reconheçamos e sintamos a necessidade de uma conexão com Ele. Podemos traçar este processo desde a carência inicial de desejo de O reconhecer no início do caminho, até ao fim do caminho, quando nos tornamos plenamente ligados a Ele.
Se alguém sente subitamente um desejo de se aproximar do Criador, um desejo e atração pelo espiritual, então isto é o resultado do Criador atrair essa pessoa para Si, incutindo esses sentimentos no indivíduo. Numa situação inversa, vemos que, ao “cair” nas suas aspirações, ou mesmo no seu estatuto material, social ou outro, através de fracassos e privações, começamos gradualmente a compreender que isto é feito intencionalmente pelo Criador.
Desta forma, o indivíduo pode sentir-se dependente da Origem de tudo o que ocorre, criando a compreensão de que “só o Criador pode ajudar, caso contrário perecerá”. O Criador faz isto propositadamente para despertar em nós uma firme necessidade Dele, para que O incitemos a mudar o nosso estado espiritual. Desta forma, ansiamos por mais proximidade com Ele, e Ele pode, de acordo com os nossos desejos, trazer-nos para mais perto de Si.
Disto vemos que o Criador nos ajuda a salvar-nos de um sono (espiritual) ou de uma situação em que estamos satisfeitos com o nosso estado presente. Para que possamos progredir em direção ao objetivo determinado pelo Criador, Ele envia-nos sofrimento e fracasso, tanto físicos como espirituais, através do nosso ambiente, família, amigos, colegas e conhecidos.
Fomos criados de modo a percebermos que tudo o que é agradável resulta da nossa aproximação a Ele. Sentimos também o oposto: tudo o que é desagradável é causado pelo nosso afastamento Dele. Por esta razão, o nosso mundo está construído de tal forma que dependemos da saúde, da família e do amor e respeito daqueles que nos rodeiam.
Para o Criador, todos estes servem como mensageiros, para que Ele possa exercer influências negativas que nos forcem a procurar soluções para essas pressões, reconhecendo finalmente que todo o mundo depende apenas do Criador. Então, com suficiente força e paciência, podemos tornar-nos dignos de associar tudo o que acontece na vida ao desejo do Criador, em vez de a alguma outra causa, ou mesmo às nossas próprias ações e pensamentos passados. Com o tempo, ficará claro que apenas o Criador é a causa de tudo o que acontece.
O caminho apresentado acima é o caminho para cada um de nós, assim como para a humanidade em geral. Desde o ponto inicial em que nos encontramos de acordo com os nossos desejos presentes (“o nosso mundo”) até ao destino final a que devemos chegar, mesmo contra a nossa vontade (“o mundo vindouro”), o nosso caminho divide-se em quatro etapas ou estados:
1. Completa falta de perceção (ocultação absoluta) do Criador.
As consequências deste estado são: ausência de crença no Criador e na Supervisão Divina do Alto; crença no seu próprio poder, no poder da natureza, das circunstâncias e do acaso.
Toda a humanidade está nesta etapa (neste nível espiritual). Quando estamos nesta etapa, as nossas vidas tornam-se um processo de acumulação de experiências nas nossas almas através de vários sofrimentos que nos são enviados.
A alma acumula experiências através de regressos repetidos da mesma alma a este mundo em diferentes corpos.
Assim que a alma adquire uma quantidade suficiente de experiência, a pessoa consegue perceber o primeiro nível espiritual.
2. Perceção pouco clara do Criador.
As consequências deste estado são uma crença em castigo e recompensa, e a crença de que o sofrimento resulta do afastamento do Criador. O prazer é visto como resultado da proximidade com o Criador.
Sob a influência destas grandes dificuldades, podemos regressar a uma etapa anterior. No entanto, à medida que acumulamos experiência, sem termos consciência deste processo, continuamos a aprender até percebermos que apenas a nossa plena consciência da gestão do Criador nos dará força para progredir.
Nestes dois estados, temos a capacidade de acreditar na Supervisão Superior. Se tentarmos, apesar de todas as perturbações enviadas do Alto, fortalecer a nossa fé e trabalhar para perceber a Gestão do Criador no Seu mundo, então, após um número e intensidade específicos de esforços, o Criador ajudar-nos-á, revelando-se tanto a Si próprio como a imagem da existência.
3. Revelação parcial da Sua Gestão no mundo.
Aqui, somos capazes de ver a recompensa por ações boas e o castigo por ações más. Portanto, somos incapazes de fazer outra coisa senão o bem e abster-nos do mal, tal como cada um de nós é incapaz de se abster de fazer o bem ou de se prejudicar a si próprio.
No entanto, esta etapa de desenvolvimento espiritual não é a final, pois nesta fase todas as nossas ações são involuntárias, resultantes da nossa consciência de recompensa e castigo. Assim, há ainda uma etapa de desenvolvimento espiritual – alcançar a perceção de que tudo o que é feito pelo Criador é feito com amor absoluto e eterno pelas Suas criaturas.
4. Revelação da imagem completa da Gestão do Criador no mundo.
Isto oferece uma perceção clara de que a gestão do mundo pelo Criador não se baseia na recompensa e castigo pelas ações de uma pessoa, mas sim no Seu amor ilimitado pelas Suas criações. Alcançamos esta etapa de desenvolvimento espiritual quando vemos claramente que, em todas as circunstâncias, com todas as criações em geral e com cada uma em particular, sem julgar se as suas ações são boas ou más, o Criador faz sempre uma gestão e supervisão apenas com amor absoluto e ilimitado.
Quando sentimos este Nível Espiritual Superior, já percebemos o estado futuro de todos. Podemos perceber a situação daqueles que ainda não alcançaram este estado, juntamente com aqueles no passado e no presente que já o alcançaram; também apreendemos o conhecimento para experienciar a mesma etapa, tanto como indivíduos como no todo.
Esta apreensão resulta da revelação pelo Criador de todo o desígnio da criação e da Sua relação com cada alma em cada geração, por toda a duração da existência de todos os mundos. Estes mundos foram criados com um único propósito – dar prazer às Suas criaturas. É o único propósito que determina todas as ações do Criador em relação às Suas criaturas.
Isto continua desde o início até ao fim da criação, para que todas elas, em conjunto e cada uma separadamente, possam experienciar um prazer ilimitado pela sua ligação a Ele. Como resultado, quando podemos ver claramente que as ações do Criador são apenas para fazer o bem e beneficiar as Suas criaturas, forma-se em nós as ações do Criador para com as Suas criações.
Fomos consequentemente imbuídos de um sentimento de amor ilimitado pelo Criador, e, como resultado da semelhança de sentimentos, o Criador e a pessoa unem-se numa única entidade. Uma vez que esta etapa representa o objetivo final da criação, as três primeiras etapas constituem passos preliminares necessários para alcançar a quarta.
Todos os desejos de um indivíduo estão como que alojados no coração, pois são aí sentidos numa forma fisiológica. Portanto, os nossos corações são considerados representativos de todos os desejos do corpo e da nossa essência. As mudanças nos desejos do coração revelam as mudanças na personalidade de cada um.
Desde o nosso nascimento, ou seja, desde o momento em que aparecemos neste mundo, os nossos corações estão ocupados apenas com as preocupações do corpo; e apenas os desejos do corpo lhe dizem respeito. O coração está cheio apenas com os desejos do corpo, e é deles que vive.
Mas, no fundo do coração, na profundidade de todos os desejos, há um ponto que está escondido por trás de todos os desejos mesquinhos e temporários e que não é percebido por nós. É a necessidade de sensação espiritual. Este ponto é uma parte do próprio Criador.
Se, conscientemente, através do poder dos nossos esforços para superar e ultrapassar a indiferença e a preguiça do corpo, procurarmos na Cabala os caminhos para nos aproximarmos do Criador, este ponto gradualmente enche-se de desejos puros e bons. Assim, alcançamos a perceção do Criador no primeiro nível espiritual, o nível do mundo Assiya.
Depois, passando nas suas perceções por todas as etapas do mundo Assiya, podemos começar a perceber o Criador no nível do mundo Yetzira, e assim por diante, até alcançarmos o nível mais alto – a perceção do Criador no nível do mundo de Atzilut.
Cada vez, experienciamos todas as nossas perceções no mesmo ponto interno dos nossos corações. No passado, quando os nossos corações estavam sob a influência dos desejos do corpo, esse ponto interno no coração não recebia absolutamente nenhuma perceção do Criador. Só podíamos pensar nos desejos que o corpo nos forçava a pensar, e desejar apenas aquilo que o corpo nos forçava a desejar.
Agora, se enchermos os nossos corações com desejos puros e altruístas através de orações, pedidos e exigências ao Criador pela nossa redenção espiritual, começaremos a perceber o Criador. Então, seremos capazes de pensar apenas Nele, pois nasceram em nós pensamentos e desejos relacionados com esse nível espiritual.
Consequentemente, desejamos sempre apenas aquilo que somos forçados a desejar pela influência espiritual que recebemos, de acordo com a etapa em que nos encontramos.
Dado o exposto, torna-se claro que não devemos esforçar-nos por alterar os nossos próprios pensamentos, mas sim pedir ao Criador que os altere, pois todos os nossos desejos e pensamentos são apenas consequências do que recebemos, ou, mais exatamente, do nível em que percebemos o Criador.
Em relação a toda a criação, é evidente que tudo deriva do Criador, mas o Criador criou-nos com um certo nivel de liberdade de escolha. A capacidade de direcionar os nossos desejos aparece apenas naqueles que alcançam as etapas de ABYA. Quanto mais alto ascendemos espiritualmente, maior é o nosso nivel de liberdade.
Para esclarecimento, podemos comparar o processo do nosso desenvolvimento espiritual com o desenvolvimento da natureza material do nosso mundo. Toda a natureza e o universo representam apenas um único desejo de receber prazer. Este existe em cada indivíduo em diferentes níveis, e à medida que este desejo aumenta, seres mais avançados surgem no nosso mundo, porque o desejo induz o intelecto a trabalhar e desenvolver o intelecto para a satisfação das suas necessidades.
Os nossos pensamentos são sempre um resultado dos nossos desejos. Eles seguem-nos e são direcionados apenas para a realização desses desejos, e nada mais. Junto com isso, os pensamentos têm um papel especial – com a sua ajuda, podemos aumentar os nossos desejos.
Se aprofundarmos e expandirmos constantemente os nossos pensamentos sobre algo, e nos esforçarmos por regressar constantemente a esse pensamento, gradualmente esse desejo começará a aumentar em relação aos outros desejos. Desta forma, podemos alterar a correlação dos nossos desejos. Com pensamentos constantes sobre um desejo pequeno, podemos aumentá-lo num desejo tão grande que ofuscará todos os outros desejos e determinará a nossa essência.

Fases da Revelação

O nível mais baixo na escala espiritual assemelha-se à parte inanimada da natureza, semelhante aos corpos no espaço, ou minerais, e assim por diante. Este nível inanimado também é chamado “não vivo”.
O nível inanimado no espiritual (ou alguém que se encontra aí) não é capaz de agir de forma independente. Nem pode revelar características próprias, uma vez que o desejo de ter prazer dentro dele é tão pequeno que é definido como apenas guardando as suas características e não promovendo o seu desenvolvimento.
A falta de individualidade nesse nível de criação é pronunciada no facto de que não possui nada independente. Foca-se na sua função cegamente, executando automaticamente os desejos do seu Criador, pois não pode conceber nada mais devido à ausência de desejos individuais.
Como o Criador quis que os objetos inanimados se comportassem precisamente desta maneira, Ele deu-lhes o nível mais baixo de desejos, que não exigia que esses objetos se desenvolvessem. Assim, não tendo outros desejos para além dos originalmente implantados neles pelo Criador, esses objetos executam cegamente as suas tarefas, cuidando apenas das suas necessidades de natureza espiritualmente inanimada, sem sentir o seu ambiente circundante. Da mesma forma, nas pessoas ainda espiritualmente inanimadas, há também uma falta de quaisquer desejos individuais. Apenas os desejos do Criador as guiam, e, devido à sua natureza, elas devem seguir esta orientação meticulosamente e subconscientemente, de acordo com o programa implantado nelas pelo Criador.
Por conseguinte, apesar de o Criador ter concebido a natureza humana desta forma para o Seu próprio propósito, neste estado espiritual as pessoas não conseguem perceber nada além de si próprias. Consequentemente, não podem fazer nada pelos outros, mas apenas trabalhar para o seu próprio benefício. Assim, este nível de desenvolvimento espiritual é chamado “inanimado”.
Um nível mais elevado de desenvolvimento pode ser encontrado na natureza das plantas. Uma vez que o Criador conferiu a este grupo de objetos um maior desejo de prazer do que aquele dado aos objetos inanimados, as plantas requerem certo movimento e crescimento para satisfazer as suas necessidades.
Mas este movimento e crescimento é um atributo de um grupo, não uma aspiração individual. Nas pessoas que pertencem ao nível vegetativo de desejo, surge um certo nível de independência espiritual do Criador que estabelece o programa. Como o Criador construiu toda a natureza com base no egoísmo absoluto (o desejo de receber prazer para benefício próprio), no nível vegetativo estes indivíduos começam a desenvolver inclinações para se distanciarem dos desejos já implantados neles.
Consequentemente, começam a agir considerando os outros, ou seja, como se fosse contra a sua natureza. No entanto, independentemente do facto de as plantas neste mundo crescerem em todas as direções e possuírem uma certa liberdade de movimento, o seu movimento ainda é considerado um movimento coletivo. Afinal, nenhuma planta é capaz, devido à completa ausência de um desejo apropriado, sequer de conceber a possibilidade de movimento individual.
Da mesma forma, uma pessoa que pertence ao nível vegetativo de desejos não é capaz de aspirar a esforços individuais que se distanciem das normas do coletivo, da sociedade e da sua educação. Pelo contrário, esta pessoa procura preservar e obedecer a todas as normas e leis do seu ambiente “vegetativo”. Este é composto por um grupo semelhante de pessoas que pertencem ao nível de desenvolvimento “vegetativo”.
Portanto, tal como a planta, a pessoa neste nível não tem uma vida individual e separada, mas vive como parte de uma comunidade, residindo entre muitos outros que são semelhantes na sua natureza.
Entre todas as plantas e entre todas as pessoas neste nível, pode ser encontrada apenas uma vida comum, em vez de uma vida individual para cada ser. Todas as plantas, em geral, podem ser comparadas a um único organismo vegetativo, no qual cada planta pode ser equiparada a um ramo separado deste corpo.
As pessoas que pertencem ao nível espiritual “vegetativo” também podem ser comparadas a este exemplo. Embora por vezes se desviem das suas naturezas egoístas, no entanto, devido ao seu desenvolvimento espiritual ser reduzido, permanecem confinadas pelas leis da sociedade e pelo seu ambiente  circundante. Não têm desejos individuais ou força para se oporem à sociedade ou à sua educação, embora em algumas questões já vão contra a sua própria natureza básica e ajam em benefício dos outros.
Na gradação espiritual do desenvolvimento, o nível vegetativo é seguido pelo nível animal. Este é considerado superior porque os desejos, atribuídos pelo Criador a este nível, desenvolvem aqueles que se encontram neste nível a tal nível que encontram satisfação na capacidade de se moverem independentemente dos outros e pensarem independentemente para satisfazer os seus desejos, muito mais do que no nível vegetativo.
Cada animal tem um caráter e sentimentos individuais, independentemente do ambiente circundante. Consequentemente, uma pessoa nesta etapa de desenvolvimento possui uma maior capacidade para agir contrariamente às inclinações egoístas e para o benefício dos outros.
Mas, embora tenha sido alcançado um nível de independência do coletivo, levando a uma vida individual pessoal não moldada pelas opiniões da comunidade, os sentimentos pelo eu ainda são predominantes.
Aqueles que existem no nível humano (“falante”) de desenvolvimento já são capazes de agir contra a sua natureza e contrariamente ao coletivo (ao contrário da planta).
Estas pessoas são completamente independentes da sociedade na escolha dos seus desejos.
Podem sentir por qualquer outro ser e, assim, cuidar dos outros. Podem ajudá-los na sua busca por se melhorarem, identificando-se com o seu sofrimento. Aqueles neste nível, ao contrário dos animais, podem sentir o passado e o futuro e, assim, agir, guiados pelo reconhecimento de um propósito central.
Todos os mundos e as etapas atribuídas a esses mundos podem ser vistos como uma sequência de cortinas que ocultam de nós (a Luz do) Criador. À medida que adquirimos a força espiritual para superar as nossas próprias naturezas, cada uma das suas forças, cada cortina consecutiva, desaparece como se se dissolvesse.
A seguinte narrativa ilustra a progressão da nossa busca espiritual para dissolver as cortinas e viver como um com o Criador.