Capítulo 16. Qualidades Interiores e Aspectos Exteriores
Qualidades Interiores e Aspectos Exteriores
A resposta ao intelecto deve ser desta maneira: “Acredito que o Criador escuta todos os meus pedidos e orações por auxílio.” Se conseguirmos manter-nos firmes nas nossas respostas, tanto ao intelecto como ao coração, então o Criador ser-nos-á revelado, para que vejamos e sentamos apenas o Criador.
Dentro de cada um de nós existem setenta desejos fundamentais. Estes são chamados “as setenta nações do mundo”. Por isso, as nossas almas correspondem ao partzuf de Zeir Anpin no mundo de Atzilut, que inclui setenta sefirot. Após começarmos a procurar maior proximidade com o Criador e recebermos a Luz da Cabala, são-nos concedidos sentimentos e desejos que nunca imaginamos existir.
Os setenta desejos derivam de duas origens, pois avançamos em combinações das duas linhas – a direita e a esquerda. As nossas ações em conformidade com a linha direita são contrariadas pelas nossas inclinações ao mal (egoísticas), a casca (klipa), em oposição ao trabalho do coração, que é chamada Klipat Yishmael.
O trabalho na linha da esquerda é contrariado por uma força do mal em oposição ao trabalho do intelecto, chamada Klipat Esav [Esau]. Contudo, quando progredimos no nosso trabalho, vemos que, para entrar no mundo espiritual, devemos livrar-nos de ambas as klipot.
Isto porque elas não desejam receber as leis do mundo espiritual – como se menciona na Bíblia, que o Criador ofereceu a Torá, as leis do mundo espiritual, a Esav e Yishmael antes de a dar a Israel, mas eles não quiseram recebê-la. Só após vermos que não somos capazes de receber as leis altruístico-espirituais com a força da direita ou da esquerda, é que progredimos cuidadosamente para a linha do meio, chamada “Faremos e ouviremos”, que é designada “pelo benefício da doação” e, então, chamada Israel.
Dado que todos nós, com os nossos pensamentos, intenções e desejos, estamos totalmente imersos no nosso egoísmo, somos incapazes de pensar de forma independente, objetiva e não egoísta. Assim, somos incapazes de nos criticarmos.
Em geral, não temos necessidade de nos criticarmos, pois já sabemos que tudo o que fazemos se baseia nos nossos desejos egoísticos. Contudo, ao trabalharmos em nós próprios, fazendo um trabalho que vai contra os nossos desejos, quando investimos esforços para desenvolver anseios espirituais, precisamos de examinar a nossa condição. Somos nós próprios que devemos examinar a situação, não o Criador, que já conhece a nossa condição.
A maneira mais segura de testar o nosso verdadeiro estado espiritual é verificar se sentimos alegria quando trabalhamos pelo benefício do Criador. Se assim for, vemos que o teste não consiste em determinar se exercemos grande força física ou emocional, mas sim em examinar o nosso estado interior. Mantemos a mesma alegria, independentemente de recebermos do Criador o que imaginamos ser necessário para nós, ou não?
A Cabala fala do indivíduo como sendo um mundo inteiro, pois dentro de cada um de nós se encontra tudo o que nos rodeia: o universo, as nações, os gentios, os justos das nações do mundo, Israel, o templo e até o próprio Criador – o ponto que está nos nossos corações.
Em primeiro lugar, a Cabala ensina sobre as nossas qualidades interiores e, depois, prossegue para os aspectos exteriores, que são considerados consequências das qualidades interiores e, assim, designados com nomes respectivos. Para além disso, o estado espiritual das qualidades interiores afecta directamente o estado espiritual dos aspectos exteriores e a influência destes sobre nós.
Enquanto seres humanos, o nosso estado espiritual inicial é o egoísmo. Aquele que começa a esforçar-se por proximidade com o Criador é conhecido como “justo das nações do mundo”. Como pode alguém verificar se, de facto, já está neste nível? Dado que o homem possui apenas desejos egoístas, tudo o que falta para a gratificação do ego é percebido como tendo sido retirado, como se o desejado tivesse sido possuído e depois roubado do indivíduo.
Temos esta sensação devido ao nosso “passado” espiritual: em níveis espirituais anteriores, as nossas almas estavam completamente preenchidas com o bem, mas com a nossa descida espiritual a este mundo, tudo isso foi perdido. Portanto, no momento em que sentimos um desejo por algo, é equivalente a estarmos cheios de queixas contra o Criador pelo que foi retirado ou nunca dado – aquilo por que ansiamos.
Assim, se conseguirmos dizer do fundo dos nossos corações que tudo o que o Criador fez é para o bem de todos nós, e sentirmos alegria e amor pelo nosso Criador, como se, de facto, tivéssemos recebido d’Ele tudo o que poderíamos imaginar para nós próprios, e justificarmos tudo o que o Criador controla, então completamos com sucesso o teste das nossas intenções (kavana). Aquele que assim triunfou é conhecido como “justo das nações do mundo”.
Se, com a ajuda do Criador, trabalharmos ainda mais na correcção do nosso desejo de receber, então o objecto de verificação já não são os nossos pensamentos, mas as nossas ações. O Criador dá-nos tudo o que alguma vez desejamos, mas devemos estar preparados para devolver tudo, recebendo apenas a parte que somos capazes de receber pelo benefício do Criador.
Em muitas situações, experienciamos os testes como uma escolha entre duas possibilidades: sentimos como se metade dos nossos desejos nos puxasse para um lado, e a outra metade para o outro. Em geral, não sentimos dentro de nós qualquer luta entre as forças opostas do bem e do mal, pois apenas as forças do mal dominam dentro de nós, e o problema que continua a surgir é qual força nos trará o máximo benefício.
Quando as forças opostas são iguais, não conseguimos escolher ou preferir uma sobre a outra, pois sentimos que estamos entre duas forças que nos influenciam. Neste ponto, a nossa única solução é voltar-nos para o Criador, para que Ele nos atraia para o lado do bem.
Assim, somos obrigados a considerar tudo o que nos acontece como se fosse uma prova vinda do Alto.
Quando procedermos assim, alcançaremos rapidamente o propósito da criação. Para compreender a Criação em geral, e os pormenores do que nos aconteceu, devemos compreender o seu propósito final. Então entenderemos as ações do Criador, pois todas dependem e emanam do propósito final.
Isto é semelhante ao nosso mundo, onde, se não reconhecermos o resultado futuro, somos incapazes de compreender as ações de outrem. Diz-se: “Não mostres algo completamente a meio do seu trabalho.”
O Criador representa toda a criação, a Luz. O Seu propósito é deleitar-nos com esta Luz. Assim, a única coisa que Ele deve criar é o desejo de ser deleitado. Tudo o que existe representa a Luz e o desejo de ser deleitado. Tudo o mais criado, para além de nós, tem apenas um propósito – auxiliar-nos a alcançar o propósito final da criação.
Existimos dentro do Criador, no oceano de Luz que tudo preenche com Ele próprio. Mas só podemos perceber o Criador na medida em que somos semelhantes a Ele em qualidades. A Luz só pode entrar nos desejos que possuímos que sejam semelhantes aos do Criador.
Na medida em que diferimos em qualidades e desejos do Criador, não O percebemos, porque a Sua Luz não nos penetra. Se todas as nossas qualidades forem opostas às Suas qualidades, então não O percebemos de todo, e imaginamos ser os únicos neste mundo.
O Criador esforça-se por nos dar prazer através da Sua qualidade de “desejo de dar”. Por esta razão, criou todos os mundos e os seus habitantes com a qualidade oposta, o “desejo de receber”.
O Criador gerou todas as nossas qualidades egoístas; assim, o nosso estado inferior não é culpa nossa. Mas o Criador deseja que nos corrijamos e, assim, nos tornemos semelhantes a Ele.
A Luz dá vida a todas as substâncias: inanimadas, vegetais, animais e humanas. No nosso mundo, a Luz está oculta e, por isso, não a sentimos. Enquanto nadamos no oceano da Luz do Criador, se uma parte dessa Luz entra em nós, chama-se “alma”.
Dado que a Luz do Criador traz vida, emite energia vital e prazer, aqueles que não recebem a Luz, mas apenas obtêm um brilho insignificante para sustentar a sua existência física, são considerados espiritualmente mortos e desprovidos de alma.
Apenas alguns neste mundo, conhecidos como Cabalistas (Cabala derivando da palavra lekabbel: “receber os ensinamentos sobre o caminho para adquirir a Luz”), ganham a capacidade de adquirir a Luz. Cada um de nós parte do nosso estado original, durante o qual estamos completamente inconscientes do oceano de Luz em que “nadamos”.
Devemos, portanto, alcançar um preenchimento completo com a Luz. Tal estado é conhecido como “o propósito da criação” ou “a correcção final”. Para além disso, este estado deve ser alcançado durante uma das nossas vidas terrenas.
Níveis Espirituais
Quando somos gradualmente preenchidos com a Luz do Criador, as etapas deste processo são chamadas “níveis espirituais” ou “mundos”. As provações e tribulações da vida forçam-nos a mover-nos em direcção ao propósito da criação. Contudo, se, em vez de prazer, o ego experiencia grande sofrimento, está disposto a renunciar ao desejo de “receber” para acabar com o sofrimento, pois receber nada é preferível a receber tormento.
Várias aflições perseguem-nos até renunciarmos ao impulso de “receber” e desejarmos apenas “dar”. A única diferença entre as pessoas é o tipo de prazer que cada uma espera receber: animal (prazeres corpóreos, também encontrados em animais), humano (fama, honra, poder) e cognitivo (descobertas, conquistas).
Em cada um, o impulso para cada um destes prazeres é composto por proporções únicas para a pessoa específica. O intelecto humano apresenta-se apenas como uma ferramenta para nos ajudar a alcançar os nossos desejos. Embora estes desejos possam mudar, o intelecto ajuda a encontrar formas de alcançar uma variedade de objetivos.
Quando o ego começa a sofrer, abandona o desejo de prazer e é começa a ter a tendência para “dar”. O período necessário para erradicar completamente o ego é dito ser de 6.000 anos. Contudo, este número não tem relação com o nosso conceito de tempo.
O egoísmo é conhecido como o “corpo”. Quando estamos sob a sua influência, sentimos que está espiritualmente morto. Assim, “matamos” o corpo ao afastar-nos dele em cinco etapas, da etapa mais simples às etapas mais egoístas.
Para os desejos egoístas a que conseguimos resistir, recebemos a Luz do Criador. Desta forma, recebemos sequencialmente cinco tipos de Luz: nefesh, ruach, neshama, haya e yehida.
As etapas da nossa elevação espiritual incluem:
1. A procura dos prazeres egoísticos deste mundo. Podemos terminar as nossas vidas sem sair desta etapa, a menos que comecemos a estudar a Cabala. Então, prosseguiremos para a Etapa 2.
2. O reconhecimento do egoísmo como prejudicial para nós e mau, seguido da nossa renúncia ao seu uso. Precisamente no centro dos nossos desejos egoístas está a origem, ou semente, da nossa espiritualidade.
Em certo momento das nossas vidas, começamos a sentir um desejo e anseio por compreender e sentir a espiritualidade. Se agirmos de acordo com esses desejos e os desenvolvermos e cultivarmos, em vez de os suprimirmos, esses desejos começarão a crescer.
Mais tarde, ao adicionarmos a intenção apropriada, adquirida sob a orientação do nosso professor, começamos a sentir, pela primeira vez, a Luz espiritual nos nossos novos desejos espirituais. A sua presença ajuda-nos a alcançar a confiança e a força necessárias para corrigir ainda mais o nosso egoísmo.
3. A obtenção do estado em que desejamos apenas deleitar o Criador com cada uma das nossas ações.
4. A correção do desejo recém-adquirido de “dar” em desejos de “receber pelo benefício do Criador”. Para tal, devemos usar os nossos desejos de prazer, mas com uma intenção “pelo benefício do Criador”.
O início desta tarefa é chamado o “ressuscitar dos mortos”. Neste estado, transformamos os desejos egoístas rejeitados, no seu oposto, ganhando assim duplamente. Somos capazes de ter prazer tanto do Criador como da nossa semelhança com Ele. A conclusão do processo de transformação do egoísmo em altruísmo é conhecida como “o fim da correcção”.
Cada vez que corrigimos uma parte dos nossos desejos, recebemos uma parte das nossas almas, e esta Luz permite-nos continuar até nos alterarmos completamente a nós próprios e recuperarmos as nossas almas. A quantidade de Luz, essa parte do Criador, corresponde exatamente ao nosso egoísmo inicial, tal como foi criado pelo Criador.
Ao transformarmos completamente o nosso egoísmo em altruísmo, podemos eliminar por completo quaisquer barreiras remanescentes para receber a Luz do Criador. Podemos agora preencher-nos com o Criador, em adesão completa com Ele ao percebermos todo o oceano de Luz à nossa volta e tendo prazer dele.
Fomos repetidamente alertados sobre o nosso potencial limitado para compreender o mundo.
Quanto menos nos compreendemos a nós próprios, menos podemos compreender o Criador.
Todas as nossas percepções são o resultado de sensações subjectivas, reacções dos nossos corpos a estímulos externos.
Ou seja, recebemos e percebemos apenas a quantidade de informação que nos é selectivamente enviada, de acordo com a qualidade e quantidade, ou profundidade, do nosso potencial para a perceber.
Quatro Perspectivas Fundamentais
Como carecemos de informação concreta sobre a estrutura e função de noções superiores e elusivas que não podemos sentir, permitimo-nos filosofar e discutir sobre como poderiam ser construídas e como poderiam funcionar. Isto é semelhante às discussões de crianças sobre quem está certo acerca de um assunto completamente desconhecido.
Quando as filosofias religiosa, secular, científica e pseudocientífica tentam definir “alma” e “corpo”, todas se concentram em quatro perspectivas fundamentais:
Religiosa
Tudo o que “existe” em qualquer objecto é a sua “alma”. Cada alma difere de outra pelas suas qualidades, conhecidas como as “qualidades espirituais” de uma pessoa. As almas existem independentemente do corpo antes do nascimento do corpo, antes de se revestirem no corpo, e após a morte do corpo. Esta última é um processo completamente biológico de decomposição da albumina nas suas partes. (A noção de “crente” não é a mesma que a de alguém religioso).
Assim, a morte do corpo físico não afecta a alma em si, mas apenas serve para separar a alma do corpo.
A alma representa algo eterno, pois não é composta de materiais deste mundo. Pela sua natureza, a alma é indivisível. Não consiste em várias partes e, portanto, não pode ser dividida, não pode desintegrar-se e, em última análise, não pode morrer.
O corpo físico e biológico é o “revestimento” exterior da alma. É a roupa com que a alma se reveste e, actuando através do corpo, manifesta as suas qualidades intelectuais e espirituais, bem como o seu carácter. Isto pode ser comparado a quando conduzimos um automóvel, manifestando os nossos próprios desejos, carácter e intelecto na forma como operamos o automóvel.
Para além disso, a alma dá ao corpo vida e movimento, e protege o corpo a tal ponto que, sem a alma, o corpo carece de vida e movimento. O corpo em si é material morto, tal como nos aparece após a alma o abandonar no momento da morte.
Chamamos ao momento da morte “a partida da alma do corpo”. Como resultado, todos os sinais de vida dependem e são determinados pela presença da alma.
Dualista
Como resultado dos avanços científicos, surgiu uma nova perspectiva sobre o corpo físico: a crença de que os nossos corpos também podem existir sem qualquer componente espiritual que lhes dê vida.
De facto, o corpo pode existir absolutamente independente da alma. Isto foi comprovado através de experiências biológicas e médicas que agora conseguem reanimar o corpo ou partes dele.
Mas o corpo, nesse estado, não é mais do que um objecto biológico independente, composto por substâncias albuminosas. O factor que determina as várias qualidades pessoais é a alma, que desce ao corpo vinda do Alto, como na primeira abordagem. A diferença entre a abordagem Dualista e a perspectiva Religiosa centra-se no facto de que a abordagem Religiosa propõe que, assim como a alma dá vida ao corpo, também lhe dá qualidades intelectuais e espirituais.
A perspectiva Dualista argumenta que a alma dá apenas qualidades espirituais ao corpo, uma vez que é evidente, a partir de experiências, que o corpo pode existir por si só, sem a ajuda de quaisquer poderes superiores. Assim, a única função da alma é ser a origem de todas as qualidades boas que são “espirituais”, mas não materiais.
Para além disso, esta abordagem sustenta que, apesar da capacidade do corpo para existir independentemente, ele é, ainda assim, um produto da alma. A alma é vista como primária, pois é responsável pelo nascimento e manutenção do corpo.
Não Crente
Um não crente é aquele que nega a existência de quaisquer estruturas espirituais, bem como a presença da alma no corpo. O não crente reconhece apenas a existência de substâncias materiais e as suas propriedades.
Assim, raciocina-se que, uma vez que não há alma, o intelecto humano, bem como todas as outras propriedades do ser humano, é o resultado do corpo que o gerou. A visão é que o corpo é um sistema que controla as suas características enviando comandos através de sinais eléctricos através de condutores nervosos. (Um não crente não é o mesmo que alguém não religioso).
Os não crentes afirmam que todas as sensações do corpo ocorrem pela interacção das terminações nervosas equipadas com estimuladores externos. As sensações passam através dos condutores nervosos para o cérebro, onde são então analisadas e classificadas como “dor” ou “prazer”.
O intelecto reage a um órgão específico em resposta ao facto de o perceber como doloroso ou prazeroso. Para além disso, acredita-se que tudo é construído como num mecanismo com sensores, onde os sinais são transmitidos, processados e emitidos pelo dispositivo cerebral.
Estes também são controlados através de feedback inverso. O cérebro opera segundo o princípio de se afastar da dor e aproximar-se do prazer. Os sinais de dor versus prazer determinarão a atitude da pessoa perante a vida e as suas ações consequentes.
Percebemos a razão como um reflexo dos nossos processos físicos, semelhante a uma fotografia. A principal diferença entre um ser humano e um animal é o fato de o cérebro humano ser tão desenvolvido. De facto, todos os processos que ocorrem nos seres humanos estão condensados numa imagem tão exaustiva que percebemos esses processos como razão e lógica. Mas todo o nosso intelecto é o resultado das nossas percepções e consciência físicas.
Sem dúvida, de todas as abordagens para compreender o problema, esta é a mais lógica, científica e compreensível, uma vez que se baseia apenas na experiência e, portanto, preocupa-se apenas com os nossos corpos, em vez de alguma noção efémera conhecida como “alma”. Assim, esta abordagem é a mais fiável, pois lida com os nossos corpos.
No entanto, o defeito desta abordagem é que ela é insatisfatória e repulsiva – mesmo para os não crentes. Este conceito apresenta os seres humanos como robots nas mãos de uma natureza cega (qualidades de carácter predeterminadas, leis da evolução social, exigências dos nossos corpos para sustentar a vida e buscar prazer, etc.). Tudo isto nos priva do estatuto de seres racionais.
Assim, se o ser humano é apenas um mecanismo, forçado a agir de acordo com dados inicialmente preparados nele e com as normas aceites da sociedade, então esta teoria nega toda a ideia de livre-arbítrio e o direito de escolher as nossas ações (pensamento objectivo).
Embora os seres humanos sejam criados pela natureza, consideramo-nos mais sábios.
Como resultado, esta visão não pode ser aceite mesmo por aqueles que não acreditam no Intelecto Superior, uma vez que as pessoas parecem estar completamente governadas por uma natureza cega que carece de qualquer desígnio ou propósito, simplesmente brincando com as pessoas (com seres racionais) sem qualquer finalidade, não dando razão para a sua vida ou para a sua morte.
Moderna
Tornou-se moda, especialmente hoje (apesar da nossa tendência para aceitar a abordagem materialista anterior como a mais cientificamente fiável e compreensível), aceitar que algo eterno, imortal e espiritual existe em nós, que se reveste na casca material corpórea. Especificamente, esta é a nossa essência espiritual, conhecida como alma, enquanto o corpo é apenas o revestimento.
Ainda assim, os adeptos desta visão não conseguem explicar como a alma se reveste do corpo, a relação entre alma e corpo, a origem da alma e a essência da alma. Assim, fechando os olhos a todas estas questões, os seres humanos recorrem a um método velho e testado, de complacência: esquecem todas as suas preocupações no torvelinho das cargas e deleites diários mesquinhos, vivendo hoje como viveram ontem.
Quem pode compreender questões como: O que é o corpo e o que é a alma? Qual é a relação entre eles? Porque nos percebemos como sendo compostos por duas partes, a material e a espiritual? Em qual destas duas podemos encontrar o nosso “eu” eterno? O que acontece ao nosso “eu” antes do nosso nascimento e após a nossa morte? Permanece o mesmo “eu” que percebemos agora? É o mesmo que o sentido dentro do nosso corpo e fora dele, antes do nascimento e após a morte?
Mais importante, usamos o nosso intelecto físico para analisar todas estas questões e possíveis alternativas. É assim que avaliamos como as nossas almas são transformadas e circulam, e como os nossos corpos se tornaram materiais.
Serão estas imagens verdadeiras, ou são meramente produtos da nossa imaginação, produzidos pelos nossos intelectos materiais? O intelecto criou imagens do mundo espiritual, do caminho desse mundo para o nosso e do regresso do nosso para o espiritual, de acordo com o seu entendimento terreno e a falta de qualquer outra informação.
O intelecto só pode operar com base na forma como percebe o mundo que lhe está impresso e, assim, produz as nossas fantasias e suposições.
Da mesma forma, não podemos conceber um ser extraterrestre que seja completamente diferente de nós em todos os aspectos e não tenha elementos da nossa constituição física.
Somos então confrontados com a pergunta: “E se tudo o que somos capazes de imaginar, que é a base das nossas teorias da vida, não for mais do que a tentativa do nosso intelecto de compreender algo para além da nossa capacidade de compreensão?”
Se aceitarmos como verdade as noções que os nossos intelectos produzem, baseadas nas nossas experiências neste mundo (carecendo de qualquer alternativa melhor), então devemos perguntar se, dentro das nossas capacidades de percepção neste mundo, existe uma resposta para a pergunta: “O que são a alma e o corpo?”
Já mencionei noutras partes do livro a questão da nossa capacidade limitada de compreensão. Na medida em que não podemos verdadeiramente ver, perceber ou examinar qualquer objecto neste mundo, também não podemos verdadeiramente julgar as nossas almas ou, já agora, os nossos corpos.
Dadas as quatro categorias de como entendemos um objecto – a sua composição material; a sua forma exterior; a sua forma abstracta e a sua essência – só podemos perceber a forma exterior do objecto como nos aparece e, após examiná-lo, o material de que é constituído. Mas não temos compreensão da forma removida do objecto, ou seja, das suas qualidades não-materiais (a sua essência).