Hevruta - Após a Lição 17 - O Significado Espiritual do TANAKH (Bíblia Hebraica) Segundo a Autêntica Sabedoria da Cabala
Hevruta - Após a Lição 17 - O Significado Espiritual do TANAKH (Bíblia Hebraica) Segundo a Autêntica Sabedoria da Cabala
Das fontes
"...a internalidade da sabedoria da Cabala não é diferente da internalidade da Bíblia, do Talmude e das lendas. A única diferença entre elas está nas suas explicações.
Isto é semelhante a uma sabedoria que foi traduzida para quatro línguas. Naturalmente, a essência da sabedoria não mudou nada com a troca de língua. Só precisamos pensar em qual tradução é a mais conveniente para transmitir a sabedoria ao leitor."
- Baal HaSulam “O Ensinamento da Cabala e a Sua Essência”
"É difícil para os principiantes, pois percebem as questões por meio de limites corpóreos de tempo, espaço, mudança e troca. No entanto, os autores usaram apenas estes como sinais para indicar as suas raízes superiores."
- Baal HaSulam, O Estudo das Dez Sefirot, Parte 1, capítulo 1, Luz Interior, p.1
"Existe uma condição estrita durante o estudo desta sabedoria: não materializar os assuntos com questões imaginárias e corpóreas. Porque assim infringem, 'Não farás para ti imagem de escultura nem semelhança alguma.'
Nesse caso, a pessoa é prejudicada em vez de receber benefício."
- Baal HaSulam, "Introdução ao Estudo das Dez Sefirot", Carta 156
A Linguagem dos Ramos
Os cabalistas optaram por uma linguagem especial chamada "linguagem dos ramos". A razão desta escolha é que tudo o que existe no nosso mundo (níveis inanimado, vegetal, animado e humano da natureza), tudo o que lhes aconteceu no passado, acontece agora e acontecerá no futuro, ou seja, todos os objetos bem como a sua governação emanam do Criador e atravessam todos os mundos espirituais antes de aparecer no nosso. A governação de tudo isto é constantemente renovada de cima para baixo até ao nosso mundo.
Tudo o que existe no nosso mundo origina-se no Mundo Superior, com tudo descendo gradualmente até ao nosso mundo. Porque tudo no nosso mundo vem do Mundo Superior, existe uma ligação estrita entre os objetos do nosso mundo, as suas consequências, causas e origens no mundo espiritual.
Cabalistas que identificam esta ligação exata, vendo tanto o objeto superior (a raiz de onde tudo se origina) quanto o objeto inferior no nosso mundo (que recebe do Superior – a sua causa e força governante – inconscientemente, sem sentir isto) conseguem identificar precisamente cada ligação. Assim, podem chamar às raízes nos Mundos Superiores pelos nomes das suas consequências materiais, ou seja, os ramos no nosso mundo. É por isso que esta linguagem se chama "linguagem dos ramos" e não "linguagem das raízes". As raízes são chamadas pelos nomes dos seus ramos e não o contrário. Assim, os cabalistas encontraram a linguagem que, utilizando palavras do quotidiano, descreve o mundo espiritual com precisão. Não pode haver outra linguagem porque não existem outras palavras compreensíveis para quem existe em ambos os mundos. Por isso, para descrever o Mundo Superior, os cabalistas usam nomes do nosso mundo para descrever os objetos superiores, as raízes do nosso mundo.
No entanto, se alguém desconhece isto, parece-lhe que um livro cabalista conta uma história sobre o nosso mundo. Estas palavras, contudo, não confundem um cabalista que vê claramente sobre o que fala o livro. Ele sabe exatamente qual ramo (ou seja, efeito) no nosso mundo corresponde à sua raiz no Mundo Superior.
Por exemplo, "Jerusalém" na literatura cabalista não se refere à cidade física, mas a certas forças espirituais e uma concentração de determinada energia espiritual, que têm um lugar específico no sistema dos mundos espirituais. Além disso, partes do corpo humano na Cabala como "Rosh" (cabeça), "Guf" (corpo), "Chaze" (peito), "Peh" (boca), "Einaim" (olhos), e assim por diante, referem-se às suas raízes espirituais. A palavra "Rosh" implica a parte de decisão do objeto espiritual, enquanto "Guf" refere-se à concentração das funções executivas.
No Princípio – Beresheet
No princípio Deus criou os céus e a terra. E a terra era vazia e sem forma, e havia trevas sobre a face do abismo; e o espírito de Deus pairava sobre a face das águas. E Deus disse: ‘Haja luz.’ E houve luz. E Deus viu que a luz era boa; e Deus separou a luz das trevas. E Deus chamou à luz Dia, e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e foi a manhã, o primeiro dia.
Bereshit (Génese), o primeiro capítulo da Torá (Pentateuco) começa com estas palavras. Elas evocam uma determinada imagem. Já ouvimos várias interpretações destas palavras ao nível de Peshat (significado literal). No entanto, essas interpretações simples deixam imensas perguntas; faltam-lhes lógica e abordagem científica. Os cabalistas explicam da seguinte maneira:
Todos os livros sagrados falam apenas do mundo espiritual, de como foi criado e como depois o nosso mundo foi criado a partir dele. Além disso, estes livros não se limitam a relatar o que existe; também ensinam à pessoa a capacidade de ver esse mundo.
A revelação gradual do Mundo Superior chama-se elevação espiritual da pessoa, ou degraus da elevação espiritual. Os livros utilizam várias técnicas para descrever o mundo espiritual. A Cabala é a ciência sobre a estrutura do Mundo Superior; usa a linguagem das Sefirot, Partzufim, gráficos e desenhos para o descrever. A Torá descreve o Mundo Superior usando a linguagem do quotidiano. Existe também a linguagem alegórica e a linguagem das leis. Agora, tentaremos traduzir a linguagem da Torá para a linguagem cabalista.
A Torá descreve o surgimento do Mundo Superior, a sua estrutura e evolução e, depois, descreve o processo da nossa criação. Mas isto não é uma pessoa do nosso mundo. A Torá fala da criação da vontade de receber (chamada de Alma ou Adam) com o objetivo de preencher essa criação-vontade-alma com deleite eterno e absoluto. Este desejo de se deleitar é a única criação. Além dele, existe apenas o Criador. Assim, tudo além do Criador nada mais é do que diferentes medidas do desejo de se deleitar.
O mesmo acontece no nosso mundo. A única coisa que separa todos os objetos uns dos outros é a quantidade diferente do desejo de se deleitar, que determina todas as propriedades de cada objeto. O desejo de se deleitar consiste em cinco níveis, e estas cinco partes do desejo-criação chamam-se as Sefirot: Keter, Hochma, Bina, Tiferet e Malchut. O Criador deseja encher completamente a criação de prazer até que a criação sinta perfeição e eternidade. Isto porque o próprio Criador existe neste estado particular e deseja concedê-lo a nós.
O Criador é perfeito e o único. Sendo perfeito, deseja conceder perfeição, o seu próprio estado, às Suas criaturas. Por isso, o objetivo da criação é alcançar a perfeição do Criador e ser capaz de receber aquilo que o Criador quer dar.
A Cabala não trata dos eventos no nosso mundo. Pesquisa os eventos do Mundo Superior, de onde todos os poderes desceram até ao nosso mundo e geraram e instigaram tudo o que aqui acontece. Aprendendo Cabala, a pessoa começa a ver o Mundo Superior. Uma pessoa é capaz de alcançar o Criador e a forma como Ele criou o mundo espiritual. Na Cabala, este ato chama-se "O Primeiro Dia da Criação". Nas Suas ações subsequentes (os chamados dias seguintes), o Criador criou forças governantes do Mundo Superior. O último, sexto, ato do Criador (o sexto dia da criação) foi a feitura de Adam.
Como Adam foi o ato final do Criador, é o propósito de toda a criação. Tudo o que foi criado antes dele foi criado para ele. Então, qual é o destino de Adam? Adam deve alcançar semelhança com o Criador, tornar-se completamente igual a Ele, e ele próprio governar toda a existência e o seu próprio destino. Além disso, temos a obrigação de alcançar este estado mais alto e perfeito por nós próprios. Alcançá-lo por nós próprios significa que primeiro temos de chegar ao pior estado (oposto ao estado do Criador), e depois nos elevarmos dele por nossa própria vontade.
Com a ajuda da Cabala, a pessoa vê ambos os mundos – o nosso mundo e o Mundo Superior – além da interação entre eles. A informação emana do Mundo Superior e materializa-se perante os nossos olhos. A nossa reação a isto (que desce do alto sob a forma de informação) sobe novamente ao Mundo Superior e determina de que forma (boa ou má) o nosso futuro descerá e se materializará. Assim, o Criador (existindo no nível máximo), criou a criação a partir da propriedade oposta a Ele. Ele preencheu-a com a luz, e depois, esvaziando-a da luz, fê-la descer até à condição do "nosso mundo".
Ao subir os degraus da escada espiritual, a criação torna-se digna de receber o deleite que é muitas vezes maior do que tinha antes de descer a este mundo. Além disso, a criação tem de ter a força e a oportunidade de agir livremente entre duas forças opostas, o seu próprio egoísmo e o Criador, e então escolher e definir o seu caminho de forma independente.
Para colocar estas condições à disposição da criação, o Criador tem de fazer o seguinte:
-
Distanciar completamente a criação de Si
-
Dar-lhe a oportunidade de evoluir e alcançar esta Existência
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Dar-lhe a oportunidade do livre arbítrio
O Criador dá-nos tais condições gradualmente. Inicialmente, a criação, ao sentir o Criador (cheia de luz) não é independente. Está totalmente dominada pela luz e a luz dita à criação as suas próprias regras e transfere-lhe as suas qualidades. Para tornar a criação independente do Criador, Ele tem de Se afastar completamente. Em outras palavras, a criação, libertando-se da luz, ganha liberdade de ação. O ato de expulsão da luz do Kli (vaso) espiritual é chamado de Restrição.
A Torá começa com as palavras "no princípio" (Bereshit), que é o início do processo de afastamento do Criador em relação à criação. A palavra "Bereshit" tem origem nas palavras "Bar" – "fora". Ou seja, relata a saída do Criador para uma condição separada, entre céu e terra. "No princípio Deus criou os céus e a terra." Céu é a Sefira Bina com as suas propriedades altruístas. Terra é a Sefira Malchut com as suas propriedades terrenas, egoístas. Entre estas duas propriedades polares, que fornecem a base de todo o sistema de existência, paira a nossa alma.
A Torá começa com o nascimento da criação, o Mundo Superior e a criação do homem. Não começa com o fim da criação. A função da Torá é dar às pessoas deste mundo a instrução de como ascender ao melhor e mais perfeito estado. No seu estado inicial, a criação (a alma ou Adam) não está corrigida. Deve corrigir-se e alcançar o estado de "Correção Final". Imagine que tem uma ferramenta de trabalho quebrada de que precisa para trabalhar. Segue-se que primeiro deve repará-la e só depois a usar. Assim a Torá instrui-nos como reparar este instrumento defeituoso: a alma que recebemos do alto.
Durante a correção, a pessoa existe entre dois mundos: superior e inferior. No processo de correção, a alma adquire as competências, conhecimentos e experiência necessários. Mais importante, a pessoa adquire novas sensações e novas propriedades espirituais. Quando uma pessoa corrige completamente a sua alma, adquire propriedades que lhe permitem existir no Mundo Superior de pleno direito; na eternidade, paz e perfeição.
Nem as fontes cabalistas, nem a Torá descrevem este estado especial. É impossível descrevê-lo, pois não há analogias na nossa linguagem. Apenas quem passa por todos os estados preliminares de correção e atinge a Correção Final alcança este estado. Aquilo que vai além da Correção Final não é descrito em parte alguma. É precisamente aí que repousam os "Segredos da Torá".
Existem apenas algumas pistas em livros como o "Zohar" e o Talmude. Estes estados especiais, secretos, são chamados de "Maase Merkava" e "Maase Bereshit". Mas são só pistas. Na realidade, estes estados, domínios espirituais não podem ser descritos em palavras, porque as nossas palavras, letras e termos são retirados do nosso sistema de Correção e só funcionam ali. Não temos qualquer conhecimento daquilo que existe fora do nosso sistema de Correção e não pode ser transposto para a linguagem humana nem ser comprimido no nosso sistema de definições e crenças.
“No princípio Deus criou os céus e a terra” refere-se à criação de duas propriedades: egoísmo e altruísmo. A propriedade egoísta da terra é corrigida com a ajuda da propriedade altruísta do céu. O processo de correção consiste em sete estados, chamados “sete dias da criação”. Naturalmente, este é um nome condicional. Nada tem a ver com os sete dias terrestres; não se refere nem a dia e noite nem a luz e trevas da terra. Refere-se, sim, aos estados espirituais e sensações espirituais de uma pessoa que passa por essas etapas de correção. Trata-se do sistema em que a alma é corrigida existindo ao nível chamado “terra”.
É necessário elevar a alma do nível da Sefira Malchut ao nível da Sefira Bina. Isto significa que a propriedade egoísta de Malchut tem de ser transformada na propriedade altruísta de Bina. Isto pode ser alcançado por meio de sete correções consecutivas chamadas “sete dias da semana”. A Torá explica o que cada pessoa deve fazer com a sua alma “cada dia”.
Primeiro Dia
No princípio Deus criou os céus e a terra. E a terra era vazia e sem forma, e havia trevas sobre a face do abismo; e o espírito de Deus pairava sobre a face das águas. E Deus disse: ‘Haja luz.’ E houve luz. E Deus viu que a luz era boa; e Deus separou a luz das trevas. E Deus chamou à luz Dia, e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e foi a manhã, o primeiro dia.
O que significa: “e Deus separou a luz das trevas”? Nas nossas correções devemos seguir os atos do Criador. Portanto, o primeiro mandamento que temos de cumprir é separar dentro de nós os nossos pensamentos e desejos para ver quais deles são puros – “céu” – e quais são escuros – “terra”. Este processo chama-se “Akarat haRa” (a tomada de consciência do mal). Isso acontece quando, no estudo dos livros cabalistas e no relacionamento no grupo cabalista, começamos a analisar as nossas propriedades. Contrapor propriedades espirituais e animais, separando-as e distinguindo-as, constitui o primeiro passo da correção. Este é o primeiro dia do homem a criar um Homem dentro de si mesmo.
Segundo Dia
E Deus disse: ‘Haja um firmamento no meio das águas, e que haja separação entre águas e águas.’ E Deus fez o firmamento, separando as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam acima do firmamento; e assim foi. E Deus chamou ao firmamento Céus. E foi a tarde e foi a manhã, o segundo dia.
Depois de separarmos dentro de nós as propriedades egoístas e altruístas, precisamos começar a corrigi-las. Isto é feito através da luz especial do Criador, Que emana dois tipos de luz: a luz de Hochma e a luz de Hassadim. Utilizando a propriedade da luz de Hassadim (misericórdia), chamada “água”, dominamos a propriedade da doação, do altruísmo.
“Terra” é a propriedade egoísta de receber e absorver tudo para dentro de si – é a nossa natureza inicial. A água é a propriedade de doação, e satura a terra, permitindo que a vida apareça. A propriedade de doação corrige o egoísmo e permite-nos usá-lo corretamente, tanto para nosso benefício como para benefício dos outros. No egoísmo, corrigido pela doação, a pessoa sente o Mundo Superior (o Criador) e vê as suas vidas passadas e o caminho até ao objetivo da criação. A alma é eterna e passa de corpo em corpo. Assim, é precisamente aí que se veem todas as reencarnações anteriores. Aquele que não corrige a sua alma não pode perceber nada além deste mundo.
Terceiro Dia
E Deus disse: ‘Juntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a terra seca.’ E assim foi. E Deus chamou à terra seca Terra, e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e Deus viu que era bom. E Deus disse: ‘Faça a terra brotar relva, erva que dê semente, e árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela, sobre a terra.’ E assim foi. E a terra produziu relva, erva que dava semente segundo a sua espécie, e árvore que dava fruto em que estava a semente, segundo a sua espécie; e Deus viu que era bom. E foi a tarde e foi a manhã, o terceiro dia.
As águas juntaram-se debaixo dos céus, e apareceu a terra seca. Uma parte da Terra primordial emerge das águas. Depois de a água corrigir a terra, esta torna-se adequada para que a vida surja, pois agora a terra contém tanto as propriedades da água como as da própria terra. A água sozinha é tão destrutiva para a vida como a terra seca. Lembre-se de como Noé libertou uma pomba da arca para encontrar terra seca. A combinação certa das propriedades altruístas e egoístas de “céu” e “terra” dentro da alma humana forma a base da correção e da aplicação das propriedades do Criador no ser humano.
Esta correção chama-se “Kav Emtzai” (linha do meio). A nossa natureza egoísta natural chama-se terra e representa a linha da esquerda. A linha da direita representa as propriedades do Criador, ou seja, as propriedades da água, altruísmo ou doação. A linha do meio é exatamente o que o ser humano precisa alcançar, ou seja, “escolher a vida”. Por outras palavras, cada um deve usar tanta “água” quanto baste para combiná-la com a terra de forma a que estas duas linhas se complementem e deem fruto. Desta combinação de propriedades a terra produz a “Árvore da Vida”, que representa a pessoa espiritual capaz de sentir toda a criação e existir felizmente em todos os mundos.
Existimos eternamente porque nos identificamos com a alma eterna e não com o corpo efémero. Começamos a sentir-nos como a alma e a perceber o corpo como uma concha temporária. Esta transição para a identificação com a alma em vez do corpo é puramente psicológica e ocorre à medida que o homem adquire a propriedade de Bina.
A alma comum foi criada a partir da vontade de receber deleite e prazer, ou simplesmente, “a vontade de receber”. Essa vontade é o núcleo da alma e é afetada por seis qualidades: Hesed, Gevura, Tiferet, Netzah, Hod e Yesod. Estas qualidades penetraram na substância – a vontade de receber – e moldaram-na em sincronia com a força superior, o Criador. O motivo pelo qual o homem é chamado “Adam” é porque a palavra vem de Adamah, do versículo Adameh la Elyon (“Serei como o Altíssimo”, Isaías, 14:14). Refere-se à semelhança de Adam com o Criador – a doação sublime, o amor sublime – a força superior que lhe deu origem.
Adam é a estrutura da alma que é igual em forma ao Criador, e está em Dvekut (adesão) com Ele no Jardim do Éden. Jardim significa “desejo”, e o jardim é a parte da criatura, a substância de Adam – é a vontade de receber. O Éden marca o grau de doação, o grau de Bina. Adam, que está no grau de Bina, está no Jardim do Éden.
Beresheet (no princípio) significa que o Criador criou seis qualidades e o homem. Dentro do homem estão todas as qualidades com que se tornar semelhante ao Criador. De facto, esse é o trabalho da Criação – construir a substância, a vontade de receber. Estas qualidades penetram a vontade de receber de modo a que a estrutura, como alma, alcance o estado do Criador.
Quarto Dia
E Deus disse: ‘Haja luminárias no firmamento do céu para separar o dia da noite; que sirvam de sinais, para as estações, para os dias e anos; e que sirvam de luminárias no firmamento do céu para iluminar a terra.’ E assim foi. E Deus fez as duas grandes luzes: a maior para governar o dia, e a menor para governar a noite; e as estrelas. E Deus colocou-as no firmamento do céu para iluminar a terra, e para governar o dia e a noite, e separar a luz das trevas; e Deus viu que era bom. E foi a tarde e foi a manhã, o quarto dia.
No quarto dia, a luz no firmamento do céu surgiu para indicar a mudança entre dia e noite, meses e anos. A correção ocorre tanto na menor parte do universo como em todo o universo em geral. A criação, na sua totalidade, chama-se Adam ou a Alma; os seus componentes são denominados almas individuais, ou “Bnei Adam” (os filhos de Adam). Cada alma individual está sujeita às mesmas etapas de correção que a alma comum.
Quinto Dia
E Deus disse: ‘Que as águas produzam abundantemente criaturas vivas, e que voem as aves sobre a terra na face do firmamento dos céus.’ E Deus criou os grandes monstros marinhos, e todo o ser vivente que se move, os quais as águas produziram abundantemente conforme a sua espécie, e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e Deus viu que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: ‘Frutificai, multiplicai, enchei as águas dos mares, e as aves se multipliquem sobre a terra.’ E foi a tarde e foi a manhã, o quinto dia.
O livro do Zohar descreve que cada dia é a edificação dos “Eichalot” (palácios celestiais), a formação do vazio (desejo). À medida que as propriedades egoístas da alma vão sendo corrigidas para o altruísmo, vão sendo gradualmente preenchidas com a Luz Superior. Pessoas que passaram por morte clínica perceberam parcialmente esta Luz Superior, e posteriormente descrevem uma sensação celestial mágica de paz e alegria. Este preenchimento gradual dos espaços vazios conduz todas as almas ao estado de correção final e perfeição. Não existe tempo no Mundo Superior pois o tempo desaparece porque todos estes estados são perfeitos. O mesmo acontece na narrativa da Torá: não há separação temporal e todos os eventos estão ligados apenas através de relações de causa e efeito. Veremos que o homem foi criado no sexto dia e existiu apenas durante algumas horas antes de pecar e cair para o mundo inferior. Com ele caiu o mundo inteiro.
Sexto Dia
E Deus criou o homem à Sua imagem; à imagem de Deus o criou; ... e Deus disse-lhes: ... dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo o ser vivente que se move sobre a terra.'
O que significa “à Sua imagem”? Na Torá “à Sua imagem” está escrito como “Be Tselem Elokim Bara…”. “Tselem” significa uma parte de Bina, que desce de Bina para a alma e transmite à alma propriedades do Criador. Por outras palavras, o Partzuf Bina representa o instrumento da Governação Superior, que comanda todas as almas, os seus caminhos e ordem de correção. Tudo o que nos acontece origina-se em Bina. Malchut é o conjunto de todas as almas que precisam de correção. Para corrigir Malchut, um instrumento especial emana de Bina. Ele penetra em Bina e permite-lhe corrigir. Este sistema de auxílio próprio, que o Malchut de cada alma recebe do alto, chama-se “Tselem” – “imagem”. Por isto entende-se um conjunto de propriedades, a imagem do Criador.
Sem termos informação sobre o programa da criação, e sem sentir os mundos espirituais, não sabemos como agir nem que passos tomar. Não somos capazes de compreender o que é exigido de nós. Para nos dar estes meios necessários de avanço, o grau superior, Bina, tem de nos ensinar o que devemos fazer. É isso que Tselem (o instrumento auxiliar que desce de Bina) faz dentro de nós. Ele insere-se na nossa alma e desencadeia os vários tipos de correções necessários. Por isso se diz que Tselem ajuda a transformar-nos em Humanos.
No sétimo dia, o homem subiu mais e mais alto. Realizou correções em si mesmo seis vezes: Hesed, Gevura, Tiferet, Netzach, Hod, Yesod. Estas seis correções consecutivas chamam-se seis dias ou seis mil anos da criação. A última Sefira (ou seja, Malchut) não é capaz de se corrigir. No entanto, depois de Malchut absorver as propriedades das seis Sefirot anteriores, é capaz de receber as suas propriedades. Por isso, a essência do sétimo dia é que tudo o que foi acumulado e criado ao longo dos seis dias entra em Malchut. O sábado é considerado um dia especial, pois neste estado as almas são preenchidas pela luz superior. A única condição é “não perturbar” este processo – daí ser simbolizado por um dia de descanso.
Pergunta: Podemos influenciar estes processos, “comprimir” o tempo e encurtar o nosso caminho até ao propósito da criação?
A única coisa que podemos fazer é acelerar o processo de sete mil anos que nos foi imposto de cima. Aqueles que conseguem aproximar-se deste processo de forma individual, entram no Mundo Superior e na realidade perfeita mais cedo. Além disso, o próprio caminho de correção (se feito de forma consciente e aplicando esforços próprios), é sentido como um reflexo ou um impulso romântico, em vez de ser uma constante punição do destino.
Estudamos a estrutura e o funcionamento de toda a existência para poder perceber claramente como intervir e alterar este processo. Em geral, o homem não pode exercer influência direta sobre a sua raiz/origem. Ele existe no grau inferior como reflexo do superior. Contudo, ao corrigirmo-nos e tornarmo-nos semelhantes à nossa raiz, conseguimos mudar a sensação interior do que recebemos do alto. Em vez das pancadas do destino, problemas constantes e dificuldades diárias, começamos a experimentar bem-aventurança, paz, perfeição e conhecimento completo. O Criador colocou-nos neste mundo para que possamos, através da Cabala, dominar o Mundo Superior e começar a governar o nosso próprio destino.
Felizmente, o tempo trabalha a nosso favor. O tempo da libertação interior-espiritual e exterior-física de toda a humanidade está a aproximar-se, de acordo com o Prefácio ao “Livro do Zohar”. Tal como o homem não pode existir no nosso mundo sem qualquer conhecimento dele, do mesmo modo a alma humana depois da morte do seu corpo não pode existir no Mundo Superior sem receber algum conhecimento prévio sobre ele. É por isso que o conhecimento da Cabala garante uma existência confortável no nosso mundo e assegura uma existência eterna e perfeita no mundo vindouro.
Glossário
Beresheet
Beresheet (no princípio) significa que o Criador criou seis qualidades e o homem. Dentro do homem estão todas as qualidades pelas quais se pode tornar semelhante ao Criador. De facto, este é o trabalho da Criação – construir a substância, a vontade de receber. Estas qualidades permeiam a vontade de receber de forma que a estrutura, como alma, alcance o estado do Criador.
O Shabbat (Sábado)
Esta é a correção final do Homem, quando este regressa ao Jardim do Éden. É um estado em que nos reunimos numa só alma.
O Jardim do Éden
No Jardim do Éden, estamos todos em mútua doação, em total garantia mútua. O Mundo de Atsilut.
A Árvore do Conhecimento
A “Árvore do Conhecimento” é a maior luz. Inicialmente, foi recebida com a intenção de receber, causando assim a quebra da alma. No futuro, receberemos essa luz, mas com a intenção de doar.